A
perspectiva da andorinha
in
Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI,
Nº 1 - 1º Semestre 2008
O Estado, como hoje o entendemos,
é um fenómeno historicamente recente, saído da
mente dos ideólogos iluministas da Revolução Francesa,
se bem que as suas raízes já se possam encontrar em Maquiavel,
por exemplo. Face à integração em curso e à
actual tendência globalizante, o ciclo de vida do Estado jacobino
entrou claramente na sua fase final, sobretudo na Europa, onde nasceu.
E se o seu poder parece mais forte do que nunca, atropelando tudo e
todos, isso mais não é do que o estridente e agonizante
canto do cisne.
O Estado todo-poderoso e omnipresente tudo quer controlar e normalizar.
Sentimo-lo todos, quotidianamente, nas pequenas e nas grandes coisas,
num ciclo vicioso incapaz, pela sua natureza, de se auto-regenerar.
Por isso a defesa das liberdades é porventura a principal e mais
urgente batalha da modernidade, sobretudo em Portugal, que tem talvez
o Estado mais centralista da Europa e onde o povo se habituou doentiamente
a depender dele para quase tudo.
Mas se é previsível o fim do modelo do Estado idealizado
sobretudo no século XVIII, pode já não ser fácil
adivinhar a organização sócio-política que
lhe sucederá, de tal forma é ensurdecedor o vazio de ideais
que sobre o assunto não preocupa a intelectualidade hodierna.
Este debate, na verdade, está por fazer. Dirão os mais
esclarecidos que assim é porque nos ficou no inconsciente colectivo
a lição dos resultados do último brainstorm
dos iluministas franceses… Mas este cinismo, se tem o mérito
de nos alertar para os reais perigos do voluntarismo político,
tem o desmérito de deixar na mão dos manipuladores das
massas alienadas as decisões sobre o seu futuro, sem que estas
tenham a mínima consciência das implicações
dos votos de confiança que manifestam.
O Estado português, dados os particularismos da sua circunstância
histórica, pode bem ser apontado como o paradigma da fase final
do Estado jacobino, ponto a que os restantes chegarão, mais tarde
ou mais cedo. Aqui, mais até do que alhures, reduziu-se a democracia
a uma paródia eleitoral periódica, onde uma maioria de
votos acéfala e desinformada é chamada a escolher entre
pseudo-alternativas inviáveis, numa visão de curto prazo,
portanto necessariamente populista, com o objectivo final de escolher
um governo (só na teoria um Parlamento) que se vai comportar
como uma ditadura legitimada pelo voto popular e pelas instituições.
Situação agravada pela inexistência de uma sociedade
civil forte, livre e organizada, ou de uma tradição implantada
de contra-poderes institucionais e culturais. O que permite um Estado
absolutamente centralista (com excepção das ilhas, elas
próprias centralistas, distracção revolucionária
que, se pudesse, já teria exterminado…), com tiques de
autoritarismo que calham bem com a mentalidade quer do funcionário
público típico quer do português médio, que
é simultaneamente refilão e submisso, mas que infelizmente,
ao contrário dos nossos vizinhos espanhóis, não
é arrogante, no melhor e literal sentido de quem se arroga direitos
que considera seus, mesmo quando eles não lhe são reconhecidos
ou respeitados pelos outros (ou pela própria lei).
Mas a questão permanece: que evolução sócio-politica
sofrerá o Estado? O sentido geral dessa mudança perspectiva-se,
como parece indicar o fenómeno europeu e exigir a crescente globalização,
no sentido da criação de blocos governativos cada vez
mais alargados, a caminho do governo mundial da ficção
científica, ou, como alguns novos fenómenos independentistas
também indiciam, vamos assistir a um movimento de sinal contrário,
desagregador, mais humanizado, defensor do small is beautiful,
a caminho das comunidades de base?
Em rigor, estes dois caminhos só aparentemente são alternativos,
uma vez que quer os grandes blocos governativos, indispensáveis
à manutenção da paz, quer, por maioria de razão,
o governo mundial, pela sua própria natureza e circunstância
só podem funcionar na prática se fortemente sustentados
numa enorme descentralização efectiva, justamente baseada
nas comunidades de base e na sua enorme diversidade. Quanto mais vasto
for o espaço político unificado, mais geral e minimalista
tem de ser o quadro legal comum, deixando-se às comunidades de
base, organizadas de baixo para cima, a liberdade de se auto-regularem
como entenderem, defendendo e gerindo o seu próprio espaço.
A consequente desfragmentação não pode ser entendida
como um ónus mas sim como garantia da diversidade e das liberdades,
bem assim como a única alternativa verdadeiramente orgânica
e viável a uma intolerável sociedade centralista, unicista
e policial, coisa aliás impraticável, como o terrorismo
veio demonstrar.
Neste pano de fundo, que sentido futuro terão as nacionalidades?
O conceito é difuso e passível de várias intersecções,
razões pelas quais requer alguma desconstrução
efectiva, só possível justamente com uma nova realidade.
Não parece razoável nem desejável pensar para o
futuro uma organização sócio-política que
tenha por base os países ou sequer as nações, até
porque, sendo neles que os Estados estão instalados, se tornaria
mais difícil livrar-nos da sua pesada herança.
A reorganização sócio-política, a realizar
autónoma e livremente, de baixo para cima, deverá constituir
comunidades de base soberanas que funcionem como módulos. E estes
módulos é que se podem e devem federar segundo lógicas
transversais de vária ordem, entre as quais faz todo o sentido
estarem a Nação, a Língua, a Cultura e a História
comuns. Problemáticas que desde já podem começar
a ser equacionadas.
Mas, hoje e aqui, o que podemos realmente fazer, além de debater
o deplorável estado das coisas e perspectivar esses novos caminhos
de futuro? Pois bem: aceitar que o fim do Estado está próximo
e que, num tempo de esperança, os homens vão ser verdadeiramente
livres. E desde já, muitos ou poucos, prepararmo-nos, e às
gerações que nos seguem, para vivermos esse futuro à
nossa exacta medida.
Parece simples ser-se livre, mas não é. O anseio pelas
liberdades é cultural. Por isso, a natureza humana, imutável
como é, paradoxalmente aspira à liberdade e por regra
constrói as redes que peiam essa mesma liberdade. Em nome da
liberdade abstracta, quantas vezes se coarctaram as liberdades concretas!
Por isso ser livre é também ser responsável e pode
obrigar a que se pague o preço. Não se pode ser livre
e depois calar a verdade, por conveniência política, profissional
ou outra. Não se pode ser livre e aceitar passivamente o erro
para não prejudicar a carreira ou outra comodidade qualquer.
A Organização perdura já sobre todas as coisas
e nós deixamo-nos ir na corrente higiénica e morna, convencidos
de que escaparemos mais ou menos ilesos. Mera ilusão… Os
fins nunca justificam os meios. Pelo contrário, só os
meios justificam os fins.
Na verdade, esse é o grande erro do iluminismo e de todo o voluntarismo
político em geral: pensar que é possível controlar
os efeitos sociais da mudança estrutural, ou, por maioria de
razão, controlar os efeitos de toda a mudança estrutural.
Ao colocar a tónica da acção nos fins a atingir,
esqueceram-se de duas coisas fundamentais que a Humanidade já
tinha aprendido à sua própria custa:
1. que os efeitos negativos dos maus meios utilizados para atingir
bons fins são sempre, no final das contas, muito mais prejudiciais
do que são benéficos os fins por eles atingidos;
2. que os fins atingidos e os meios praticados se vão, por
sua vez, transformar em causas de outros fins não previstos
nem desejáveis, num processo infindável e incontrolável,
qual caixa de Pandora.
É
portanto, também, tempo de dizer não a todos os maquiavélicos
que hoje fazem carreira por toda a parte. E, um pouco como o cavaleiros
medievais, fazer votos de honra, ou seja, de nunca usar, em circunstância
nenhuma, seja qual for a bondade do fim a atingir, meios que não
consideremos bons.
Ou
seja, a mudança afinal pode ser mais difícil do que parecia,
pois vai ter que começar por nós… Na verdade, o
que hoje de mais importante podemos fazer é ter a coragem de
sermos livres, responsáveis e honrados. Mesmo que isso possa
parecer arrogante…
E,
afinal, quem disse que uma andorinha não faz a Primavera? Seguramente
não foi a andorinha!
Janeiro
de 2008