| |
|||||
|
|
Reflexões sobre a origem dos Pinheiro, de Barcelos
A ascendência do doutor Pedro Esteves, tronco dos Pinheiro de Barcelos, é dada de forma totalmente diferente nas várias genealogias que a trataram. Gaio, um homem de Barcelos, empenhou-se em corrigir o que até aí se dizia, às vezes maldosamente, sobre essa ascendência dos seus conterrâneos, com pormenores documentais inusitados no restante da sua obra, declarando peremptoriamente que o doutor Pedro Esteves está sobejamente documentado como filho de Estêvão Anes e sua mulher Grácia Martins, ama de leite de D. Fernando, futuro duque de Bragança. Gaio cita um instrumento de habilitação de 1403, passado em pública forma por João Martins, tabelião do público da vila de Barcelos, por mandado do doutor Antão Lima, ouvidor das terras do duque de Bragança D. Afonso, no qual se declarariam os pais e avós de Estêvão Anes e se diz que sua mulher era então ama de leite de D. Fernando, filho do conde D. Afonso, que de facto nasceu nesse ano. E nesta habilitação se diria que Estêvão Anes era filho de João Esteves e sua mulher Maria Domingues; neto paterno de Pedro Esteves e sua mulher Aldonça Álvares; e neto materno de Afonso Chamorro e sua mulher Leonor Rodrigues. Gaio resolve depois entroncar, por palpite, aquele avô Pedro Esteves nos Penela, o que é rematada tolice, sem ponta de fundamento. E acrescenta que o dito Afonso Chamorro era cavaleiro do condestável Nuno Álvares Pereira, o que é cronologicamente inaceitável. E que aquela Aldonça Álvares era irmã do dito condestável, o que é igualmente anacrónico, não devendo ela, que não nasceu depois de 1330, sequer ser Pereira, pois não há na época nenhum Álvaro desta família. Gaio chega à conclusão de que esta Aldonça Álvares era Pereira porque considera que o bispo D. Diogo Pinheiro colocou na Torre dos Sinos da Colegiada de Guimarães um escudo esquartelado que contém as armas dos Pereira. Mas o certo é que D. Diogo Pinheiro tem, no seu túmulo na igreja de Santa Maria do Olival, em Tomar, túmulo renascentista hiper-decorado, saído da oficina de João de Ruão, um escudo sem Pereira, ou seja, o mesmo escudo que deixou noutros monumentos: Esteves, Pinheiro (um pinheiro e um leão, à esquerda, rompante contra o tronco da árvore) e Lobo. O escudo esquartelado da Torre dos Sinos (Pinheiro, Pereira, Lacerda? (flores de lis) e Lobo, que também está na matriz de Barcelos, é muito posterior e foi colocado por Henrique Pinheiro, neto do doutor Pedro Esteves, que, ele sim, era Pereira e Lacerda por sua mãe. Diz também que Estêvão Anes era irmão de Álvaro Anes de Cernache, que foi anadel-mor dos besteiros a cavalo. Este Álvaro Anes já a 3.10.1385, sendo escudeiro de Rui Mendes de Vasconcellos, teve mercê da colheita de Coja e dos casais de Andoinha, no bispado de Coimbra, pelo que não nasceu depois de 1365. Apesar de ter tido um filho natural (Fernão Álvares Vieira, havido em Clara Anes, legitimado por carta real de 23.7.1422), não o fez seu herdeiro, pois vários autores dizem que viram o seu testamento, que estava no cartório das freiras de Corpus Christi (Gaia), no qual deixava por herdeiro de seu morgado o doutor Pedro Esteves, seu sobrinho. Estêvão Anes terá assim nascido entre 1360 e 1370, o que concorda com a cronologia dos filhos, nascidos entre 1395 e 1403.
Seu filho mais velho foi Braz Esteves, que não pode ter nascido depois de 1395, pois em 1417 já era tesoureiro da Colegiada de Guimarães. Gaio cita e transcreve o testamento de sua tia materna Catarina Martins, onde esta faz seu testamenteiro e herdeiro «Braz Esteves meu sobrinho, Tesoureiro que ora he da dita Igreja de G.es». Esta Catarina Martins tinha «o Hospital do Corpo de Deus que está na Rua das Congostas da dita cidade (Porto), o qual edificou o Dr. meu Padre». Neste testamento, segundo a transcrição de Gaio, é ainda referida «Gracia Martins minha irmã, mãe do dito meu sobrinho». E, de facto, Estêvão Anes foi casado com Grácia Martins, que, como vimos, em 1403 era ama de leite de D. Fernando, futuro duque de Bragança. Segundo Gaio, que diz ter visto no Arquivo da Casa de Bragança o pergaminho original da doação, a 10.5.1416 o condestável Nuno Álvares Pereira doou o reguengo de Alviela, no termo de Santarém, a Estêvão Anes, seu escudeiro, e sua mulher Grácia Martins. E, em data não referida, diz Gaio que ainda lhes emprazou por três vidas umas casas em Barcelos, junto à cadeia, e uma cortinha nova, chamando a Grácia Martins «boa comadre» e declarando que fora ama de seu neto. Ainda segundo Gaio, sabe-se que esta Grácia Martins morreu a 29.6.1429, pois isso mesmo diz seu viúvo numa carta que terá escrito a seu filho Pedro Esteves, informando-o da morte da mãe, datada de 21 do mês seguinte O mesmo autor refere vária correspondência de Estêvão Anes, onde se patenteia que tinha então três filhos: Braz, João e Pedro Esteves. Pelo que já ficou dito e pelo que acrescenta Gaio, Grácia Martins, irmã de Catarina Martins, era filha do doutor Martim Domingues, cidadão do Porto, onde instituiu o referido Hospital do Corpo de Deus, na rua das Congostas, e de sua mulher Grácia Esteves, que depois de viúva foi abadessa do mosteiro de Corpus Christi (Gaia). Quer Gaio que este doutor Martim Domingues fosse neto de Martim Domingues de Medelo, o que é muito de duvidar. Com efeito, Grácia Martins nasceu entre 1375 e 1380 e seu pai não terá nascido antes de 1340, pelo que dificilmente seria neto de Martim Domingues de Medelo, que depois de viúvo foi cónego das sés de Lamego (1270-92) e Viseu, prior da Colegiada de Stª Mª de Almacave (Lamego) e reitor de Stª Mª de Soutelo (Pesqueira). Este Martim Domingues era irmão de D.Geraldo Domingues, bispo do Porto (1300-1308) e de Évora (1313-1321), que a 28.4.1317 instituiu para seu sobrinho Vasco Martins (filho do dito Martim Domingues) o morgadio de Medelo (Almacave, Lamego), com sua capela de Stª Catarina na Sé de Lamego, com cabeça na sua quintã de Medelo e vinculando-lhe várias propriedades distribuídas por quase todo o país. Estipulou que a Vasco Martins devia suceder seu outro sobrinho, Egas, filho de seu irmão Vicente Domingues. Martim Domingues e D.Gerado Domingues eram ambos filhos de Estêvão Domingues, reitor da igreja de Penude (Lamego) e descendentes de um Jogundo de Medelo.
Como ficou dito, da documentação que Gaio apresenta verifica-se que Estêvão Anes e sua mulher tiveram três filhos: Braz, já referido, João e o doutor Pedro Esteves. Gaio diz que João Esteves foi colaço do duque D. Fernando, a quem serviu desde menino, e que a 10.10.1422 o fez seu almoxarife e juiz dos direitos reais de Guimarães e seu termo e seu recebedor das rendas. Acrescenta que a 12.11.1448 João Esteves consta como almoxarife de Guimarães, Neiva, Ponte de Lima e Viana na escritura que se fez de composição entre o infante D. Pedro, duque de Coimbra, e o duque D. Afonso de Bragança, para ajustar as diferenças que entre ambos havia. E que consta como vedor das obras dos seus paços numa carta do condestável para Estêvão Anes, seu pai, e numa portaria da duquesa D. Constança, dada em Guimarães a 11.7.1449, pela qual lhe mandou dar vinte coroas de ajuda de custo e as bestas que lhe fossem necessárias para acompanhar o duque D. Afonso à romaria de Nossa Senhora da Lapa. Acrescenta Gaio que João Esteves casou com Catarina Pires, cujos pais se desconhecem, e que se teve filhos estes não deixaram geração, pois escreveu a seu pai, em data não referida, dando-lhe conta do que determinava e pedindo-lhe a sua aprovação para deixar seus bens ao sobrinho Álvaro Pinheiro. O que fez, acrescenta Gaio, por testamento de 1.12.1453, lavrado em Barcelos, estando doente, aprovado no dia seguinte por Aires Gonçalves, notário público, no qual instituiu por ser herdeiro e testamenteiro Álvaro Pires, seu sobrinho e afilhado, filho do doutor Pedro Esteves seu irmão, para que herdasse todos os seus bens móveis e de raiz, vinculando tudo em morgado, a que juntou também a quinta de Vila Verde e as bouças de Pedro dralois, que veio a ser chamado o morgadio de Pouve, determinando ainda que se o dito Álvaro morresse ficaria herdeiro seu irmão Pedro Esteves, se vivo fosse, e sendo falecido seu filho Diogo, sendo que sua mulher Catarina Pires haveria a administração do morgado juntamente com o herdeiro. Mas toda esta informação não bate certo com a documentação que consegui colher. Na verdade, se aceitarmos como verídica a documentação que Gaio cita sobre a ascendência de João Esteves, o seu casamento e o seu testamento, então temos de recusar que tenha sido almoxarife de Guimarães. Com efeito, o João Esteves, escudeiro do duque de Bragança, que foi, entre outras coisas, almoxarife de Guimarães, não é filho de Estêvão Anes mas sim de Estêvão Rodrigues. E teve vários filhos documentados, que lhe sucederam. Pelo que, aceitando a existência de um Estêvão Anes, de Barcelos, s.g., irmão do doutor Pedro Esteves e ambos filhos de Estêvão Anes, não o podemos identificar com o outro João Esteves, de Ponte de Lima, também dito João Esteves da Ponte, que foi escudeiro do duque de Bragança e, nomeadamente, almoxarife de Guimarães. Assim, o João Esteves, de Barcelos, é seguramente o João Esteves que a 20.4.1439 D. Afonso V confirmou no cargo de juiz das sisas de Barcelos, para que tinha sido nomeado por D. Duarte a 4.1.1434. E, dada a cronologia e onomástica, sua e da mulher, é possível, apesar da geografia, que seja o João Esteves cuja mulher, Catarina Pires, moradora em Moura, a 13.6.1452 teve carta de perdão, na sequência do perdão geral outorgado aos que participaram nos desacatos, assaltos e mortes na vila de Moura, tendo pago 200 reais de prata para a Chancelaria. Ou seja: este João Esteves, juiz dos órfãos de Barcelos, não foi sequer escudeiro do duque de Bragança. Bem diferente deste é o outro João Esteves, que aliás Gaio refere nos Pontes Ledos, casado com Beringeira Dias, sobre o qual, e respectiva família, reuni a seguinte documentação: 1. A 27.8.1434 D. Duarte confirmou a honra e couto da quintã de Gominhães (Gomanhaães) a João Esteves, escudeiro do conde de Barcelos, que lha deu. Nesta mercê consta uma carta de D. João I de 7.5.1402 onde confirma o couto de metade da dita quintã a Álvaro Gonçalves de Freitas, seu vassalo e vedor da fazenda, que disse que no termo de Guimarães, na freguesia de S. João das Capelas, tinha uma quintã e aldeia que «se chama gomanhaães», coutada e honrada, que tinha do património de Mécia Rodrigues da Fonseca, abadessa que foi de Almoster, e de Mor Rodrigues sua irmã, mulher que é de Gonçalo Rodrigues Carvalho, por morte de Celestina Rodrigues sua avó. E por morte da dita Mécia, como o convento não podia, por lei, ficar com a sua metade, a vendeu ao dito Álvaro Gonçalves de Freitas. A outra metade ficou para a dita Mor Rodrigues e seu marido. E, com efeito, segundo um traslado de 14.2.1711 do Arquivo Particular da Casa de Gominhães, referido por Maria Adelaide Pereira de Morais («Velhas Casas de Guimarães», vol. 2, págs. 840 e 841), da “honra de Gominhães”, que comprara aos testamenteiros de Álvaro Gonçalves, fez 24.8.1421 o conde de Barcelos pura e irrevogável doação de juro e herdade para todo o sempre a João Esteves da Ponte, seu criado, filho de Estêvão Rodrigues, morador em Ponte de Lima, e a sua mulher Beringeira Dias. Esta Beringeira era filha de Diogo Martins, almoxarife em Guimarães, e de sua mulher Leonor Gonçalves, irmã do dito Álvaro Gonçalves de Freitas. De referir, a propósito, que aquelas Mor Rodrigues da Fonseca e sua irmã Mécia Rodrigues da Fonseca, abadessa de Almoster, falecida antes de 1402, eram certamente sobrinhas de D.Dórdia Rodrigues da Fonseca, que em 1335 já era abadessa de Almoster. Mas filhas de quem? D. Dórdia não teve nenhum irmão Rui/Rodrigo. Assim, o patronímico que usaram seria já a repetição do patronímico do pai. Sendo que a referida avó Celestina Rodrigues, de quem vinha Gominhães, era necessariamente avó materna. O que desfaz a dúvida. Com efeito, eram filhas de Mem Rodrigues da Fonseca (irmão daquela D.Dórdia) e de sua mulher Constança Gil Peixoto, que justamente era filha de Gil Vasques Peixoto e sua mulher Celestina Rodrigues, filha esta de Rui Martins do Casal e Aldonça Álvares de Resende. 2. A 14.12.1443 D. Afonso V nomeia João Esteves, morador na vila de Ponte de Lima, para o cargo de procurador do número da dita vila e seu termo, da mesma forma que fora seu pai. 3. A 26.2.1450 D. Afonso V confirma a João Esteves, escudeiro do duque de Bragança, todos os privilégios, foros, liberdades, frutos e novos, respeitantes à metade da quintã de Gominhães. 4. A 17.4.1450 D. Afonso V nomeia Diogo Esteves, criado do duque de Bragança, para o cargo de escrivão da escrivaninha na comarca de Entre Douro e Minho, em substituição de João de Ponte, seu irmão, destituído do ofício por o ter vendido sem licença régia. 5. A 9.6.1450 D. Afonso V privilegia João Esteves de Pontes, almoxarife de Guimarães, concedendo-lhe licença para que possa andar de besta muar. 6. 14.2.1452 D. Afonso V nomeia Gonçalo Lourenço, morador em Ponte de Lima, para o cargo de escrivão das sisas do julgado de Souto, termo de Ponte de Lima, em substituição de Estêvão Rodrigues, que morrera. 7. A 26.3.1455 D. Afonso V nomeia João Vicente, escudeiro, morador na vila de Ponte de Lima, a pedido do duque de Bragança, para o cargo de tabelião geral do cível e crime na dita vila e seu termo, em substituição de João Esteves, seu pai. 8. A 25.8.1455 D. Afonso V doa a João Henriques, almoxarife de Guimarães, filho de João Esteves da Ponte, escudeiro da Casa de D. Fernando, enquanto sua mercê for, as rendas e direitos do préstimo de Gominhães, termo da dita vila, que possuía seu pai, assim que este morrer. 9. A 3.3.1456 D. Afonso V nomeia Diogo Pires, a pedido do duque de Bragança, para o cargo de almoxarife de Guimarães, assim que falecer o seu pai João Esteves, que o dito ofício tinha. 10. A 14.2.1466 D. Afonso V nomeia João Esteves da Ponte, escudeiro do duque de Bragança, a pedido de Vasco Martins, seu conselheiro e requeredor da justiça em Arouca, na correição de Entre-o-Douro-e-Minho, para o cargo de procurador nessa correição, para além dos dois já existentes. 11. A 8.2.1475 D. Afonso V nomeia Estêvão Anes, filho de João de Ponte, morador no Souto de Rebordães, para o cargo de escrivão das sisas de Ponte de Lima e seu termo, em substituição de Lopo Felgueira, o Moço, morador em Ponte de Lima, que fora destituído por ser culpado na morte de várias pessoas. Este João Esteves era assim filho de Estêvão Rodrigues, de Ponte de Lima, que se documenta ter sido, pelo menos, procurador do número desta vila e escrivão das sisas do julgado de Souto, tendo falecido em 1452. Pelo que dificilmente seria o Estêvão Rodrigues, tabelião de Ponte de Lima, que a 20.5.1385 teve de D. João I a terra de Santiago de Sá, no julgado de (Conollã), com todos os direitos, frutos, rendas e foros, como tinham o arcebispo de Santiago e os cónegos e Cabido, para si e seus sucessores. Mas este Estêvão Rodrigues talvez fosse avô do outro.
E chegamos, finalmente, ao terceiro filho, o doutor Pedro Esteves, que terá nascido em 1403, justamente no ano do nascimento de D. Fernando, colaço com quem teve de partilhar o leite materno. Gaio diz que foi afilhado do condestável Nuno Álvares Pereira, como consta de um emprazamento que lhe fez a 10.6.1448 da quintã nova da terra de Paiva, pergaminho que diz constar no Arquivo da Casa de Bragança. Acrescenta que se formou em Salamanca, que foi cavaleiro da Casa de D. Duarte, que o fez coudel de Guimarães em 1433 (não consta na respectiva chancelaria), que D. Afonso V lhe deu em 1455 carta de privilégio para seus caseiros e lavradores (o que é falso, pois o Pedro Esteves que teve esta carta a 15 de Fevereiro era vassalo e morador em Freixo de Espada à Cinta) e que o duque de Bragança o fez ouvidor das suas terras a 21.4.1441 e seu procurador a 20.6.1442, enquanto não se lhe passava carta de vedor. E que depois foi do Conselho de D. Afonso V, tendo casado com Isabel Pinheiro, filha de Martim Gomes Lobo, também ouvidor do duque de Bragança. E, de facto, o doutor Pedro Esteves documenta-se como cavaleiro do Conselho de D. Afonso V quando este rei, a 24.6.1469 dá a sua viúva, Isabel Pinheiro, enquanto for viúva e mantiver a sua honra, carta de privilégio para os seus amos, mordomos, apaniguados, criados, lavradores e caseiros, para a comarca de Entre-Douro-e-Minho. Tudo indica, ainda, que seja o Pedro Esteves que a 26.1.1439 foi nomeado para os cargos de tabelião das audiências e escrivão público, a pedido de Diogo Fernandes de Almeida, do Conselho e vedor da fazenda, em substituição de Estêvão Anes, seu pai, por ser velho e não poder exercer esse oficio. Sendo certo que é o doutor Pedro Esteves, criado do duque de Bragança, a quem D. Afonso V a 10.6.1450 doou uma tença anual de 10.000 reais prata. E igualmente certo é que morreu antes de 15.8.1463, data em que o mesmo rei nomeou Fernão Pereira, fidalgo da Casa do conde de Guimarães, para o cargo de vedor das obras nas comarcas de Entre-o-Douro-e-Minho e Trás-os-Montes, em substituição do doutor Pedro Esteves, que morrera. Diz ainda Gaio que, já casado Isabel Pinheiro, teve em prazo das religiosas do mosteiro de Corpus Christi (Gaia) a quintã de Revereda, em Stª Mª do Salto (que seria em complemento da outra metade, de sua mulher, conforme hipótese que adiante se refere), e a quinta de Portemim, em S. Clemente de Basto, por trespasse do duque D. Afonso. E que foi também senhor da aldeia de Curate, no concelho de Montalegre, que comprou em 1459, e que por morte de seu irmão João Esteves ficou também administrador do morgadio de Pouve, em nome de seu filho, sendo ainda administrador do vínculo que seu pai instituiu.
O doutor Pedro Esteves iniciou a reconstrução da chamada Torre dos Sinos, ao lado da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira de Guimarães, a noroeste da igreja, para aí fazer capela para sua sepultura e de sua mulher, e que haveria de ser concluída pelos anos de 1513 por seu filho o bispo D. Diogo Pinheiro, também Dom prior da Colegiada. A capela fica nos fundos, com abóbada de pedra, na qual estão a par os dois túmulos, com os vultos dos dois primeiros fundadores em tamanho natural, e trajando vestidos de gala ao uso do seu tempo. São lavrados em pedra de Ançã, com silvados, arabescos e outros desenhos, hoje quase tudo a desfazer-se. Têm à cabeceira um altar de pedra, com a imagem de Cristo crucificado, onde noutro tempo se dizia missa. Corre em volta da igreja, de nascente a sul, o antigo claustro, formado por pequenos mas elegantes arcos de pedra, pousados sobre colunas de formosos e variados capitéis. Hoje tudo está envidraçado e incrustado de cal. Gaio refere estes «dois túmulos de gesso levantados do chão com vultos de ambos em cima, o de Pedro Esteves com um Livro de baixo da cabeceira fingido do mesmo gesso, e sua m.er D. Isabel Pinheiro toucada com uma fita, que aperta a cabeça e a cerca ao redor junto às orelhas e em letras góticas estas palavras de uma parte = Isabel Pinheiro =, e de outra = sempre Vossa». Nestes túmulos, acrescenta Gaio, em cada um «se vê um escudo sustentado por dois leões». No de Isabel Pinheiro as armas dos Lobo, já parcialmente destruídas. No de Pedro Esteves diz que o escudo está tão gasto que não se percebem as peças, mas que seria um escudo com «quatro chaves penduradas por um cordel», igual ao que o doutor Pedro Esteves colocou na casa que fez em Barcelos. Com efeito, estas quatro chaves penduradas por um cordel (na verdade, dependuradas de um tronco) eram as armas usadas pelo doutor Pedro Esteves, provavelmente armas burguesas, que aqui, à falta de melhor designação, chamamos dos Esteves, e que ainda são usadas por seus filhos, esquarteladas com as dos Pinheiro e dos Lobo. Esta heráldica levanta desde logo a questão de o doutor Pedro Esteves poder ser na verdade sobrinho paterno de Álvaro Anes de Cernache, uma vez que os Cernache usam umas armas totalmente diversas. Se o testamento referido por Gaio e outros autores é autêntico, e de facto Álvaro Anes de Cernache nomeou herdeiro do seu morgadio o sobrinho doutor Pedro Esteves, o mais certo é que fosse seu sobrinho por afinidade e que o dito morgadio obrigasse à sucessão legítima, tendo sido instituído por Álvaro Anes e sua mulher Senhorinha Anes, provavelmente a principal proprietária dos bens vinculados, prevendo já a instituição que, há falta de filhos do casal, sucederia o sobrinho dela. Neste caso, Senhorinha Anes não era irmã do contador Afonso Anes (de Beire), falecido em 1450, mas sim irmã de Estêvão Anes. Na verdade, o filho legitimado de Álvaro Anes de Cernache, como ficou dito, chamou-se Fernão Álvares Vieira, como coevamente se documenta, embora depois também apareça como Fernão Álvares de Cernache. Usou o nome Vieira pela mãe, que era filha de João Gonçalves Vieira, cavaleiro e alcaide-mor de Loulé. Foi alcaide-mor de Loulé por D. Fernando I (CFºI, 4, 27v). A 8.3.1384 o mestre de Avis confirmou João Gonçalves de Vieira, cavaleiro, alcaide de Loulé, nas rendas e direitos da alcaidaria de Loulé (CJI, 1, 6,v). E a 23.8.1385 João Gonçalves de Vieira, cavaleiro, alcaide de Loulé, teve confirmação dos bens que o mestre de Avis lhe fizera a ele e a sua sogra Constança Bentez, mulher de Álvaro Afonso, nomeadamente as rendas e direitos da alcaidaria de Loulé, como já tinha de D. Fernando, e vários bens de raiz e verbas que seu falecido sogro gastou (ib, 1, 115). Mas é falso que Fernão Álvares Vieira (terá sido com este que os Cernache acrescentaram à heráldica inicial a bordadura de vieiras?) não tenha sucedido ao pai, pois sucedeu nos cargos e senhorio: a 28.6.1449 D. Afonso V nomeou Fernando Álvares Vieira, cavaleiro da Casa do duque de Bragança, e a seu pedido, para os cargos de capitão e coudel-mor dos besteiros e vassalos de cavalo do todo o reino e senhorios, bem como lhe concedeu licença para pôr anadeis, escrivão e porteiros dos ditos besteiros nos lugares onde julgue necessário, com todos os poderes que tinha Álvaro Anes de Cernache, seu pai, que morrera; e a 2.10.1475 doou a Fernando Álvares Vieira, cavaleiro da sua Casa, as três pesqueiras que foram de Maria, sua mulher, situadas no rio Douro, na terra de Gaia, termo da cidade do Porto, assim como ele tem a dita terra de Gaia. Assim, só não terá sucedido no morgadio, pelas razões que referi. O doutor Pedro Esteves fez casas na vila de Barcelos, que seu filho Álvaro Pinheiro acrescentou e são hoje conhecidas como o solar dos Pinheiro. Nelas colou as suas armas (quatro chaves penduradas), com a inscrição: «Estas casas mandou o doutor Pedro Esteves fazer no ano do Sr. de 1448». Seu filho Álvaro Pinheiro, que aumentou a casa inicial, também aí colocou as suas armas: um escudo partido, no 1º Pinheiro, de Barcelos (um pinheiro com o leão) e no 2º, cortado, as armas do pai e as dos Lobo. Diz Gaio que o doutor Pedro Esteves faleceu em Junho de 1469, o que é errado, pois, como vimos, já se documenta morto a 15.8.1463, tendo certamente falecido pouco antes, dado o teor do documento. O doutor Pedro Esteves, como vimos, casou cerca 1430 com Isabel Pinheiro, nascida cerca de 1411 e falecida depois de 24.6.1469. Isabel Pinheiro era irmã de: 1) Lourenço Martins Pinheiro, nascido cerca de 1399, escudeiro da Casa de Bragança. A 25.1.1440 D.Afonso V doou vitaliciamente a Lourenço Martins Pinheiro, escudeiro da Casa do conde de Ourém, todos os bens que pertenceram a Gonçalo Martins, clérigo de missa, abade de S. Salvador de Silveira da terra de Fortão, morador em Vila do Conde, que os perdeu por os ter comprado sem licença régia, podendo vender, escambar, trocar, contanto que não faça avença entre as partes (CAV, 20, 46). Alão refere-o sem mais notícia. Gaio diz que viveu em Barcelos, onde casou com Beatriz Anes, de Cavaleiros, também sem mais notícia. 2) Gil Pinheiro, nascido caerca de 1401, que Alão refere sem mais notícia. Gaio chama-lhe Gil Pinheiro de Outiz, diz que viveu no Alentejo casado com Isabel de Sequeira e foi fidalgo da Casa de D. Fernando, 2º duque de Bragança, a quem serviu em Ceuta, sendo testemunha do casamento de seu filho com a filha do 1º conde de Vila Real, realizado em Ceuta por escritura de 19.8.1447. Não o consegui documentar. 3) Branca Pinheiro, a primogénita das irmãs, nascida cerca de 1403, que Gaio diz «sepultada na vila de Barcelos em sepultura alta junto da sacristia que hoje não existe, e tinha um letreiro que dizia = Aqui jaz Branca Pinheiro filha de Martim Gomes Lobo do Conselho do Duque de Bragança fº. do virtuoso D. João, e ouvidor em todas as suas terras e sua m.er Mor Esteves aqui jaz». Casou com Diogo Afonso Carvalho, fal. em 1463, senhor do prazo de Souto de El-Rei (11.3.1440), vassalo e ouvidor da corte em 1438 e 9, corregedor de Trás-os-Montes e desembargador Casa do Cível de Lisboa pelo menos desde 1444, etc. A 13.1.1444 D. Afonso V escambou a Diogo Afonso Carvalho, desembargador régio, a sua quinta de S. Vicente, no termo da vila de Guimarães, pelo reguengo de Monte Bravo, o qual estava aforado a Gonçalo Gonçalves, morador no dito lugar, por cinco libras e meia da moeda antiga, e que por sua morte estava na posse de sua mulher Branca Vieira (CAV, 24, 4). Em 1439 o mesmo rei confirmou a nomeação de Nicolau Rodrigues, criado do conde de Barcelos, a pedido de Diogo Afonso Carvalho, ouvidor da corte, no cargo de inqueridor do número na vila de Guimarães e seu termo, em substituição de Fernão de Carvalhais, que morrera (ib, 19, 39). A 18.1.1440 nomeou Diogo Afonso Carvalho, a pedido do infante D.João, para o cargo de desembargador da Casa do Cível, em substituição de Lopo Martins Carvalhal, sobrinho do condestável, com todos os privilégios e liberdades dos desembargadores da Casa do Cível. E a 1.3.1463 nomeou o Dr. Lopo Gonçalves para o cargo que exercia na Casa do Cível de Lisboa, em substituição de Diogo Afonso Carvalho, desembargador régio, que morrera, com todas as liberdades, privilégios e prerrogativas (ib, 9, 33). C.g. nos morgados de Cepões. 4) Beatriz Anes Lobo, que vivia viúva em Évora em 1450 (casada com Lopo Rodrigues Cerveira, almoxarife de Ponte de Lima, os quais trato no meu livro «Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII», Porto 2004); 5) Leonor Gomes (Pinheiro), que casou com Martim de Crasto. A 27.6.1450, quando três dos seus filhos (Gil Martins, Álvaro Martins e Pedro Martins de «Clasto», ou seja, Crasto) tiraram ordens especiais em Braga, são referidos como «Martim de Clasto cavallero da cassa do Senhor Duque de Bragança e de Lianor Gomez sua mulher moradores na frreguesia de Sam Giãao de Çeraffãao» (hoje S. Julião de Serafão, freguesia do concelho de Fafe). Gaio dá este Martim de Crasto como filho de Diogo Gonçalves de Castro («do Crasto») e de sua mulher D. Aldonça Coelho, fazendo depois, inexplicavelmente, Diogo Gonçalves filho de um Afonso Pires de Castro, o que é erro crasso. Para ser filho de Diogo Gonçalves «do Crasto», Martim de Crasto não podia ter nascido depois de 1380/2, tendo provavelmente nascido cerca de 1378, pelo que teria cerca de 72 anos de idade quando seus filhos mais novos tiraram ordens em Braga, ou seja, o mais novo destes filhos terá nascido cerca de 1436, tendo ele cerca de 58 anos. Pelo que, de facto, Martim de Crasto podia e devia ser o irmão mais novo de Lopo Dias de Azevedo, senhor de S. João de Rei.
Isabel Pinheiro e suas referidas irmãs eram filhas de Martim Gomes (Lobo), ouvidor de todas as terras do 1º duque de Bragança (1419), e de sua mulher Mor Esteves Pinheiro. Este Martim Gomes (sem Lobo), que no epitáfio vem como conselheiro do duque de Bragança, documento-o a 25.3.1435 como ouvidor do conde D. Afonso, quando D. Duarte confirmou um seu criado, João Fraco ou Franco, como escrivão das sisas de Vermoim. E a 7.11.1439 D. Afonso V confirmou o privilégio a Martim Gomes, morador em Estremoz, irmão de Gil Lobo, confessor do rei D. Duarte, que sendo escrivão das obras desse concelho, ficou autorizado a escrever os recibos de todas as despesas relativas às obras, recebendo para seu mantimento o mesmo que recebem os escrivães das outras obras. Mais tarde, a 20.12.1450, o mesmo rei doou a Martim Gomes, irmão de Frei Gil Lobo, uma tença de 1.200 reais de prata. Era portanto Lobo, embora não se documente com este nome. Martim Gomes (Lobo) era portanto irmão do célebre Frei Gil Lobo, franciscano, confessor do rei D. Duarte, que escreveu parte do «Leal Conselheiro», a mando do rei, como ele próprio diz («uu conselho apropriado a duas barcas que frei Gil Lobo, meu confessor, que Deos perdoe, screveo per minha envençom»). Alguns autores modernos, que defendem uma autoria póstuma, argumentam que a fórmula «que Deus perdoe» não significa necessariamente que Frei Gil Lobo morreu em vida de D. Duarte, dizendo que ele foi depois confessor do infante D. Pedro, durante a regência, e ainda de Afonso V, sustentando-se num documento do Archivio Segreto Vaticano (Reg. Suppl. 448, 266rv) datado de 23.2.1451, que contém uma súplica de um frei Gil de Tavira. Sobre o qual D. Afonso V diz numa sua carta (Além Douro, 4, 184): «A quamtos esta carta virem fazemos saber que por os muytos serviços que frey gill de tavira abade do mosteiro de sam Joham dalpemdorada tem fectos a elRey meu senhor e padre cuja alma deus aja e a nos em seendo nosso pregador e confessor e meestre». Mas estes autores desconhecem as cartas de D. Afonso V, referidas acima, onde Frei Gil Lobo é referido assim (não como Frei Gil de Tavira) e como confessor de D. Duarte, o que significa que não era seu. Mas tudo indica que de facto ainda estava vivo em 1450, pois dificilmente Martim Gomes seria ainda referido como irmão de Frei Gil Lobo nesta data se este tivesse morrido antes de D. Duarte.
As genealogias não sabem ao certo de quem era filho este Martim Gomes (Lobo), e portanto seu irmão Frei Gil Lobo, dizendo apenas que era parente dos barões de Alvito e deitando-se depois a adivinhar o nome dos pais. Pelo patronímico (e até pelo patronímico usado pela filha Beatriz Anes), e pelo prenome do irmão, devia ser filho de Gomes Anes Lobo e sobrinho de Gil Anes Lobo, ambos filhos de João Peres Lobo, escudeiro, alcaide-mor de Castelo de Vide (15.6.1337) - que era primo-direito do 1º senhor de Alvito Diogo Lopes Lobo -, e de sua mulher Beatriz Gil, que era tia de D. Gil Fernandes de Elvas, alcaide-mor de Elvas, famoso capitão de D. João I, muito referido na sua crónica, que lhe deu o nome de Elvas e o tratamento de Dom. Ainda apenas como Gil Fernandes, escudeiro, morador em Elvas, teve a 29.3.1384 mercê dos direitos da alcaidaria de Elvas e do serviço dos judeus desta vila. A 23.9.1384 D.João I doou a Gil Fernandes, seu escudeiro e criado de D. Fernando I, para si e seus sucessores, os bens móveis e de raiz que Dom Abraão tinha em Santarém e seu termo e noutros lugares, que perdera por «deserujços». A 20.12.1384 D. João I doou a Gil Fernandes, seu vassalo, morador em Elvas, todas as rendas, direitos e reguengos da vila de Arronches e seu termo.
A mulher de Martim Gomes (Lobo), Mor Esteves Pinheiro, que terá nascido cerca de 1378/80, dizem as genealogias que era irmã de João Esteves Pinheiro e de Gil Esteves de Outiz, senhor do Prado, todos filhos de Estêvão Gomes de Outiz e netos de Gomes Nunes de Outiz e sua mulher Milia Fernandes Camelo, filha esta de Fernão Gonçalves Camelo e sua mulher Constança Peres de Arganil, que em 1326 fizeram escambo com Mem Rodrigues de Vasconcellos, entregando o que tinham na quintã da Torre de Regalados e na quintã de Cervos pela metade da honra de Revereda, em Stª Mª de Salto. Não pode ser mera coincidência o doutor Pedro Esteves e sua mulher terem tido, segundo Gaio, o prazo da quintã de Revereda, em Stª Mª do Salto. Pelo que é bem provável que a dita metade da quintã de Revereda tenha passado para a referida Milia Fernandes Camelo (aliás a mais velha das duas filhas do casal), e desta para seu filho Estêvão Gomes de Outiz, deste para a filha Mor Esteves Pinheiro, e desta para a filha Isabel Pinheiro, que com seu marido terá tido o conveniente prazo da outra metade da quintã. Mor Esteves Pinheiro era muito mais mais nova do que seus alegados irmãos Gil Esteves de Outiz e João Esteves Pinheiro, que terão nascido o 1º cerca de 1340 e o segundo cerca de 1345. Com efeito, Gil Esteves de Outiz já aparece na lista dos padroeiros do mosteiro de Grijó de 1365, como uma filha que não é nomeada, pelo que seria criança. O direito de padroado vinha-lhe certamente por sua desconhecida mulher (pois o irmão não aparece), que não é referida na antedita lista, pelo que já teria falecido. Isto, apesar de se não dizer aí que o direito lhe vinha da mulher, como acontece noutros casos da mesma lista. Mas também acontece que, noutros casos em que o direito vem claramente pela mãe ou pela mulher, isso não é referido na antedita lista. A filha seria Guiomar Gil de Outiz, de facto a única que se documenta. Gil Esteves de Outiz já no reinado de D. Fernando teve mercê da terra da Cunha. E a 9.9.1384 D. João I confirmou a «gil stz doutiz» a honra da quintã «d ulueira», no julgado do Prado, que ele comprara a Rui Vasques Pereira e Rui Vasques Ribeiro, por ele ser «fidalgo sta em nosso sujço», mercê que lhe confirmou a 2.5.1385, tendo-lhe na mesma data confirmado a doação da terra do Prado, com suas rendas, frutos e novos, que lhe tinha doado enquanto regente. E a 26 de Maio do mesmo ano volta a confirmar a «gil stez d outiz nosso scudeiro» a terra do Prado a par de Braga, referindo desta feita que a doação incluía a jurisdição alto, baixo e mero misto império, com a condição de que, se ele morresse sem descendente legítimo, o senhorio voltaria para a coroa. Gil Esteves de Outiz, que deixou viúva Joana Paes, morreu cerca de 12.4.1415, data em que D. João I fez mercê do senhorio do Prado a seu neto Diogo Gil de Outiz, filho de Guiomar Gil de Outiz, viúva de João Gil do Porto, seu vassalo, sendo aqui de realçar um caso bem documentado de sucessão no nome da família materna. Este Diogo Gil viria a falecer sem geração, voltando o senhorio do Prado para a coroa, que o deu a Fernão Soares de Albergaria. Voltando a, João Esteves Pinheiro, por seu lado, verifica-se que tem uma neta paterna que foi ama de leite da infanta D.Isabel, futura rainha de Castela, nascida em 1428, pelo que não podia ter nascido depois de 1410 e certamente nasceu cerca de 1408. A diferença de idades entre os irmãos Gil Esteves de Outiz e João Esteves Pinheiro e sua alegada irmã Mor Esteves Pinheiro só se pode aceitar se eles foram filhos de um 1º casamento do pai e ela de um 2º casamento. Estêvão Gomes de Outiz terá, assim, nascido cerca de 1319, casado a 1ª vez cerca de 1340, com 21 anos, e a 2ª vez cerca de 1377, com mais ou menos 58 anos de idade.
A heráldica dos Pinheiro e dos Outiz Finalmente,
temos a questão heráldica. Os Pinheiro, de Barcelos, usam um escudo
de vermelho, com Este João Pires era irmão mais velho de Manuel Fernandes Menagem, capitão de uma nau da armada da Índia de 1505, que se notabilizou na defesa de Sofala, teve nome e carta de armas novas (Menagem) em Junho de 1512 e foi guarda-roupa do infante D. Luiz. Eram ambos filhos do dito Pedro Fernandes, morador em Alcácer do Sal e tesoureiro da infanta D. Filipa, e netos paternos de Afonso Fernandes, secretário da rainha D. Filipa de Lencastre, que se notabilizou na defesa de Alcácer do Sal pelo mestre de Avis. Esta família, que só usou patronímicos, devia assim ter o referido escudo de armas das seis contra-bandas. João Pires casou com Leonor Rodrigues Pinheiro, administradora da capela dos Pinheiro, que era filha de Gonçalo Rodrigues de Carvalho e sua mulher Tereza Pinheiro, moradores em Setúbal, sendo esta filha de Martim Trigo, aí morador, e de sua mulher Ana Esteves Pinheiro, que era irmã do Padre Luiz Esteves Pinheiro, que sucedeu na administração da capela do Pomar da Pipa, ao pé de Palmela. Gaio diz que na Era de 1449 Estêva Lourenço Casado, mulher Lourenço Pires Pinheiro, sem geração, instituiu uma capela chamada do Pomar da Pipa, ao pé de Palmela, chamando para suceder nela Estêvão Anes Pinheiro, sobrinho de seu marido, Lourenço Pires, e casado com uma sua (dela) sobrinha homónima. O que se confirma, pois em Junho de 1412 (portanto Era de 1450) Esteva Lourenço, moradora em Setúbal, mulher de Estêvão Anes Pinheiro, apresentou uma verba de testamento, que se transcreve parcialmente, de Esteva Lourenço, mulher que foi de Lourenço Pires, tabelião (Hospital de S. José, L. 539, ff. 121 a 142v). Estêvão Anes Pinheiro era irmão mais velho de Martim Anes Pinheiro (a 4.11.1434 D. Duarte deu carta de segurança a Martim Anes Pinheiro, morador em Setúbal, por ter morto Frei Fernando, guardião do mosteiro de S. Francisco de Setúbal, e a 5.5.1442 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Martinho Anes Pinheiro, natural de Setúbal, pela morte de Inez Gonçalves, sua cunhada, e por ferir Pedro Froiás e Rui Cuitela, moradores nessa vila, na sequência do perdão geral) e de Álvaro Pinheiro (a 21.4.1450 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Diogo Leitão, morador em Tavira, acusado de matar Álvaro Pinheiro, de Setúbal, contanto que pague 500 reais de prata), todos filhos do já referido João Esteves Pinheiro. Portanto,
quer a descendência deste João Esteves quer a de sua meia-irmã Mor Esteves
Pinheiro usaram as armas ditas dos Pinheiro, de Barcelos. Aparentemente,
só o outro irmão, Gil Esteves de Outiz, usou as armas dos Outiz. O que
significa que estas armas dos Pinheiro, de Barcelos, bem com as dos Outiz,
já vinham do pai comum Estêvão Gomes de Outiz. E que os Pinheiro e os
Outiz eram duas famílias distintas, das quais descendia este Estêvão Gomes,
filho de Gomes Nunes de Outiz, senhor da honra e torre de Outiz, e de
sua mulher Milia Fernandes Camelo. A freguesia de Outiz, a 18 km de Braga,
fica hoje no concelho de Vila Nova de Famalicão. O conde D. Pedro diz
que Gomes Nunes de Outiz foi cavaleiro «de un escudo, i de una lança»,
querendo com isto significar que não era um cavaleiro importante. As genealogias
tardias dizem que Gomes Nunes foi filho de Nuno Pires de Outiz. Gaio supõe
que este Nuno Pires de Outiz era filho de um Pedro Afonso Pinheiro, a
quem D. Afonso III doou uns pardieiros em Santarém, e neto de um Afonso
Pinheiro, que se documenta nas Inquirições de D. Dinis (1301) defendendo
por honra o lugar de Rebordões, na freguesia de Insalde (Paredes de Coura).
Acresce que Nuno Pires de Outiz, nascido cerca de 1260/65, terá sido o primeiro desta família a estabelecer-se no Sul, justamente devido ao casamento. Sendo muito possivelmente irmão do Estêvão Pires de Outiz que se documenta nas inquirições de 1284 com dois casais na aldeia de Beleti, freguesia de S. Miguel do Mato, julgado de Fermedo (hoje Belece, na freguesia de S. Miguel do Mato, concelho de Arouca) que tinha por dote de casamento com Sancha Abril, filha de Abril Esteves de Dagarei (ou Degarei), cavaleiro, que também se documenta bem nessas inquirições. Gaio dá ainda a Gomes Nunes de Outiz um irmão, Afonso Nunes de Outiz, cuja filha casou com o cavaleiro Pedro de Mamoa, casal documentado em 1299. Irmandade esta que na verdade é anacrónica e foi certamente apontada apenas com base no patronímico comum. Na verdade, aquele Afonso Nunes, cavaleiro, documenta-se ditas inquirições de 1284 que trazia por honra a vila de Canelas, no julgado de Figueiredo (hoje a freguesia de Canelas, no concelho de Estareja). Inquirições onde também se documenta que o casal de Mamoa foi feito por um Nuno Pires, cavaleiro, no herdamento de um reguengo e noutro seu, no tempo do rei D. Afonso (III), casal este que ficava em Vila Cova de Porrinho, freguesia de S. Salvador de Rogi, julgado de Cambra (hoje a freguesia de Vila Cova de Perrinho, no concelho de Vale de Cambra), onde então vivia Martim Peres de Mamoa, «que mora en'o casal que tem regueengo de Porrinho», que deve ser pai ou irmão do dito cavaleiro Pedro de Mamoa. Afonso Nunes de Outiz, portanto, não terá nascido depois de 1240, pelo que não era irmão de Gomes Nunes de Outiz (nascido cerca de 1290) mas muito provavelmente seu tio-avô, portanto irmão de um virtual Pedro Afonso de Outiz, pai de Estêvão Pires de Outiz e de Nuno Pires de Outiz.
A descendência do doutor Pedro Esteves O doutor Pedro Esteves e sua mulher Isabel Pinheiro tiveram os seguintes filhos conhecidos: 1. Catarina Pinheiro, nascida cerca de 1431, que foi a 1ª mulher de Álvaro Anes de Cernache, também nascido cerca de 1431 e falecido antes de 13.8.1518, com testamento de 9.12.1512, senhor de Gaia-a-Maior (30.5.1496), fidalgo da Casa Real, que pediu o ofício de anadel-mor de besteiros a cavalo que seu pai tinha, mas recusou-lho D. João II a 25.1.1484, dando-lhe por ele uma tença de 10.000 reais, recusa que D. Manuel I confirmou a 29.2.1496, extinguindo depois o cargo. Álvaro Anes foi depois dizimeiro da alfândega da cidade do Porto e juiz do mar dessa cidade (confirmação de 1496, como era com D. João II), ouvidor de todos os feitos dos mercadores e marinheiros do Porto (26.5.1486, confirmado a 29.2.1496), e a 29.2.1496 teve carta de privilégio de fidalgo. A 30.5.1496 Álvaro Anes Cernache, cavaleiro da Casa d'el rei, teve confirmação da doação da terra da Gaia, a Maior, com todos os direitos, tal como tinha seu pai, Fernando Álvares de Cernache, cavaleiro da Casa d'el rei, morador no Porto, pela apresentação de uma carta feita em Samora a 20.10.1475. 26 dias antes tivera confirmação da doação das terras pesqueiras no rio Douro, na terra de Gaia, termo do Porto, tal como os tinha Fernando Álvares Vieira, pela apresentação de uma carta feita em Samora a 21.10.1475. Este Álvaro Anes de Cernache era filho do já referido Fernando Álvares Vieira, filho legitimado de Álvaro Anes de Cernache, também já referido, tio (por afinidade) do doutor Pedro Esteves, e de Clana Anes (Vieira). C.g. conhecida. 2. Beatriz Pinheiro, nascida cerca de 1432, que se documenta com seu marido entre 1470 e 1496 no fundo do convento de Nª Sª da Rosa da Caparica (informação que agradeço ao Dr. José Augusto Oliveira). Gaio diz que foi dama da infanta D. Beatriz, mulher do infante D. Fernando, duque de Viseu, o qual lhe deu uma tença anual por seu casamento, que D. Manuel confirmou a 15.5.1501. Casou antes de 1470 com Pedro Vaz da Veiga, filho de Tristão Vaz da Veiga. É o Pedro Vaz da Veiga, cavaleiro fidalgo da Casa do infante D. Fernando, que se documenta a 24.1.1459 e 28.3.1468. E o homónimo, fidalgo da Casa do infante D. Fernando, a quem este deu a 28.7.1465 uma tença de 15.000 reais, confirmada por D. João II a 24.2.1485 e por D. Manuel a 13.2.1497. Gaio dá ao casal vários filhos, entre os quais uma D. Isabel Pinheiro casada com Fernão Martins de Almada, o que se confirma, pois a 9.5.1502 Fernão Martins de Almada, fidalgo da Casa Real, nomeou procurador para cobrar 50.000 reais da sua tença e da de D. Isabel Pinheiro, sua mulher. Pedro Vaz da Veiga era irmão de Diogo Vaz da Veiga, cavaleiro fidalgo da Casa de D. Afonso V, escrivão do corregedor de Lisboa, etc., casado na Madeira com Beatriz Cabral. A 16.11.1471 D. Afonso V doou a Diogo Vasques da Veiga, cavaleiro da sua Casa, enquanto sua mercê for, uma tença anual de 8.000 reais de prata, a partir de 1 de Janeiro de 1472. E a 19.7.1481 o mesmo rei nomeou Diogo Vaz da Veiga, cavaleiro e fidalgo da sua Casa, para o cargo de escrivão do corregedor de Lisboa, em substituição de Álvaro Rodrigues. Pedro e Diogo Vaz da Veiga eram filhos de Tristão Vaz da Veiga (a 4.11.1454 D. Afonso V privilegiou André da Veiga, sobrinho de Tristão Vasques da Veiga, concedendo-lhe licença para andar em besta muar de sela e freio) e de sua mulher Leonor Taveira; e netos paternos, segundo Alão, de Vasco Lourenço de Abreu e sua mulher Maria Anes da Veiga. Esta Maria Anes era, segundo Alão, irmã de João da Veiga, o Moço, e de Fernão da Veiga (que deve ser o Fernão da Veiga que a 27.8.1437 se documenta com herdades no termo de Arruda, dando origem aos Veiga de Montemor-o-Novo), todos filhos de João da Veiga, o Velho, e sua mulher Inez Pires. Alão diz que este João da Veiga, o Velho, foi «muito honrado homem» nos reinados de D. Fernando I e D. João I, cidadão de Lisboa e um dos procuradores desta cidade às Cortes de Coimbra, estando sepultado com sua mulher no mosteiro de S. Francisco de Lisboa, na capela do Salvador, onde tinham missa quotidiana (que ela instituiu um morgadio). É, portanto, o João da Veiga, cavaleiro, que a 24.5.1399 se documenta com casas em Lisboa, o João da Veiga, o Velho, que a 6.6.1399 se documenta com casas na Rua Nova, nesta cidade, e ainda o João da Veiga, mercador, a quem o mestre de Avis doou a 7.9.1384 o foro (de 100 libras anuais) de umas casas que tinha na Rua Nova, em Lisboa, para si e para duas vidas após a sua morte. Já tinha falecido a 2.4.1436 quando D. Duarte emprazou por três vidas a João Vasques de Almada umas casas na Rua Nova, em Lisboa, contíguas às «casas que forom de joham da ueiga o uelho». A 2.5.1436 o mesmo rei doou um chão em Lisboa na Judiaria Velha, na rua que chamam do Picoto, a Samuel Romão, que confinava com uns «sobrados dos herdey(ros) de Joham da ueiga que traz Jsaque francez». 3. Doutor Martim Pinheiro, nascido cerca de 1433, que primeiro usou Martim Gomes, o nome do avô materno. Foi cavaleiro do Concelho e corregedor da corte (20.4.1509). Como Martim Gomes tirou ordens menores em Braga a 4.3.1452, como filho do doutor Pedro Esteves e de sua mulher Isabel Pinheiro, então moradores em Santa Maria de Barcelos. A 18.4.1453 D. Afonso V doou a Martim Gomes, filho do doutor Pedro Esteves, enquanto sua mercê for, uma tença anual, para os seus estudos, de 4.800 reais de prata, a partir de 1.1.1453. A 13.2.1466 o mesmo rei doou a Martim Gomes, filho do doutor Pedro Esteves, enquanto sua mercê for, uma tença anual de 6.000 reais de prata, a partir de1.1.1466. Já usava o nome Martim Pinheiro quando a 3.9.1487 teve carta de ordenado. A 12.2.1490 teve uma tença de 4.000 reais. A 8.6.1500 o doutor Martim Pinheiro passou recibo de uma arroba de pólvora para despesa da caravela Santa Maria da Graça, que tinha recebido de Martim Anes, almoxarife de Alcácer. A 17.4.1501 o doutor Martinho Pinheiro, do Concelho do rei e corregedor da corte, passou recibo a João Rodrigues Mascarenhas, pagador dos desembargadores, de 15.000 reais de seu primeiro quartel. E a 6 de Julho do mesmo ano passou ao mesmo recibo de 15.000 reais de seu mantimento, voltando a fazê-lo a 13 de Novembro, relativo ao 3º quartel, e a 13.1.1502, relativo ao último quartel do ano de 1501, pelo que recebia então 60.000 reais de ordenado anual. Já tinha falecido a 24.6.1511 quando sua viúva, D. Catarina Pinto, fez procuração a Diogo Borges, fidalgo da Casa Real e morador em Viseu, para em seu nome cobrar 15.000 reais da sua tença que tem naquele almoxarifado. A 2.5.1515 sua viúva D. Catarina Pinto teve provisão para receber 15.000 reais de tença, e sua filha D. Simoa para receber 24.000 reais de tença. D. Catarina já tinha falecido a 11.8.1525, quando seus herdeiros tiveram provisão para receber a sua tença 15.000 reais. Gaio diz que a si e sua mulher, sendo ele já corregedor da Corte, o convento de Corpus Christi (Gaia) lhe renovou a 5.10.1491 o prazo da já referida quintã de Revereda, em Stª Mª do Salto, com todos os seus casais, pertenças e direito, na forma que o doutor Pedro Esteves e sua mulher a tiveram e onde fizeram muitos acrescentamentos e benfeitorias, pelo foro de 2.400 reais, a 6 seitis cada real, tudo feito por escritura de João Barbosa, tabelião do Porto, em pergaminho que estava no Arquivo da Casa de Bragança. A confirmar-se o que deixei dito sobre esta quintã, o doutor Martim Pinheiro terá herdado a outra metade, que lhe viria dos seu 4º avô Fernão Gonçalves Camelo. O doutor Martim Pinheiro casou, portanto antes de 1491, com D. Catarina Pinto, filha de Gonçalo Vaz Pinto, 1º senhor de juro e herdade de Ferreiros e Tendais (14.8.1484), fidalgo do Conselho de D.Afonso V, seu vedor da fazenda de «Além Mar em África» (1472) e corregedor das justiças de Trás-os-Montes (8.7.1476), etc., e de sua 2ª mulher Inez Rodrigues de Góis, que no seu testamento aparece referida como mulher de Gonçalo Vaz Pinto, do Concelho, e pede para ser sepultada em Mesão Frio e depois trasladada para Santarém «a dicta minha carne for gastada que levem minha ossada a Santarém e que me lancem na capela de meu padre (…) e ponham um muimento sobre a dita cova e seja muito bem lavrado» (ANTT; Santa Clara de Santarém, 6, 15v - 17v). A 1.4.1453 o mesmo rei doou a Gonçalo Vasques Pinto, cavaleiro da sua Casa, uma parte da tença anual de 4.770 reais de prata, até perfazer a quantia de 57.143 reais que lhe era devida pelo seu casamento (o 1º, com Leonor Gil, que ele matou). A 31.12.1457 perdoou a justiça régia a Gonçalo Vasques Pinto, cavaleiro da sua Casa, culpado da morte de sua mulher, Leonor Gil, contanto que sirva 3 anos na cidade de Ceuta. A 19.5.1472 doou a Gonçalo Vasques Pinto, do seu Conselho, vedor da fazenda dos lugares de Além-Mar em África, uma tença anual de 8.000 reais de prata, a serem pagos dos tributos régios que se arrecadem em África, aos mouros tributários. A 11.10.1476 doou a Gonçalo Vasques Pinto, regedor das justiças reais na comarca de Trás-os-Montes, a quantia anual de mantimento de seu ofício de 18.000 reais de prata. E depois doou-lhe uma tença anual de 6.000 reais de prata a partir de 1.1.1481, a juntar à quantia que já lhe fora doada, o que perfaz a soma total de 24.000 reais. A 6.9.1484 deu-lhe outra tença de 18.000 reais. O doutor Martim Pinheiro e sua mulher tiveram dois filhos: Francisco Pinheiro, que morreu solteiro na Índia, e D. Simoa Pinheiro, que se documenta em 1515, como ficou dito, e que casou com D. Manuel Rolim, senhor de Azambuja, c.g. O filho deve ser o Francisco Pinheiro que morreu antes de 30.6.1529, data em que seus herdeiros tiveram provisão para receber no almoxarifado de Ponte de Lima 10.610 reais à conta de maior quantia. 4. Álvaro Pinheiro, nascido cerca de 1435 e falecido depois de 24.5.1511, que também aparece como Álvaro Pires e Álvaro Pinheiro Lobo. Como Álvaro Pires tirou ordens menores em Braga a 20.12.1455, como filho do doutor Pedro Esteves e de sua mulher Isabel Pinheiro, então moradores em Santa Maria de Barcelos. Era escudeiro fidalgo da Casa Real com 1.000 reais de moradia em 1469, acrescentado cavaleiro fidalgo com 1.200 reais em 1474 (confirmado em 1477). D. Afonso V a 20.4.1473 perdoou a justiça régia a João de França, criado de Álvaro Pinheiro, pela fuga da prisão e por querela que dele deu Álvaro Vasques, morador em Barcelos, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquista da vila de Arzila e cidade de Tânger, bem como mediante o perdão das partes. Foi alcaide-mor (interino) de Barcelos e ainda vivia a 5.8.1484, quando teve uma tença de 15.000 reais. Teve carta de perdão a 22.8.1491 e deve ainda ser o Álvaro Pinheiro que 17.3.1508 passou recibo dos 15.000 reais de tença que lhe pagou Lopo Pereira, almoxarife de Ponte de Lima; o Álvaro Pinheiro, fidalgo da Casa Real, que a 28.4.1509, 26.51510 e 24.5.1511 teve provisão para receber em Ponte de Lima 15.000 reais de tença, e o Álvaro Pinheiro, escudeiro do duque de Bragança e ouvidor de Ormuz, que a 12.5.1519 escreveu um carta ao rei, expondo os serviços que tinha feito e algumas coisas pertencentes ao governo da Índia. Gaio diz que teve o padroado da igreja de Cristelo e a administração da capela da Torre dos Sinos, um vínculo instituído por seu avô Estêvão Anes e o morgadio de Pouve, instituído por seu tio João Esteves. Isto indicaria que era o irmão mais velho, mas não creio, pois seu irmão Martim tirou ordens menores três anos antes do que ele. Por outro lado, o doutor Martim Pinheiro terá herdado a quintã de Revereda, quer a metade de raiz quer a sucessão no prazo da outra metade, conforme a hipótese que ficou referida acima. Álvaro Pinheiro casou com D. Joana (Pereira ou de Lacerda), que se documenta bem apenas como D. Joana, que faleceu depois de 19.6.1485, data da partilha dos bens de sua mãe, e antes de 10.5.1509, data da partilha dos bens de seu pai. Era filha Nuno Pereira e de sua mulher D. Guiomar da Silva, cujos bens, por escritura lavrada em Serpa na data referida, foram partilhados pelo marido e pelos seus 13 filhos, a saber: Reimão Pereira (casado com D. Isabel), Álvaro Pereira (casado com D. Filipa), D.Joana (mulher de Álvaro Pinheiro, que levou procuração da mulher, passada em Barcelos a 11.2.1484), Diogo Nunes Pereira (casado com D. Filipa), D. Isabel (mulher de João de Faria) e os menores Rui Dias, Garcia Pereira, D. Maria, Henrique Pereira, D. Catarina, D. Margarida, Duarte Pereira e João Rodrigues, todos representados pelo pai. Por morte de Nuno Pereira fizeram-se partilhas na data referida, mas D. Joana já tinha falecido, comparecendo à escritura seu filho Henrique Pinheiro, com procurações de suas irmãs D. Filipa Pereira, D. Isabel Pereira, D. Maria Pereira, «dona» de Santos, e D. Helena, menores que estavam sob o poder de seu pai. A esta partilha compareceram também Diogo Nunes Pereira, Duarte Pereira, Rui Dias Pereira, João Rodrigues Pereira, D. Margarida, freira no mosteiro de Nª Sª da Conceição de Beja, os filhos (entre eles Manuel de Lacerda) e viúva de Reimão Pereira, João de Faria, viúvo de D. Isabel Pereira, Martim Quaresma, viúvo de D. Maria e curador dos filhos de ambos, e os filhos menores de Álvaro Pereira, tutelados pela mãe. Nuno Pereira foi alcaide-mor da Vidigueira e Vila Nova de Frades (30.9.1483). A 16.9.1483 D. João II doou a Nuno Pereira os direitos reais da Vidigueira e Vila Nova de Frades e a 30.9.1483 as respectivas alcaidarias-mores. Parece que foi também alcaide-mor de Portel. Em 1455 documenta-se apenas como Nuno Pereira, morador em Serpa, quando, com seu irmão Rui Dias de Serpa, foram perdoados um ano do seu degredo, a que tinham sido condenados por umas mortes que tinham feito em Serpa, numa contenda com João de Mello. Em 1480 vivia em Portel com sua mulher D. Guiomar, quando tiram ordens menores em Évora os filhos de ambos Álvaro Pereira, Rui Dias, Garcia Pereira, Henrique Pereira, Duarte Pereira, Henrique Pereira e João. De Álvaro Pinheiro e sua mulher nasceram vários filhos, sendo o sucessor Henrique Pinheiro, que em 1512 e 1513 se documenta como fidalgo da casa do duque de Bragança e capitão da gente de Barcelos, e em 1515 já como alcaide-mor de Barcelos. A 25.9.1523, ainda como alcaide-mor de Barcelos, teve uma tença de 15.000 reais. Deste Henrique foi irmã D. Isabel Pereira, menor em 1509, que veio a casar com Diogo Correa, senhor de Fralães, com geração nesta Casa, como refiro no meu Ensaio sobre a origem dos Correa, senhores de Fralães. 5. D. Diogo Pinheiro, nascido cerca de 1437 e falecido em Tomar em Julho de 1526, 1º bispo do Funchal (1514-1526), primaz das Índias, desembargador do Paço e petições, Dom prior da Colegiada de Guimarães (6.1.1503-1513), vigário geral da Ordem de Cristo, em Tomar, doutor in utroque jure, comendatário de Carvoeiro, S. Simão da Junqueira e Castro de Avelãs, capelão e fidalgo da casa do duque de Bragança D. Jaime e depois de D. Manuel I e seu conselheiro, etc. Foi advogado do duque de Bragança D. Fernando, quando D. João II o condenou à morte. Escreveu um manifesto em que pretendia mostrar a inocência do duque de Bragança, e protestou energicamente contra as monstruosidades do processo, o que fez com que perdesse as boas graças de D. João II. Jaz em Tomar, como já ficou dito. Teve filhos bastardos, nomeadamente D. Rodrigo Pinheiro, que foi bispo de Angra (1540-1552) e do Porto (1552-1572). 6. Doutor João Pinheiro, nascido cerca de 1439 e falecido em 1507. Foi abade de Stª Catarina da Anobra (5.12.1488), doutor em Direito Canónico e Teologia e deão da Capela Real de D. Manuel I. Teve duas cartas de perdão, de 7.2.1491 e 17.7.1492. 7. D. Maria Pinheiro, nascida cerca de 1441, que estava viúva a 7.8.1512, data em que D. Maria Pinheiro, viúva de Pedro de Souza, passou recibo dos 20.000 reais que recebeu da sua tença anual, assente no almoxarifado de Ponte de Lima. Volta a passar recibo desta tença a 6.4.1514 e 15.4.1515, passando a 24.7.1515 procuração a João Afonso, abade de S. Fins, para a receber. Casou com Pedro de Souza, nascido cerca 1435, que tirou ordens menores em Braga a 17.2.1448, foi alcaide-mor de Outeiro de Miranda (antes de 30.10.1458, data em que D. Afonso V nomeou João Afonso, escudeiro, criado de Pedro de Sousa, morador no Outeiro de Miranda, para o cargo de juiz das sisas régias do dito lugar) e depois alcaide-mor de Seabra (Sanábria, Galiza). A 29.4.1491 teve de D. João II uma tença de 15.000 reais. Gaio diz que foi meirinho-mor das terras do duque de Bragança D. Fernando. Era filho de Martim Afonso de Souza e sua mulher Violante Lopes de Távora (vide o meu estudo sobre a Origem dos Souza ditos do Prado). C.g. 8. Leonor Pinheiro, nascida cerca de 1443. Casou com Martim Ferreira, 7º morgado de Cavaleiros e de Cete, 6º morgado de Fajozes, etc., c.g. (vide o meu Ensaio sobre a origem dos Ferreira). 2007 |
||||
|
. |
|||||