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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

Os Portocarreiro ou Portocarrero

Estudo complementar (1)

Escudo de armas dos Portocarreiro ou Portocarrero (Infografia de Manuel Abranches de Soveral)

Escudo de armas dos Portocarreiro ou Portocarrero

(infografia do autor)

Notável família portuguesa descendente de D. Raimundo Garcia, a quem o conde de Portugal D. Henrique de Borgonha doou o couto de Portocarreiro, senhorio de que tomou o nome. D. Raimundo Garcia de Portocarreiro nasceu cerca de 1090, e devia ser irmão de um D. Monio Garcia, documentado como senhor da quintã de Vilar, que integrava a honra de Portocarreiro, quintã essa que seguiu na descendência de D. Raimundo, pelo que aquele D. Monio não terá tido geração. Seriam assim ambos filhos de D. Garcia Afonso e de sua mulher D. Estevaínha Mendes, que a tradição genealógica diz terem sido grandes fidalgos asturianos, sendo este D. Garcia, ao que se julga, filho de um virtual D. Afonso Garcia e neto de outro D. Garcia Afonso, a quem o rei D. Ordonho III de Leão chama primo numa doação de 954 que fez à Igreja de Santiago de Compostela. Modernas investigações, sem negarem a origem asturiana de D. Garcia Afonso, dizem que terá sido ele a vir para o condado portucalense, onde terá refundado o mosteiro de S. Martinho de Soalhães, que de facto estava na posse dos netos de D. Raimundo, sendo aquele D. Garcia Afonso ou sua mulher provavelmente descendente do fundador inicial.

Bem documentado entre 1129 e 1153, D. Raimundo Garcia de Portocarreiro confirmou vários documentos régios e aparece como membro do concelho que governava Portugal, sendo indicado como um "de illos infançones qui erant in Porttucale". Numa questão julgada em Coimbra em 1153, sobre o mosteiro de S. Martinho de Soalhães, reuniram nessa qualidade D. Fernão Peres Cativo, D. Gonçalo Mendes de Souza, o arcebispo de Braga, os bispos do Porto, Lamego e Viseu, e os "infanções" D. Gonçalo Gonçalves, D. Raimundo Garcia, D. Sarracino Mendes Espina e D. Gosendo Moniz.

D. Raimundo fez no seu couto a honra e torre paçã de Portocarreiro. A torre, muito arruinada, ainda no séc. XIX existia na posse da família, situando-se na aldeia hoje chamada a Torre, em Vila Boa de Quires. A honra estendia-se por 34 casais ou vilas, incluindo as de Louredo, Souto, Aguelas, Granja, Vilar, Abragão, Agrela, Ribaçais, Vez de Aviz, Samil e Manseles, que durante muitos séculos se manteriam na família. O couto de Portocarreiro deu origem ao concelho de Portocarreiro, extinto definitivamente a 31.12.1853, que integrava as freguesias de Abragão, Maureles, S. Pedro e S. Nicolau de Canavezes, S. Pedro de Portocarreiro e Vila Boa de Quires. Sabe-se ainda que D. Raimundo foi alcaide do castelo de Sátão (Viseu) e, segundo o nobiliário do conde D. Pedro, "deu grand'algo a Mancelos", o que se confirma pelo facto dos seus descendentes serem naturais do mosteiro de Mancelos.

D. Raimundo casou, teria mais de 40 anos de idade, com D. Gontinha Nunes de Azevedo, das principais famílias portuguesas, que depois de viúva casou em segundas núpcias com D. Gomes Ramires Carpinteiro. Filha do célebre D. Nuno Paes de Azevedo, o "Vida", alferes-mor do conde D. Henrique, D. Gontinha era neta paterna de D. Paio Godins de Azevedo, da linhagem dos senhores de Baião, e de sua mulher D. Gontinha Nunes Velho, falecida em 1108, filha de D. Nuno Soares Velho, descendente da velha linhagem condal portuguesa dos Betotes, e de sua mulher D. Ausenda Todereis, também descendente das linhagens condais portuguesas, nomeadamente dos Souza.

Do seu casamento, D. Raimundo deixou apenas quatro filhas, duas freiras e outras duas casadas. Destas, a mais nova casou com D. Rodrigo Anes de Valladares, senhor de Penela, com geração nos Vasconcellos, que vieram a ser condes de Penela. A mais velha, que sucedeu na torre e honra de Portocarreiro e por quem passou o nome desta linhagem, chamou-se D. Ouroana Raimundes de Portocarreiro.

D. Ouroana Raimundes de Portocarreiro, 2ª senhora do couto de Portocarreiro e herdeira do mosteiro de S. Martinho de Soalhães, é referida numa sentença de 1290, segundo a qual tinha doado à Sé do Porto a quintã de Vilar do Fundo, sita na freguesia de Abragão, que pertencia ao seu couto de Portocarreiro. E já nas inquirições de 1288, no julgado de Portocarreiro, na freguesia de S. Pedro "d'Avragan", se diz que "a quintãa que chamam do Vilar do Fundo que foy de dona Ouroana com III casaaes mando-a aa See do Porto e trage todo a See por onrra per razom da onrra que ante avia". A sentença real mandou que fosse devassa, pois já não peretencia à família. D. Ouroana terá nascido cerca de 1140 e casou cerca de 1155 com D. Henrique Fernandes de Toledo, o Magro, senhor de muitos bens em Sever do Vouga e Cambra, que era descendente dos senhores de Marnel e, por eles, dos condes de Coimbra e da família real leonesa. Irmão mais novo de D. Elvira Fernandes de Toledo, segunda mulher, sem geração, do conde D. Mendo Veegas de Souza, D. Henrique Fernandes de Toledo era bem mais velho do que sua mulher, pois terá nascido cerca de 1110. Era filho do conde D. Fernando Afonso de Toledo, de origens moçárabes, e de sua mulher D. Urraca Gonçalves de Marnel, que os LL dizem filha de D. Gonçalo Viegas de Marnel, governador de Montemor (1017), senhor de Sever do Vouga, Canelas, Aveiro, Valongo, etc., falecido depois de 1057, e de sua mulher D. Chamoa Honoriques, 4ª neta do famoso pressor (878) e conde de Coimbra D. Hermenegildo Guterres e de sua mulher D. Ermesenda Gatones, neta do rei D. Ramiro I de Leão. É evidente, como já avisa Pizarro, que esta filiação é cronologicamente impossível. Urraca Gonçalves de Marnel não podia ter nascido antes de 1070. O que implica que não podia ser filha de Gonçalo Viegas de Marnel, mas sim sua bisneta, filha de seu neto paterno Gonçalo Eriz de Marnel e de sua mulher Onega Romarigues e neta paterna de Ero Gonçalves de Marnel e de sua mulher Ildôncia Mendes "Madredulce". Urraca Gonçalves seria portanto irmã de Paio Gonçalves de Marnel, documentado entre 1103 e 1145.

De D. Ouroana Raimundes de Portocarreiro e de seu marido D. Henrique Fernandes o Magro nasceram dois filhos e duas filhas. O mais velho, cuja descendência varonil legítima se extinguiu, foi D. Egas Henriques de Portocarreiro, o Bravo, nascido cerca de 1146 e documentado na corte de do rei D. Sancho I em 1187. Egas Henriques fez paço na sua quintã de Louredo, anexa à quintã da Torre, em Portocarreiro, quintã esta que partilhou com seu irmão, e sucedeu no mosteiro de Soalhães, onde provavelmente foi sepultado. Casou com D. Tereza Gonçalves de Curveira, que trouxe à família, entre outros bens, a torre de Curveira, e teve filhos ilustríssimos, entre eles o arcebispo de Braga (1245) D. João Veegas de Portocarreiro, Lourenço Veegas de Portocarreiro, o Maça Madeira, que sucedeu em parte da quintã de Louredo, como se documenta nas inquirições de 1288, já ele tinha falecido, e em parte da quintã da Torre, nas quais contudo não sucedeu a sua única filha mas sim seu irmão Gonçalo, referido adiante; o célebre D. Raimundo Veegas de Portocarreiro, o Torres, que raptou a rainha D. Mécia de Haro, mulher de D. Sancho II; e D. Gonçalo Veegas de Portocarreiro, o Alfeirão, "nobili viro" que sucedeu na terra de Soalhães, onde fez paço na honra de Vila Pouca, e no seu mosteiro de S. Martinho, que D. Sancho II lhe tirou para dar ao bispado do Porto, e que sucedeu a seu irmão Lourenço na sua parte das quintãs de Louredo e da Torre. Deste D. Gonçalo, que casou (dispensa papal de 17.7.1253) com sua parente D. Sancha Pires da Veiga, foram filhos, entre outros, o célebre trovador Pedro Gonçalves de Portocarreiro, que viveu solteiro em Castela; o chantre (1281) e arcediago (1287) de Braga D. Gonçalo Gonçalves de Portocarreiro; e Rui Gonçalves de Portocarreiro, o Bifardel, que sucedeu em parte das quintãs de Louredo e da Torre, nomeadamente nas casas do paço, o que o habilitava a ser intitulado senhor das ditas honras, como se documenta nas inquirições de 1288, e teve uma única filha legítima, D. Senhorinha Rodrigues de Portocarreiro, que ainda solteira consta, entre os infançãos e infançoas,  na lista de 1339 dos padroeiros de Mancelos, e que casou com Rui Martins de Numães, sem geração. Deste Rui Gonçalves Bifardel foi ainda irmã D. Maria Gonçalves de Portocarreiro, que foi a 2ª mulher de Vasco Martins Pimentel, rico-homem, meirinho-mor do reino, etc., que em 1283 passou a Castela, onde faleceu cinco anos depois. Deste 2º casamento nasceram vários filhos, entre eles Afonso Vasques Pimentel. Vasco Martins Pimentel teve dois filhos com o mesmo nome, Afonso Vasques, um do 1º e outro do 2º casamento. Um Afonso Vasques casou com D. Maior Martins Zote, sem geração. O outro casou com Sancha Fernandes Pintalho, sendo bisavós do 1º conde de Benavente. As genealogias dão este último como filho do 1º casamento de seu pai, e assim segue Bernardo de Vasconcelos e Sousa. Contudo, D. Maior, mulher do outro, nasceu cerca de 1265, pelo que o marido terá nascido bem antes, tendo portanto uma cronologia de filho do 1º casamento. Por outro lado, nas partilhas dos bens paternos em 1318 (30 anos após a sua morte, feitas a mando de D. Dinis e a pedido de uma filha freira), sendo então ambos os meios-irmãos Afonsos já falecidos, a antedida D. Maria aparece antes dos filhos do segundo Afonso Vasques, o que também é um indício de que o outro era mais velho. Mas, o argumento determinante é que o bisneto deste Afonso Vasques, o 1º conde de Benavente, era co-proprietário da honra e quintã da Torre de Portocarreiro, que perdeu quando foi para Castela, como se documenta. Ora, esta co-propriedade da quintã da Torre de Portocarreiro só lhe podia vir por sua trisavó D. Maria Gonçalves de Portocarreiro, irmã do antedito Rui Gonçalves de Portocarreiro, o Bifardel, que se documenta o principal senhor da quintã em 1288 e que só teve uma filha, sem geração, pelo que ou este Afonso Vasques ou já um seu filho terão herdado a quintã da Torre de Portocarreiro (parte) de seu tio ou já de sua prima, a filha deste. Contudo, como Rui Gonçalves Bifardel ainda vivia em 1307 e este Afonso Vasques já tinha falecido em 1318, é mais provável que o sucessor tenha sido o seu filho João Afonso Pimentel, alcaide-mor de Bragança (1357), avô paterno do referido 1º conde de Benavente, que por passar a Castela perdeu a sua parte na quintã de Portocarreiro, que D. João I doou a 21.7.1388, em Tui, a Rui Peres da Fonseca, seu escudeiro. Contudo, esta doação não terá tido efeito, não só porque João Afonso Pimentel não possuia a quintã na totalidade, mas porque ela passa então para Gonçalo Peres Alcoforado, primo de João Afonso Pimentel, sendo certo que em 1406 se documenta na posse de seu filho de Martim Gonçalves Alcoforado, que declara descender dos seus antigos senhores. Com efeito, Gonçalo Peres Alcoforado, alcaide-mor de Campo Maior (23.7.1357), era filho de Pedro Martins Alcoforado, alcaide-mor de Elvas (24.7.1357), e de sua mulher Mor Gonçalves Camelo, que as genealogias dizem ser irmã de Nuno e Mem Gonçalves Camelo, o que José Agusto de Sotto Mayor Pizarro também seguiu. Mas, tendo em conta a cronologia dos filhos, Mor Gonçalves Camelo não nasceu muito antes de 1320, pelo que dificilmente podia ser irmã de Nuno e Mem Gonçalves. Por outro lado, para seu filho suceder a João Afonso Pimentel na quintã de Portocarrero (parte) e ser descendente dos anteriores possuidores desta parte, Mor Gonçalves tinha de ser não irmã mas sim filha de Mem Gonçalves Camelo e sua mulher Inez Rodrigues Pimentel, filha esta de Rui Vasques Pimentel, irmão inteiro do antedito Afonso Vasques Pimentel. Desta forma, quer João Afonso Pimentel quer seu sucessor na quintã de Portocarreiro (parte) Gonçalo Peres Alcoforado eram trinetos de Vasco Martins Pimentel e sua 2ª mulher D. Maria Gonçalves de Portocarreiro. O antedito Gonçalo Peres Alcoforado, alcaide-mor de Campo Maior (23.7.1357), que aparece, entre os infanções, na lista dos naturais de Grijó de 1366, casou com Beatriz Esteves de Avellar, representante dos Furtado medievais, pois era filha de Estêvão Dias de Avellar, senhor de juro e herdade de Povolide e de Nespereira (10.12.1385), senhor de Oliveira de Currelos (depois dita do Conde) e da quinta de Stº André de Azurara da Beira (9.8.1384), etc., e de sua mulher Senhorinha Afonso Furtado, herdeira da representação e bens dos Furtado medievais, que nada têm a ver com os Furtado posteriores, depois Furtado de Mendonça, como deixei tratado em "Os Furtado de Mendonça portugueses. Ensaio sobre a sua verdadeira origem", 2004, em co-autoria com Manuel Lamas de Mendonça. De Gonçalo Peres Alcoforado e Beatriz Esteves de Avellar foi filho sucessor o já referido Martim Gonçalves Alcoforado, que a 30.12.1406, como já disse, teve de D. João I confirmação de que eram honras de seus antepassados as suas quintãs da Torre de Portocarreiro, de Lordelo e de Louredo, conforme então se mandou verificar nas inquirições. E esta mesma carta foi confirmada a seu filho Fernão Martins Alcoforado a 7.1.1435. Este Fernão foi fidalgo da Casa do infante D. Pedro, com quem esteve em Alfarrobeira, tendo por isso carta de perdão de 12.8.1451 de D. Afonso V, restituindo-lhe toda a boa fama, bens, liberdades e privilégios, a possibilidade de ser recebedor em juízo e fora dele e de testar. Foi ainda senhor de Mourisca e Aguieira (Águeda), senhor da honra, quintã e torre de Alcoforado, morgado de Bustelo (Penafiel) e padroeiro do respectivo mosteiro. Na honra da Torre de Portocarreiro estava incluído o padroado da igreja de Vila Boa de Quires, que perdeu por ter estado em Alfarrobeira, como se diz quando o dito padroado foi doado a 14.5.1451 ao duque de Bragança. Mas depois, pela referida carta de perdão, voltou a ter os seus bens e direitos, nomeadamente este padroado de Vila Boa de Quires. Fernão Martins Alcoforado casou com sua parente D. Maria da Cunha, senhora de juro e herdade de Portocarreiro e irmã de Fernão Vaz da Cunha, senhor de Basto e da Maia, etc., que herdou a outra metada das quintãs de Louredo, de Lordelo e da Torre de Portocarreiro , como se diz adiante, onde segue a geração.

De D. Egas Henriques, que ficou acima, parece que ainda foi filha, certamente natural, D. Fruela Veegas que casou com Lourenço Martins e foram pais do bispo de Lisboa e arcebispo de Braga D. João Martins de Soalhães, muito herdado em Soalhães, onde a 13.5.1304 instituiu um grande morgadio, em que nomeou seu filho legitimado (28.1.1308) Vasco Anes de Soalhães, e por sua morte o filho deste, Rui Vasques Ribeiro, com geração nos condes de Penela.

Das duas filhas de D. Ouroana, a mais velha foi D. Sancha Henriques de Portocarreiro, que casou a primeira vez com D. Rui Gonçalves de Pereira e a segunda com D. Paio Soares Romeu. Dela descende nomeadamente o santo condestável D. Nuno Álvares Pereira e, através dele, os duques de Bragança e os reis de Portugal. A outra filha foi D. Urraca Henriques de Portocarreiro, que casou com D. Gueda Gomes Guedão, de quem vêm os Guedes e os Cogominho.

O nome Portocarreiro acabou apenas por seguir através do filho mais novo de D. Ouroana, D. João Henriques de Portocarreiro, rico-homem, nascido cerca de 1152 e falecido a 20.7.1234, segundo a inscrição do seu túmulo no claustro velho do mosteiro de Alcobaça. Sucedeu na outra metade da honra e quintã da torre de Portocarreiro, onde fez para si o paço de Pombal, concretamente num casal da vila da Granja, onde fora criado. Nas inquirições de 1288 diz-se que "a quintãa que chamam a Torre que foy d'Egas Anrriquiz e de joham Anrriquiz com seus herdamentos é provado que a virom onrrada des que se acordan as testemunhas e d'ouvida de lomge e dizem as testemunhas que en'o logar que chamam a Quintaa em II casaaes de Paaçoo e en Portela en huum de Mançelos e en Mayorelles en outro que é de San Petro d?Avragan soya entrar o mordomo del Rey e pectavan-lhi ende a voz e a coomba e ora novamente guaanh-os desses moesteyros Roy Gonçalvez Bifardel e trage-os por honra des que teve a terra del Rey ca ante non'os deffendia". Determina a sentença real que "as quintãas e sas herdades estem onrradas porque son de filhos d'algo e enjquanto forem de filhos dálgo e todolos outros casaes sejam devasssos e entre y o mordomo del Rey por seus dereytos". Em 1288 possuia metade da honra e quintã da Torre, onde tinha o seu paço de Pombal, o neto deste D. João Henriques, Fernão Pires de Portocarreiro, referido adiante. Não é referido na inquirição, porque seu primo Rui Gonçalves de Portocarreiro, o Bifardel, já referido acima, neto de sucessor de D. Egas Henriques de Portocarreiro, possuia o paço da Torre, cabeça da honra, e por isso tinha o direito de se intitular senhor da honra, apesar de só possuir metade. Em 1209 D. João Henriques de Portocarreiro testemunhou umas compras feitas por D. Martim Fernandes de Riba de Vizela. De resto, há pouca informação sobre ele, sendo certo que ocupou lugar de relevo no seu tempo, como atesta o facto de ter sido sepultado no privilegiado e selecto "claustro do silêncio" de Alcobaça. Casou com D. Mor Veegas Coronel de Sequeira, que trouxe à família vários bens em Entre-Homem-e-Cávado, e que ainda vivia viúva quando das inquirições de 1258. Destes foi filho primogénito o notável D. Fernão Anes de Portocarreiro, cónego (1240) e deão (1250) da Sé de Braga, conselheiro de D. Afonso III (1250), capelão do Papa (1257), prior de Guimarães (1263) e notário do rei D. Afonso X de Castela (1263), que fez testamento em Burgos em 1272, em que beneficiou vários sobrinhos, e faleceu pouco depois. De João Henriques foi ainda filho Gonçalo Anes de Portocarreiro, que acompanhou D. Sancho II no exílio, testemunhando no seu testamento de 1248, com geração extinta; e Lourenço Anes de Portocarreiro, "miles" documentado nas inquirições de 1288, que foi pai de D. Maria Lourenço de Portocarreiro, senhora da quintã de Goim, casada com o meirinho-mor de Entre-Douro-e-Minho e Além-Douro (1287) Pedro Martins de Soveral, o 1º deste nome, com geração nesta família, e de Rui Lourenço de Portocarreiro, cavaleiro documentado entre 1297 e 1311, que foi bisavô paterno do grande potentado João Rodrigues de Portocarreiro, senhor de juro e herdade de Portocarreiro e Vila Real (13.8.1372), de Vilarinho de Castanheira (20.1.1372), de Vila Nova de Anços e de Ansiães (13.3.1372), de Chacim, de Alfândega da Fé, de Vila Flor, de Castro Vicente, de Ferreirós e Soutelinho (12.8.1372), de Cotos e de Vilarinho (14.8.1373), de Resende (14.8.1374), de Ferreiros, de Tendais e de Lourinhã (7.11.1375), de Montalegre e de Tentúgal (18.3.1377), de Barroso, de Pena e de Miranda (31.3.1379), de Lamas de Orelhão (17.3.1380), etc., Este João Rodrigues de Portocarreiro parece ser o que aparece, entre os infanções, na lista dos padroeiros do mosteiro de Grijó de 1365, a que tinha direito "da parte de Vasconçellos", com dois filhos não nomeados.  Mas apenas uma filha sobreviveu e foi sua herdeira: D. Mayor de Portocarreiro, 1º condessa de Viana (do Alentejo), que levou o senhorio de Vila Real, com geração nos condes e marqueses de Vila Real.

A família prosseguiu através do filho sucessor de D. João Henriques, D. Pedro Anes de Portocarreiro, rico-homem da cúria (pelo menos desde 1237) de D. Sancho II, governador de Parada de Riba Paiva (1223-48) e depois do Conselho de D. Afonso III, documentado até 1251, ano em que deve ter falecido. Esteve nas conquistas de Sevilha (1248) e do Algarve, nomeadamente nas tomadas de Mértola, Alfar da Pena, Ayamonte e Cancela (1239-40). Sucedeu no paço de Pombal, na metade da quintã da Torre de Portocarreiro e nas principais honras do couto. Documenta-se casado com D. Maria Pires Bravo, irmã de D. João Pires Redondo e de D. Pedro Pires Velho, rico-homens de D. Sancho II que também se notabilizaram nas conquista de Sevilha e do Algarve, todos filhos de D. Pedro Soares Velho, o Escaldado, da linhagem dos senhores de Baião. Mas nos LL vem casado com D. Mor Veegas de Regalados, que parece ser a 1ª mulher e a mãe de seus filhos, pois estes partilham em Janeiro de 1274 os bens de Regalados, entre eles a quintã e torre de Regalados. De D. Pedro Anes foram filhos João Pires de Portocarreiro, o primogénito, Fernão Pires de Portocarreiro, que segue, Gonçalo Pires de Portocarreiro, com geração extinta, e o cónego da Sé de Braga Martim Pires de Portocarreiro, conselheiro de D. Afonso III e aio do infante D. Afonso, que sucedeu num vínculo instituído por seu tio o deão de Braga D. Fernão Anes de Portocarreiro. A 15 de Janeiro de 1275, na torre de Regalados, fizeram troca de vários bens de herança, tendo nomeadamente João Pires trocado com seu irmão Fernão os bens de Portocarreiro pelos de Regalados. Destes foi ainda irmã D. Margarida Pires de Portocarreiro, também co-herdeira de Regalados, que casou antes de 1272 com Pedro Anes de Vasconcellos, senhor da honra e torre de Vasconcellos.

O primogénito, João Pires de Portocarreiro, apesar da troca que fez com seu irmão Fernão em 1275, acabou por ficar com a metade da quintã da Torre de Portocarreiro e algumas das principais honras do couto, pois estas seguem na sua descendência. De seu irmão Fernão apenas se conhece em Portocarreiro a posse do paço de Pombal. João Pires teve vários filhos, que morreram sem geração, tendo sucedido nos bens de Portocarreiro a filha D. Tereza Anes de Portocarreiro que casou com Gonçalo Martins Camelo, o 1º deste nome, filho de Martim Lourenço da Cunha. Deste casal nasceram vários filhos, entre eles o já referido Nuno Gonçalves Camelo, Fernão Gonçalves Camelo, que em 1321 comprou a sua tia-avó D. Margarida Pires de Portocarreiro a quintã da Torre de Regalados, e o também já referido Mem Gonçalves Camelo que casou com Inez Rodrigues Pimentel. Nuno Gonçalves Camelo, o primogénito, sucedeu na metade da quintã da Torre de Portocarreiro e principais honras do couto, casou com Inez Martins Pimentel (neta do já referido Vasco Marins Pimentel e de sua 1ª mulher Maria Anes de Fornelo) e foram pais de Gonçalo Nunes Camelo, sucessor, que casou Aldonça Rodrigues Pereira. Destes foi filho D. Álvaro Gonçalves Camelo, mestre da Ordem do Hospital em Portugal (27.5.1386), que sucedeu na dita metade dos bens de Portocarreiro, que deixou a sua filha natural D. Isabel Pereira, que foi a 1ª mulher de Gil Vasques da Cunha, alferes-mor de D. João I (1385), senhor de juro e herdade de Basto, Portocarreiro, Montelongo, Guilhofrei, Vale do Bouro e Armamar (1.6.1402), etc. Destes foram filhos: 1) Fernão Vaz da Cunha, rico-homem, senhor de juro e herdade de Basto e da Maia (1.4.1421), durante um tempo senhor de juro e herdade de metade de Portocarreiro, Montelongo e Guilhofrei, etc., que herdou parte da outra metada das quintãs de Louredo, de Lordelo e da Torre de Portocarreiro, tendo casado com D. Branca de Vilhena. Destes foi filha sucessora (autorização de D. Duarte de 20.8.1434) D. Maria da Cunha, que casou com Fernão Coutinho e foram pais de Pedro da Cunha Coutinho, senhor de juro e herdade de Basto, Maia, Portocarreiro, Montelongo, Guilhofrei, etc. (15.9.1497), que herdou parte das quintãs de Louredo, de Lordelo e da Torre de Portocarreiro, as quais a 29.5.1512 doou a sua prima D. Helena de Ozorio, referida abaixo, que tinha a outra parte, para que tudo "se torne a inteirar e juntar"; 2) João Pereira, o Agostim, que é dado como um dos "12 cavaleiros de Inglaterra", esteve na conquista de Ceuta em 1415 e depois aí ficou como capitão da gente do infante D. Henrique. Deve ser o João Pereira, do Conselho, a quem D. Afonso V confirmou a 25.4.1439 a doação de D. Duarte de 11.11.1433 de umas casas em Lagos; 3) D. Filipa da Cunha, que casou com Fernão de Sá, senhor de juro e herdade de Matosinhos, Gaia, Sever, Baltar, Paiva, Neiva, Aguiar, Barreiro e Lindoso, alcaide-mor e governador do Porto, vedor da fazenda do Porto, etc., com geração conhecida; e 4) D. Maria da Cunha, que segue.

D. Maria da Cunha nasceu em 1414, sendo a filha mais nova Gil Vasques da Cunha e sua 1ª mulher D. Isabel Pereira, que morreu deste parto, tendo ele casado 2ª vez em 1415 com D. Leonor Gonçalves de Moura, sem geração. D. Maria herdou a outra parte da metada das quintãs de Louredo, de Lordelo e da Torre de Portocarreiro, que partilhou com seu irmão Fernão Vaz da Cunha, e aos 12 anos, a idade mínima, casou a 1ª vez com o Doutor Martim do Sem, chanceler-mor do reino, 4º senhor da torre da Marca, no Porto, etc., muito mais velho do que ela, que faleceu em 1431, sem geração. Teve de seu pai, para este casamento, um dote de 3.000 coroas de ouro, ficando como penhor metade dos senhorios de Portocarreiro, Montelongo e Guilhofrei, os quais efectivamente para si e seu marido ficaram, por seu pai ter morrido sem pagar o dito dote. A outra metade destes senhorios tinha ficado para seu irmão Fernão Vaz da Cunha, e servido igualmente como penhor do dote de uma sua neta. Contudo, certamente por herança paterna, D. Maria da Cunha acabou por ficar com a outra metade destes senhorios. Com efeito, por morte do 1º marido, a metade que este tinha dos senhorios voltou à coroa, tendo D. João I, por carta de 28.3.1431, doado essa metade à viúva, D. Maria da Cunha, que já tinha sua a outra metade. Diz a carta de D. João I, referindo-se às terras de Portocarreiro, Montelongo e Guilhofrei, depois de sublinar que a metade que ficara para o Doutor Martim do Sem, com a sua morte voltara para a coroa, sendo sua mercê doa-la à viúva D. Maria: "a metade delas perteencem a nos e as podemos dar e doar segundo nossa mercee por quanto a outra metade he da dicta dona Maria". D. Duarte, por carta de 20.12.1434, confirmou esta doação, estando ela ainda viúva, portanto sem ter ainda casado 2ª vez. A carta de D. João I doou as terras de Montelongo, Guilhofrei e Portocarreiro, com sua jurisdição, explicando que a metade doada era em vida de D. Maria, e em morrendo ela voltaria à coroa, e que sobre a metade que era dela "se guarde a hordenaçam per nos fecta e acostumada sobre as terras da coroa". Assim sendo, por morte de D. Maria da Cunha seu filho teria sucedido em metade destes senhorios, o que não aconteceu. Com efeito, D. Maria não manteve estes senhorios até ao fim da sua vida, tendo-os vendido (ou trocado) a sua sobrinha homónima D. Maria da Cunha e seu marido Fernão Coutinho antes de 1471, embora disso não tenha encontrado a respectiva carta de autorização real. O certo é que a 14.10.1471 D. Afonso V autorizou Vasco Fernandes Coutinho, fidalgo da Casa do duque de Viseu, a pedido de seu pai Fernão Coutinho, do seu Conselho, a suceder, quando do falecimento do pai, nas terras de Montelongo, Portocarreiro e Vila Boa de Ródão, tal como as tinha seu pai (Montelongo é o actual concelho de Fafe e Vila Boa de Ródão era um antigo concelho, constituído pela actual freguesia de Guilhofrei, no concelho de Vieira do Minho). Mas Vasco Fernandes Coutinho, que a 22.9.1472 teve a mesma autorização para as terras da Maia e de Basto, morreu pouco depois, antes de seu pai, em 1476, acabando por suceder seu irmão Pedro da Cunha Coutinho, como ficou dito, que em Junho de 1476 teve a mesma autorização para suceder a seu pai nos senhorios de Basto, Maia, Borba de Aguilhões de Vale do Bouro, e a 15.9.1497 efectivamente sucedeu nestes e noutros senhorios, nomeadamente nos de Montelongo, Guilhofrei e Portocarreiro, com suas jurisdições cível e criminal, mero e misto império e todo o outro senhorio, ressalvando a correição.

A 9.8.1431 fez-se nas casas de Lisboa de D. Maria da Cunha, viúva do Doutor Martim do Sem, um instrumento de partilha em que ela, além dos bens próprios, ficou do marido com um casal junto ao mosteiro de Odivelas, vários bens de raiz sobretudo em Vila Franca e Alenquer e tornas de 67 coroas de oiro e 4.300 reais de prata. Em 1440 D. Maria da Cunha casou 2ª vez com seu parente Fernão Martins Alcoforado, que já fora casado com uma Mécia Vasques, que ele matara por adultério. No perdão real que a 29.11.1439 obteve Fernão Martins Alcoforado diz-se que, constando-lhe que "sua molher lhe pecaua na lley do casamento", foi para uma sua quintã, onde ela estava, indo acompanhado pelo seu escudeiro Lopo Rodrigues e pelo seu moço João, e surpreendeu-a em flagrante "em sua camara" com Gonçalo, seu criado, tendo aí matado ambos. Exilou-se depois, com receio da justiça real. Ao abrigo da amnistia geral, combateu depois no cerco de Tânger (1637), vindo a obter perdão real, depois de feito o respectivo inquérito, a 29.11.1439 (CAV, 18, 15v). A 24.2.1453 um Gonçalo Alcoforado tirou ordens menores em Braga. Diz a matricula: “Gonçallo Alcoforado filho de Fernam Martrinz Alcoforado e de sua molher Mecya Vaaz moradores na freeguesia de Villa Boa de Queeriz da diocese do Porto, qui per tantum tenpus quanto de jure suficiebat incollatum duxit im ista bracharensis diocese”. Como vimos, Mécia Vasques não pode ter sido morta depois de 1436 e um filho que tenham tido não pode ter nascido depois de 1435. O que significa que Mécia Vasques não podia viver em Vila Boa de Quires em 1453, como diz a matrícula, e que o putativo filho Gonçalo não podia ter menos de 18 anos quando tirou as ordens menores. Acontece que em 1453 Fernão Martins Alcoforado estava casado em 2ªs núpcias com D. Maria da Cunha, filha do alferes-mor do reino Gil Vasques da Cunha, vivendo em Vila Boa de Quires (Portocarreiro). E que deste casamento tiveram um filho chamado Gonçalo Vasques Alcoforado (usou o patronímico do avô materno), nascido cerca de 1446, que teria 7 anos em 1453, idade mais adequada para tirar ordens menores. A questão que se põe é a de saber se existiram dois meios-irmãos ambos chamados Gonçalo, coisa que não é tão inusitada como parece, ou se trata do mesmo. Mas, neste caso, houve necessariamente erro na matrícula, já não apenas ao dizer que Mécia Vasques então morava em Vila Boa de Quires, o que é documentalmente impossível, mas no próprio nome da mãe de Gonçalo, que seria não Mécia Vasques mas sim D. Maria da Cunha, que efectivamente vivia com seu marido em Vila Boa de Quires em 1453. A alternativa de Gonçalo Vasques Alcoforado não ser filho de D. Maria da Cunha mas sim de Mécia Vasques, ao arrepio do que dizem todas as inquirições de genere e genealogias, não se pode aceitar, desde logo pela cronologia, pois Gonçalo Vasques Alcoforado faleceu em 1522 e casou duas vezes, a 1ª em 1477 e a 2ª em 1501, não sendo assim minimamente provável que tivesse nascido o mais tardar em 1435. Quanto à diferença no nome, ou seja, aparecer em 1453 como Gonçalo Alcoforado e depois como Gonçalo Vasques (ou Vaz) Alcoforado, é coisa perfeitamente natural, que aliás se documenta. Na verdade, a 21.10.1475, Gonçalo Alcoforado, fidalgo da Casa do duque de Viseu, teve de D. Afonso V carta de privilégio de fidalgo para a comarca e correição de Entre-Douro-e-Minho. E ainda como Gonçalo Alcoforado, já fidalgo da Casa Real, teve uma tença de 8.000 reais a 8.5.1486, confirmada a 13.2.1496. Mas já como Gonçalo Vasques Alcoforado, fidalgo da Casa d’el rei, morador na sua torre de Farazão, julgado de Refoios, a 15.2.1498 fez procuração a seu filho Manuel de Castro para receber de qualquer almoxarife ou recebedor os ditos 8.000 reais que tem de tença. E como Gonçalo Vaz Alcoforado tinha esta tença de 8.000 reais em 1508 e 1509, quando lhe foi paga no almoxarifado de Ponte de Lima. Faleceu pouco antes de 11.6.1522, data em que seu filho sucessor Manuel de Castro Alcoforado passou a receber a dita tença de 8.000 reais, no almoxarifado de Viseu, tença que recebeu pelo menos até 1529, já no almoxarifado de Ponte de Lima. Este Gonçalo Vasques Alcoforado foi senhor da vila da Aguieira e metade de Mourisca (Águeda), senhor da honra, quintã e torre de Alcoforado, padroeiro do mosteiro de Bustelo (Penafiel), etc. Casou duas vezes, a 1ª com D. Maria de Castro, mãe do dito Manuel, e a 2ª vez com D. Margarida de Souza de Menezes, da quinta de Penteeiros. A 2.6.1540 o vedor da fazenda mandou pagar 15.470 reais a D. Margarida de Souza, como mãe e herdeira de Fernando Martins Alcoforado e seu irmão Cristóvão de Souza Alcoforado, que faleceram na Índia. Deste 2º casamento foi filho sucessor António de Souza Alcoforado, fidalgo da Casa Real, comendador da Ordem de Cristo, juiz e vereador do Senado da Câmara do Porto (1540), que teve de D. João III carta de privilégio de fidalgo (CJIII, Privilégios, 5, 135v), com geração conhecida nas quintas de Penteeiros, de Gominhães e da Silva. Das cinco filhas que tiveram D. Maria da Cunha e Fernão Martins Alcoforado, a mais velha chamou-se D. Filipa da Cunha, nascida cerca de 1441, que sucedeu, depois de 1464, na parte de seu pai das quintãs de Louredo, de Lordelo e da Torre de Portocarreiro, parte que incluia o padroado da igreja de Vila Boa de Quires. Casou com Vasco de Antas, senhor do morgado dos Antas, em Montemor-o-Velho, cavaleiro da Casa Real e alcaide-mor de Lavre. A 24.1.1463 Vasco de Antas, cavaleiro da Casa Real e morador em Montemor-o-Velho, teve uma tença real de 4.000 reais pela alcaidaria de Lavar (hoje Lavre, freguesia de Montemor-o-Novo), a descontar na tença do conde de Monsanto. Dizem algumas genealogias que era filho do Vasco Soares de Antas, mas este a 17.1.1381 teve de D. Fernando I carta de coutada das suas quintas das Pecenas, no termo de Évora (CFºI, 2, 75v), pelo que a cronologia aponta mais para que fosse seu neto, talvez filho do Afonso Vasques de Antas que foi corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana no reinado de D. João I. De D. Filipa da Cunha e seu marido foi único filho conhecido Luiz de Antas, sucessor, nascido cerca de 1455 e falecido depois de 1512, que Alão diz que foi alcaide-mor de Alandroal, mas não o documento como tal, e que casou ou teve de Leonor Freire uma filha chamada Branca ou Francisca Freire, segundo as genealogias. O certo é que, como se diz adiante, em 1512 Luiz de Antas doou a sua parte das quintãs de Louredo, de Lordelo e da Torre de Portocarreiro a sua prima-direita D. Helena de Ozorio.

Fernão Martins Alcoforado morreu em 1453 e D. Maria da Cunha casou a 3ª vez no ano seguinte com seu primo Nuno Martins de Portocarreiro, cavaleiro, que a 3.10.1464 teve de D. Afonso V confirmação do privilégio das honras das suas quintãs de Louredo e da Torre (CAV, 8, 20v e 21). Teve portanto estas quintãs e honras por sua mulher, sendo que esta as tinha em parte por herança paterna e em parte pelo seu 2º marido. Embora, como direi, Nuno Martins de Portocarreiro, que era bem mais novo do que sua mulher, não só também descendia dos antigos possuidores destas quintãs como era herdeiro da quinta do Paço de Pombal que, como ficou dito, seu antepassado D. João Henriques de Portocarreiro fez na honra e quintã da Torre de Portocarreiro.

Com efeito, como já se disse, de D. João Henriques de Portocarreiro foi filho sucessor D. Pedro Anes de Portocarreiro e deste foi filho Fernão Pires de Portocarreiro, cavaleiro que estava na corte de Lisboa em 1265 e fez partilhas com seus irmãos em 1274-5. Sucedeu na quinta do Paço de Pombal, teve paço e honra no julgado de Neiva e faleceu antes de 1301, sendo na sua geração que seguiu o nome Portocarreiro. Casou com D. Maria Martins de Baguim, que a 19.5.1301 doou à Sé do Porto o direito de padroado da igreja de Stª Mª de Campanhã, estando em 1304 já casada em segundas núpcias, sem geração, e falecendo antes de 1319, data em que seus filhos fizeram partilha dos bens.

De Fernão Pires foram filhos dois irmãos homónimos: Martim Fernandes de Portocarreiro, o Maior, e Martim Fernandes de Portocarreiro, o Gervaz, a quem seu irmão mais velho chama o Menor. Com suas irmãs D. Maria Fernandes de Portocarreiro, prioresa do mosteiro de Arouca, e D. Guiomar, freira no mesmo mosteiro, fizeram partilhas em 1319.

É nesta geração que os Portocarreiro passam para Castela, justamente com D. Martim Fernandes de Portocarreiro, o Maior, que foi adiantado-mor de Leão e Astúrias (já o era em 1310), cargo que em 1311 acumulava com o de alvazil do rei de Segóvia, tendo casado com D. Inez Fradique da Lombardia, filha do conde D. Fradique Pardo de Lombardia. Destes foi filho sucessor outro D. Martim Fernandes de Portocarreiro, 1º senhor de Vila Nova del Fresno (1332), rico-homem do Conselho de D. Afonso XI e mordomo-mor do infante D. Pedro de Castela, que casou com D. Maria Afonso Tenório, senhora de Moguer, filha sucessora de D. Alfonso Jofre, adiantado-mor e almirante-mor de Castela (1314-1340), 1º senhor de Moguer (1333), fundador do mosteiro de Santa Clara de Moguer (1337). Destes foi filho sucessor D. Alfonso Fernandez Portocarrero (ca 1330-1384), o primeiro a adoptar esta grafia do nome, 3º senhor de Moguer, 2º senhor de Villanueva del Fresno, etc., alcaide-mor de Algeciras, etc., que casou com D. Francisca Sarmiento. Destes foi filho sucessor D. Martim Fernandez Portocarrero (ca 1358 - ca 1418), 4º senhor de Moguer (1386), 3º senhor de Vila Nova del Fresno (1386), etc., corregeidor de Jerez de la Frontera, alcaide-mor de Tarifa, etc., que casou em 1384 com D. Leonor Cabeza de Vaca, filha do mestre da Ordem de Santiago D. Pedro Fernandez Cabeza de Vaca. Foram pais de D. Pedro Portocarrero, sucessor, falecido a 3.2.1430, que casou com D. Beatriz Henriques, bisneta paterna do rei D. Alfonso XI de Castela, com geração que se alargou à principal nobreza de Espanha. Daquele D. Martim Fernandez Portocarrero, 4º senhor de Móguer, foi irmão mais novo D. Alfonso Fernandez Portocarrero, que casou com D. Elvira de Orozco e foram pais de D. Rodrigo Portocarrero (ca 1400 - /1464), 1º conde de Medellín (1446), reposteiro-mor e do Conselho do rei D. Henrique IV, etc., que casou com D. Beatriz Pacheco, filha de D. Juan Pacheco, 1º duque de Escalona (1472), mestre da Ordem de Santiago (1467-1474), etc., com geração ilustre. Só entre os 4º netos do antedito D. Martim Fernandez Portocarrero, 4º senhor de Móguer, contam-se os duques de Alba, de Escalona, de Medina-Sidónia, do Infantado, de Albuquerque, de Cardona, de Galisteo e de Alcala, os marqueses de Astorga, de Aguillar, de Montesclaros, de Priego, de Las Navas, de Comares, de Moya, de Monte Mayor, de Mondéjar, de Berlonga, de Alcala de La Almeda, e os condes Medelhim, de Palma del Rio, de Benavente, de Luna, de Monterrey, de Féria, de Miranda, de Cifuentes, de Los Molares, de Oropesa, de Santisteban del Puerto. Dele descendem também os duques de  Ossuna e de Caminha, os marqueses de Portocarrero, de Vila Nova del Fresno e de Barca Rota, os condes de Montijo, de Palma, de Puebla del Maestro, de Montedava, de Montalvim, etc.

O irmão mais novo, Martim Fernandes de Portocarreiro, o Gervaz ou o Menor, sucedeu na quintã do paço de Pombal e em 1329 representava os direitos da família na igreja de Vilar de Porcos (hoje Vilar do Pinheiro) e em 1339 no padroado de Mancelos. Os nobiliários falam ainda de um terceiro irmão Martim Fernandes de Portocarreiro casado com D. Aldonça Vasques da Granja, mas parecem homónimos a mais e, sobretudo, este hipotético terceiro Martim não aparece nas partilhas, pelo que suponho tratar-se de confusão com o Gervaz. O mesmo Martim Fernandes terá assim casado a 1ª vez com a dita D. Aldonça, de quem teve Gonçalo Martins de Portocarreiro, referido em 1329 como infanção natural da igreja de Vilar de Porcos, que casou com uma neta do rei D. Dinis, e faleceu antes de 1351, sem geração. Martim Fernandes de Portocarreiro o Gervaz casou 2ª vez com D. Inez Fernandes de Teixeira (filha de Fernão Martins de Teixeira, da linhagem dos senhores de Lanhoso, e de sua mulher D. Beatriz Martins da Cunha), da qual teve quatro filhos, todos menores em 1329 quando referidos na lista das comedorias de Vilar de Porcos, e ainda menores em 1339, quando seu pai é citado, entre os infanções, na lista dos naturais de Mancelos, com seus filhos, não nomeados. 

Destes quatro filhos o sucessor foi Vasco Martins de Portocarreiro, nascido cerca de 1312. Foi 5º senhor da quintã do paço de Pombal e de muitos outros bens de raiz. Cavaleiro do rei D. Fernando, dizem os nobiliários que o acompanhou na conquista de Monte Rey e na campanha da Galiza (1368). Deste foi seu filho Martim Vasques de Portocarreiro, nascido cerca de 1335, 6º senhor da quintã do paço de Pombal, fidalgo de D. João I, com quem, dizem os nobiliários, esteve em Aljubarrota com "muy merecimento", sendo aí armado cavaleiro pelo soberano. Deste foi filho Vasco Martins de Portocarreiro, cavaleiro d'el rei, vassalo de D. João I, que nasceu cerca de 1352 e foi pai de Lopo Vasques de Portocarreiro, sucessor, nascido cerca de 1375 e falecido depois de 1446, que com seus irmãos Diogo e Gil se notabilizou na tomada de Ceuta (1415) e cujos inúmeros feitos Gomes Anes de Azurara relata na "Crónica do Conde D. Pedro". A 19.12.1442 D. Afonso V perdoou o degredo de oito meses a Lopo Vasques de Portocarreiro, cavaleiro, morador na cidade da Guarda, de um ano a que fora condenado para fora desta cidade. A 27.5.1450 teve mercê do mesmo rei de uma tença anual de 2.857 reais de prata, e a 20.8.1446 obteve para um seu criado o cargo de tabelião do cível e crime da cidade da Guarda e seu termo. Casou com (Margarida) Anes de Almeida, irmã de Gonçalo Pires de Almeida, 1º senhor de juro e herdade de Moçâmedes (11.10.1389). Destes foram filhos Diogo Lopes de Portocarreiro, que a 17.12.1442 D. Afonso V nomeou por cinco anos para o cargo de coudel da cidade da Guarda e seu termo, em substituição de Afonso Anes, e a 20.6.1469 vivia em Vilar Maior quando, juntamente com Luiz Velho, também aí morador, recebeu do mesmo rei vários bens, e Vasco Martins de Portocarreiro, o primogénito, cavaleiro d'el rei, que nasceu cerca de 1409 e faleceu em 1505, com cerca de 96 anos de idade. Vasco Martins de Portocarreiro sucedeu na quintã de paço de Pombal, onde viveu, Casou cerca de 1430 com Catarina da Cunha, filha bastarda de Vasco Martins da Cunha, o Rabo d'Asno, nascida cerca de 1415 e falecida depois de 1505. A 11.8.1505 D. Guiomar da Cunha comprou a quinta do paço de Pombal, em Vila Boa de Quires, por 50.000 reais, a Pedro de Leão e sua 2ª mulher Beatriz da Fonseca, no tabelião de Penafiel Marcos Barbosa (que era casado com uma filha destes Pedro de Leão e de sua 1ª mulher), casal este que tinha comprado a dita quinta a Vasco Martins de Portocarreiro, cavaleiro, e sua mulher Catarina da Cunha (avós paternos daquela D. Guiomar), com a condição de o venderem pelo mesmo preço a qualquer descendente dos vendedores que a quisesse comprar. As Memórias de Paço de Sousa, que referem esta compra, dizem que a venda original, de Vasco Martins, cavaleiro, foi a 11.6.1505, portanto exactamente dois meses antes. Infelizmente os livros de notas de Penafiel para esta época já não existem, pelo que não é possível confirmar as datas. Mas as genealogias dizem que Nuno Martins de Portocarreiro (filho destes Vasco Martins e Catarina da Cunha e pai de D. Guiomar) morreu antes de seu pai e este Nuno ainda vivia em 1504, como refere Alão, ano em que terá morrido. Portanto, apesar da dilatada cronologia, é possível aceitar que Vasco Martins de Portocarreiro ainda estivesse vivo a 11.6.1505, com cerca de 96 anos. Esta venda prefigura um expediente para passar a quintã do Paço de Pombal à neta D. Guiomar, sem o impedimento de outros herdeiros. Com a morte do filho, Nuno Martins, em 1504 ou já nesse ano de 1505, Vasco Martins, vendo a sua própria morte a aproximar-se, terá decidido passar a quintã para a neta, que então vivia com o comendatário D. João Lopes de Ozorio, de quem já tinha os filhos. Alão diz que Nuno Martins e D. Maria da Cunha tiveram mais filhos, nomeadamente um Jordão da Cunha, que se desconhece e não se documenta, bem como D. Senhorinha da Cunha e D. Beatriz da Cunha, mas estas são certamente filhas de D. Maria da Cunha e seu 2º marido Fernão Martins Alcoforado. Dado que D. Maria da Cunha nasceu em 1414 e o seu 3º casamento foi em 1454, como aliás Alão diz, o que se confirma, pois o antedito Fernão Martins Alcoforado ainda se documenta vivo em 1453, não parece possível que tivesse muitos filhos deste 3º matrimónio, contraído com 40 anos de idade. Assim, D. Guiomar devia ser mesmo a única filha de Nuno Martins de Portocarreiro e D. Maria da Cunha. Só que Nuno Martins, ou natural ou de um anterior casamento, teve um filho, o anadel-mor de besteiros Francisco de Portocarreiro, que em 1505 já tinha falecido, mas que deixou uma filha menor, Isabel de Paiva, nascida cerca de 1490, que haveria de casar com Cristóvão Jaques. Ora, a venda que Vasco Martins fez deve ter sido, justamente, para garantir que a quintã ficava para D. Guiomar, pois, se tivesse falecido sem esta venda, Isabel de Paiva seria também herdeira. Sendo que é ainda possível que Vasco Martins e Catarina da Cunha tivessem outros filhos ou filhas, além de Nuno Martins, o único que se conhece.

Deste Vasco Martins foi único filho conhecido Nuno Martins de Portocarreiro, cavaleiro, nascido em finais de 1430, que faleceu pouco antes de seu pai, em 1504, e que, como ficou dito, casou em 1454 com sua prima D. Maria da Cunha, senhora de juro e herdade de Portocarreiro, Montelongo e Guilhofrei, que era, também, senhora de boa parte das quintãs de Lordelo, de Louredo e da Torre de Portocarreiro, uma parte por herança de seu pai e outra que teve por seu 2º marido e parente, estando o restante na posse do irmão dela, Fernão Vaz da Cunha, como ficou dito. Por morte de Fernão Martins Alcoforado, 2º marido de D. Maria da Cunha, foi este Nuno Martins, o 3º marido, que sucedeu na posse das ditas quintãs de Lordelo, Louredo e da Torre de Portocarreiro, como se vê na por carta de privilégio que a 3.10.1464 teve de D. Afonso V, como também ficou dito. A 13.7.1499 testemunhou num prazo de Paço de Sousa (MA, l. 4, f. 232v - K18629), onde aparece referido como "Nuno Martins, cavaleiro de Portocarreiro", expressão medieva então já em desuso, habitual sobretudo nos séculos XIII e XIV para os cavaleiros de linhagem. Esta forma de chamar justifica que muitos destes cavaleiros de linhagem apareçam na documentação do séc. XV muitas vezes apenas com o prenome e patronímico, seguidos da designação de cavaleiro mas já sem a especificação da linhagem, o que por vezes dificulta muito a sua identificação. E a 30.3.1502 testemunhou noutro prazo de Paço de Sousa (l. 3, f. 33v - K2565, cx 493.3), onde aparece referido como "honrado Nuno Martins, cavaleiro". D. Maria da Cunha e Nuno Martins, para além do parentesco mais afastado que tinham pelos Portocarreiro, eram primos dentro do 2º grau pelos Cunha. Com efeito, D. Maria da Cunha era prima-direita de Catarina da Cunha, mãe de Nuno Martins, e daí este Nuno ser cerca de 16 anos mais novo do que a mulher. Pois Catarina da Cunha era filha bastarda de Vasco Martins da Cunha, o Rabo de Asno, alcaide-mor de Lanhoso, 9º senhor de juro e herdade de Tábua, 7º morgado de Tábua, senhor de juro e herdade de Penalva (28.3.1434), etc, irmão do alferes-mor Gil Vaz da Cunha, pai de D. Maria da Cunha.

De Nuno Martins de Portocarreiro e sua mulher D. Maria da Cunha foi filha única, como ficou dito, D. Guiomar da Cunha, nascida em 1455 ou 56 e falecida em 1525. Sucedeu como senhora da parte que sua mãe herdara nas quintãs de Lordelo, de Louredo e da Torre de Portocarreiro, e a 11.8.1505 comprou quintã do paço de Pombal, por 50.000 reais, que seus avós paternos lhe venderam por intreposta pessoa, como também já ficou dito. Segundo Alão, o paço de Pombal, ou quintã de Vila Boa de Quires, era constituído por uma torre e casas medievais, que foram demolidas em 1575 para aí se fazerem umas casas novas. D. Guiomar fez testamento a 23.8.1524 e faleceu antes de 27.4.1525, pois nas Memórias de Paço de Sousa diz-se que D. Guiomar deixou à mesa conventual do mosteiro o casal do Ceveiro, que herdara de seus pais, com a obrigação de cinco missas anuais perpéctuas, as quais então já não se resavam porque os herdeiros deixaram de pagar os 500 reais em que se ajustaram com o mosteiro a 27.4.1525. Esclarece ainda que este ajuste foi feito com sua filha D. Helena de Ozorio e seu marido Álvaro Sanhudo, escudeiro fidalgo, que contrataram com o convento pagar 500 reais de prata no casal do Ceveiro ou Cadeiro, no concelho de Portocarreiro, para a satisfação do legado. No dito testamento, D. Guiomar deixou testamenteiro seu filho Gonçalo de Ozorio, e nele refere apenas os filhos Nicolau de Ozorio, a quem deixou os prazos dos casais do Vau, com todas as suas pertenças, e do casal do Cam, D. Isabel Cardim, a quem deixou o prazo dos casais de Rande e uma arca com tudo o que tinha dentro, e D. Filipa de Ozorio, a quem deixou uma "faldrilha" azul. A 23.8.1524 o mosteiro de Paço de Sousa emprazou-lhe em 3ª vida os casais de Vau, no couto do dito mosteiro, e o casal de Maragoça, em Valpedre. Mas não se pode confundir estes prazos com as respectivas quintãs. Com efeito, D. Guiomar já se documenta a viver na sua quintã de Vau em 1512 e as Memórias de Paço de Sousa dizem que aí sempre viveu desde que se ligou a D. Frei João Lopes de Ozorio, ou seja, desde 1488. Portanto, uma coisa era a quintã de Vau, propriedade de raiz que terá herdado de seus pais, outra os casais, certamente contíguos à quintã, que aforou ao mosteiro em 1524. Bem assim como o casal da Maragoça, que se não pode confundir com a quintã do Paço de Valpedre, igualmente propriedade de raiz, que justamente confronta com a Maragoça, hoje uma quinta autónoma. Os restantes filhos ou já tinham morrido ou já tinham sido herdados ou dotados, como foi o caso da filha sucessora. D. Guiomar protagonizou um caso que muito escandalizou não tanto a sociedade da sua época mas sobretudo a sociedade que seguiu à sua morte, fundada nos valores saídos do Concílio de Trento, que justamente procurou pôr cobro à dissolução dos costumes que se viveu nos finais do séc. XV e inícios do XVI. Com efeito, viveu marital e publicamente com D. Frei João Lopes de Ozorio, comendatário perpétuo dos mosteiros de Paço de Sousa e Cete (5.11.1484), de quem teve onze filhos, nascidos entre 1489 e 1500. João Lopes de Ozorio tinha já cerca de 42 anos quando tirou ordens de epístola em Braga em Junho de 1484, sendo logo feito comendatário. A vida pública de casado que fazia, e de que nunca abdicou, só a 20.7.1520, oito anos antes de morrer, o forçou a abandonar formalmente o cargo, para nessa data ser nomeado procurador para os ditos mosteiros pelo bispo do Porto D. Pedro da Costa, continuando portanto a exercer na prática as mesmas funções. Estes Ozorio, que aparecem sempre com "de" e inicialmente com a forma Osouro ou Ozouro, usam como armas dois lobos, como nomeadamente se vê nas várias cartas e pedras de armas de seus descendentes. D. Frei João Lopes de Ozorio era filho de Lopo Fernandes de Ozorio, escrivão de D. Duarte e D. Afonso V, e de sua mulher D. Isabel Cardim, que em 1484 viviam em Lisboa (S. Julião da Sé) e ela a 3.8.1513 vivia viúva em Paço de Sousa, quando teve do filho o prazo da quintã de Arouca e a doação vitalícia de 60 alqueires de trigo por ano. Antes de ser comendatário, João Lopes de Ozorio (João Lopes dOsouro) documenta-se a assinar pelo menos uma carta de D. Afonso V de 1473, certamente em substituição de seu pai. Lopo Fernandes documenta-se como escrivão da câmara real desde 1434, no reinado de D. Duarte, até 1478, no reinado de D. Afonso V, devendo ter sido aposentado pouco depois, o que significa que fez 70 anos, idade da aposentadoria nesse tempo. Mas como um seu amo ainda foi nomeado para porteiro em 1470, e não podia ter então mais de 70 anos, Lopo Fernandes não pode ter nascido antes 1414/5, pelo que só terá completado 70 anos em 1484 ou 85. Provavelmente deixou o cargo quando da morte de D. Afonso V a 28.8.1481. O termo amo tem um sentido muito lato, que vai do amo assim chamado por ser marido da ama-de-leite, ao amo da puberdade e adolescência, que em geral não eram o mesmo indivíduo. Por outro lado, para já ser escrivão do rei em 1434, não podia ter nascido depois de 1514/5, podendo contudo ser escrivão aos 19/20 anos, terminados os estudos, pois este tipo de ofícios começavam muito cedo. Assim, um amo da adolescência, tomado quando Lopo Fernandes tinha 10 anos, portanto cerca de 1424, podia ter então 22 anos e assim ter 68 quando a 20.11.1470 o rei nomeou Afonso Martins, tecelão, morador na vila de Sintra, amo de Lopo Fernandes, escrivão da câmara, para o cargo de porteiro do juiz dos órfãos da dita vila. Trata-se afinal de um cargo de fim de vida, dado de favor a um velho amo. Sendo que este pormenor nos permite suspeitar que Lopo Fernandes foi criado no paço real (de Sintra), e daí a sua nomeação para escrivão do rei mal acabou os competentes estudos. Creio portanto que Lopo Fernandes de Ozorio nasceu em 1415, cronologia que concorda também com o facto de seu filho Francisco de Ozorio, que era capelão do mosteiro de Paço de Sousa quando seu irmão D. Frei João Lopes de Ozorio lhe deu a 27.3.1499 a igreja de S. Martinho de Rio de Moinhos, a 6.5.1521 ter sido dispensado pelo bispo do Porto de assistir às vésperas e terço do ofício divino devido à sua avançada idade. Para ser assim tão velho em 1521, este Francisco de Ozorio terá nascido lá para 1440 (teria 81 anos), pelo que nem irmão inteiro de D. Frei João devia ser, uma vez que a mãe deste ainda vivia em 1513. Assim sendo, Lopo Fernandes de Ozorio terá casado duas vezes, tendo do 1º matrimónio nomeadamente este Francisco de Ozorio, e do 2º, com D. Isabel Cardim, nomeadamente D. Frei João. Lopo Fernandes aparece na documentação apenas assim, com prenome e patronímico, o que não é de estranhar no séc. XV. Contudo, em duas cartas de D. Duarte, ambas de 1436, aparece como lopo frrz de souroyo, isto na versão do copista que verteu a carta original para o livro da chancelaria. Lopo Fernandes de Ozorio foi escudeiro (1461) e depois cavaleiro (1475) da Casa Real e, além de escrivão do rei, foi tabelião das notas da cidade de Lisboa (1451), tendo recebido de D. Afonso V várias doações. Em 1484 documenta-se que morava com sua mulher em Lisboa (S. Julião da Sé). E já tinha falecido a 16.12.1499, quando sua viúva e herdeiros tiveram confirmação da mercê de um paúl, mortório e campos no vale que se chama João Chico, cerca de Vila Franca, termo da vila de Torres Vedras. Sobre ele aparecem muitas cartas nas Chancelarias, a saber: Dada em lixboa viij d de nouebo lopo frrz de souroyo a fez era de mjl iiijc xxxvj anos (CDI, 1, 204v); Dante em lixboa xj d de nouebo lopo frrz de souroyo a fez era de mjl iiijc xxxvj anos (CDI, 1, 206); Dada em a dcta uilla (Avis) x d do dcto mes (Agosto) el rrey o mandou p diego frrz dalmeida do seu conselho vedor da sua fazenda. lopo frrz a fez era de mjl E iiijc xxxviij anos (CDI, 1, 237v); Dante e Santare ix d abrill El rrey o madou po viçente estz de barbudo seu uassallo E monteiro mor e logo de lõpo uasqz de castellbranco. lõpo ffrrz a fez Era de mjl E iiijc xxxiiij anos (CDI, 3, 92); 22.6.1449-A D. Catarina de Albuquerque, confirmação do privilégio da coutada da quinta que chamam Mou da Ribeira, termo de Panóias. Nesta confirmação exceptua-se a defesa de caçar. Apresenta inclusa carta de D. Manuel I. D. Catarina informou que na Torre do Tombo havia um privilégio duma sua quinta localizada no Campo de Ourique por isso pede o treslado em pública forma, o que foi feito em Lisboa, a 7 de Junho de 1497, por Rui de Elvas, escudeiro da Casa Real, escrivão dos contos e da Torre do Tombo. El-rei o mandou pelo doutor Vasco Fernandes, do Conselho e conde palatino, da chancela na Casa do Cível em Lisboa, cronista e guarda-mor da Torre do Tombo. Apresenta incluso no anterior alvará de D. Manuel I feito por Lopo Mexia em Évora, a 4 de Junho de 1497. Manda-se a Vasco Fernandes dar à beneficiada os treslados de um privilégio da quinta que tem no Campo de Ourique e que se perdeu nas confirmações. Apresenta inclusa na carta uma outra de D. Afonso V feita por Lopo Fernandes em Lisboa, a 22 de Junho de 1449 (CMI, 28, 64); 29.12.1450 (ou 1449)-À vila de Belmonte, confirmação do privilégio de couto para 20 homiziados que queiram ir morar para o castelo da vila. Estes poderão receber carta do concelho para durante dois meses poderem circular livremente pelos senhorios reais para tratarem de seu mantimento. A confirmação é válida só para os homiziados “que ao tempo da confirmaçam del-rei dom Joham que Deus aja hy estavam e d'hy por diamte nam valha a outros que novamente hy venham”. Apresenta inclusa carta de D. Afonso V, feita por Lopo Fernandes, em Évora, a 29 de Dezembro de 1450 [1449?] (CMI, 28, 100 e 100v); 4.1.1451-Privilégios de Coimbra. Carta de D. Afonso feita em Santarém, a 4 de Janeiro de 1451, por Lopo Fernandes (CMI, 43, 51); 15.7.1451-D. Afonso V nomeou Lopo Fernandes, escrivão da câmara régia, para o cargo de tabelião das notas da cidade de Lisboa, em substituição de João Álvares, que renunciara (CAV, 11, 87v); 7.5.1453-D. Afonso V quitou a Lopo Fernandes, escrivão câmara régia, a pensão que tem de pagar do tabelionado das notas que tem na cidade (CAV, 4, 13v); 8.11.1454-A Diogo Borges, fidalgo da Casa d’el rei, neto de Gomes Borges, cavaleiro da Casa d’el rei e escrivão da sua Chancelaria, confirmação de carta de D. Afonso V, dada em Sintra, a 8 de Novembro de 1454, escrita por Lopo Fernandes e endereçada aos juízes da vila de Moncorvo. Gomes Borges tinha uma herdade no termo da vila de Moncorvo, onde chamavam Almacay, junto de Aguiar do Douro, que era uma grande légua (CMI, 40, 12 e 12v); 31.10.1455-D. Afonso V privilegiou Fernando Álvares, escudeiro, vassalo régio, morador na cidade de Lisboa, a pedido de Lopo Fernandes, escudeiro da sua Casa e escrivão da câmara régia, concedendo-lhe aposentação sem ter atingido a idade de 70 anos, outorgando-lhe outros privilégios (CAV, 15, 118v); 5.5.1457-A Estevão Nunes, morador em Alenquer, foi confirmado privilégio de pescador do rei, concedido por D. Afonso V, com algumas isenções, entre elas o pagamento de talhas, fintas, peitas e serviços do concelho. Inserida carta de D. Afonso V de 5.5.1457, Alenquer; Lopo Fernandes a fez (CMI, 30, 113 e 113v); 16.3.1458-A Diogo Lopes de Souza, do Conselho d’el rei, e alcaide-mor de Arronches, confirmação de carta de D. João II, dada em Santarém, a 23 de Junho de 1484 e escrita por Estêvão Vaz, na qual confirma outra de D. Afonso V datada de Leiria, 16 de Março de 1458 e escrita por Lopo Fernandes. Nesta lhe aprazia que nenhuns escudeiros nem outras pessoas que morassem na vila de Arronches que costumassem andar entre os oficiais do concelho não houvessem nenhuns ofícios dele, salvo aqueles que tivessem cavalos continuadamente. E os que os não tivessem, posto que fossem tais pessoas para haver os ditos ofícios que os não houvesse, salvo se tivessem cavalos, como dito é (CMI, 40, 9 e 9v); 3.7.1458-A Gonçalo Nunes Barreto, alcaide-mor de Faro, confirmação de carta de D. Afonso V, datada de Estremoz, 3 de Julho de 1458 e escrita por Lopo Fernandes, na qual privilegiava e escusava 24 lavradores da terra que trabalhassem no reguengo da Quarteira (CMI, 32, 124; e Odiana, 3, 223); 15.2.1459-A D. Maria de Sousa, baronesa do Alvito, confirmação da doação feita pela carta dada em Torres Vedras, a 18 de Junho de 1494, por Jorge Afonso, que confirmava outra feita em Évora, a 15 de Fevereiro de 1459, por Lopo Fernandes, pela qual os moradores e vizinhos das vilas do Alvito e Vila Nova são privilegiados como se vivessem em couto de homiziados, à semelhança dos moradores e vizinhos do lugar de Mourão, isto é, não sirvam com os corpos e fazendas por mar, nem por terra, nem com bestas, armas e cavalos, nem lhe tomem roupas, palhas ou outra cousa (CMI, 37, 5); 14.3.1459-D. Afonso V doou vitaliciamente a Lopo Fernandes, escrivão da sua câmara, umas casas na judiaria de Alfama da cidade de Lisboa, que pertenceram a D. Dorico, judia, mulher viúva, que fora moradora na dita judiaria, contanto que não faça avença com as partes (CAV, 36, 144v); 5.9.1459-D. Afonso V emprazou em três vidas a Lopo Fernandes, escudeiro da sua Casa, escrivão da câmara régia, umas alcaçarias e um assentamento de casas na judiaria de Alfama da cidade de Lisboa, pelo foro anual de 2 onças de prata (ou seu justo valor ao tempo das pagas), a pagar pelo dia de Natal, a partir de 1460 (CAV, 36, 221); 19.11.1461-D. Afonso V doou a Lopo Fernandes, escudeiro da sua Casa e escrivão da sua câmara, os bens que pertenceram de Rodrigo Anes Justo, morador na vila de Olivença, que os perdera por fazer contrabando de gado para Castela (CAV, 1, 30v); 31.10.1463-D. Afonso V privilegiou Vasco Lopes, morador na cidade de Évora, a pedido de Lopo Fernandes, escrivão da câmara régia, isentando-o do pagamento de diversos impostos e encargos ao concelho, de ser posto por besteiro do conto, de ter cavalo, armas e bestas, bem como do direito de pousada (CAV, 9, 22v): 6.4.1463-D. Afonso V privilegiou João Vasques Passado, morador na vila de Almada, a pedido de Lopo Fernandes, escrivão da sua câmara, isentando-o do pagamento de diversos impostos e encargos ao concelho, de ser posto por besteiro do conto, de ter cavalos e armas, bem como do direito de pousada (CAV, 9, 56v); 2.11.1465-D. Afonso (...) os 24 mesteres que agora têm cargo da aposentadoria de Santarém disseram que além das 500 camas que eles eram obrigados de nos darem quando quer que a dita vila fossemos poderia ser e receber lhe servem mester mais camas pediam que lhe dessemos lugar que cada uma vintena dos moradores do termo da dita vila pudessem filhar duas camas pagando eles por cada cama 6 reais, segundo pagavam as outras pessoas que camas davam à dita aposentadoria em o regimento. E lhe damos licença e lugar necessário às ditas camas. E porém mandamos ao corregedor da dita comarca e aos juízes da dita vila e a outros quaisquer que este tiverem de ver que lhas deixem filhar sem lhe porem outro embargo. Dada no Porto a 2 de Novembro de 1465. Lopo Fernandes a fez (carta transcrita - CMI, 29, 32); 5.4.1468-D. Afonso V privilegiou Gonçalo Fernandes, vassalo régio, morador na vila de Castelo de Vide, a pedido de Lopo Fernandes, escrivão da câmara régia, concedendo-lhe aposentação sem ter atingido a idade de 70 anos, e isenta-o de servir o rei na guerra, tanto por mar como por terra, com todas as honras, privilégios e liberdades que têm os vassalos régios aposentados (CAV, 28, 26v); 25.2.1468-D. Afonso V privilegia Gonçalo Vasques, criado de Lucas Anes, lavrador, morador na Ribeira, termo de Leiria, a pedido de Lopo Fernandes, escrivão da sua câmara, isentando-o do pagamento de diversos impostos ao concelho, de ser tutor e curador, de ser acontiado em nenhuma contia, bem como de outros encargos e ofícios (CAV, 28, 46); 17.4.1469-À abadessa e donas do mosteiro de Vairão foi confirmado o privilégio que as coloca sob protecção e guarda do rei. Inserida carta de D. Afonso V de 17.4.1469, Salvaterra, Lopo Fernandes a fez (CMI, 30, 31 e 31v); 20.11.1470- D. Afonso V nomeou Afonso Martins, tecelão, morador na vila de Sintra, amo de Lopo Fernandes, escrivão da câmara, para o cargo de porteiro do juiz dos órfãos da dita vila em substituição de João Migueis que renunciara. Refere Instrumento público de 28 de Abril de 1470 (CAV, 16, 109v); 2.5.1472-A Afonso Álvares, alfaiate, morador em Lisboa, confirmação do privilégio de aposentação como besteiro da câmara, apesar de ainda não ter 70 anos, por ser muito doente do estômago. Apresenta inclusa carta de D. Afonso V dada em Santarém, a 2 de Maio de 1472, feita por Lopo Fernandes, em que aposenta o beneficiado com sua honra, com todos os privilégios dos besteiros e isento dos encargos daqueles que são dispensados servir (CMI, 28, 11 e 11v); 18.7.1473-D. Afonso V nomeou Pedro Afonso, vassalo régio, criado de Lopo Fernandes, escrivão da câmara régia, para o cargo de tabelião no paço dos tabeliães da cidade de Lisboa, em substituição de Vasco Serrão, que fora destituído do cargo, por o ter arrendado sem licença régia (CAV, 33, 142); 18.7.1473-Apresentação e registo do sinal público de tabelionado do provido no cargo Pedro Afonso, vassalo régio, criado de Lopo Fernandes, escrivão da câmara régia, tabelião no paço dos tabeliães da cidade de Lisboa (CAV, 33, 142);14.12.1474-A Freixo-de-Espada-à-Cinta, confirmação da mercê da terça das rendas do concelho. Apresenta inclusa uma carta de D. Afonso V feita em Estremoz por Lopo Fernandes a 19 de Dezembro de 1474 dando ao dito concelho a terça das suas rendas (que servia para reparar os castelos) uma vez que o seu castelo está bem corrigido e reparado (CMI, 44, 96); 16.1.1475-D. Afonso V doou a Lopo Fernandes, cavaleiro da sua Casa e escrivão da câmara régia, uma herdade, entre outros bens na vila de Arronches, que tinha sido doada pelo rei D. João I a certos criados, moradores nessa vila, entre os quais Rui Gonçalves, que morrera (CAV, 30, 172v); 7.4.1475-D. Afonso V privilegiou Lopo Fernandes, cavaleiro da sua Casa e escrivão da câmara régia, concedendo-lhe licença para nomear um escrivão do paço dos tabeliães da cidade de Lisboa, encarregue de o servir (CAV, 30, 139); 18.4.1475-A João Freire de Andrade, fidalgo da casa d’el rei, confirmação de uma carta de D. Afonso V, datada de Lisboa, 3 de Dezembro de 1477 e escrita por Álvaro Dias, na qual se continha um alvará do mesmo rei, datado de Évora, 18 de Abril de 1475, escrito por Lopo Fernandes. Neste fazia saber ter feito mercê a João Freire de Andrade da terra de Bobadela com todos seus direitos, rendas e padroados de igrejas, segundo na carta de doação se continha, a qual andava tresladada num feito que dona Isabel Coutinho e ele, João Freire de Andrade, traziam contra Luís Freire, na qual se dizia que lhe fora feita mercê da dita terra (CMI, 13, 53 e 53v); 3.9.1478-A Isabel Gonçalves, moradora em Santarém, tia de Fernando Teixeira, escudeiro d’el rei, que por ela o pediu, confirmação da licença, concedida por D. Afonso V, em [Évora], a 3 de Setembro de 1478 e escrita por Lopo Fernandes, para trazer suas bestas à carga e ao ganho em Santarém, sem nenhum embargo (CMI, 32, 20 e 20v); 16.12.1499-À mulher e herdeiros de Lopo Fernandes, cavaleiro da Casa d'el rei e escrivão da câmara, confirmação da mercê de um paúl, mortório e campos no vale que se chama João Chico, cerca de Vila Franca, termo da vila de Torres Vedras, com as confrontações e condições declaradas, por foro anual de um real de prata, pela apresentação de uma carta feita em Santarém, a 15 de Julho de 1474, por Pero Bentes (CMI, 41, 120 e 120v).

Dos onze filhos de D. Guiomar da Cunha e D. Frei João Lopes de Ozorio, só os dois mais velhos, Gonçalo de Ozorio e D. Helena de Ozorio, foram legitimados por carta real, de 18.3.1511, a pedido dos pais, que já os tinham antes legitimado em instrumento lavrado a 18.10.1503 no tabelião Jorge Álvares Rangel. Por que razão os restantes filhos não foram legitimados, não se sabe. Assim como não se entende a razão porque foi esta Helena de Ozorio a sucessora nas quintãs de Lordelo, de Louredo e da Torre de Portocarreiro, em cuja posse da parte que era de sua mãe já estava em 1512, ainda em vida desta. Mas se juntarmos as duas coisas, podemos pelo menos perceber que foi a legitimação que permitiu a D. Guiomar dotar esta sua filha com a sua parte das ditas quintãs, dotação que terá portanto acontecido depois de Março de 1511 e antes de Maio de 1512, era D. Helena solteira, tendo cerca de 21 anos. Embora se estranhe que não tenha sido o filho, também legitimado, Gonçalo de Ozorio, a ficar com estes bens tão emblemáticos, apesar de, já na geração anterior, ter sido D. Filipa da Cunha e não seu irmão Gonçalo Vaz Alcoforado quem ficara com a parte de seu pai nestas quintãs. É certo que este Gonçalo foi clérigo, mas em 1512 ainda não o era nem o seria durante muito tempo. Com efeito, a 30.3.1526 seu pai emprazou a Gonçalo de Ozorio, fidalgo da Casa d'el rei, e a quem com ele casasse, os casais do Olival da Vinha, em Rio de Moinhos. Assinaram o prazo como testemunhas os irmãos Justo de Ozorio e Nicolau de Ozorio, ambos também fidalgos da Casa d'el rei e filhos do mesmo D. Frei João. E a 27.5.1527 seu pai emprazou-lhe, a si e à sua futura mulher, os prazos dos casais e quebrada do Vau e do casal de Maragoça, que a 28.8.1522 havia feito a sua mãe D. Guiomar. Portanto, só depois de 1527, e provavelmente após a morte do pai em 1528, é que Gonçalo de Ozorio se ordenou clérigo. Foi abade de Stª Mª de Alijó, que em 1547 trocou pela igreja de Stª Margarida de Lousada. Assim, Gonçalo de Ozorio ficou nomeadamente com a quintã de Vau e a quintã do Paço de Valpedre, enquanto D. Helena ficou com a parte de sua mãe nas quintãs de Lordelo, de Louredo e da Torre de Portocarreiro, bem assim como com o paço de Pombal e outros casais. Os restantes irmãos não se sabe ao certo com o que foram dotados, pois não há notícia da totalidade dos bens patrimoniais dos pais. É certo que todos os irmãos ou faleceram solteiros ou foram clérigos, e das irmãs apenas uma casou. Mas em 1525 e 1528, quando os pais morreram, se bem que os filhos não legitimados que foram clérigos já pudessem todos ter tomado ordens, os dois que morreram solteiros ainda podiam casar e foram certamente dotados. É o caso de Nicolau de Ozorio, fidalgo da Casa Real, que morreu num naufrágio a caminho da Índia, antes de 13.3.1542, a quem sua mãe deixou em testamento o prazo dos casais do Vau, com todas as suas pertenças, e o prazo do casal do Cam. Mas só terá ficado com este último prazo, desistindo do outro, pois, como já se disse, a 27.5.1527 seu pai emprazou a seu irmão Gonçalo o dito prazo dos casais de Vau. E o caso de Francisco da Cunha, também fidalgo da Casa Real, que a 13.3.1542 foi servir à Índia com o soldo que levava Nicolau de Ozorio, seu irmão, que se perdera na nau Galega. E que é certamente o Francisco da Cunha que depois foi nomeado tabelião de Portocarreiro (CJIII, 46, 126v). Dos restantes irmãos, falta referir D. Justo de Ozorio, fidalgo da Casa Real, que passou a Castela e aí foi capelão do rei D. Filipe I; D. Manuel da Cunha, arcediago de Stª Cristina na Sé de Braga; Jerónimo de Ozorio, moço da capela da Casa Real e depois fidalgo da Casa do cardeal D. Henrique, que foi abade de S. Martinho de Lagares; e Pedro da Cunha Ozorio, fidalgo da Casa Real e cónego da Sé do Porto, que em 1547 vivia em Roma. Todos estes clérigos, incluíndo o legitimado Gonçalo, com excepção de D. Justo, deixaram filhos ilegítimos, alguns até legitimados por carta real, como é o caso de Paulo da Cunha Coutinho, capitão-mor de Unhão, filho do cónego Pedro da Cunha Ozorio, legitimado por carta real de 24.10.1581, que casou com a senhora da casa de Juste, com geração conhecida. E o caso de Manuel da Cunha Ozorio, filho do arcediago D. Manuel da Cunha, legitimado por carta real de 10.5.1564, com geração num ramo de Cunha Ozorio, de Braga. A única irmã que casou, D. Maria da Cunha, fê-lo justamente com um irmão do marido de D. Helena, Gonçalo Sanhudo, e viveram no Porto e em Pedorido (Castelo de Paiva), onde ele faleceu com testamento de 23.4.1532, tendo sucedido à irmã D. Isabel Cardim no prazo de S. João de Rande, em Lagares. Tiveram um único filho, Antão Sanundo, que tirou ordens menores em Braga em 1532 e viveu na vila de Atouguia, onde instituiu um morgadio. Deixou um filho natural, o Dr. Francisco Álvares Sanhudo, corregedor do Cível de Lisboa, que lhe sucedeu.

Gonçalo de Ozorio, o filho legitimado de D. Frei João Lopes de Ozorio e D. Guiomar da Cunha, foi abade de Stª Mª de Alijó, que em 1547 trocou por Stª Margarida de Lousada, como já ficou dito. Deixou dois filhos ilegítimos: Manuel de Ozorio, que sucedeu na quintã de Vau e casou em Amarante com Maria Ferreira de Queiroz, c.g., e Guiomar de Ozorio, que sucedeu nas quintas do Paço de Valpedre e de Piães, tendo casado com João Teixeira, senhor da quinta de Juncosa, no lugar da Ribeira, em Rio de Moinhos (Penafiel), onde faleceu viúvo a 11.4.1603, deixando herdeira sua filha única D. Mariana de Ozorio (que também aparece como Maria Teixeira de Ozorio), nascida cerca de 1550, que também sucedeu a sua mãe e casou no 2º domingo (sic) de Outubro de 1588, ib, com Gonçalo da Rocha, natural e cidadão do Porto (filho de António da Rocha e sua mulher Maria de Figueiredo, moradores em S. Nicolau da cidade do Porto), que instituiu a capela de Nª Sª da Graça na dita quinta da Juncosa, sem geração. Por testamento de 23.6.1624, D. Mariana deixou herdeiros seus primos "Jº e Manuel da Cunha, filhos de D. Helena de Ozorio", como direi adiante.

D. Helena de Ozorio nasceu cerca de 1490 na quintã de Vau e faleceu em 1560. Como vimos, foi legitimada por carta real de 18.3.1511 e entre esta data e 1512 já tinha sido dotada por sua mãe com a parte dela nas quintãs de Lordelo, de Louredo e da Torre de Portocarreiro. E isto sabe-se porque a 29.5.1512 seu primo Pedro da Cunha Coutinho, senhor de juro e herdade de Basto, Maia, Portocarreiro, etc., já acima referido, lhe doou a parte dele nas ditas quintãs, que resultaram da partilha de seu avô Fernão Vaz da Cunha com a irmã D. Maria da Cunha, avó de D. Helena, como expressamente diz, para que assim tudo "se torne a inteirar e juntar", fazendo-o também porque "pelo parentesco que com ela tem quer que as haja para ajuda de seu casamento". Mas, como também já ficou dito, esta mais recente partilha era já sobre uma parte das ditas quintãs e honras, pois a outra parte tinha andado na posse de outro ramo e acabara por pertencer a Fernão Martins Alcoforado, 2º marido de D. Maria da Cunha, passando por morte deste ao 3º marido, Nuno Martins de Portocarreiro (que já incluia a parte da mulher), passando depois a parte de Fernão Martins Alcoforado, que nomeadamente incluia o padroado da igreja de Vila Boa de Quires, a sua filha mais velha D. Filipa da Cunha, e desta a seu filho Luiz de Antas, que também em 1512, seguindo o exemplo de Pedro da Cunha Coutinho, doou a sua parte nestas quintãs a sua prima D. Helena de Ozorio, que assim reuniu todo o conjunto, após vários séculos de partilha por dois ramos da descendência Portocarreiro. Estando assim tão bem dotada, provavelmente os pais procuram-lhe um bom casamento, coisa que por qualquer razão não terão conseguido, não sendo talvez alheio a isso o facto de já ter 22 anos em 1512, nesse tempo idade muito tardia para uma noiva. Com os anos a passar, D. Helena casou finalmente cerca de 1517 com Álvaro Sanhudo, então um simples escudeiro da Casa Real, filho ilegítimo de um cavaleiro de Malta, se bem que legitimado por carta real, e neto do escrivão das sisas do julgado de Portocarreiro. Não foi este certamente o casamento que seus pais desejariam e o seu dote merecia, mas ou foi um recurso para uma noiva que então já contaria 27 anos ou tratou-se de um caso de amor, que os pais não tinham muita autoridade moral para contrariar... Álvaro Sanhudo nasceu cerca de 1480 e foi legitimado por carta real de 15.1.1499, depois de legitimado por seu pai a 1.9.1498, na Covilhã, no tabelião local Afonso Álvares. Era escudeiro fidalgo da Casa Real, sendo acrescentado cavaleiro em 1525. Foi escrivão das sisas do concelho de Bemviver (CJII, 21, 3 e 105) e tabelião de Casal Mendo e era senhor da quintã de Santa Ovaia, em Pedorido (Castelo de Paiva). Era filho de Antão Sanhudo, cavaleiro da Ordem de Malta e nesta ordem comendador da Covilhã, e senhor da Silvã, hoje um lugar da freguesia da Cunha Alta (Mealhada), havido em Catarina Anes, mulher solteira. Este Antão era irmão de Álvaro Pires Sanhudo, escudeiro fidalgo da Casa Real, morador em Canavezes, escrivão das sisas do julgado de Portocarreiro (29.7.1471, por renúncia de seu pai, confirmado a 12.12.1483 e reconfirmado a 18.5.1496), ambos filhos de Pedro Afonso Sanhudo, escudeiro, criado de Rui Pires de Távora, e depois vassalo de D. Afonso V, que foi escrivão dos contos de Lisboa, cargo que renunciou em 1434, e depois escrivão das sisas de Portocarreiro (17.8.1444), cargo que renunciou no filho a 29.7.1471, e de sua mulher Constança Martins, filha de Antão Martins, também escrivão das sisas de Portocarreiro. A 3.11.1434 D. Duarte nomeou Nuno Gonçalves, moço que foi dos ditos contos, para o cargo de escrivão dos contos de Lisboa, "pela gissa q o era pedr aafom.o sanhundo, escudeiro, C.ado de Ruy Piz de tauora, cuJo o dco ofiçio era e o arunuçiou a nos". A 17.8.1444 D. Afonso V nomeou Pedro Afonso, seu vassalo, morador em Canavezes, para o cargo de escrivão das sisas do julgado de Portocarreiro, em substituição de seu sogro Antão Martins, que renunciara. E a 29.7.1471 o mesmo rei nomeou Álvaro Pires Sanhudo, morador em Canaveses, para o cargo de escrivão das sisas do julgado de Portocarreiro, em substituição de seu pai Pedro Afonso Sanhudo, que renunciara. Alão refere um Pedro Sanhudo, natural de Paço de Sousa, que foi fidalgo de cota de armas e pai de um Antão Sanhudo, sendo este pai de um Álvaro Sanhudo. Sanches de Baena diz que "em urn livro que serviu a um rei de armas antigo, achamos que os d'este appellido (Sanhudo) teem por armas, escudo partido em pala, a primeira de oiro e a segunda de verde, e nestes dois campos entrecambado um leão da mesma cor e esmalte; timbre um leão de oiro". Ora, Pedro Afonso Sanhudo teve um filho Antão Sanhudo, sendo este pai do Álvaro Sanhudo que casou com D. Helena de Ozorio. Pedro Afonso não devia ser natural de Paço de Sousa, e sim de Lisboa, mas veio casar a Portocarreiro e viveu em Canavezes. É portanto certamente o fidalgo de cota de armas de que fala Alão. Mas esta carta de armas, se existiu, anda perdida, pois dela não há notícia nem a encontrei nas chancelarias, topando apenas com a citada referência de Sanches de Baena. Em princípio, esta carta de armas teria sido passada no reinado de D. João I, e com ela se poderia saber mais sobre a origem desta família. Rui Pires de Távora, de quem Pedro Afonso Sanhudo foi criado, nasceu cerca de 1392 e era filho de Pedro Lourenço de Távora, reposteiro-mor de D. João I, senhor de juro e herdade de S. João da Pesqueira (10.6.1382), etc. Se é verdadeira a tradição que diz que nessa carta de armas se referia a origem espanhola da família, teria sido o pai deste Pedro, certamente um Alfonso (...) Sañudo, que veio para Portugal. Pedro Afonso, para já ter renunciado ao cargo de escrivão dos contos de Lisboa em 1434, ainda exercendo um cargo em 1471, terá nascido cerca de 1410, adequando-se bem esta cronologia ao facto de ter sido entregue, com 7 ou 8 anos de idade, à criação de Rui Pires de Távora, que então teria 26 anos. Como parece evidente que Pedro Afonso Sanhudo, escrivão dos contos de Lisboa ainda novo e depois escrivão das sisas de Portocarreiro, não cometeu nenhum acto heróico que justificasse a mercê de armas novas, se teve carta de armas, como parece, foi certamente carta de armas de geração, reconhecendo o brasão da sua família em Espanha (Castela, Leão ou Galiza), onde então existia de facto a família (ou famílias) Sañudo.

Apesar de ter casado com cerca de 27 anos, um matrimónio bem tardio para a época, D. Helena de Ozorio ainda teve nove filhos, o último dos quais nascido cerca de 1533, teria ela já 43 anos de idade. Sabemos que viveu na cidade do Porto pelo menos os primeiros anos de casados, numa casa (possivelmente já a do Padrão de Belmonte) que aí lhe comprou o pai. Esta compra, referida por Magalhães Basto, evidencia que o privilégio que a cidade tinha de aí não viverem fidalgos se refere apenas a fidalgos poderosos e não a fidalgos em geral. Com efeito, D. João Lopes de Ozorio, que como comendatário de Paço de Sousa era inegavelmente um fidalgo poderoso, foi intimado pela Câmara do Porto por ter comprado uma casa na cidade. Tendo este respondido que a casa que comprara não era para si, mas sim para aí viverem a filha e o genro. Apesar de fidalga, e do ponto de vista genealógico até mais fidalga do que o pai, a filha já não cabia no conceito de fidalgo poderoso, que apenas compreendia os grandes potentados, como titulares, senhores de jurisdição, alcaides-mores, comendatários e equivalentes. Coisa que o genro, embora fidalgo e escudeiro da Casa Real, também estava longe de ser. Dos filhos de D. Helena de Ozorio e Álvaro Sanhudo, o varão primogénito, João Álvares de Ozorio, documenta-se que nasceu na cidade do Porto, cerca de 1519, tirou ordens nenores em Braga em 1531 e em 1540 teve foro de escudeiro fidalgo da Casa Real, indo à Índia para ser armado cavaleiro. Casou com Filipa Cardoso, filha de Nuno Cardoso, morgado da Taipa (Lamego) e de sua mulher Guiomar Correa, mas não teve geração, ao contrário do que dizem algumas genealogias tardias. Sucedeu em parte da quintã do Paço de Pombal, vendendo em 1552 a Duarte Carneiro Rangel por 123.500 reais 1/3 desta quinta. Com efeito, a 8.12.1552, Gaspar de Couros, tabelião do público na cidade do Porto e seu termo, fez uma procuração pela qual João Álvares de Ozorio (Osouro), cavaleiro fidalgo da Casa d'el-rei, morador na quinta da Taipa, do termo da cidade de Lamego, do seu quinhão da quintã do Paço, sita no couto da igreja de Stº André de Vila Boa de Quires, ao Licº Duarte Carneiro Rangel fidalgo da Casa d'el-rei, do seu desembargo e desembargador dos Cativos na sua Corte e Casa do Cível, morador na Rua das Eiras, no Porto. Diz a procuração que naquela data, na quintã da Taipa, termo da cidade de Lamego, nas pousadas de Guiomar Correa, dona viúva, aí moradora, perante o tabelião e testemunhas, compareceu Filipa Cardoso, mulher de João Álvares de Osouro, cavaleiro fidalgo aí morador, e disse que com livre e geral administração e com poderes de sob estabelecimento a fazia ao dito João Álvares de Osouro seu marido para que em seu nome vender toda e qualquer sua fazenda e bens de raíz. E logo pelo dito João Álvares foi dito que era de sua própria herdade dízimo a Deus a sua quintã do Paço sita no couto da igreja de Stº André de Vila Boa de Quires, sita no concelho de Portocarreiro da correição desta cidade do Porto, sendo feita toda a dita quinta em seis partes de maneira e modo que sendo a dita quinta toda feita em seis partes lhe pertencia dela as ditas quatro partes, e disse ele João Álvares que ele em seu nome e por virtude da dita procuração da dita sua mulher Filipa Cardoso que deste dia para todo o sempre vendia e fazia pura e irrevogável venda ao dito Licº Duarte Carneiro Rangel e sua mulher Beatriz Carneiro e para seus herdeiros e sucessores, de dois quinhões dos quatro que assim tem na dita quinta, pelo preço de 123.500 reais.

O 2º filho de D. Helena de Ozorio, D. Antão Sanhudo, nasceu cerca de 1521 também no Porto e faleceu em 1588 em Pedorido, tirando em Braga ordens menores em 1532, de Epístola em 1559 e de Evangelho em 1560. Doutorou-se em Cânones na Universidade de Coimbra e foi desembargador da Relação, vigário-geral do bispado de Lisboa e arcediago de Labruje. Foram ainda filhos varões Filipe da Cunha, fidalgo da Casa Real que morreu solteiro em Mazagão antes de 1560, e Jerónimo da Cunha, nascido cerca de 1532, fidalgo escudeiro da Casa Real, indo à Índia para ser armado cavaleiro, que sucedeu nas honras e quintãs da Torre de Portocarreiro, de Louredo e Lordelo, assim como no padroado de Vila Boa de Quires, e foi ainda senhor da quinta do Paço de Valpedre, que herdou de sua prima D. Mariana de Ozorio, por testamento de 23.6.1624, tendo falecido solteiro em 1625, deixando herdeiro seu sobrinho Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro, referido adiante. Finalmente, o filho mais novo chamou-se Manuel da Cunha, nasceu cerca de 1533, e foi também fidalgo escudeiro da Casa Real, indo à Índia para ser armado cavaleiro, tendo igualmente falecido solteiro, deixando uma filha ilegítima, sendo juntamente com seu irmão herdeiro da antedita prima D. Mariana de Ozorio. Das filhas de D. Helena de Ozorio e seu marido, as mais velhas, D. Antónia de Cunha, nascida cerca de 1518, e D. Isabel Cardim, herdaram as duas restantes partes do paço de Pombal, que venderam em 1560 ao antedito Duarte Carneiro Rangel para professarem no convento de Stª Clara de Amarante. A outra filha, mais nova, D. Ana da Cunha, também foi freira no mesmo convento, conforme diz Alão. A esta Gaio aparentemente chama Ana Sanhudo e dá-a casada com um Tomé Pires de Araújo. Mas em nota diz Gaio: "No ttº de Ferreiras § 3 Sub N 12 se acha Inês Correa filha de João Martins Ferreira casada com Álvaro Sanhudo s.m.n. e parece ser esta sua 2ª mulher; e dele é natural ser filha Ana Sanhudo que abaixo se dá casada com Tomé Pires de Araújo; porque Ana Sanhudo filha de D. Helena Ozorio foi freira em Amarante salvo se a mulher de Tomé Pires tinha outro nome ou D. Helena Ozorio teve duas filhas do mesmo nome como às vezes acontece ainda que raras, mas a justificação abaixo notada prova que Ana Sanhudo c.c. Tomé Pires era filha de Álvaro Sanhudo e todos lhe dão mãe a dita D. Helena Ozorio que supomos ser sua 2ª mulher; poderia a freira de Amarante ter outro nome". Trata-se portanto de uma suposição, ao arrepio do que antes disse Alão, e sem fundamento documental salvo o de uma justificação dos descendentes, feita em 1603, justificação essa que na verdade apenas refere um Álvaro Sanhudo e não D. Helena de Ozorio. Ora, o Tomé Pires de Araújo de que fala Gaio é certamente o Tomé Pires que no reinado de D. João III foi juiz das sisas dos julgados de Canavezes (CJII, 15, 127) e Portocarreiro (ib, 67, 93v), recebedor das sisas de Canavezes (ib, 26, 127v) e procurador do número (ib, 31, 126v) e tabelião (ib, 15, 130; e 62, 3) do julgado de Portocarreiro. O que imediatamente nos remete para o tio do Álvaro Sanhundo casado D. Helena de Ozorio, chamado Álvaro Pires Sanhudo, que como ficou dito viveu em Canavezes e foi escrivão das sisas do julgado de Portocarreiro nos reinados de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I, que o confirmou no cargo a 18.5.1496 (CMI, 43, 19), sendo que a 19.5.1500 já o exercia seu filho Pedro Álvares Sanhudo (CMI, 12, 23v). Portanto, mais me parece que este Pedro Álvares Sanhudo é que foi pai de Ana Sanhudo e sogro de Tomé Pires. Terá a justificação de 1603, um século depois, trocado o nome de Pedro Álvares Sanhudo por Álvaro (nome do pai deste Pedro)? Se assim não foi, é possível que Pedro Álvares Sanhudo tenha tido um irmão chamado Álvaro, sendo Ana Sanhudo não filha mas sim sobrinha Pedro Álvares Sanhudo. Se este Pedro, ou seu putativo irmão Álvaro, casou ou não com uma Inez Correa, não sei, mas é provável. Sendo contudo certo que se documenta que João Martins Ferreira não tinha filhos (da 1ª mulher) em 1491, pelo que Inez Correa, se era filha dele, só pode ter nascido depois desta data. Apontando as melhores opiniões o casamento de João Martins Ferreira com sua 2ª mulher Violante Correa para 1506.

De D. Helena de Ozorio e seu marido Álvaro Sanhudo a única filha que seguramente casou foi D. Guiomar da Cunha, também referida como Guiomar de Ozorio (Ozouro), nascida cerca de 1525, por quem passou a sucessão. D. Guiomar herdou nomeadamente a casa do Padrão de Belmonte, na cidade do Porto, a quinta de Santa Ovaia, em Pedorido, e o casal do Cão, em Louredo (Portocarreiro). Vivia viúva em Pedorido em 1594. Casou cerca de 1549 com Jorge de Oliveira Pinto, fidalgo da Casa Real, nascido em Poiares, senhor da quinta do Barral, em S. Cipriano de Aregos, filho de João Pinto Coutinho, fidalgo, capitão de Aregos e senhor da dita quinta do Barral, e de sua mulher Urraca de Oliveira, irmã de Jorge de Oliveira, que em 1594 tinha do prazo da quinta de Lagares, em S. Martinho de Lagares (Penafiel), prazo este que teve em dote de sua mulher Helena de Macedo. Referidos no meu trabalho sobre os Pinto, Moura Coutinho e Carvalho, de Stª Marinha de Zêzere (Baião).

D. Guiomar da Cunha e seu marido tiveram dois filhos: Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro, o sucessor, e o doutor João de Ozorio Sanhudo, arcediago de Pedorido e de Labruge, que instituiu o morgadio de Labruge, tendo nascido cerca de 1551 em Pedorido e falecido a 21.7.1617 em Ponte de Lima, e que teve filhos ilegítimos de sua prima Catarina de Souza, filha natural de seu tio Manuel da Cunha, com geração numa linha de Cunha Ozorio, de Braga. Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro nasceu cerca de 1550 em Pedorido e faleceu a 10.11.1625 em Melres (Gondomar), onde viveu casado na quinta que teve por sua mulher e onde instituiu o morgadio de Melres, com sua capela de S. Tiago na matriz. No próprio ano da sua morte sucedeu a seu tio Jerónimo da Cunha nas quintãs da Torre de Portocarreiro, de Louredo e Lordelo, assim como no padroado de Vila Boa de Quires, e na quinta do Paço de Valpedre. Foi capitão da Ordenança, juiz e vereador do Senado e tabelião de Melres, tendo antes de casar sido juiz de Castelo de Paiva (9.8.1599). De sua mãe herdou a casa do Padrão de Belmonte, na cidade do Porto, e a quinta de Santa Ovaia, em Pedorido (Castelo de Paiva). Casou em 1601 em Melres com Antónia Ferraz Vieira, aí nascida cerca de 1580 e falecida a 6.1.1654, que levou em dote a quinta de Marrocos, nesta vila, irmã de João de Azeredo e Araújo, 1º capitão-mor de Melres, e de Clemente de Azeredo, abade de Melres, todos filhos de Álvaro de Araújo Ferraz, fidalgo da Casa Real, cidadão do Porto, senhor da quinta de Pensos, em Santa Clara do Torrão (prazo de 26.1.1588), falecido em Melres a 18.8.1591, e de sua mulher Justa Vieira Cabral, senhora da dita quinta de Marrocos, aí nascida cerca de 1543 e falecida a 8.5.1618; netos paternos de Manuel de Araújo Ferraz, infanção do Porto, onde nasceu cerca de 1500, e de sua mulher Maria de Azeredo; e netos maternos de Jorge Vieira, recebedor das sisas e tabelião de Melres e aí o 1º senhor da grande quinta de Marrocos, que era atravessada pelo Douro, tendo a casa a norte, na vila, junto ao rio, e o grosso da propriedade a sul (e daí o nome..., e por essa razão Melres é a única freguesia que é atravessada pelo rio Douro, em todos os outros casos uma fronteira natural), e de sua mulher e prima Maria Cabral, conforme refiro no meu estudo sobre os Brandão de Macedo e Mello, de Melres. Aquela Maria de Azeredo, que terá nascido em Melres cerca de 1512, era irmã de João de Azeredo, nascido em Melres, que tirou ordens menores em Braga em 1534, sendo ambos filhos de Diogo Gomes de Freitas, criado e escudeiro do conde de Cantanhede, que parece ter sido ouvidor deste em Melres, onde viveu, e sua mulher Maria de Azeredo, nascida no Porto cerca de 1487. Esta Maria de Azeredo era certamente filha de Pedro Anes da Espinheira, nascido cerca de 1460 e falecido depois de 1504, escudeiro e cavaleiro das Casa de D. João II e D. Manuel I, corregedor do reino do Algarve, chanceler da comarca e correição de Entre-Douro-e-Minho e corregedor na comarca de Trás-os-Montes, e de sua mulher Constança de Azeredo. Pedro Anes da Espinheira, escudeiro da Casa de D. João II, era corregedor por el-rei no Algarve quando a 28.5.1491 este rei nomeou Luiz Dias, escudeiro, morador em Viana a par de Alvito, como tabelião-geral nessa correição (CJII, 10, 73v). A 17.5.1496 já era chanceler da comarca de Entre-Douro-e-Minho, quando João da Lomba, seu criado, foi nomeado tabelião do Cível e Crime no julgado de Regalados (CMI, 69, 322). A 23.12.1499, sendo escudeiro d’el rei e chanceler da correição de Entre-Douro-e-Minho, foi nomeado corregedor na comarca de Trás-os-Montes, com alçada e poderes (CMI, 14, 79), cargo que exerceu pelo menos até 1504, pois a 5 de Julho deste ano João de Magalhães, escudeiro, morador em Amarante, foi nomeado procurador do número da comarca e correição de Trás-os-Montes, e bem assim da vila de Amarante quando aí estivesse, perante Pedro Anes da Espinheira, cavaleiro da Casa d’el rei, corregedor com alçada na dita Comarca, visto serem precisos três ou quatro procuradores (CMI, 23, 22). Sua mulher Constança de Azeredo era irmã de Álvaro Rodrigues de Azevedo, que teve de D. João III mercê para andar de mula (CJIII, 52, 210) e que Alão diz ter sido chanceler da correição de Entre-Douro-e-Minho (deve ser confusão com o cunhado, pois não o documento como tal) e casado com Constança Soares (de Araújo). Eram ambos filhos de outro Álvaro Rodrigues de Azeredo, nascido cerca de 1430, escudeiro, juiz do Porto (1464) etc., e de sua mulher Beatriz Anes. A 8.7.1469 D. Afonso V perdoou qualquer perda de bens a Álvaro Rodrigues de Azeredo, morador na cidade do Porto, por ter vendido pão para a Galiza, a Pedro Álvares de Souto Maior, entre os anos de 1468 e 1469 (CAV, 31, 75v). Podendo também ser o Álvaro Rodrigues, escudeiro e vassalo régio, morador na cidade do Porto, que a 16.8.1468 teve mercê real da administração de uma capela na Sé da dita cidade, em substituição dos parentes de Martim Pires Alvarinho que a tinham, pois não eram de descendência directa dele, contanto que os seus sejam (CAV, 28, 82).

De Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro e sua mulher Antónia Ferraz Vieira descendem os Cunha Coutinho Ozorio de Portocarreiro, morgados de S. Tiago de Melres, que sucederam como senhores das quintãs da Torre de Portocarreiro, de Louredo e de Lordelo, da quinta do Paço de Valpedre, etc., e foram chefes desta família em Portugal. Deste casal foi neto paterno sucessor Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro (1641-1719), fidalgo de solar referido na contemporânea "Corografia Portuguesa" (1706), do padre Dr. António Carvalho da Costa, como sendo à época o chefe da família Portocarreiro e senhor do solar da Torre, acrescentando-se aí que ele "traze por Armas quinze efquaques de ouro, & azul, a que ajuntão os Marquezes de Barca rota orla de Caftellos, & Leões". Ora, estas são justamente as armas que estão no portão da quinta da Bandeirinha (os esquaques são os espaços resultantes do enxequetado). Como defendo adiante, estas armas do portão da quinta, diferentes das que estão no portal da casa (um esquartelado de Portocarrero, sem a bordadura, Ozorio, Cunha e Coutinho), parecem anteriores e ter vindo da casa que a família tinha muito próximo, no Padrão de Belmonte, que já vinha do séc. XVI (embora a pedra de armas em causa seja claramente posterior, possivelmente dos finais do séc. XVII ou inícios do XVIII) e onde vivera seu pai pelo menos durante o tempo em que fora comissário do rei "para os galeões que se fazem na Ribeira do Ouro". E esta referência da "Corografia Portuguesa", em 1706, parece provar isso mesmo. Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro foi o 3º morgado de S. Tiago de Melres e sucedeu nos muitos bens patrimoniais de seu pai, bem assim como nas quintas de Valbom e da Quebrada, em Castelões de Recezinhos, da herança materna. A "Corografia Portuguesa" chama-lhe Manuel da Cunha Ozorio, e de facto foi com este nome, dizendo-se natural do Porto (embora tenha nascido a 26.10.1641 em Castelões de Recezinhos, na quinta do avô materno, Paulo Ferraz Homem de Souza) que em 1662 se matriculou em Leis na Universidade de Coimbra, curso que frequentou até 1665, embora aparentemente não o tenha concluído. E se vulgarmente, como era hábito, aparece muitas vezes referido apenas como Manuel da Cunha, o próprio assina Manoel da Cunha Coutinho de Portocarreiro, como por exemplo se pode ver num paroquial de Melres de 1701. E com este nome aparece também no precesso para a Ordem de Cristo (1760) de seu neto Manuel, onde se diz que fora pessoa nobre e fidalga, principal da vila de Melres e da cidade do Porto, onde assistira com carruagens, liteiras, escudeiros, cavalos, criados e escravos. Foi este que iniciou a construção do palácio da Bandeirinha, no Porto, obra que seria concluída por seu filho João da Cunha Coutinho Ozorio de Portocarreiro antes de 1735, ano em que já se documenta a viver na sua quinta da Bandeirinha, na cidade do Porto. No século XIX a família passou a adoptar a grafia Portocarrero, usada pelo ramo primogénito espanhol, no qual se incluía a então imperatriz de França Eugénia de Guzman y Portocarrero. Igualmente no século XIX foram dados a membros da família os títulos de barão de Pombalinho e de visconde de Portocarreiro.

A Torre de Portocarreiro nos finais do séc. XIX ainda pertencia à família e dela há então referências às suas ruínas. De então para cá a pedra da torre continuou a ser roubada para ser utilizada na construção da aldeia que a rodeia, hoje chamada lugar da Torre, em Vila Boa de Quires. Em 1973, quando visitei o local, já apenas existiam os alicerces da torre e a sua base, com a entrada para uma cisterna, implantada numa colina que dominava o longo vale que se estende até ao rio Tâmega, tendo à ilharga o tal lugar da Torre. Suspeito que já nem isso hoje exista... No sopé dessa colina, à direita, próximo da igreja de Vila Boa de Quires, do mosteiro românico cujo padroado pertencia à família, ficava o paço de Pombal, hoje uma quinta particular, dos Albuquerque de Vasconcellos Lencastre, descendentes dos Carneiro Rangel, que a compraram entre 1552 e 1560, como ficou dito, mantendo a casa parte da edificação de 1575, feita com a demolição (parcial?) da torre e casas medievais que constituiam o dito paço, como também já ficou dito.

A casa do morgadio de Melres, hoje chamada quinta da Bandeirinha por osmose com o nome do palácio que a família tinha no Porto, em meados do século XX foi vendida a um particular e posteriormente adquirida pela Câmara de Gondomar, que em 2001 levou a cabo um restauro da casa, que estava muito arruinada devido a uma cheia do rio Douro, tendo aí instalado a Junta de Freguesia de Melres e um museu municipal. Para além do belo imóvel seiscentista, são de especial interesse os tectos em madeira trabalhada, um deles armoriado, também seiscentistas. Da construção que existira no séc. XVI não restou nada. A casa foi construída no início do séc. XVII e mantém em geral a traça original. O palácio da Bandeirinha, na cidade do Porto, popularmente conhecido também por palácio das Sereias, que na documentação coeva aparece sempre referido como quinta da Bandeirinha, permanece um dos três ou quatro mais importantes imóveis históricos da nobreza portuense, tendo sido vendido pela família em 1954 à ordem italiana das Freiras Canossianas Missionárias, que ainda hoje aí permanecem. Com o interior já muito adulterado, permanece contudo o interesse arquitectónico do esplêndido imóvel, traçado por um discípulo de Nasoni. A importância social dos Portocarrero da Bandeirinha fica bem patente neste desabafo de Ramalho Ortigão, no seu livro "A Holanda" (1885), quando, por oposição à nova vaga de nobilitados do liberalismo, recorda o tempo anterior, dos "quatro ou cinco únicos fidalgos que então havia na cidade; o da Torre da Marca, o de Santo Ovídio, o da Bandeirinha, o da Fábrica ou o do Poço das Patas".

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Fotografias do aurtor. A pedra de armas que encima o portão da quinta da Bandeirinha, no Porto (foto 3), construção iniciada no séc. XVIII por Manuel da Cunha Coutinho de Portocarreiro, senhor da Torre de Portocarreiro e chefe de armas desta família em Portugal, difere da que está no portal da casa (foto 4), esquartelada e claramente da época da construção, concluída pelo filho deste Manuel. A pedra de armas do portão, contudo, parece anterior e deve ter sido para ali levada da casa que a família tinha próximo, no Padrão de Belmonte, conforme já deixei dito. O escudo desta pedra caracteriza-se por um enxequetado inverso (cinco peças ou esquaques em faixa e três em pala) e por ostentar uma bordadura de leões e castelos. A pedra de armas do portal da casa, esquartelada de Portocarrero, Ozorio, Cunha e Coutinho (pormenor na foto 1), mantém o exequetado inverso, mas sem bordadura. O escudo é igualmente encimado por um coronel de nobreza. No morgadio de S. Tiago de Melres, de que o referido Manuel da Cunha Coutinho de Portocarrero era 3º senhor, existe no portão da quinta uma outra pedra de armas (foto 2), com o mesmo esquartelamento mas já com o enxequetado habitual e também sem a bordadura de leões e castelos, que só podia ter sido mandada fazer por este mesmo Manuel, portanto nos finais do séc. XVII, ou então por seu pai, um pouco antes, embora este já tivesse mandado fazer outra pedra de armas diferente. Porque em Melres existe uma segunda pedra de armas, mais antiga (2º quartel do séc. XVII), colocada na própria casa (foto 5), esquartelada de Cunha, Ferraz, Vieira e Ozorio (portanto sem Portocarrero), necessariamente as armas usadas pelo 2º morgado Manuel da Cunha Ozorio de Portocarrero, filho de Antónia Ferraz Vieira, a qual justamente levou em dote a quinta de Melres. Sendo que este Manuel era pai do outro. Na heráldica oficial, o brasão dos Portocarreiro ou Portocarrero é constituído por um escudo enxequetado de ouro e azul, de três peças em faixa e cinco em pala, tendo por timbre um cavalo nascente de ouro, bridado e enfreado de azul (infografia na abertura).

2007


(1) Estudo complementar ao que publiquei em "Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII", Porto 2004, Vol. II, CUNHA, onde já acrescentava, corrigia e completava a informação que sobre o assunto tinha publicado em "Portocarreros do Palácio da Bandeirinha", Porto 1997.

 
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