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Lopo Dias de Azevedo
e sua mulher D. Joana
Gomes da Silva
Lopo Dias de Azevedo nasceu cerca de 1363 (em 1365 documenta-se
com seus pais na lista de Grijó, sendo então criança
pequena, porque vem referido apenas como «item huum seu filho»)
e faleceu depois de 13.5.1441, portanto velho, com 78 anos ou
mais.
Dele existe uma matriz sigilar, com as suas armas, e foi sepultado
em túmulo armoriado na capela de S. Braz, na Colegiada de Guimarães
(hoje Museu Alberto Sampaio). A matriz sigilar, encontrada pelo
marquês de Abrantes, data do último quartel do séc. XIV. Contém
dois quadrados concêntricos, postos em lisonja, entre os quais
se escreve a legenda (: S : LOPO DIAZ : S :), com uma águia
estendida no seu interior. Fora do quadrado, junto a cada um
dos lados, têm quatro lóbulos semicirculares, carregado cada
um com um leão passante, encontrando-se os laterais afrontados.
Estes leões remetem para as armas da mãe (Coelho), sendo assim
que então as armas aparecem geralmente esquarteladas.
Lopo Dias de Azevedo era filho sucessor de Diogo Gonçalves,
dito «do Crasto», por ser senhor desta torre, em Amares,
e de sua mulher Aldonça (Anes) Coelho. Este Diogo Gonçalves
ainda é referido pelo conde D. Pedro (falecido em 1354) como
filho de Gonçalo Vasques de Azevedo, mas sem mais referência,
pelo que Diogo Gonçalves seria então ainda solteiro. De resto,
esta filiação documenta-se na lista de Vilar de Porcos, de 1329,
onde surge Diogo Gonçalves com seu pai Gonçalo Vasques de Azevedo,
sendo de estimar que Diogo tivesse nascido cerca de 1318, vindo
a morrer em finais de 1369.
Ao contrário do que se diz, Diogo Gonçalves «do Crasto»
já teria sido senhor de S. João de Rei. Com efeito, a 14.8.1383
D. Fernando I mandou que o almoxarife de Guimarães restituísse
a Lopo Dias a posse do senhorio de S. João de Rei. Lopo Dias
teria então cerca de 20 anos e estava recém-casado ou
estava em vésperas de casar com uma filha de Aires Gomes
da Silva. É evidente que a restituição
do senhorio de S. João de Rei não pode ser aqui entendida
como uma restituição literal, mas sim como uma
restituição na sucessão. Ou seja: por morte
de seu pai Diogo Gonçalves, Lopo Dias foi impedido de
suceder por alguma razão, e a restituição
consistia justamente nessa sucessão. Mas porque não
sucedeu Lopo Dias quando devia, isto é, quando o pai
morreu? Não foi certamente por ser novo demais, pois
noutras situações idênticas isso não
foi impedimento. A explicação pode ser encontrada
na Crónica de D. Fernando (Capítulo XXXIV),
onde Fernão Lopes conta que, quando D. Henrique II de
Castela cercou as muralhas de Guimarães, entrou na vila
disfarçado Diogo Gonçalves (identificado pelo
cronista como o pai de Lopo Dias de Azevedo), mas foi reconhecido
e preso, acabando por confessar que vinha executar um plano
maquinado com Henrique II, que passava por atear fogo em quatro
lugares, para distrair as atenções enquanto o
Trastamara tomava o castelo. E logo a população
o matou e deu a comer aos cães. Isto passou-se em finais
de 1369. Quando esta 1ª guerra fernandina acabou, em 1371,
com a paz de Alcoutim, é natural que D. Fernando tenha
confiscado os bens da coroa de Diogo Gonçalves, portanto
o senhorio de S. João de Rei, se é que já
não o tinha feito antes. Quando o pai foi morto, Lopo
Dias teria 6 anos de idade. A razão porque o rei decidiu
restituir-lhe o senhorio paterno em 1383 também parece
evidente, como ficou dito: por um lado, o filho estava inocente
da traição do pai; por outro, sobretudo, estava
noivo ou recém-casado com a filha do grande Aires Gomes
da Silva, seu estimado aio, que fora alferes-mor e então
era justamente alcaide-mor de Guimarães.
Portanto, em 1383, ainda no reinado de D. Fernando, já Lopo
Dias, com cerca de 20 anos, era senhor de S. João de Rei, bem
assim como da referida torre do Crasto, onde devia viver (documenta-se
a viver com sua mulher nesta torre em 1391) e demais bens de
raiz de seu pai, entre os quais se incluía a quintã e torre
de Vasconcellos (Amares). E D. Fernando ainda lhe fez mercê
do castelo de Lindoso. Mas então ainda não tinha herdado de
sua mãe os senhorios da vila do Souto de Riba do Homem (Amares)
e de Entre-Homem-e-Cávado, sendo certo que neles sucedeu, pois
deu-os em segurança do dote de sua filha D. Maria. Com efeito,
sua mãe ainda vivia a 18.3.1391, quando, referida como «aldonça
coelha madre de Lopo diaz d Azevedo», D. João I lhe confirmou
o senhorio e couto do Souto de Riba de Homem, «o qual diz
foe coutado e p.ujligiado p el rrey dom afom de Bolonha com
a R.a dona briatiz sua molher a joham soarez coelho p.a elle
p.a todos que depôs elles vieram seg.do mjlhor mais p.damente
he theudo no dcto piujllegio E que husando assy do dcto aldonça
coelha que el rrey dom Pedro nosso padre a que d.s pdoe lhe
mandou deuasar o dcto couto e tomar a jurdiçam delle per o seu
almoxarife de ponte de lima por mal que queria o dcto Rey nosso
padre a pêro coelho seu jrmaao por a morte de dona Inês E que
des entom aaca lhe foe deuasado e tomada a dcta jurdiçam».
Apesar da sua juventude, logo a 20.5.1384, portanto muito antes
de Aljubarrota (14.8.1385), o mestre de Avis fez graça e mercê
a «Lopo diaz scudeiro nosso vassallo» do senhorio de
juro e herdade das Terras do Bouro, pelos «mujtos s.ujços
que del recebemos entendemos mais de receber ao diante»,
com todos os seus direitos, para si e seus descendentes, podendo
fazer dela o que quiser, «assy como de sua cousa propria».
E uns meses depois, a 15 de Setembro do mesmo ano, o mestre
voltou a premiar a «Lopo diaz d azevedo nosso vasallo»,
dando-lhe os senhorios de juro e herdade da Terra de Aguiar,
com o seu castelo, e de Jales (e Alfarela), para todo o sempre,
com todos os direitos e jurisdições, salvo as apelações, alçada
e correição.
Estas doações não se entendem na data em que foram feitas, porque
então ainda o mestre de Avis não tinha essas terras, que eram
de Aires Gomes da Silva, nem dominava o Norte. Aliás, o alcaide-mor
de Guimarães era justamente Aires Gomes da Silva, que só entregou
o castelo, estando cercado, em Maio de 1385. Por outro lado,
são doações demasiado vastas para serem entregues a um jovem
de cerca de 21 anos. Só se entendem, na verdade, porque
Lopo Dias de Azevedo estava casado com uma filha de Aires Gomes
da Silva, que porventura até lhas teria prometido em
dote (pelo menos parte), procurando assim o mestre de Avis não
só manter na família bens da linhagem como dar um sinal a outros
nestas circunstâncias.
De resto, o próprio D. João I haveria de devolver os senhorios
de Aguiar e Bouro a Aires Gomes da Silva e seu filho Afonso
Gomes da Silva, logo após o acordo segundo o qual Aires Gomes
lhe entregou o castelo de Guimarães, em Maio de 1385. Lopo Dias
de Azevedo estaria decerto com D. João I no dito cerco, pelo
que teria sido com o seu acordo que estas terras voltaram ao
sogro e cunhado. Mas Aires Gomes da Silva morreu pouco depois
e seu filho Afonso Gomes da Silva passou a Castela, pelo que,
a 24 de Agosto desse ano, D. João I voltou a entregar Aguiar
e Bouro a Lopo Dias de Azevedo, por requerimento deste, argumentando
justamente a morte de Aires Gomes e o «desserviço» de
Afonso Gomes. Motivos que também levaram D. João I, a 5 de Setembro
seguinte, a doar a João Gomes da Silva, senhor de Vagos, sobrinho
paterno de Aires Gomes, todos os bens que este tinha em Guimarães,
«saluo daquelles de que auemos fcta mercee a mee Ro.z de
uasconcellos e a Lopo diaz d Azevedo». Mais tarde, a 11
e 27 de Fevereiro de 1412, o mesmo confirmou-lhe a terra de
Meinedo e os bens móveis e de raiz que Aires Gomes da Silva
tinha em Guimarães, também com excepção dos que tinha feito
mercê a Mem Rodrigues de Vasconcellos e Lopo Dias de Azevedo,
doações que lhe fizera (provavelmente também em 1385). Nestas
cartas diz que Aires Gomes da Silva estivera em deserviço e
«despois a dcta dona orraca sua molher e seu filho afom gomes
se forom pa nossos Jmiguos», o que de alguma forma vem confirmar
que Afonso Gomes da Silva era então (1385) o único filho varão
vivo, não havendo outro filho com geração que pudesse suceder.
Mas, por outro lado, documenta-se nestas cartas que Aires Gomes
teve mais do que um filho, pois refere-se aí «airas gomez
e sua molher e filhos», o que significa que este plural
se refere a Afonso Gomes e uma ou mais irmãs, sendo D. Joana
Gomes da Silva a única irmã que assim se documenta.
Lopo Dias de Azevedo, como dizem todas as genealogias e se documenta
bem, casou com D. Joana Gomes da Silva, matrimónio que se terá
realizado em 1383 ou inícios de 84, data que estimo pelas
circunstâncias já referidas, mas também porque seu bisneto Diogo
de Azevedo nasceu cerca de 1444. Sendo que a 1.0.1472 D. Afonso
V confirmou a Diogo de Azevedo, fidalgo da sua Casa, filho que
ficou de Diogo Lopes de Azevedo, a terra de Aguiar e Pena, com
todas as suas rendas, tributos e direitos, com jurisdição do
cível e crime, reservando o monarca para si a correição, alçada
e as sisas da dita terra, isto sem prejuízo de qualquer direito,
que lhe pertencia por doação de D. João I ao seu bisavô Lopo
Dias.
O problema é que o Livro de Linhagens do Séc. XVI (e
na sua esteira as outras genealogias) diz que Joana Gomes da
Silva era sobrinha (e não filha) de Aires Gomes, pois dá-a
como irmã do já referido João Gomes da Silva, senhor de Vagos
(23.4.1384), ambos filhos de Gonçalo Gomes da Silva, senhor
de Vagos (meio-irmão de Aires), e de sua mulher Leonor Gonçalves
Coutinho (filha de Gonçalo Martins Coutinho). Este Gonçalo Gomes
da Silva foi alcaide-mor de Sabugal e Montemor-o-Velho por D.
Fernando I e depois por D. João I, a quem aclamou nas Cortes
de Coimbra de 1385, de quem foi embaixador ao Papa Urbano VIII,
e de quem recebeu, de juro e herdade, os senhorios de Tentúgal
e Buarcos (18.3.1384) e Cantanhede (31.8.1384). Teve várias
outras mercês e foi o senhor de Nespereira, por cartas de 7.5.1368
e 30.8.1370 do rei D. Fernando I.
Esta proximidade (ser filha ou sobrinha) dificulta uma conclusão
segura, sendo certo que a filiação de D. Joana Gomes da Silva
não se documenta, apesar de ela própria se documentar bem e
com este nome. Contudo, há um factor que é determinante para
se concluir que D. Joana era filha de Aires Gomes: a sucessão
no solar da família, a honra e quintã da Silva.
Sabemos que a honra e quintã da Silva era propriedade de Aires
Gomes, pois D. Pedro I confirmou-lha a 29.9.1358 e 15.7.1359.
De facto, esta honra andava então noutra linha, pertencendo
a Gonçalo Rodrigues de Abreu (que a teve por sua mãe Maria Rodrigues
da Silva, irmã de Aires Gomes da Silva, o Velho, que se refere
adiante). Na primeira daquelas datas D. Pedro I mandou entregar
a «qujtaa da silua que he no almoxarifado de ualença
de Riba de mjnho a airas gomez da silua seu vasallo ayo do Jffant
ferna.do». E na segunda data confirmou ao mesmo a dita quintã,
«que foy de g.o roiz d aaureu», para si e seus sucessores,
como «sua herdade propria», com todas as suas pertenças
e direitos.
A quintã da Silva era assim um bem livre de Aires Gomes da Silva,
não carecendo portanto de posteriores confirmações reais. E
onde a vamos encontrar, alguns anos após a morte de Aires Gomes?
Justamente na posse de D. Joana Gomes da Silva e seu marido
Lopo Dias de Azevedo, que a 8.12.1413 a doaram a sua filha D.
Maria.
Sem uma nova doação real (que não existe), a quintã da Silva
só podia passar a D. Joana por doação de seu pai, talvez em
dote de casamento, documento privado que não perdurou. Não existe
outra explicação. Pelo que a posse da quintã da Silva por D.
Joana prova que ela era filha e não sobrinha de Aires Gomes.
Prova esta que remata, por assim dizer, todo o conjunto de fortes
indícios que ficaram referidos.
E a isto acresce, como prova negativa, a cronologia de Leonor
Gonçalves Coutinho, mulher de Gonçalo Gomes da Silva, que o
LLXVI dá como pais de D. Joana. Tendo casado, como vimos, cerca
de 1383/4 (e nunca antes, sendo certo que já estava casada,
e há muito, em 1391), D. Joana terá nascido cerca de 1368/70,
e nunca antes de 1363, como vimos. O que praticamente impede
que possa ser filha de Leonor Gonçalves Coutinho, nascida cerca
de 1320. A propósito, D. Joana não podia, também, ser
filha do 1º casamento de Aires Gomes da Silva com Mor Pires
Valha (Palha ou Varela), também nascida cerca de 1320. Pelo
que só podia ser filha do seu 2º casamento com D. Urraca Mendes,
irmã de D. Pedro Tenório, arcebispo de Toledo (1377-1399) e
bispo de Coimbra (1371), com quem se documenta casado a 19.9.1368,
quando o casal recebeu de D. Fernando I mercê da quintã de Palma,
no termo de Monforte. Sabendo-se também que D. Urraca passou
viúva a Castela, com seu filho, em meados de 1385. D. Joana
era, portanto, a única irmã inteira de Afonso Gomes da Silva,
que passou a Toledo, onde se chamou D. Alfonso Tenório da Silva,
foi adelantado de Cazorla e lá morreu em 1430 (data
do inventário de seus bens), sendo pai do conde de Cifuentes
(1454) D. João da Silva, com ilustríssima geração.
Do 1º casamento de Aires Gomes da Silva nasceu Gonçalo Gomes
da Silva, a quem D. Fernando I doou a 8.2.1379 o senhorio de
juro e herdade de Aguiar, «por muitos e estremados serviços
que recebemos de airas gomez da silva, nosso vasallo e alferes
moor, seu padre», e que faleceu sem geração pouco depois,
antes de 18.11.1382, data em que o senhorio de Aguiar já estava
na posse de seu pai. E deste 1º casamento deve ainda ser filha
a mulher de Gonçalo Marinho, dito genro de Aires Gomes e que
com ele estava no castelo de Guimarães quando D. João I o cercou
e que depois se fez frade, sem geração.
E é certo que, quando morreu, Aires Gomes só tinha um filho
vivo (Afonso Gomes) e nenhum neto paterno, pois isso mesmo é
dito na referida carta a João Gomes da Silva de 1385. Os Azevedo
de S. João de Rei serão portanto a única descendência de Aires
Gomes da Silva que ficou em Portugal. E a honra e quintã da
Silva passou, por eles, à Casa da Trofa.
Resta
acrescentar que Aires Gomes da Silva, dito o Grande, nas palavras
de Fernão Lopes «avia fermoso corpo e bem pareçemte»
e «trazia grão casa de fidalguos». Foi alferes-mor do
reino (1371) e aio do rei D. Fernando. Além de alcaide-mor de
Guimarães (10.4.1367), foi-o de Santarém (3.6.1357), Valença
(8.4.1367), e Cerveira (7.9.1367). Foi ainda senhor de juro
de herdade de Unhão, Vilar do Torno, Manhucelos, Atães, Vila
Cais, Brunhais e Regilde (8.4.1367), de Cepães (15.9.1367),
de Meinedo (22.12.1371), etc. Teve mercê dos direitos e rendas
de Leiria (12.4.1373) e da terra de Loureiro, em Guimarães (16.7.1373).
Sabemos também que foi senhor de Santo Tirso de Meinedo, que
o mestre de Avis doou a 4.8.1384 e Estêvão Lourenço de Grade.
O conde D. Pedro chama-lhe Aires Gomes da Silva, o Moço, mas
tal alcunha não se documenta, ficando certamente a dever-se
ao facto de que, quando o conde morreu (1354) este Aires Gomes
ainda era moço, ao contrário de seu primo-direito homónimo,
bem mais velho, a quem por isso chamou o Velho. Outras genealogias
chamam-lhe o Grande, e isto sim, já se documenta, logo na primeira
carta que sobre ele existe na Chancelaria de D. Pedro I, de
3.6.1357, onde este rei manda entregar o castelo de Santarém
a «airas gomez da silva o grande seu uasallo». E aqui
grande estaria por tamanho e não grandeza pessoal, que
então ainda não se evidenciara. Braamcamp identifica este alcaide-mor
de Santarém com o Aires Gomes, o Velho, mas não há nenhuma razão
para isso, bem pelo contrário. Aliás, em 1357 Aires Gomes, o
Velho, já devia ter falecido, devendo ser o Aires Gomes da Silva
cuja viúva, Maria Rodrigues (neste caso uma 2ª mulher), já tinha
falecido a 25.4.1365.
E, de facto, era necessário distinguir entre os dois primos
homónimos. O outro Aires Gomes, o Velho, nascido cerca de 1298
e falecido cerca de 1350, era filho de Martim Gomes da Silva,
o primogénito do 1º casamento de Gomes Paes da Silva. Já Aires
Gomes, o Grande, era filho do 1º casamento de João Gomes da
Silva, por sua vez filho do 2º casamento do dito Gomes
Paes.
Aires Gomes, o Velho, teve três filhos, segundo o conde D. Pedro:
Rui Gomes, Fernão Gomes e Afonso Gomes. Como já detalhou Braamcamp
Freire, cronologicamente este Rui Gomes da Silva não pode, como
diz o LLXVI, ser o homónimo que foi do Conselho de D. Afonso
V, senhor e alcaide-mor de Campo Maior e Ouguela (8.4.1435 e
23.11.1433) e faleceu depois de 1466. Na verdade, o Rui Gomes
mais antigo teve a 18.1.1364 mercê dos casais e vinhas que o
rei tinha em Pinheiro de Papízios e na quintã de Currelos, e
é certamente o Rui Gomes que em 1404 escambou uma quinta
no Machal, termo de Torres Vedras, por uma quinta e seus casais
em Currelos. Mas, pelas razões já referidas, o Rui Gomes
que foi alcaide-mor de Campo Maior também não pode ser filho
de Aires Gomes, o Grande, como quer Salazar y Castro e já Braamcamp
Freire contesta. Pelo que só podia ser neto de Aires Gomes,
o Velho, muito provavelmente filho (provavelmente natural) justamente
de Rui Gomes da Silva, acontecendo aqui o fenómeno usual em
genealogia de concentrar dois homónimos numa mesma pessoa.
A
propósito dos dois Aires Gomes da Silva, primos-direitos, convém
ainda esclarecer que o conde D. Pedro diz que o Velho casou
com Senhorinha Martins Redondo, filha de Martim Redondo, e o
Grande era filho de Senhorinha Álvares Redondo, filha do mesmo
Martim Gonçalves Redondo. Mas a repetição do prenome, e sobretudo
o patronímico dissonante e inexplicável, indicam claramente
que houve aqui uma confusão e que esta Senhorinha Álvares era
sobrinha e não filha de Martim Gonçalves Redondo, portanto filha
de seu irmão Álvaro Gonçalves Redondo (ou de Sequeira), alcaide-mor
de Neiva.
Voltando a Lopo Dias de
Azevedo, era o chefe desta linhagem e foi ainda senhor do couto
e quintã de Azevedo, solar da família, que recuperou por troca.
Com efeito, a 6.8.1391, vivendo na sua quintã do Crasto com
sua mulher D. Joana Gomes da Silva, trocou com João Rodrigues
Pereira a quintã de Pereira, no julgado de Vermoim, pela quintã
de Azevedo, com seus coutos e honras, no julgado do Prado.
Como ficou dito, Lopo Dias de Azevedo já tinha o senhorio de
S. João de Rei no reinado de D. Fernando I, mas não se conhece
a carta de confirmação do mestre, confirmação que no entanto
existiu («per c.tas dellas e sem ellas»), ainda D. João
era regedor, pois isso mesmo diz na confirmação que lhe fez
a 8.2.1388 das terras de Aguiar, Jales, S. João de Rei (esta
reconfirmada a 6 de Setembro seguinte) e Bouro, com seus coutos
e termos velhos e novos, todas as suas rendas, direitos, foros
e tributos e com todas as suas jurisdições cíveis e crime, mero
e misto império, ressalvando as alçadas, para sempre, pare ele
e seus descendentes «per linha djreta». Neste documento,
D. João I faz um breve mas interessante resumo dos serviços
de Lopo Dias: «leixou seus bees e se lançou cmnosco em o
cerco de lixboa e no s.ujo em todas estas querras que ouuemos
muj lealmente e s.ue oge em dia e foe conosco na batalha
(Aljubarrota)».
Lopo Dias foi ainda senhor das terras de Pereira, Abitureiras,
Azoia, Vila Nova de Anços, Stª Leocádia (14.4.1385) e do reguengo
de Alviela, no termo de Santarém (5.12.1387). A terra e quintã
de Pereira trocou-a pelo couto, quintã e honra de Azevedo com
João Rodrigues Pereira, como ficou dito. As restantes destas
terras, salvo Stª Leocádia, trocou-as a 11.5.1392 com o condestável
Nuno Álvares Pereira pelo senhorio de (Ribeira de) Pena.
Por escrituras públicas, confirmadas por D. João I a 3 e 4.7.1417,
Lopo Dias passou a seu filho João Lopes de Azevedo primeiro
o senhorio de Aguiar de Pena e depois os de S. João de Rei e
Bouro, os quais, por morte deste João, foram a 26.3.1423 (a
pedido de sua viúva Leonor Leitão) e a 11.3.1435 confirmados
ao respectivo filho Diogo Lopes de Azevedo, ainda menor naquela
primeira data (1423).
Lopo Dias ainda vivia a 22.11.1437 quando D. Afonso V confirmou
a nomeação de Gonçalo Anes, criado de Lopo Dias de Azevedo,
para o cargo de escrivão dos órfãos do julgado de Aguiar. E
parece que terá morrido depois de 13.5.1441, data em que D.
Afonso V perdoou a justiça régia a Fernão Martins, criado de
Martim Vasques da Cunha, culpado das mortes de Gonçalo Vasques,
Luís Vasques e Afonso Anes, na sequência de um arroído entre
Lopo Vasques e Martim Vasques, irmãos, com Lopo Dias de Azevedo
e com o abade de Fonte Arcada.
As
genealogias tardias são muito afoitas a atribuir a Lopo Dias
uma carrada de filhos, mas a documentação disponível aponta
para que tenha tido apenas os filhos que lhe aponta o LLXVI,
a saber: João Lopes de Azevedo (falecido em 1423, em
vida de seu pai), Martim Lopes de Azevedo (que terá
falecido novo e foi pai de Diogo de Azevedo, que herdou a quintã
de Azevedo e a vila do Souto), Fernão Lopes de Azevedo (comendador-mor
da Ordem de Cristo e embaixador ao Papa Eugénio IV), Lopo
de Azevedo (cavaleiro do infante D. Pedro em 1442), D.
Maria (Coelho) de Azevedo (nascida cerca de 1390, com geração
na Casa da Trofa), Luiz de Azevedo (do Conselho e vedor
da fazenda de D. Duarte e D. Afonso V, que esteve em Alfarrobeira
com D. Pedro, do que teve perdão a 18.7.1452, e morreu antes
de 20.8.1468), e D. Filipa de Azevedo, casada com Luiz
Gonçalves Malafaia, rico-homem, do Conselho e vedor da fazenda
de D. Afonso V, contador-mor de Lisboa, etc., já falecido a
13.11.1469.
Como
corre muito erro sobre a genealogia deste Luiz Gonçalves
Malafaia, aproveito para esclarecer a questão. Dado como
um dos «12 cavaleiros de Inglaterra», sobre ele
é certo que se documenta como Luiz Gonçalves,
do Conselho e vedor da fazenda, desde Março de 1441,
cargo em que tinha sucedido a seu irmão Pedro Gonçalves.
A 18.4.1457 D. Afonso V doou vitaliciamente a D. Martinho de
Ataíde, conde de Atouguia, pelo seu casamento com D.
Filipa de Azevedo, donzela da infanta D. Catarina, filha de
Luiz Gonçalves, rico-homem, do seu Conselho, vedor da
Fazenda, uma tença anual de 20.000 reais. A 23.10.1459
o mesmo rei informou Luiz Gonçalves, rico-homem, do seu
Conselho, vedor da fazenda da cidade de Lisboa, sobre a ordenação
régia que determina os pagamentos, as gentes e os mantimentos
que deviam embarcar nos navios que iam em socorro da cidade
de Ceuta e da vila de Tânger, ordenando-lhe que a guarde
e cumpra. A 13.11.1469 confirmou a Diogo Fernandes de Almeida,
por seu procurador Lopo de Almeida, seu pai, um instrumento
de avença e transacção, feito entre ele
e D. Filipa de Azevedo, que foi mulher de Luiz Gonçalves,
rico-homem, e Afonso Telles e sua mulher, sobre os bens de raiz
que pertenceram a João Fernandes Pacheco, dos quais o
rei doara a Diogo Fernandes umas casas em S. Martinho, da cidade
de Lisboa. Finalmente, a 22.10.1464 D. Afonso V nomeou Paio
Rodrigues, do seu Conselho, para o cargo de contador-mor de
Lisboa, em substituição de Luiz Gonçalves,
rico homem, do seu Conselho, que morrera. Temos, portanto, que
se documenta sempre apenas como Luiz Gonçalves. E o mesmo
acontece com seu irmão Pedro Gonçalves, que já
era vedor da fazenda de D. João I a 14.7.1421. Então
consta como vassalo, mas em 1422 já consta normalmente
como cavaleiro vassalo. Manteve o cargo no reinado de D. Duarte
até 1435, ano em que morreu, sendo substituído
por seu irmão Luiz. Foi do Conselho de D. Duarte e aparece
referido como rico-homem, designação já
arcaica no séc. XV mas ainda usada (se bem que com um
sentido diferente, significando então muito mais pessoa
com altas funções na corte). Mas sempre apenas
como Pedro Gonçalves, nomeadamente nas inúmeras
cartas que assina na chancelaria de D. Duarte. Sendo certo que
já tinha falecido a 29.7.1440, quando D. Afonso V confirmou
uma carta de privilégio de D. Duarte de 21.7.1436 a Isabel
Gomes da Silva, mulher que foi de Pedro Gonçalves, do
Conselho, vedor da fazenda, para um caseiro, mordomo, apaniguado
ou lavrador, que viver ou lavrar, em cada uma das suas herdades,
quintas ou casais na comarca da Estremadura, com diversas isenções
e privilégios. Aparece contudo uma vez como Malafaia,
muito depois da sua morte, numa carta de 8.7.1451 em que D.
Afonso V nomeou novamente Diogo Afonso, criado que foi de Pedro
Gonçalves Malafaia, para o cargo de recebedor e vendedor
do sal da vila de Lagos. E também com este nome aparece
um João Gonçalves Malafaia, que foi assassinado.
Com efeito, a 4.5.1462 D. Afonso V perdoou a justiça
régia e concedeu carta de segurança a João
Lopes, Afonso Lopes e Fernão Lopes, irmãos, moradores
em Aveiras de Fundo, termo da cidade de Lisboa, culpados da
morte de João Gonçalves Malafaia, morador em Santa
Iria, sendo degredados por três anos para a vila de Alcácer
em África e inscritos no livro dos homiziados. Este é
certamente o João Gonçalves, morador em Santa
Iria, referido numa carta de 18.11.1454, na qual D. Afonso V
perdoou a justiça régia e a fuga da prisão
e concedeu carta de segurança a Fernão Rodrigues,
criado e escudeiro da sua Casa, por ter ferido João Gonçalves,
morador em Santa Iria, termo da cidade de Lisboa, contanto que
se livre de direito do que era acusado. Seria porventura filho
de Pedro Gonçalves, talvez bastardo. Sendo certo que
não era o irmão deste Pedro, João Gonçalves,
capelão da Casa Real, cónego (documento-o apenas
como meio-cónego) da Sé de Lisboa, prior de Stª
Mª de Loures e deão do Cabido da mesma Sé,
de quem existe um selo armoriado (Malafaia) inventariado pelo
marquês de Abrantes. A 24.8.1451 D. Afonso V privilegiou
João Gonçalves, capelão da Casa Real, meio
cónego do cabido da cidade de Lisboa, concedendo-lhe
licença para andar de besta muar de sela e freio. A 4.2.1454
o mesmo rei perdoou a prisão a Constança Lopes,
moradora em Loures, por ter sido manceba de João Gonçalves,
prior de S. João de Loures, contanto que passe a viver
honestamente e apartada do dito clérigo. A 27.7.1456
e 10.2.1459 documenta-se como deão do Cabido da Sé
de Lisboa e prior de Stª Mª de Loures em documentos
da Colegiada de Stº Estêvão de Alfama que
têm o seu selo pendente, inventariado pelo marquês
de Abrantes. Alão não refere este clérigo
entre os irmãos de Pedro Gonçalves e Luiz Gonçalves,
dando-lhes apenas quatro irmãs: Catarina Gonçalves,
Beatriz Diniz, Isabel Gonçalves e Ana Diniz. Destas,
a única que documento como irmã (aliás
meia-irmã) é Catarina Gonçalves, como direi
adiante. Isabel Gonçalves diz Alão que foi casada
com um Nuno Martins do Carvalhal, o qual não é
referido nem conhecido na genealogia dos Carvalhal e de quem
não se conhece descendência. Eu suspeito que este
Nuno Martins, a ter existido, é o Nuno Martins que foi
legitimado por carta real de 26.7.1416, como filho de Martim
Gonçalves, escudeiro, e de Beatriz Anes, ambos solteiros.
Sendo portanto este Martim Gonçalves o filho de Fernão
Martins do Carvalhal. Fernão Martins do Carvalhal, escudeiro
da Casa do infante D. João, a 30.11.1430 documenta-se
com seu irmão Lopo Martins, arcediago de Évora,
como filhos de Martim Gonçalves, «tio de nuno aluarez
pireyra que foy condestabre» e herdeiro de uns bens em
Tavira que lhe deixara seu sobrinho Fernando Álvares
Pereira «jrmaão do dito conde». Nuno Martins,
portanto, seria meio-irmão legitimado e bem mais velho
do Nuno de Carvalhal que a 14.4.1492 foi nomeado juiz de fora
de Santarém e é dado pelas genealogias como um
dos filhos mais novos do antedito Martim Gonçalves (filho
de Fernão Martins). Quanto a Ana Diniz, que Alão
diz irmã dos Malafaia, dá-a casada com Rui Gomes
da Grã, que outras genealogias tardias dizem alcaide-mor
de Lisboa, coisa que não foi. A 20.10.1475 D. Afonso
V privilegiou Pedro Anes Peixoto, seu vassalo, morador em Azeitão,
termo de Sesimbra, a pedido de Rui Gomes de Grã, fidalgo
da Casa do duque de Viseu, concedendo-lhe aposentação
com sua honra sem ter atingido a idade de 70 anos. Deste casal
foi neto o célebre Doutor Rui da Grã, do Conselho
de D. Manuel I, desembargador do Paço, chanceler-mor
da Casa de Bragança e regedor das justiças d'el
rei, que em 1499 D. Manuel I nomeou-o para a comissão
de reforma dos forais. A irmã, Ana Diniz, diz Alão
que casou com Gonçalo Tavares. Na verdade, casou a 1ª
vez com Gonçalo de Tavares e depois de Gonçalo
Pacheco. Gonçalo de Tavares foi alcaide-mor de Portalegre
e tesoureiro das coisas de Ceuta, tendo falecido em 1439. A
22.1.1434 D. Duarte confirmou a Gonçalo de Tavares, tesoureiro
das coisas de Ceuta, uma carta de 12.12.1387 que D. João
I dera a seu pai Martim Gonçalves de Tavares, seu criado
e vassalo, morador em Portalegre, na qual lhe confirmava a coutada
e quintã do Azinhal, como sempre fora no tempo dos reis
passados, bem assim como lhe coutava todas as herdades que ele
comprou ao redor, para acrescentamento dela, a saber: as herdades
de Moxano, de Andreu das Cabeças, do Ruivo, de Bonçou,
de Bouzieiro e da Aceiceira. A 12.8.1439 D. Afonso V confirmou
a Gonçalo de Tavares, criado do rei D. Duarte e alcaide
do castelo de Portalegre, uma carta de D. João I a seu
pai Martim Gonçalves de Tavares e confirmada por D. Duarte
(19.1.1434), coutando-lhe a seu pedido uma herdade e quinta
no termo do lugar de Marvão. A 22.4.1441 D. Afonso V
confirmou a Ana Dinis, viúva de Gonçalo Tavares,
a coutada de uma herdade e quinta em Portalegre, a pedido de
Gonçalo Pacheco, alcaide-mor do castelo de Portalegre,
seu actual marido. Este Gonçalo Pacheco, escudeiro do
infante D. Henrique, foi também tesoureiro das coisas
de Ceuta na cidade de Lisboa e alcaide-mor de Portalegre, bastante
documentado entre 1439 e 1475. Temos finalmente Catarina Gonçalves,
que Alão diz ter casado com Álvaro Nogueira, sem
geração, contestando «um nobiliário»
que lhe dá um filho. E tem Alão toda a razão,
pois a 21.11.1424 D. João I doou a seu filho o infante
D. João os paços e quinta de Belas, no termo de
Lisboa, com sua terra, direitos, pertenças e igreja,
dizendo que tudo comprara por 6.000 coroas de ouro a Maria Anes,
mulher que foi de Gonçalo Pires, com consentimento e
autoridade de seus filhos. Acrescenta o rei nesta carta que
depois desta compra casou Álvaro Nogueira, filho de Afonso
Anes Nogueira, do seu Conselho, com Catarina Gonçalves,
filha dos ditos Gonçalo Pires e Maria Anes, e lhe deu
em casamento 6.000 coroas de ouro, entregando-lhe os ditos paços
e quinta de Belas enquanto lhas não pagasse. Porém,
tendo agora morrido Álvaro Nogueira, sem geração,
herdou seu pai Afonso Anes Nogueira metade e sua viúva,
a dita Catarina Gonçalves, a outra metade, pelo que D.
João I pagaria 3.000 a cada e doava Belas a seu filho
o infante D. João. Portanto, Catarina Gonçalves
era filha de Gonçalo Pires, que foi senhor dos paços
e quinta de Belas, e de sua mulher Maria Anes, que como veremos
era a última. Alão diz que Gonçalo Pires
já tinha sido escrivão da chancelaria de D. Fernando
I, mas não encontrei prova disso. Embora estou certo
que Gonçalo Pires já no reinado deste rei era
um legista que desempenhava na chancelaria algum cargo menor.
Gonçalo Pires terá nascido cerca de 1350 e faleceu
antes de 21.11.1424. No início de 1386 ocupava o alto
cargo de escrivão da Chancelaria de D. João I
e no final desse ano era vedor da fazenda. Em 1394 ocupava o
não menos alto cargo de escrivão da Chancelaria
da Casa do Cível de Lisboa. A 15.3.1386 D. João
I doou a Gonçalo Pires, seu vassalo e escrivão
da sua chancelaria, pelos muitos serviços que recebeu
e ainda entendia receber, a quintã da Labruja a par da
Golegã, para si e seus descendentes, de juro e herdade,
quintã que fora de Fernão Gomes da Silva. E já
dois dias antes lhe doara, para si e seus herdeiros, todos os
bens que confiscara ao dito Fernão Gomes da Silva e sua
mulher, que estavam em desserviço, salvo Oliveira, que
já tinha doado a Gomes Freire (de Andrade). Pouco depois
Gonçalo Pires passou a vedor da fazenda, pois a 8.10.1386
D. João I doou a Gonçalo Pires, seu vassalo e
vedor da fazenda, as lezírias de Pero Cabe e de Vereceira,
nas lezírias dos Francos, a par de Azambuja, também
para si e seus descendentes, de juro e herdade. A 8.7.1389 D.
João I doou a Gonçalo Pires, seu vassalo e vedor
da fazenda, a Corte da Figueira, no Paúl de Muge, termo
de Santarém. Já era escrivão da Chancelaria
da Casa do Cível de Lisboa quando a 23.5.1394, a seu
pedido, D. João I lhe deu a administração
de um morgadio em Alcácer do Sal, instituído por
Aires Vasques e sua mulher Maria Anes. Na petição,
diz Gonçalo Pires que os instituidores nomearam administrador
João Lourido, e este nomeou seu sucessor Vasco Martins,
escudeiro, parente dos instituidores, e que a instituição
só previa duas nomeações, esgotadas as
quais passava ao rei o direito de nomear o administrador, nomeação
que pedia para si, por estar casado com Elvira Vasques, filha
mais velha do dito Vasco Martins, escudeiro, o que o rei concedeu.
Como vimos, voltou a casar com Maria Anes, que estava sua viúva
a 21.11.1424. Seu filho mais velho, Pedro Gonçalves,
já vedor da fazenda em 1421, não nasceu depois
de 1390, o mesmo se podendo dizer para Luiz Gonçalves.
Não podem portanto restar dúvidas de que eram
filhos da 1ª mulher Elvira Vasques, e não da 2ª,
Maria Anes, a única que as genealogias conheciam. Esta
questão é muito importante, pois ajuda a perceber
o início da meteórica ascensão social destes
Malafaia. O que dizem as genealogias tardias sobre a origem
dos Malafaia é pura fantasia. Os nobiliários mais
antigos não os tratam, apenas os referindo a propósito
dos casamentos que fizeram. Só Alão os trata autonomamente,
e mesmo assim, muito significativamente, chamou o respectivo
título de Azevedos Malafaias, começando-o no escrivão
Gonçalo Pires, que não filia. Só as genealogias
tardias, sem nenhum fundamento, identificam o nome Malafaia
como um locativo, derivando-o de uma pretensa honra de Malafaia,
quando ele é claramente uma alcunha. Por outro lado,
não só não se documenta nenhuma honra de
Malafaia como as quintas da Malafaia que existem são
todas no Norte e na Beira e bem posteriores, sendo que os Malafaia
originais estão bem localizados a sul. Acresce a isto
que Gonçalo Pires em nenhuma circunstância se documenta
como Malafaia. E o mesmo acontece com seu filho Luiz, bem assim
como seu filho Pedro, que inclusive assinam muitas vezes. Como
ficou dito, Pedro Gonçalves aparece uma única
vez como Malafaia, já depois de morto. É certo
que o reinado de D. João I foi pródigo no aparecimento
de novas famílias com ascensão vertiginosa, quer
vindas da pequena nobreza quer da burguesia nobilitada ou da
chamada nobreza de toga ou de função. Mas essa
ascensão está sempre ligada a uma condição
necessária: sucessivos bons casamentos. Ora, não
há dúvida de que Vasco Martins, o primeiro sogro
de Gonçalo Pires, era fidalgo. Nesta época, a
designação de escudeiro, sem mais (ou seja, sem
ser escudeiro de alguém, nomeadamente da Casa Real),
correspondia à de escudeiro de linhagem. Não sei
ainda de que linhagem era Vasco Martins, podia ser da pequena
nobreza, possivelmente até era, mas não há
dúvida de que era fidalgo. Sobre isto acresce que só
teve filhas, sendo Elvira Vasques a primogénita e sucessora,
argumento usado por Gonçalo Pires para pedir e obter
a administração do morgadio de seu sogro. O prestígio
pessoal e cargos de Gonçalo Pires acrescidos da representação
da mulher na linhagem paterna terão levado à nobilitação
de uma nova linhagem. Em geral corre muita confusão entre
o que era a nobilitação pessoal e a nobilitação
de uma linhagem. Mas, como se pode documentar bem nos casos
em que desta ficou documentação, são coisas
bem distintas. De facto, a nobilitação pessoal
não era hereditária. Em todos os casos de nobilitação
de linhagem, o agraciado já era nobre, nomeadamente cavaleiro
da Casa Real, às vezes há muitos anos. E até
podia ter armas, uma vez que estas não eram exclusivas
da nobreza, sendo também extensivas nomeadamente à
alta burguesia. O que a nobilitação da linhagem
fazia era tornar nobre não o indivíduo mas a família,
ou seja, todos os seus descendentes masculinos. Dando-lhe novas
armas ou tornando as suas armas (nomeadamente burguesas) em
armas nobres. Nos casos em que ficaram as respectivas cartas,
verifica-se que essa nobilitação da linhagem criou
sempre um novo nome para a nova linhagem. Infelizmente não
havia nesta cronologia o hábito de registar essas nobilitações
na chancelaria, pelo que não se conhece nenhuma carta
desta época. Mas o já referido selo do cónego
João Gonçalves, inventariado pelo marquês
de Abrantes, deixa bem patente que se trata de uma Heráldica
construída, ou seja, resultante de uma carta de armas
e portanto de uma nobilitação. Com efeito, as
armas do selo são completamente dissonantes com a Heráldica
sigilar da época, quer nas proporções,
quer na aparência, quer no uso de timbre, coisas que aliás
o marquês de Abrantes já assinala. Esta nobilitação
terá acontecido no final da vida de Gonçalo Pires,
sendo mais do que provável que então tenha sido
dado à linhagem o nome Malafaia, ou seja, a alcunha porque
eram conhecidos. Por que razão, então, não
passaram os filhos a constar, desde aí, como Malafaia
na documentação? Há várias explicações
possíveis para este facto, desde logo, a inércia,
porque, sendo todos já adultos e bem conhecidos, a tendência
seria a de continuar a trata-los como sempre tinham sido tratados.
Este fenómeno verifica-se em outros casos. Não
sei que significado tinha Malafaia no 1º quartel do séc.
XV. Hoje, segundo a GELB, quer dizer pessoa insignificante.
Teria então o mesmo significado? Se tinha, não
devemos estranhar em demasia, pois eram bem cruéis as
alcunhas medievais, e no entanto eram usadas e muitas vezes
adoptadas. Mas seguramente que o facto de Pedro Gonçalves
e seus irmãos não de documentarem enquanto vivos
como Malafaia não quer dizer que repudiassem a alcunha
transformada em nome da linhagem pela nobilitação,
pois nesse caso teria sido escolhido outro nome para a linhagem.
Resta uma palavra para as alegadas irmãs que usaram o
patronímico Diniz. Em boa verdade, como ficou dito, não
as consegui documentar como filhas de Gonçalo Pires,
como diz Alão, e o patronímico dissonante carece
de ser explicado. A cronologia de Ana Diniz aponta o seu nascimento
para cerca de 1404/6. A cronologia de Beatriz Diniz aponta o
seu nascimento para cerca de 1407/10, posto que seu marido Rui
Gomes de Gram, como ficou dito, a 20.10.1475 não tinha
ainda atingido os 70 anos, pelo que terá nascido em finais
de 1405 ou inícios de 1406, não sendo razoável
pensar que a mulher fosse mais velha. Por outro lado, sabemos
que Catarina Gonçalves, que se documenta filha de Maria
Anes, 2ª mulher de Gonçalo Pires, já estava
viúva em 1423. Mesmo que tivesse enviuvado pouco depois
de casar (tanto mais que não teve filhos) e tivesse casado
cedo, dificilmente podemos aceitar que Catarina Gonçalves
tivesse nascido depois de 1405. Tudo indica, portanto, que se
as manas de patronímico Diniz eram filhas de Gonçalo
Pires, e se eram legítimas, seriam do 2º casamento.
Se tivéssemos esta certeza, o patronímico Diniz
seria uma pista para tentar saber a filiação de
Maria Anes. Não tendo essa certeza, no actual estado
da questão só podemos dizer que Ana Diniz e Beatriz
Diniz, no caso de serem filhas de Gonçalo Pires, como
diz Alão, ou eram filhas do 2º casamento (faltando
explicar o patronímico) ou eram bastardas (neste caso
filhas de mulher com patronímico Diniz, que seguiram).
Voltando
a Lopo Dias de Azevedo, entre os filhos que as genealogias tardias
lhe dão está uma Joana de Azevedo, casada com Martim Coelho,
senhor de Felgueiras e Vieira (antes de 1449), e com Fernão
de Crasto, alcaide-mor de Melgaço (26.6.1483). Mas há aqui erro
evidente. Desde logo, a Joana de Azevedo que casou com Fernão
de Castro era filha de Lopo de Azevedo, portanto neta de Lopo
Dias, como esclarece Afonso de Torres. Quanto à mulher de Martim
Coelho, não há dúvida que se chamou Joana de Azevedo, pois a
27.3.1454 D. Afonso V concedeu carta de privilégio a Joana de
Azevedo, fidalga, mulher de Martinho Coelho, para todos os seus
caseiros, mordomos, amos, apaniguados e lavradores, isentando-os
do pagamento de diversos impostos, pedidos e encargos concelhios.
A questão é que este casamento não se realizou antes de 1444
e dificilmente D. Joana Gomes da Silva, nascida cerca de 1370,
teria filhos depois de 1410. Obrigando a que a filha, Joana
de Azevedo, tivesse também filhos até aos 40 anos. Tudo isto
é muito extremo, se bem que não impossível. Até porque, na verdade,
tudo indica que se trate da Joana de Azevedo, donzela da Casa
do conde de Barcelos, a quem a 30.8.1442 D. Afonso V doou uma
tença anual de 10.000 reais de prata, pagos pelo almoxarifado
régio de Vila Real, a partir de 1 de Janeiro de 1442, prometidos
aquando do seu casamento a seu marido, Diogo Soares de Paiva,
que morrera. Assim, terá casado uma primeira vez com Diogo Soares
de Paiva e só depois casou, cerca de 1444, com Martim Coelho,
o que torna mais aceitável a cronologia. Mas trata-se da mesma
Joana de Azevedo? As genealogias não referem Diogo Soares de
Paiva e dizem apenas que D. Joana de Azevedo, filha de Lopo
Dias de Azevedo, casou com Martim Coelho. Como vimos, a cronologia
só o permite, e mal, se este foi o casamento tardio com uma
viúva. Sendo que melhor se entenderia a cronologia se a Joana
de Azevedo que casou com Martim Coelho fosse afinal filha de
Diogo Soares de Paiva e de Joana de Azevedo, portanto neta e
não filha de Lopo Dias de Azevedo. Aliás, Aires Gonçalves Coelho,
5º senhor de Felgueiras, casou com D. Isabel de Castro, que
era trineta de Lopo Dias de Azevedo e sua mulher D. Joana Gomes
da Silva, pelo que o mais natural é que seu marido também fosse
deles trineto e não bisneto, como seria se a mulher de Martim
Coelho fosse filha e não neta de Lopo Dias de Azevedo. Há ainda
a hipótese desta Joana de Azevedo ser bastarda de Lopo Dias
de Azevedo, podendo assim ter nascido mais tarde.
Este
Martim Coelho nasceu cerca de 1423 e faleceu depois de 1468.
A 12.11.1445 D. Afonso V perdoou os vinte açoites públicos a
Vasco Afonso, criado e escudeiro de Martim Coelho, morador no
julgado de Vieira, por ter querelado de Gil Afonso, filho de
Afonso Anes de [Sangujedo], morador no dito julgado, contanto
que pague 1.000 reais para a Chancelaria. A 11.6.1449 o mesmo
rei doou a Gonçalo Pereira, fidalgo da sua Casa, as terras de
Felgueiras e de Vieira, que pertenceram a Martim Coelho que
as perdera por ter participado ao lado do infante D. Pedro na
batalha de Alfarrobeira. A 13.7.1451, contudo, parece que já
tinha os senhorios de volta, pois nessa data o rei perdoou a
justiça régia a Martim Coelho, senhor de Felgueiras, acusado
de fazer algumas assuadas, de derrubar uma casa e de roubar
uma quintã, tendo pago 200 reais de prata. Embora logo a 27.12.1451
o rei tenha doado para sempre a D. Fernando Coutinho, marechal,
as terras de Felgueiras e Vieira, com todas as suas rendas,
direitos, foros, tributos, emprazamentos, montes, fontes, rios,
pescarias, jurisdição cível, crime mero e misto império, reservando
para si a correição e alçada, que eram pertença de Martim Coelho
que as perdera porque participara na batalha de Alfarrobeira,
sendo posteriormente doadas a Gonçalo Pereira que morrera. Porém,
a 10.7.1464 o mesmo rei doou a Martim Coelho e Pedro Coelho,
a pedido de Catarina de Freitas, viúva de Fernão o Velho, morador
em Felgueiras, os bens que herdaram de seu pai e que o rei lhes
retirara quando combateram na batalha de Alfarrobeira do lado
do infante D. Pedro. Ainda vivia a 6.12.1468. quando foi nomeado
novamente Pedro Vasques, escudeiro de Martim Coelho, a pedido
dos homens-bons do concelho, para o cargo de escrivão das sisas
do julgado de Felgueiras (documento parcialmente ilegível).
Aquele
Diogo Soares de Paiva, nascido cerca de 1390/1400, tudo indica
que seja descendente directo da linhagem dos Paiva. Sobre ele
encontrei os seguintes dois documentos, além do já referido:
1) a 30.4.1440 D. Afonso V nomeou Lopo Reixa, escudeiro de Diogo
Soares de Paiva, fidalgo da sua Casa, para o cargo de escrivão
da dízima régia do pescado da terra de Paiva, assim como fora
no tempo de D. João I; 2) a 26.7.1442 o mesmo rei privilegiou
João Afonso, barbeiro, morador na cidade do Porto, por ter sido
servidor de Diogo Soares de Paiva, isentando-o de ser posto
por besteiro do conto e de ir com dinheiros. E este Diogo parece
irmão de João Soares de Paiva, cavaleiro da Casa do infante
D. Pedro e senhor de Golfar e de Casal de Álvaro (8.5.1450).
A 4.2.1440 D. Afonso V nomeou João Soares de Paiva, cavaleiro
do infante D. Pedro, para o cargo de vedor das trecenas régias,
na cidade do Porto, em substituição de Diogo Álvares, que fora
destituído do cargo por mandado régio. A 13.3.1441 o mesmo rei
privilegiou Afonso de Viseu, barbeiro, morador na cidade do
Porto, a pedido de João Soares de Paiva, cavaleiro da Casa do
infante D. Pedro, isentando-o de ser postos por besteiro do
conto. E a 8.5.1450 doou a João Soares de Paiva, em sua vida,
as aldeias de Golfar e Casal de Álvaro, em Riba de Águeda, com
todas as rendas, foros, direitos, pertenças e jurisdição, excepto
as correições e alçadas.
Fernão
de Crasto era filho de Martim de Crasto e sua mulher Leonor
Gomes Pinheiro (ver as minhas Reflexões sobre a origem dos
Pinheiro, de Barcelos
►),
os quais são referidos como «Martim de Clasto cavallero da
cassa do Senhor Duque de Bragança e de Lianor Gomez sua mulher
moradores na frreguesia de Sam Giãao de Çeraffãao» (hoje
S. Julião de Serafão, freguesia do concelho de Fafe), quando
a 27.6.1450 os seus três filhos mais novos (Gil Martins, Álvaro
Martins e Pedro Martins de «Clasto», ou seja, Crasto)
tiraram ordens especiais em Braga. Este Martim de Crasto, cavaleiro
fidalgo da Casa do duque de Bragança, alcaide-mor de Melgaço
e Castro Laboreiro, capitão em Ceuta (1415-19), etc., para ser
irmão (mais novo) de Lopo Dias, só podia ter nascido
em 1370, caso tivesse nascido póstumo. Se assim foi,
teria cerca de 80 anos de idade quando os ditos seus filhos
mais novos tiraram ordens especiais em Braga. Ou seja: o mais
novo destes filhos terá nascido cerca de 1438, tendo ele cerca
de 68 anos. è tardio mas está longe de ser inviável,
tanto mais que sua mulher (talvez a 2ª) nasceu cerca de
1412, pelo que seria cerca de 42 anos mais nova do que ele,
o que nessa época não é quase corrente. Gaio dá Martim de Crasto
como filho de Diogo Gonçalves de Castro («do Crasto»)
e de sua mulher Aldonça Coelho, fazendo depois, inexplicavelmente,
Diogo Gonçalves filho de um Afonso Pires de Castro, o que é
erro crasso.
Dizem
as genealogias que Fernão de Crasto (o marido da segunda Joana
de Azevedo) foi senhor dos coutos de Sanguinhedo e Parada e
alcaide-mor de Melgaço e Castro Laboreiro, etc. De Sanguinhedo
e Parada é certamente confusão. Mas, de facto, a 26.6.1483 D.
João II nomeou Fernando de Crasto, fidalgo da sua Casa, para
alcaide-mor de Melgaço. Como nasceu cerca 1428, teria então
55 anos. E parece-me que é também o Fernão de Crasto, fidalgo
da Casa Real, que a 4.10.1475 teve de D. Afonso V uma tença
anual de 2.000 reais de prata, e nove dias depois outra tença
anual de 4.000 reais, a juntar à quantia que já lhe fora dada
de 15.000 reais, o que, segundo as contas da própria carta,
perfaz a soma total de 19.000 reais.
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