regresso à bibliografia

 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

Argollo Uma família brasileira de 1500

Subsídios para a sua genealogia,

para a dos Lobo de Souza e para a dos Góis

Escudo de armas dos Argollo - infografia de Manuel Abranches de Soveral

As donzelas órfãs Lobo de Souza

Uma das mais antigas famílias da Baía que manteve a varonia, os Argollo, de origem andaluza (Baeça), foram para o Brasil em 1549 com o 1º governador Tomé de Souza. Com a independência, vários membros da varonia da família foram grandes do Império, com os títulos de condes (1860), viscondes (1854) e barões (1843) de Passé, viscondes de Itaparica (1868), barões de Cajaíba (1841) e barões de Pará-Mirim (1860). 

Nos finais do séc. XVIII, Paulo de Argollo e Gusmão, então o chefe da família, tinha uma fortuna avaliada em mais de 48.000.000 réis, com fazendas, engenhos de açúcar e mais de 500 escravos. Ao contrário do que aconteceria depois, antes da independência do Brasil, os Argollo, com foro de fidalgos da Casa Real referido desde o séc. XVI e documentado desde 1711, mantiveram-se relativamente afastados da administração geral, ocupando apenas cargos militares e da governança da Baía, mantendo nas gerações iniciais a propriedade da provedoria da fazenda e da alfândega da Baía. Família extremamente endogâmica, são inúmeros os casamentos entre primos e vários entre tio e sobrinha e tia e sobrinho. 

O primeiro da família, Rodrigo de Argollo (nos documentos aparece Argolo, Argullo ou Arguelo), foi provedor da fazenda real do Brasil e casou ainda em Lisboa com a portuguesa Joana Barbosa, que é dita «sobrinha do conde da Sortelha» nas genealogias brasileiras e erradamente incluída no lote das órfãs, donzelas da rainha D. Catarina, que D. João III, em 1551 na armada de António de Oliveira e em 1553 na armada de Duarte da Costa, enviou ao governador do Brasil Tomé de Souza para casarem com «pessoas principais que houvesse na terra», respondendo assim a pedido (1543) do Padre Manuel da Nóbrega, para evitar os casamentos consanguíneos entre a nobreza. A verdade é que Joana Barbosa era tia de uma das ditas órfãs e prima da outra, e foi para o Brasil já casada e com filhos. 

Mas, tanto quanto nos permite a documentação até agora inventariada, analisemos toda esta confusa questão das órfãs Lobo de Souza, que Frei Jaboatão, não sei com que bases, refere que «dizem as memórias, que delas tratam, eram sobrinhas do conde de Sortelha» e filhas de Baltazar Lobo de Souza. É certo que a filha de Baltazar Lobo de Souza não foi uma das órfãs, mas sim tia de uma e prima de outra, como já se disse. Com efeito, Joana Barbosa nasceu cerca de 1515 e casou em Lisboa cerca de 1529 com o andaluz Rodrigo de Argollo, então moço da câmara da rainha D. Catarina, que para cá o trouxe, e futuro 1º provedor da fazenda real do Brasil e provedor da alfândega e defuntos da capitania da Baía, como ficou dito. Uma das órfãs que nos interessam era filha de um irmão desta Joana Barbosa, Henrique Lobo, nascido cerca de 1517 e falecido antes de 1550, e de sua mulher Isabel de Reboredo 1a, com quem tinha casado cerca de 1540. Portanto, a dita órfã não era filha mas sim neta de Baltazar.
E quem era este Baltazar Lobo de Souza? Nascido cerca de 1491/3,
fidalgo referido por João de Barros, esteve em Surate (1530), foi capitão-mor de Cananor (CJIII, 15, 30v) e em 1547 comandou uma armada que foi a Madagáscar. A 10.12.1555 escreveu à rainha pedindo-lhe que rogasse ao rei que mandasse fazer um recolhimento em Goa para os órfãos e desamparados. Ainda se documenta um ano depois, a 10.12.1556, pois é o Baltazar Lobo de Souza que nesta data escreveu outra carta1b aos reis, onde diz que andou no serviço da Índia e comandou uma armada, onde seu irmão Belchior de Souza foi capitão da nau Santa Cruz, a única da armada de seis que não se perdeu, e que estava pobre, e velho, e com dez filhos e filhas e mulher na ilha de S. Lourenço, que o governador Francisco Barreto o mandara descobrir, pela parte de fora, e fazer, no melhor porto e baía que descobrisse, uma fortaleza para servir de escola às naus da Índia. Tendo-lhe o dito governador feito mercê da fortaleza que se fizesse, por seis anos, com o ordenado da Índia, o que tudo fez com grandes perigos, e queria agora que o rei lhe confirmasse o senhorio de juro e herdade da ilha, com o título de capitão general, pedindo mercê de todas as ilhas que descobrisse e dos portos que achasse do cabo da Boa Esperança até ao das Correntes, tarefa em que mandaria seus filhos, pedindo ainda para o filho mais velho o cargo de juiz da alfândega de Goa no caso de ele morrer. Acrescenta que para a ilha de S. Lourenço foi como comandante de uma armada de três navios, sendo capitães Heitor Nunes de Góis, filho de Fructus de Góis (meio-irmão do grande Damião de Góis, referido adiante), e Pedro Rodrigues Barriga, cavaleiro da Casa Real. Diz ainda ter levado consigo dois padres franciscanos para instruírem os habitantes na fé, e pede licença para ali edificar uma igreja a Nossa Senhora da Conceição. Assina esta carta como Baltazar Lobo de Souza.

O seu nome, conjugado com a referência de que as netas eram sobrinhas do conde de Sortelha, apontaria claramente para que fosse filho de D. Diogo Lobo (de Souza), 2º barão de Alvito, e de sua 2ª mulher D. Leonor da Silveira, justamente irmã do 1º conde de Sortelha. Mas deste casamento não há notícia de nenhum filho Baltazar, além de que todos os filhos dos 2ºs barões de Alvito se documentam com Dom, apesar de um esclarecimento real de 6.10.1488, segundo o qual os barões de Alvito e sucessores podiam usar Dom, mas os outros filhos não. Mas, mais determinante ainda, D. Diogo só casou com D. Leonor depois de 1508, ano em que morreu sua 1ª mulher D. Joana de Noronha, filha dos 2ºs condes de Abrantes. E menos crível ainda é pensar que Baltazar pudesse ser filho de D. Joana de Noronha, sendo no geral de rejeitar por completo a ideia de que bisnetas dos barões de Alvito pudessem ser enviadas aos molhos para casarem no Brasil, por muita vontade que D. João III tivesse em satisfazer o pedido do Padre Manuel da Nóbrega.
Baltazar Lobo de Souza era, como vimos, irmão de Belchior de Souza, avô da outra órfã Lobo de Souza que nos interessa. E felizmente foi-me possível documentar a filiação deste Belchior, pois trata-se do Belchior de Souza, fidalgo, filho de Diogo Lobo e sua mulher D.Filipa de Souza, que embarcou para a Índia na nau Stº António em 1534, com 1.240 reais de moradia do seu foro de escudeiro fidalgo, como regista D. Flamínio de Souza (Arquivo de Documentos Históricos). É o Belchior de Souza Lobo que D. João III nomeou capitão de viagens da Índia (CJIII, 56, 53v), devendo ser ainda o que é referido numa carta que Manuel de Vasconcellos a 28.11.1545 escreveu ao rei, dizendo que ao tempo em que chegara a Cananor se estava em guerra por Belchior de Souza, capitão de costa, ter matado um regedor mouro e seu cunhado, e que só há seis meses tinha conseguido a paz. 
Portanto, Baltazar Lobo de Souza era de facto filho de um Diogo Lobo, mas completamente distinto do homónimo que foi 2º barão de Alvito, e daí talvez a confusão genealógica que se estabeleceu. De resto, já Alão, sem o identificar e sem apontar o irmão documentado Belchior, dá ao casal Diogo Lobo e D. Filipa de Souza um único filho, justamente chamado Baltazar Lobo de Souza!
Temos portanto estabelecida a filiação de Baltazar e, com ela, a sua ascendência. E ficamos assim a saber que Baltazar, inegavelmente um fidalgo, tinha uma origem mista, algo típica de Quatrocentos, onde se misturou o sangue plebeu, nobilitado pela toga, com a velha fidalguia, no caso vertente algo dissoluta. Com efeito, Baltazar era trineto por varonia, segundo Alão, de um ourives de Lisboa, quiçá cristão-novo. Mas também era neto dos senhores de Baião e, por esta linha, 6º neto do rei D. Pedro I e de D. Inez de Castro.
Antes de analisar a sua ascecendência, convém dizer que o mesmo D. Flamínio de Sousa, em notas soltas sobre os Lobo, diz num parágrafo que Belchior de Souza Lobo, filho de Diogo Gonçalves Lobo, casou com D. Luiza, filha de Fruitos de Góis e Isabel Perdigão, sendo pais de D. Filipa de Souza, que casou com seu primo Diogo de Góis Perdigão, filho de António de Góis Perdigão. Acrescentado que em 6.12.1561 D. Luiz de Góis fez, no escrivão Bernardo Moniz, o arrendamento das casas em que vivia, na ilha Terceira, que lhe deixara sua filha D. Filipa de Souza. E noutro parágrafo, aparentemente sem perceber a ligação, diz que Diogo Lobo, filho do Chanceler, casou com D. (espaço em branco) de Souza, sendo pais de: 1) João de Souza Lobo, que passou à Índia na armada de 1508, como o foro de moço fidalgo da Casa Real com 150 reais de moradia; 2) Baltazar Lobo, que também tinha o foro de moço fidalgo da Casa Real com 150 reais de moradia e passou a escudeiro fidalgo em 1527; 3) Cristóvão Lobo, o mesmo; 4) Belchior Lobo, o mesmo, indo para a Índia em 1534. É portanto o já referido
Belchior de Souza, fidalgo, filho de Diogo Lobo e sua mulher D. Filipa de Souza, que embarcou para a Índia na nau Stº António em 1534, com 1.240 reais de moradia do seu foro de escudeiro fidalgo; 5) Francisco de Souza Lobo, que em 1526 tinha foro de moço fidalgo da Casa Real; 6) Jorge de Souza Lobo, o mesmo; 7) Gaspar Lobo, que tinho o mesmo foro de moço fidalgo em 1528.
A mãe destes, D. Filipa de Souza, nascida cerca de 1472, era filha do conturbado casamento de João Fernandes de Souza, 4º senhor de juro e herdade de Baião (3.6.1500), com sua 2ª mulher D. Joana da Guerra.
João Fernandes de Souza, nascido cerca de 1454/5 e falecido depois de 1513, cedo ficou órfão de pai e era o único neto de Luiz Álvares de Souza, 3º senhor de juro e herdade de Baião (23.10.1412, ainda menor, confirmado a 4.11.1434), fidalgo do Conselho e provedor da fazendo do Porto (1451), que ainda vivia a 9.2.1480, data em que D. Afonso V mandou que Luiz Álvares de Souza, do seu Conselho e provedor da fazenda régia da cidade do Porto, e seu neto João Fernandes de Souza, que têm a jurisdição do crime do mosteiro de Ancêde, que não entrem em disputas com o prior D. João, que tem a jurisdição do cível do dito mosteiro. E provavelmente ainda viveu até 1500, pois só a 3 de Junho deste ano seu neto é confirmado no senhorio de Baião. O que faz com que tenha falecido com muito avançada idade, uma vez que casou com contracto de 21.6.1428 com D. Filipa Coutinho, conforme mais detalhadamente refiro no meu trabalho «Os filhos e netos do «muj honrrado barom» Dom Frei Lopo Dias de Souza, 8º mestre da Ordem de Cristo».

A 3.6.1500 João Fernandes de Souza teve de D. Manuel I confirmação da doação das terras de Baião, Lage e S. Salvador com os moinhos de Avitoure (concelho de Cinfães), «de juro e herdade, com toda sua jurisdição cível e crime e ponha em eles juízes e justiças» e possa apresentar tabeliães, como sucessor de seu avô Luiz Álvares de Souza e seu bisavô (na verdade trisavô) D. Frei Álvaro Gonçalves Camelo, prior da ordem do Hospital, o qual as recebera do irmão Vasco Gonçalves Camelo que falecera sem deixar filho lídimo, a quem haviam sido doadas por D. João I. Insertas confirmações de D. Duarte de 4.11.1434 e de Afonso V de 22.7.1449. Na mesma data teve confirmação da doação dos padroados das igrejas de Santa Maria de Gove e de S. Bartolomeu, na terra de Baião. Inserta a carta de D. Afonso V de 3.10.1464 com a outorga desta mercê a seu avô Luiz Álvares de Souza, do Conselho d'el rei e vedor da fazenda na cidade do Porto. A 2.7.1500 João Fernandes de Souza, fidalgo da Casa d'el rei, teve confirmação do privilégio (inserido diploma de 6.12.1493) pelo qual todos os caseiros, amos, mordomos e lavradores que viverem e lavrarem nas suas terras, quintas, herdades e casais encabeçados sejam escusados, entre outras obrigações, de servirem nos encargos do concelho. Embora Mafra e Ericeira pertencessem na sua maior parte ao conde de Penela, João Fernandes de Souza terá tido ainda, de sua avó, uma parte destas vilas, pois a 3 de Junho do mesmo ano João Fernandes de Sousa, fidalgo da Casa Real, teve confirmação de um privilégio (inseridos diplomas de 10.1.1476 e 28.8.1409) pelo qual os moradores de Mafra e da Ericeira são escusos de servir por mar ou por terra, não havendo, por outro lado, nesses lugares, alcaide dos homens do mar, nem almirante do rei que use desse ofício. A vila de Mafra e seus termos gozam ainda do privilégio de que não haja besteiros do conto, nem anadel dos mesmos nas suas terras. E ainda vivia a 13.3.(1513 - a carta não indica o ano), pois nesta data Lançarote Domingues, morador em Benavente, foi nomeado tabelião do público e judicial no concelho de S. Cristóvão de Nogueira por proposta de João Fernandes de Souza, senhor dessa terra, tal como até aqui foi João Pires, tendo-o renunciado para a coroa por carta de 10.3.1513.
João Fernandes de Souza era filho de Fernão Martins de Souza, que morreu em vida do pai, e de sua mulher Joana de Almada (a quem Alão chama erradamente D. Joana Nogueira), filha de João Afonso de Brito, o Moço, morgado de Stº Estêvão de Beja, e de sua mulher Violante Nogueira, herdeira do morgado e capela de S. Lourenço de Lisboa e da capela de D. Pedro Pires (neta do celebrado doutor João das Leis). Este casamento realizou-se antes de 11.4.1455, data em que D. Afonso V fez quitação a Fernão Martins de Souza, fidalgo da sua Casa, marido de Joana de Almada, donzela da infanta D. Catarina, doando-lhe uma tença anual de 30.000 reais de prata até ao pagamento das 3.000 coroas de ouro que tinham recebido pelo seu casamento.
Fernão Martins de Souza teve a 26.1.1453, ainda solteiro, carta de perdão real, a pedido da rainha D. Isabel, da acusação de ter ferido João Fernandes, porteiro da câmara na cidade de Lisboa. A 21.6.1462 um seu criado foi nomeado para o cargo de requeredor das sisas do haver de peso, do ferro, madeira e hortaliça da cidade do Porto. A 23.7.1462 o rei doou a Fernão Martins de Souza, fidalgo da sua Casa, uma tença anual de 28.000 reais de prata. E ainda vivia a 17.2.1466 quando D. Afonso V privilegiou Vasco Martins de Resende, do seu Conselho e regedor da justiça na comarca de Entre-Douro-e-Minho, para que possa nomear Fernão Martins de Souza, fidalgo da sua Casa, para o cargo de juiz dos feitos nessa comarca.
Voltando ao 4º senhor de Baião João Fernandes de Souza, o mais que se conhece dele são os problemas de saias… Segundo Alão, «teve amores» na corte de Lisboa com D. Isabel da Silva, filha dos futuros 1ºs viscondes de Vila Nova de Cerveira, mandando-a por isso o pai recambiada para o seu paço de Giela, no Minho. Mas João Fernandes seguiu-a e conseguiu entrar às escondidas em Giela, onde foi apanhado pelos irmãos da amante, que o queriam matar, o que não fizeram porque sua irmã lhes garantiu que tinham casado em segredo. Não foi o futuro visconde em conversas e obrigou-os a casarem ali mesmo, cerimónia forçada que deve ter ocorrido cerca de 1470, seriam ambos ainda menores. Mas pouco depois João Fernandes foi para as terras do avô em Baião, abandonando a grávida D. Isabel em Giela e (diz Alão que «em vingança») cerca de 1471 casou «a furto» com sua prima D. Joana da Guerra, raptando-a da casa de seu avô materno, o reposteiro-mor e conselheiro Álvaro Pires de Távora, senhor de juro e herdade de Mogadouro e S. João da Pesqueira. Esta D. Joana, nascida cerca de 1454/5, era da idade do marido, teriam então ambos apenas 17 anos de idade, e eram primos relativamente próximos, pois eram ambos trinetos do marechal-mor e meirinho-mor Vasco Fernandes Coutinho, senhor de Marialva.
Diz Alão que João Fernandes foi depois a Roma e trouxe de lá a validade deste 2º casamento, o que se confirma, pois dez anos mais tarde, a 1.6.1481, D. Afonso V privilegia D. Joana da Guerra, mulher de João Fernandes de Souza, fidalgo da sua Casa, concedendo-lhe autorização para que nos anos de 1481 e 1482, enquanto o marido estiver na armada contra o turco, possa gerir os bens de que era usufrutuário o dito seu marido.
Contudo, algum tempo depois de regressar do combate ao turco, parece que João Fernandes teve notícia de que D. Joana da Guerra tinha tido uma relação incestuosa com seu meio-irmão Manuel Coutinho, pelo que a repudiou e voltou de novo para a 1ª mulher D. Isabel da Silva, de quem tinha uma filha.

Na sequência deste escândalo, D. Joana fugiu para Castela com o dito seu meio-irmão. De seu marido tinha D. Joana dois filhos, Fernão Martins de Souza e a dita D.Filipa de Souza, nascidos entre 1471 e 1473. A fuga para Castela de D. Joana deve ter-se realizado cerca de 1488, pois Alão diz que com ela iam os filhos, mas que refugiando-se em Fonte Arcada da Beira, em casa de Pedro de Gouveia, aí casou seu filho com uma filha deste. Talvez se trate do Pedro de Gouveia, fidalgo da Casa Real, a quem a 26.8.1475 D. Afonso V doou as rendas da pensão dos tabeliães da cidade de Lamego. Suponho eu que o filho e a filha de D. Joana terão assim ficado em casa do dito Pedro de Gouveia, tendo apenas ela e seu meio-irmão seguido para Castela, certamente receosos pela sua vida.
Terá havido de facto um caso de incesto, ou tudo não passou de uma tramóia dos Lima e de D. Isabel, que deste modo conseguiu reaver o marido? Na verdade, o fundamento desta história de incesto parece precário, uma vez que D. Joana nasceu cerca de1454/5 e seu meio-irmão, filho bastardo de Gonçalo Vaz Coutinho, matriculou-se em ordens menores em Braga a 29.4.1480, pelo que não terá nascido antes 1467, ou seja, era pelo menos 12 a 13 anos mais novo do que a meia-irmã D.Joana. Na data em que esse caso de incesto poderia ter acontecido, cerca de 1487/8, D. Joana teria entre 32 e 34 anos e seu meio-irmão no máximo 20 de idade, pelo que tudo me parece mais resultado de uma maquinação. De resto, o dito Manuel Coutinho veio a casar e a ter filhos que nasceram entre 1504 e 1510, o que aponta para que de facto tenha nascido alguns anos depois de 1467.
Mas, verdadeira ou não, esta história, que parece tirada de um romance barato, tem contudo antecedentes suficientemente escabrosos para que a simples suspeita, mesmo infundada, apavorasse o suficiente D. Joana para que a sua fuga se compreenda, mesmo se inocente. É que D. Joana da Guerra era filha do mal-afamado Gonçalo Vasques Coutinho, filho herdeiro dos senhores de Basto, figura violenta e instável que sucessivamente matou as suas duas mulheres, sendo julgado culpado e degolado em Santarém pela morte da segunda, D. Joana de Noronha. A execução de Gonçalo Vaz deu brado na época e dizia-se que o seu fantasma apareceu em Santarém, em S. Domingos das Donas, ao rei D. João II, como muito circunspecto nos conta Alão... 

Mas D. Joana era filha da 1ª mulher, de cuja morte o marido escapou ao castigo. Era essa 1ª mulher D. Isabel da Guerra, com quem Gonçalo Vaz Coutinho casou com autorização real de 27.3.1451 e escritura de dote de 3.2.1454, feita nos paços de seu tio o arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra. Era filha dos senhores de juro e herdade de Mogadouro e S. João da Pesqueira, o já referido reposteiro-mor e conselheiro Álvaro Pires de Távora e sua mulher D. Inez da Guerra,  sendo esta filha de D. Pedro da Guerra e de sua mulher D. Tereza Anes de Andeiro (filha do mal-afamado D. João Fernandes de Andeiro, 2º conde de Ourém) e neta paterna do infante D. João.
Não será portanto difícil imaginar a pesada herança que recaía sobre a jovem D.Filipa de Souza, cujo nascimento estimo para 1473 e que teria assim cerca de 15 anos quando, como suponho e ficou referido acima, sua mãe a deixou na Beira ao cuidado de Pedro de Gouveia, sogro de seu irmão Fernão Martins de Souza, nascido cerca de 1471/2, pelo que teria 16 para 17 anos quando foi casado. O que certamente determinou que, pouco depois, D. Filipa tenha casado, muito abaixo da sua condição, com um tal João Gomes, que Alão diz que era filho de Mestre Pedro, boticário de Lisboa, mas que na verdade deve ser o Mestre Pedro, escolar em Física (portanto médico), a quem D. Afonso V a 3.8.1439 concedeu licença para exercer o ofício de cirurgião, por todo o reino e senhorio, mercê que confirma a 23.2.1445. É também quase certo que o dito João Gomes era seu filho legitimado, pois a 25.3.1454 o mesmo rei legitimou João e Gonçalo, filhos de Mestre Pedro, cirurgião, e de Maria Gonçalves, mulher solteira.
Este casamento de D. Filipa de Souza com o filho legitimado do cirurgião, que se terá realizado cerca de 1588, teria ela 15 anos de idade, além de desigual em condição foi-o também em idade, se aceitarmos que o marido é o João legitimado em 1454, pois neste caso teria pelo menos mais 22 anos do que ela. Donde se conclui que foi casamento tratado pela família, ou pelo dito Pedro de Gouveia, pelo que o filho de Mestre Pedro devia ser rico... E esta diferença de idades também se avalia pelo facto de este casamento ter sido necessariamente muito curto e, dizem as genealogias, sem geração.
Portanto, foi já viúva deste João Gomes, e possivelmente viúva rica, que D. Filipa casou 2ª vez, cerca de 1490, com Diogo Lobo, de uma família de notáveis jurisconsultos.
Diogo Lobo, nome com que se documenta, a quem as genealogias em geral chamam Diogo Lobo Teixeira, estudou na Universidade de Bolonha com seu irmão mais velho, o doutor Luiz Teixeira, desembargador do Paço, mestre de Gramática de D. João III e comendador da Granja e de S. Gonçalo de Amarante na Ordem de Cristo, ambos filhos do notável jurisconsulto doutor João Teixeira e de sua mulher Maria Lobo, irmã de Rui Lobo, fidalgo da Casa Real, desembargador e corregedor de Lisboa no reinado de D. Afonso V e vedor da fazenda de D. João II, ambos filhos do corregedor de Lisboa Diogo Gonçalves Lobo, que foi vedor da Casa da rainha D. Leonor e válido de seu marido o rei D. Duarte, e de sua mulher a castelhana D. Elvira de Olivares, dama da dita rainha D. Leonor. A 10.4.1451 D. Afonso V nomeou Diogo Gonçalves Lobo, escudeiro, vedor que foi da rainha, para o cargo de corregedor da cidade de Lisboa, em substituição do doutor Pedro Faleiro. E a 13.4.1452 doou a Gonçalo Dias Lobo, filho de Diogo Gonçalves Lobo, corregedor na cidade de Lisboa, uma tença anual de 4.800 reais de prata para mantimento de seus estudos.
Aquele doutor João Teixeira foi chanceler-mor do reino (10.7.1484), do Conselho de D. Afonso V e D. João II, desembargador do Paço, embaixador de D. Afonso V ao Papa Xisto IV, para tratar do casamento deste rei com a sobrinha, e de D. João II aos Reis Católicos, para propor e tratar o casamento do herdeiro português com a herdeira de Castela. Foi ele que recitou o elogio a D. Pedro de Menezes na cerimónia em que o rei o fez marquês de Vila Real. O doutor João Teixeira estudou Direito nas universidades de Paris e Bolonha, tendo para o efeito recebido do rei a 29.7.1451 uma tença anual para estudos de 4.800 reais de prata. A 15.9.1473 era já desembargador e a 25.8.1475 D. Afonso V nomeou o doutor Diogo da Fonseca, do seu Conselho, para o cargo de desembargador régio e das petições, em substituição do doutor João Teixeira. Antes, a 6.1.1475, o rei tinha nomeado vitaliciamente o doutor João Teixeira, do seu Conselho, desembargador régio e das petições, para o cargo de vice-chanceler, com todas as honras, liberdades, franquezas e privilégios dos vice-chanceleres, mandando que lhe entreguem os selos redondos com os pendentes de prata e de metal. E a 23 de Outubro do mesmo ano D. Afonso V doou vitaliciamente ao doutor João Teixeira, seu criado e do seu Conselho e desembargador régio e das petições, a moradia do Conselho por ano, tal como tem Álvaro Pires Vieira, do seu Conselho, acrescentando-lhe mais 40.000 reais.
O doutor João Teixeira era filho de outro notável jurisconsulto, o desembargador Luiz Martins, um dos compiladores e revisores das «Ordenações Afonsinas», e de sua mulher Isabel Teixeira. Esta filiação, referida por Alão, documenta-se na já referida bolsa de estudo de 1451, que é dada a João, filho de Luiz Martins, desembargador do Paço. Luiz Martins aparece em dezenas de documentos da Chancelaria, durante todo o reinado de D. Duarte, como seu vassalo e do seu desembargo, cargo que manteve com D. Afonso V. A 26.4.1439 este rei confirmou o privilégio a Luiz Martins, seu desembargador, pelo qual lhe coutava a terra a que chamavam Romão Grande e Pequeno, situada perto do Paço da Valada, conforme carta de D. Duarte de 10.2.1434. A 12 de Junho do mesmo ano o mesmo rei confirmou o privilégio a João Escudeiro, morador em Benfica, termo da cidade de Lisboa, criado da mãe de Luís Martins, desembargador régio, pelo qual estava isento de ser posto por besteiro do conto, conforme alvará de 20.3.1435. Segundo Alão, como ficou dito, este desembargador Luiz Martins era filho de um ourives de Lisboa, arte que, convém notar, era a única nobilitante.
Voltando a Baltazar Lobo de Souza, nasceu cerca 1591/3 e, como vimos, tinha o foro de moço fidalgo da Casa Real com 150 reais de moradia quando em 1527e passou a escudeiro fidalgo. A
avaliar pelo nome da filha, casou com uma senhora Barbosa, possivelmente Joana, justamente como a filha, sendo esta mulher, ou já outra, que em 1556 estava com ele e os filhos na ilha de S. Lourenço, como ficou dito. Na expedição a Madagáscar de 1547 era acompanhado por seu filho Diogo Lobo, como diz João de Barros, certamente o primogénito para quem em 1556 pediu ao rei o cargo de juiz da alfândega de Goa e o Diogo Lobo que foi feitor de Achem (CJIII,7, 230v). Poderia tê-lo acompanhado a Madagáscar seu outro filho Henrique Lobo, e aí ter falecido? O certo é que este Henrique Lobo, nascido cerca de 1617, já tinha falecido em 1551. Henrique Lobo casou com Isabel de Reboredo e foram pais da outra das órfãs que nos interessam, Catarina Lobo, nascida em 1541 em Setúbal, que casou no Brasil em 1560, aos 19 anos de idade, com Gaspar de Barros de Magalhães, nessa data contador da fazenda real do Brasil. Estes foram, nomeadamente, pais de Felícia Lobo, que, dos seus quatro casamentos, um foi com seu primo Paulo de Argollo, filho dos ditos Rodrigo de Argollo e Joana Barbosa.
De Baltazar era irmão Belchior de Souza, que também tinha o foro de moço fidalgo da Casa Real com 150 reais de moradia quando em 1527 passou a escudeiro fidalgo e que já fora servir para a Índia em 1534. Casou este Belchior com D. Luiza de Góis, irmã de António de Góis Perdigão, ambos filhos de Fructus de Góis (meio-irmão do grande Damião de Góis), camareiro e guarda-roupa do D. Manuel I e D. João III, e de sua mulher Isabel Perdigão, que trato adiante em GÓIS MEDIEVAIS. De Belchior de Souza de sua mulher foi filha D. Filipa de Souza, que casou com seu primo-direito Luiz de Góis, filho do dito António de Góis Perdigão e de sua mulher Margarida de Mendonça. Deste casal nasceu nomeadamente Marta de Souza, outra das órfãs que nos interessam, nascida cerca de 1538 e falecida a 6.6.1602 na Baía, onde casou cerca de 1552 com João Gonçalves Drummond, nesse ano documentado em Ilhéus, nascido cerca de 1502 na ilha da Madeira, filho de João Gonçalves, dita das Ilhas, e de sua mulher Mécia Lourenço (Drummond), como adiante se detalha. Este João Gonçalves das Ilhas deve ser o João Gonçalves que foi rendeiro das ilhas dos Açores. Com efeito, a 14.3.1513 D. Manuel I mandou o almoxarife das rendas do Sabugal levar em conta a João Gonçalves, rendeiro que foi das ilhas, 31.000 reais por outros tantos que havia de haver Pedro da Fonseca (CC, II, 37, 228). E a 25.3.1514 João Gonçalves fez obrigação de 800 reais por 30 alqueires de trigo que recebeu de Namorante Vaz, e se obrigou a pagar a quem tiver a cobrança do rendimento das ilhas dos Açores (CC, II, 45, 202). A 17.12.1511 João Gonçalves passou recibo por que consta ser devedor de 1.000 reais de meio moio de trigo que recebeu do rendeiro das ilhas (CC, II, 29, 180). E a 4.11.1512 João Gonçalves passou recibo por que se obriga a pagar ao rei 1 moio de trigo de preço de 1.600 reais dos dízimos das Ilhas de que é rendeiro Namorante Vaz. (CC, II, 35, 57).
Aquele Luiz de Góis foi morto por seu filho, António de Mendonça, que casara com uma judia e na sequência do parricídio fugira para o Brasil. Desta forma, antes de 1551 ficaram sem pais as duas donzelas órfãs Lobo de Souza que nos interessam, as ditas Catarina Lobo e Marta de Souza, a 1º neta de Baltazar Lobo de Souza e a 2ª neta de seu irmão Belchior de Souza, se bem que pelo menos o avô de uma e a avó de outra ainda vivessem, como vimos. Com elas foram também para o Brasil, além de Fernão e Maria de Reboredo, irmãos de Catarina Lobo, e de Mécia Lobo, irmã de Marta de Souza, duas primas destas últimas, Damiana e Apolónia de Góis, também órfãs e sobrinhas do grande Damião de Góis, então vivo, pois só faleceu muito depois, em 1574.

O facto de todas estas órfãs terem parentes vivos (tio, tias e avós) significa sobretudo que a decisão política/religiosa de D. João III de enviar donzelas nobres para casarem no Brasil, respondendo ao pedido do Padre Manuel da Nóbrega, deve ter-se confrontado com a dificuldade de as arranjar, pois não parece fácil que os respectivos pais o deixassem, podendo evitá-lo. Assim, a solução do recurso a órfãs parece a melhor, sobretudo sendo donzelas da rainha. O que também significa que a ida para o Brasil, das duas uma: ou foi autorizada pelas famílias ou estas não tiveram como contrariar a vontade do rei. No caso das Lobo de Souza, havia mesmo uma relação familiar, ou seja, a tia de uma e prima de outra já tinha ido com seu marido (Rodrigo de Argollo) para a Baía em 1549, o que pode ter sido determinante para o consentimento do avô, se é que esse consentimento foi necessário, pois não se sabe quem eram os tutores ou tutoras das jovens, e afinal a tutora até poderia ser a própria rainha, já que as órfãs eram suas donzelas.
Daquela Marta de Souza e de seu marido foi filho, entre outros, Belchior de Souza Drummond, nascido cerca de 1555, que casou com Mécia de Armas e foram pais de D.Catarina de Souza, falecida a 21.8.1649 ns Baía e aí sepultada no mosteiro do Carmo, que aí casou a 13.5.1603 com Eusébio Ferreira, falecido a 1.11.1636, ib. Destes foi filha mais nova D. Clara de Souza, nascida cerca de 1620, que casou com o capitão Belchior Barreto de Teive, fidalgo da Casa Real (1663), falecido a 7.9.1662 na Baía e aí sepultada no mosteiro do Carmo, que era sobrinho do 1º marquês de La Fuente, em Espanha, e foram pais de D. Maria de Souza, que também aparece documentada como D. Maria de Teive, baptizada a 20.4.1644 na Sé da Baía, que casou a 1ª vez com João Soares Brandão, sem geração, e a 2ª vez com Miguel Rodrigues de Gusmão, cavaleiro da Ordem de Cristo (26.2.1680), irmão da Stª Casa da Misericórdia da Baía (24.9.1678), etc., que foram pais de D. Inez de Gusmão. Esta D. Inez casou a 18.2.1692 no engenho de Copacabana com seu parente Paulo de Argollo, fidalgo da Casa Real (30.1.1711), bisneto da outra órfã, Catarina Lobo, e igualmente bisneto da tia desta Catarina, Joana Barbosa, filha de Baltazar Lobo de Souza.
E assim se cruzou a descendência dos dois irmãos, Baltazar e Belchior, tendo alguma dessa descendência regressado a Portugal na viragem do séc. XVIII para o XIX, 250 anos depois das suas antepassadas, as donzelas órfãs, terem ido casar ao Brasil.
 

GENEALOGIA

1.       Rodrigo de Argollo (Argollo, Argullo ou Arguelo, como aparece documentado em Portugal; mais tarde a família também aparece Argolo, sem a dupla consoante), fidalgo nascido cerca de 1507, provavelmente em Baeça (Andaluzia), pois usava o mesmo escudo de armas dos daí. Não se sabe a sua filiação, sendo contudo quase certo que seria filho de Alonso de Arguello, morador em Baeça, que a 2.7.1525 teve carta destas armas, a saber: escudo de ouro com duas chaves de azul postas em pala, com os anéis para baixo, dispostas em faixa e contrapostas, com bordadura de vermelho carregada de oito aspas em ouro. Timbre: Leão rompante de vermelho segurando na garra dextra uma das chaves. Este escudo de armas, usado pelos Argollo do Brasil, é diferente dos restantes Argollo, que em geral usam um escudo de vermelho com cinco flores de lis de ouro em aspa, com bordadura de ouro, que também aparece carregada de oito quadros de veiros de azul. Os Arguello de Brozas e Badajoz usam já um escudo de armas diferente: de azul, um carvalho da sua cor com frutos em ouro e duas cabras de ouro em pala, empinadas no tronco. Pela análise heráldica pode-se assim concluir que os Argollo do Brasil descendem do ramo de Baeça.

O certo é que Rodrigo de Argollo passou muito novo a Lisboa, em 1525, com a rainha Dona Catarina, de quem foi porteiro da câmara (Moradias, 2,4,59V) e moço da estribeira ou estribo (Moradias, 2,1,28). A 2.6.1529, já como moço da estribeira da Casa da rainha, teve desta provisão para receber 2.000 reais da sua moradia de 12.000 reais por ano. Era então muito jovem, e só 20 anos depois, a 16.1.1549, D. João III o nomeou 1º provedor da fazenda real do Brasil, bem assim como 1º provedor (proprietário) da alfândega e defuntos da capitania da Baía 2, dando-lhe ainda um alvará para resgatar um escravo cada ano 3. Rodrigo de Argollo embarcou a 1.2.1549 em Lisboa, com o 1º governador Tomé de Souza, tendo chegado ao Brasil a 29 de Março do mesmo ano, onde por pouco tempo desempenhou aqueles cargos, uma vez que faleceu relativamente novo a 15.11.1553. A historiografia brasileira refere que Rodrigo de Argollo veio viúvo e com filhos de Portugal, tendo na Baía casado 2ª vez, por insistência do Padre Manuel da Nóbrega, com a dita Joana Barbosa, de quem não teve geração, o que se documenta errado. A 18.11.1553 foi nomeado no cargo de provedor Rodrigo de Freitas, o futuro jesuíta, «contratado para haver de casar com uma sobrinha de Rodrigo de Arguello que Deus tem».

Rodrigo de Argollo casou em Lisboa em 1529 com Joana Barbosa, nascida cerca de 1518, filha de Baltazar Lobo de Souza e de sua mulher (Joana) Barbosa e neta paterna de Diogo Lobo e de sua mulher D. Filipa de Souza, filha dos 4ºs senhores de juro e herdade de Baião, como largamente ficou dito na introdução. Desta Joana Barbosa há duas cartas, ambas escritas e assinadas por si e datadas de 10.8.1556 (CC, P.I, m.99, nºs 55 e 84), sendo viúva, uma pedindo para seu filho ao bispo da Baía uma conezia na Sé que estava vaga, e outra carta para seu filho Luiz de Vada, cónego da Sé da dita cidade, em que lhe diz a mesma coisa, ou seja, que peça ao bispo uma conezia que se acha vaga para o seu irmão e fala-lhe na dívida que deve a André Cabreira, para que ele saiba deste em que género quer a paga e a quem o há-de pagar. Esse outro filho para quem a mãe pediu a conezia seria Paulo de Argollo, que então tinha cerca de 18 anos de idade, pelo que não a obteve nem seguiu a carreira eclesiástica.  

1.1.   Luiz de Argollo, que usou o nome de Padre Luiz de Vada. Foi cónego da Sé da Baía (10.10.1553) e faleceu a 16.6.1568, no trágico acidente da nau «Nossa Senhora da Ajuda», que deu à praia do rio Coruípe, tendo sido os passageiros trucidados pelos índios caetés. De Portugal já veio clérigo de Ordens Menores, onde terá nascido cerca de 1530, tendo sido apresentado pelo pai ao bispo Dom Pedro Fernandes Sardinha, que o proveu cónego da Sé. 

1.2.   D. Ana de Argollo, nascida em Lisboa cerca de 1532. Casou a 1ª vez a 24.11.1552 na Baía com João de Brito, senhor do engenho de Paraguaçu, s.g. Casou a 2ª vez, também s.g., com Gabriel Soares de Souza, autor do «Tratado Descritivo do Brasil» (1587), que faleceu no sertão em 1592, nomeando seu sobrinho por afinidade Bernardo Ribeiro, adiante, seu testamenteiro, com a obrigação de levar o seu corpo a sepultar na igreja dos beneditinos sobre uma pedra onde se dissesse «Aqui jaz um pecador». Por alvará de 13.12.1590 teve Gabriel Soares mercê da Ordem de Cristo, com tenças de 50.000 reais, para quatro cunhados e dois primos que o acompanharam no descobrimento de minas no sertão.

1.3.   D. Maria de Argollo, nascida em Lisboa cerca de 1534 e falecida a 11.2.1602 na Baía, ficando testamenteiro seu filho Bernardo Ribeiro e sendo sepultada em S. Bento. Casou a 5.11.1556 na Sé da Baía (Salvador), sendo testemunha o governador D. Duarte da Costa,  com António Ribeiro, capitão e governador dos índios de Santa Cruz de Itaparica, por nomeação do governador Mem de Sá. Em 1561 era capitão em Ilhéus, sendo nomeado a 14.10.1562 provedor da alfândega da Baía, cuja propriedade tinha seu cunhado. António Ribeiro tomou o partido do governador D. Duarte da Costa contra o bispo D. Pedro Fernandes Sardinha. Devia ser irmão de D. Agostinho Ribeiro, também bispo de Angra  e bispo de Lamego, nascido em Lisboa em 1483 e falecido em Xabregas a 27.3.1554, que era filho de Martim Ribeiro, escrivão da Casa da Índia, e de sua mulher Maria de Carvalho.

1.3.1.   D. Joana Barbosa, bat. a 10.3.1558 na Sé da Baía  e falecida em 1589, sendo sepultada no Colégio. Casou com Diogo Correa de Sande. Jabotão diz que este Diogo Correa, natural de Portugal, era da casa dos Correa de Sá, tronco dos visconde de Asseca. Diogo Correa de Sande tinha em 1584 um engenho em Jaguaribe considerado «uma das melhores peças da Bahia, porque está muito bem acabado, com grandes aposentos e outras oficinas, e uma fresca igreja de Vera Cruz», ficando perto do engenho de Gabriel Soares. Quando da invasão dos aimorés em Ilhéus, o governador Manuel Telles ordenou que fossem repelir esses bárbaros Diogo Correa de Sande e Fernão Cabral de Ataíde, «que possuíam muitos escravos e tinham aldeias de índios forros». Diogo Correa tinha também uma fazenda em Caípe.

1.3.1.1.   André Correa de Sande, s.m.n.

1.3.1.2.   António Ribeiro, referido como «primo do capitão Francisco de Paula», combateu valentemente os holandeses acastelados na Baía em 1624-5.

1.3.1.3.   D. Maria de Argollo, s.m.n.

1.3.1.4.   D. Leonor de Sande, que casou com Braz da Costa Cirne, com ascendência cristã-nova. Foram pais de Valentim da Costa, solicitador das causas da Baía, referido como «estudante que tem raça de nação» nas Denunciações da Bahia de 1618.

1.3.1.5.   D. Luiza de Sande, s.m.n.

1.3.1.6.   Pedro Correa, s.m.n.

1.3.1.7.   D. Catarina de Sande de Andrade, que foi a 2ª mulher de Sebastião Pacheco de Castro, que tinha um engenho em Itaparica, donde os holandeses foram desalojados em 1624. Tiveram uma filha, D. Clara de Sande, que casou com o capitão Francisco Fernandes da Ilha, que tinha uma fortuna avaliada em 700.000 cruzados. Destes foram filhas D. Francisca de Sande e D. Catarina de Sande, esta a 1ª mulher de Aires de Ornellas de Vasconcellos (1620-83), 6º morgado do Caniço (Funchal), de quem nasceu Agostinho de Ornellas de Vasconcellos.

1.3.2.   D. Helena de Argollo, bat, a 7.6.1560, ib, e casada com Manuel de Sá Sottomayor, provedor da alfândega da Baía (1578), cuja propriedade estava na família da mulher. Tiveram filhas, s.m.n.

1.3.3.   Bernardo Ribeiro, bat. a 20.8.1562, ib, bacharel formado em Teologia pela Universidade de Coimbra (1588), a quem seu tio Gabriel Soares de Souza, acima, nomeia testamenteiro. Foi provedor da alfândega da Baía (24.11.1606) e procurador do conde de Linhares em 1606. Em 1612 teve sesmaria em Jequiriçá, com engenho de açúcar. Pelas suas «ideias heterodóxas» e proposições heréticas  teve problemas com a Inquisição de Lisboa a 29.7.1591, sendo referido como «Bernardo Ribeiro, mancebo solteiro da idade de 30 anos mais ou menos», n. em Pernambuco, com sentença de 19.2.1592 (TSO, IL, 13957).

1.3.4.   D. Agostinho Ribeiro (Frei Agostinho de S. Gonçalo), bat. a 4.3.1564, ib, e falecido em Lisboa a 12.8.1621. Foi bispo de Angra (29.7.1613), bispo de Ceuta e Tanger (1602), doutorado em Teologia e cónego magistral da Sé de Lisboa. Foi o primeiro prelado natural do Brasil e o primeiro baiano formado na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Teologia em 1593.

1.3.5.   Gonçalo Ribeiro, estudante de Teologia na Universidade de Coimbra em 1588.

1.4.   D. Inez de Argollo, nascida em Lisboa cerca de 1536 e falecida a 14.9.1605 na Baía, sendo sepultada na igreja de São Francisco, ib. Casou com Jácome Raymundo, s.m.n.

1.5.   Paulo de Argollo, que segue no nº 2.

2.        Paulo de Argollo, que nasceu em Lisboa cerca de 1538 e foi para a Baía com seus pais em 1549, onde viveu e faleceu a 12.1.1619, deixando testamenteiros sua mulher Felícia Lobo e seu enteado Baltazar Lobo, filho de Pedro Dias. Teve várias terras em Passé (1598) e sesmarias em Ilhéus (1608). A 11.11.1600 teve meia légua de terra em Jequiriçá. Sucedeu na propriedade da provedoria da fazenda e da alfândega da Baía, sendo provedor da alfândega em 1608, e era vereador do Senado da Câmara em 1607. A cidade de Aratuíbe nasceu de uma capela aí feita por seus descendentes. Muito provavelmente foi cavaleiro da Ordem de Cristo a 13.12.1590, data de um alvará para seu cunhado Gabriel Soares, que conferia a este o direito de dar a quatro cunhados e dois primos, que o acompanhavam no descobrimento das minas do sertão, hábitos de Cristo com tenças de 50.000 reais. Casou cerca de 1599 com sua prima-direita Felícia Lobo, já viúva, filha de Gaspar de Barros de Magalhães, contador da fazenda real do Brasil (1560), vereador do Senado da Câmara da Baía (1562), provedor da alfândega da Baía (1568), cuja propriedade tinha seu genro, morador em Recôncavo (Baía), no lugar chamado São Paulo, muito rico e já falecido em 1591, e sua mulher Catarina Lobo, nascida em Setúbal em 1541, uma das referidas órfãs enviadas para o Brasil. Esta Catarina Lopo era filha de Henrique Lobo e de sua mulher Isabel de Reboredo; neta paterna de Baltazar Lobo de Souza e de (Joana) Barbosa, como já ficou referido. Felícia Lobo tinha casado a 1ª vez a 4.11.1582 na Sé da Baía com Pedro Dias de Figueiroa, de 50 anos de idade, mercador e rico fazendeiro no Brasil, natural a cidade do Porto, filho de Gonçalo Álvares, «homem do mar», e de sua mulher Bárbara Dias de Figueiroa, de quem teve quatro filhos: Baltazar Lobo, bat. a 29.4.1584 na Sé da Baía e falecido a 27.1.1628, ib, que casou com Ana de Gambôa; Bárbara, bat. a 3.9.1585, ib; Pedro, bat. a 1.11.1587, ib e falecido a falecido a e 11.1.1618, sendo seu padrinho e testamenteiro Paulo de Argollo; e Frei Gonçalo de Stº António, professo no convento de S. Francisco da Baía a 13.6.1610, tinha 18 anos de idade. Depois de viúva de Paulo de Argollo, Felícia Lobo ainda casou mais duas vezes, primeiro com Vicente Coelho e depois com Constantino de Menelao, governador do Rio de Janeiro (1614-1616 - CFII, 11, 267v), capitão da carreira da Índia (CFI, 4, 249v), sem geração destes matrimónios.

2.1.   Paulo de Argollo, capitão da Ordenança de Passé (20.10.1650), foi bat. a 7.6.1601 na Sé da Baía e sucedeu na propriedade da provedoria da fazenda e alfândega, tendo fal. antes de 12.1.1641. Na sua nomeação para capitão da Ordenança de Passé diz-se: «Achando-se nas ocasiões do inimigo que se tem oferecido no Recôncavo, e procedido nelas com muito honrada opinião». Casou a 25.11.1621 com sua prima D. Mécia Lobo de Mendonça, filha de Jerónimo Moniz Barreto, o Velho, fidalgo e escudeiro, falecido em 1606, e de sua 1ª mulher D. Mécia Lobo de Mendonça (1559-1593), filha de outras da órfãs que vieram para o Brasil, também D. Mécia Lobo de Mendonça, e de seu marido Francisco Bicudo, espingardeiro do governador Tomé de Souza. Parece que s.g.

2.2.   D. Joana de Argollo, nascida na Baía e falecida nova a 18.1.1626, ib, sendo sepultada no convento de S. Francisco. Jaboatão diz que foi bat. na Sé da Baía a 23.9.1620, o que é impossível, pelo que deve ser gralha por 1602, portanto cerca de um ano depois do nascimento de seu irmão. Ou, em alternativa, a data de 1620 não é baptismo mas sim do seu 2º casamento. Infelizmente estão desaparecidos os livros de assentos paroquiais que Jaboatão terá consultado. Se nasceu em 1602, o que parece, morreu com apenas 24 anos de idade. Apesar disso casou duas vezes e ainda viveu em Braga, onde lhe nasceram dois filhos do 2º casamento. Casou a 1ª vez, teria 15 anos de idade, com o doutor Francisco Subtil de Sequeira (a) desembargador da Relação da Baía e provedor da Alfândega pelo casamento, que chegou ao Brasil em 1602, cavaleiro da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício, natural de Tancos (Portugal) e falecido a 4.4.1619 no Brasil, com sepultura no convento do Carmo (Socorro). D. Joana casou 2ª vez, cerca de 1620, com Sebastião Parvi de Brito (b), já viúvo, nascido em Évora e fal. a 20.1.1661, na Baía, sendo sepultado no convento de S. Francisco, que sucedeu a seu cunhado na propriedade da provedoria da fazenda e alfândega (12.1.1641) e foi nomeado por D. João IV provedor-mor da real fazenda do Brasil (CJIV, 13, 172). Sebastião Parvi de Brito era irmão de Luiza de Brito e Ambrósia de Brito, que faleceram solteiras na Baía, e primo de Aires Falcão Pereira, guarda-mor da Torre do Tombo, do doutor Francisco da Silva de Menezes, colegial de S. Pedro, e do doutor Martim de Almada, como se refere na IG para o Stº Ofº de seu neto. As genealogias brasileiras dizem que era filho de André Parvi e sua mulher D. Leonor de Brito, natural de Castelo Branco, que era  irmã do doutor Pedro Barreto de Vasconcellos (vide o meu estudo Leitão, Linha ascendente dos senhores do paço da Torre de Figueiredo das Donas), avô do referido doutor Francisco da Silva de Menezes, colegial de S. Pedro da Universidade de Coimbra e familiar (25.9.1650), deputado e promotor do Santo Ofício. O também referido Aires Falcão Pereira, guarda-mor da Torre do Tombo, era certamente filho ou neto de Francisco Pereira Falcão e sua mulher D. Jerónima Barreto, também irmã do dito doutor Pedro Barreto de Vasconcellos. O parentesco com o doutor Martim de Almada não consigo explicar. A não ser que tenha havido confusão e se trate do doutor Martim Leitão, célebre general e ouvidor-geral do Brasil, que casou com D. Babiana Barreto, irmã do mesmo. Do 1º casamento de Sebastião Parvi de Brito parece neto outro Sebastião Parvi de Brito, que foi capitão de Ordenanças no Brasil (3.12.1725) e coronel de Infantaria de Ordenanças (30.1.1728) e a 27.1.1742 teve o hábito da Ordem de Cristo com 12.000 reais de tença. 

2.2.1.   (a) Agostinho Subtil de Sequeira, irmão da Santa Casa da Misericórdia da Baía (1679), falecido a 18.6.1683 e sepultado em Stª Mª do Socorro. Casou com D. Francisca de Menezes, filha de Cristóvão da Costa Doria e sua mulher D. Maria de Menezes, filha de Jerónimo Moniz Barreto de Menezes.

2.1.1.1.   Francisco Subtil de Sequeira, vereador do Senado da Câmara de Salvador da Baía em 1671, falecido a 3.9.1693, ib. Casou a 2.4.1667 na Sé da Baia com D. Bárbara de Azevedo Henriques, fal. a 8.3.1686, ib, filha do doutor António Mendes de Oliva, já fal. em 1667, e sua mulher D. Isabel de Azevedo Henriques. C.g.

2.1.1.2.   D. Joana de Argollo, que casou a 5.12.1655 em Passé com Braz Lobo de Mesquita, c.g.

2.1.1.3.   D. Maria de Menezes, que casou com João de Barros Aranha

2.1.1.4.   D. Leonor de Menezes, bat. a 11.9.1646 na capela de S. Paulo, em Stª Maria do Socorro.

2.1.1.5.   D. Mariana de Menezes, que casou a 12.1.1663 na capela de S. Paulo (Socorro) com Lucas Tavares de Alvim, filho de Tomé Tavares de Alvim e sua mulher D. Bárbara Pereira de Gusmão. C.g.

2.1.1.6.   D. Antónia de Menezes, que casou com António Telles Pereira, s.g.

2.1.1.7.   D. Ângela, falecida menina.

2.2.2.   (a) Frei Francisco dos Anjos, da Ordem dos Carmelitas Calçados, na Baía.

2.2.3.   (b) Manuel de Brito Lobo, nascido em Braga, cavaleiro da Ordem de Cristo. Casou com D. Margarida de Araújo, filha de Feliciano de Araújo Soares e sua D. Antónia de Mello de Vasconcellos.

2.2.3.1.   D. Antónia de Mello de Vasconcellos, bat. a 8.5.1646, que foi a 3ª mulher de Pedro Baldes Barbosa, s.g.

2.2.3.2.   D. Luiza de Mello de Vasconcellos, bat. a 3.7.1649 em Socorro.

2.2.3.3.   André Parvi de Brito, bat. a 25.5.1652 e fal. menino.

2.2.3.4.   Sebastião, bat. a 14.5.1657 e fal. menino.

2.2.3.5.   D. Leonor de Brito

2.2.3.6.   Manuel de Brito Lobo, bat. a 29.12.1660 na igreja da Purificação. Casou a 14.10.1697 na Sé da Baía com D. Tereza Borges de Abreu, filha de Cristóvão Barbosa de Villasboas e sua mulher Mariana Borges de Abreu. C.g.

2.2.3.7.   Feliciano de Araújo de Brito

2.2.3.8.   Bento de Araújo de Brito, bat. a 14.5.1657. Casou com D. Tereza Inácia de Menezes, filha do doutor Manuel Botelho de Oliveira, capitão-mor da Baía, cavaleiro fidalgo da Casa Real, e de sua 1ª mulher D.Antónia de Menezes. C.g.

2.2.3.9.   D. Ana de Brito, bat. a 11.7.1662

2.2.4.   (b) D. Leonor de Brito, nascida em Braga e moradora na Baía, onde Jaboatão diz que fal. a 26.5.1678 e que foi sepultado na igreja do Carmo. Casou com António de Brito de Castro, cavaleiro da Ordem de Cristo, com 100.000 reais de pensão (17.3.1673) provedor da alfândega da Baía (1638), cuja propriedade estava na família da mulher, tendo nascido na Baía, onde viveu e onde Jaboatão diz que fal. a 1.4.1675, sendo sepultado na igreja do Carmo, acrescentando que foi tenente às ordens do mestre de campo general. Era filho de Francisco de Brito de Sampayo, nascido em Mansos (Braga), e de sua mulher D. Susana Barbosa, nascida em Barcelos; neto paterno de António de Brito de Castro e de sua mulher Antónia de Sampayo (filha de António Mendes de Vasconcellos e sua mulher Isabel Pereira, moradores em Sabrosa); bisneto de Pedro de Brito Pimenta e sua mulher Francisca Godins (filha de António Freire de Andrade e sua mulher Antónia Godins); trineto paterno de Simão Pimenta de Castro e de sua mulher Isabel de Brito de Noronha, filha esta de Fernão de Brito, abade de Mouçós, como tudo se diz na IG de seu filho.

2.2.4.1. Sebastião de Brito de Castro, fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem de Cristo, familiar do Stº Ofº (21.5.1689). Casou com D. Maria de Aragão, irmã de Pedro Camelo Pereira de Aragão, António de Aragão Pereira e Diogo de Aragão Pereira, todos cavaleiros da Ordem de Cristo e filhos de Diogo de Aragão Pereira, nascido na ilha da Madeira e morador na Baía, e de sua mulher D. Isabel de Aragão, nascida na Baía; netos paternos de Pedro Camelo de Aragão e Inez Martins, ambos da Madeira; netos maternos de Baltazar de Aragão de Souza, da Madeira, e de sua mulher Maria de Araújo, da Baía. S.m.n.

2.2.4.2. André de Brito e Castro, cavaleiro da Ordem de Cristo, com 20.000 reais de tença (13.3.1679). Foi provedor da alfândega (1678) e da fazenda (5.4.1688) da Baía, irmão da Misericórdia da Baía (1672), etc. Casou com D. Francisca Maria Leite, c.g. desenvolvida em «Gorjão Henriques», 2006 (2 volumes), de Nuno Gorjão Henriques e Miguel Gorjão-Henriques

2.2.4.3.   Francisco de Brito de Sampayo, que foi provedor da alfândega da Baía (1676). Casou com Maria Francisca Xavier Aranha, segundo Jaboatão. Foram pais de António de Brito de Castro, fidalgo cavaleiro da Casa Real, com 1.600 reais de moradia por mês (21.3.1690), e de André de Brito de Sampayo, também fidalgo cavaleiro da Casa Real (5.3.1699).

2.2.4.4. D. Joana de Brito de Castro, que casou com Francisco Pereira Ferraz, provedor da alfândega da Baía (1689).

2.2.4.5.   D. Antónia de Castro, fal. a 8.11.1665, solteira, segundo Jaboatão.

2.2.4.6.   António de Brito de Castro, sobre quem Jaboatão dá ampla notícia da sua extraordinária vida. Parece ser este (e não ainda seu pai homónimo) que a 12.2.1674 teve alvará de D. Afonso VI para que possa formar uma vila no distrito do Rio de S. Francisco (Baía), no prazo de 6 anos. E deve ainda ser este (e não seu sobrinho homónimo, referido acima), que a 10.3.1694 foi nomeado provedor da Alfândega de Baía.

2.3.    Rodrigo de Argollo, que segue no nº 3.

3.        Rodrigo de Argollo, fidalgo da Casa Real 4, nascido cerca de 1603 e falecido em 1665. Parece ter sido o 1º senhor da fazenda e engenho S. Miguel das Almas, na freguesia de Nª Sª do Socorro da vila de S. Francisco do Conde (S. Francisco da Barra de Sergipe do Conde), na Baía, onde casou a 28.7.1642 com D. Isabel Pereira de Magalhães, irmã do capitão Francisco de Padilha, que se celebrizou na luta contra os holandeses, ambos filhos do capitão André de Padilha de Barros, cavaleiro fidalgo da Casa Real e cavaleiro da ordem de Cristo, fidalgo português que chegou ao Brasil em 1589, capitão de Infantaria que esteve na tomada de Sergipe e nas guerras contra os holandeses, nomeadamente em 1624-25, senhor de uma sesmaria com duas léguas de Passé a Jacuipe (10.7.1612), etc., e de sua mulher Maria Rangel, baptizada a 15.4.1585 na Sé da Baía, irmã do Padre António Rangel, jesuíta no Brasil, baptizado a 22.4.1595 na Sé da Baía, de Juliana Rangel, casada com Egas Moniz Barreto, fidalgo escudeiro da Casa Real, falecido a 23.10.1643 em Camamu, de Isabel Telles, casada a 26.7.1651 na Baía com Cristóvão de Aguiar de Altero (Daltro), falecido a 15.1.1664, e de Joana Rangel, casada com seu cunhado Francisco de Padilha. André de Padilha, quando pediu a sesmaria ao rei, em 1612, diz que há 23 anos que estava na Baía, «sempre servindo a S. Majestade em todas as ocasiões que então até hoje se ofereceram, como foi na ocasião de duas naus inglesas e um patacho que a esta terra vieram, governando nela Cristóvão de Barros. E na ocasião das naus holandesas governando Álvaro de Carvalho e outrossim na ocasião das naus que aqui vieram governando Diogo Botelho, assim se achou na tomada de Sergipe, em companhia do capitão-mor Cristóvão de Barros e também acompanhou a Gabriel Soares de Sousa na jornada que fez por mandado de S. Majestade e em todos os rebates e alardes gerais que no tempo de vossa senhoria se ofereceram, acudiu sempre com muita vontade. Em todo esse tempo serviu a S. Majestade com sua pessoa e armas e escravos sempre à custa do suplicante, sem gastar da fazenda de S. Majestade cousa alguma, e é morador na terra e tem mulher e filhos, e não tem terra nenhuma que de sesmaria lhe fosse dada». André de Padilha de Barros era certamente irmão do antedito Francisco de Padilha, portanto ambos casados com duas irmãs. Terão ambos ido para o Brasil, sendo filhos de outro Francisco de Padinha, que se documenta escudeiro do secretário de Estado Pedro de Alcáçova Carneiro, e filho de Bartolomeu Fernandes de Padilha, quando embarcou para a Índia a 24.12.1553 (D. Flamíninio de Sousa). Que é certamente o Francisco de Padilha que teve foro de escudeiro fidalgo da Casa Real (Ementas, 4, 37). Tendo em conta o nome da filha de André de Padilha de Barros, julgo que este Francisco de Padila casou com uma (Isabel) Pereira de Magalhães. Era, portanto, filho de Bartolomeu Fernandes de Padilha, que é o escudeiro da Casa Real que a 30.4.1530 tirou carta de armas para Padilha (de Castela), e era irmão Francisco Fernandes de Padilha, morador em Lisboa, que tirou igual carta de armas a 23.8.1532. E este Bartolomeu Fernandes de Padilha terá casado com uma Barros, porventura tia do antedito Cristóvão de Barros, que governava a Baía quando seu primo-sobrinho André de Padilha de Barros foi para o Brasil servir às suas ordens. Maria Rangel, que ficou acima, era filha de Rafael Telles, natural da Madeira, lavrador que passou à Baía, e de sua mulher (casados a 6.1.1583, ib) Maria Rangel, nascida no Porto em 1567 (em 1591 diz ter nascido nesta cidade e ter 24 anos); neta paterna de António Fernandes de Abreu e sua mulher Maria de Gouveia, moradores na Madeira; e neta materna de Miguel Ribeiro, procurador do número do Porto e morador na rua de São Francisco desta cidade, e de sua mulher Marta Vilela, «pessoas opulentas e de cabedal». Esta Marta Vilela, natural do Porto, cristã-velha, em 1591 vivia na Baía, em casa da filha, quando foi acusada de praticar magia (Confissões de Santo Oficio, 1591). Miguel Ribeiro era certamente dos Ribeiro Rangel, de Aveiro. Rafael Telles casou 2ª vez, sem geração, com Mécia de Armas, já viúva do capitão Belchior de Souza Drummond, referidos adiante.

3.1.   Padre Rodrigo de Argollo, bat. a 30.6.1643 na Baía (Jaguaripe). Foi clérigo de ordens sacras.

3.2.   Francisco de Padilha, parece que s.g., s.m.n.

3.3.   Paulo de Argollo, que segue no nº 4.

3.4.   D. Felícia Lobo, bat. a 19.9.1647, ib, s.m.n.

3.5.   D. Mariana Pereira de Menezes, bat. a 5.1.1649, ib, foi freira do convento do Desterro, onde recebeu hábito a 28.10.1679 com o nome de Soror Maria de Santa Clara.

3.6.   D. Ana de Argollo de Menezes, bat. a 19.2.1650 em Nª Sª do Socorro. Casou cerca 1670 com o capitão António Moreira de Menezes5, natural de Passé, juiz ordinário da Câmara da Baía em 1691, irmão da Stª Casa da Misericórdia (21.4.1671), que era irmão de Martim Afonso de Mendonça, e ambos filhos de António Moreira de Gambôa, fidalgo da Casa Real, senhor de engenho em Socorro, etc., e de sua mulher D. Antónia de Menezes

3.6.1.   Rodrigo de Argollo, padre, que julgo ter sido o mais velho.

3.6.2.   D. Helena Maria de Argollo, bat. a 29.2.1672 em Stª Mª do Socorro. Casou a 1ª vez com Bartolomeu Soares, s.g., e a 2ª vez com Francisco de Negreiros Côrte-Real, falecido a 26.7.1790, também s.g., sendo ele já viúvo de D. Antónia de Araújo de Aragão.

3.6.3.   D. Inez de Argollo, que casou com Teodósio de Sá Brandão, de Sergipe d'El Rei, s.g.

3.6.4.   D. Antónia de Argollo, bat. a 31.7.1675 em Stª Mª do Socorro. Casou a 1ª vez com João Pereira Coronel e a 2ª vez com Baltazar de Vasconcellos Cavalgante de Albuquerque, s.g. de ambos os matrimónios.

3.6.5.   José de Argollo de Menezes, nascido cerca de 1676, foi senhor de uma sesmaria donde expulsou os índios, segundo uma carta real de 17.1.1726, onde se diz que era «homem muito poderoso naqueles sítios». Casou a 1ª vez a 4.6.1710 em Guadalupe (dispensados no 3º grau de consanguinidade) com  D. Francisca de Menezes (a), irmã de João Pereira Barbosa de Araújo, referido adiante, ambos filhos de António Barbosa de Araújo e sua mulher D. Mónica de Menezes. Casou a 2ª vez a 8.1.1727, na capela de S. Domingos, com sua concunhada D. Catarina Ponciana Bezerra de Vargas Cirne (b), nascida em S. Francisco do Conde.

3.6.5.1.   (a) João de Argollo de Menezes, que nascido cerca de 1711 e, ainda muito novo e por motivo desconhecido, cumpriu pena de degredo em Angola, onde ainda estava a 8.3.1747, quando pede para lá sair, por se ter findado o tempo. Casou na vila de Cairu com D. Fé de Souza, dos Eça e Couros, s.g.

3.6.5.2.   (a) António Moreira de Menezes, falecido solteiro.

3.6.5.3.   (b) D. Maria Bernarda de Argollo de Vargas Cirne, nascida em Stº Amaro em 1727. Casou a 14.4.1749 com o guarda-mor Bernardo da Silveira de Menezes, cavaleiro da Ordem de Cristo, tabelião e escrivão do público, judicial e notas de Maragogipe (14.12.1726), filho do doutor Bernardo Mendes da Silveira e de sua mulher D. Antónia de Menezes. C.g. 

3.6.5.4.   (b) Simão Manuel de Argollo de Menezes, juiz ordinário de S. Francisco do Conde, fazendeiro de cana do açúcar, familiar do Stº Ofº (1756), processo que ficou incompleto com a sua morte. Foi bat. a 28.12.1730, ib, e faleceu em 1756, com apenas 26 anos de idade. Casou com D. Maria Clara da Encarnação da Costa Coelho, filha do sargento-mor António da Costa Coelho e sua mulher D. Águeda Luiza Gomes de Lima, referidos adiante. C.g. 6

3.6.5.5.   (b) José de Argollo de Menezes, bat. a 15.4.1731 em Nª Sª do Monte, falecido solteiro.

 3.6.6.  Bartolomeu de Argollo de Menezes, sargento-mor de Stº Amaro em 5.8.1748, ocupando o cargo há 18 anos, juiz ordinário de S. Francisco do Conde, irmão da Santa casa da Misericórdia da Baía (1733), senhor do engenho de Itacuipe, em 1720 desiste de uma contenda com os carmelitas sobre os limites das suas propriedades entre os rios Jacuibe e Itacuibe, sendo «pessoa que se fez célebre não só pela sua nobreza de sangue mas também por suas muitas virtudes morais» (Frei Bento da Apresentação, in «Cartágrafo Epipompteutico»). Nasceu cerca 1677 e faleceu octogenário a 10.7.1764. Casou a 1ª vez a 29.1.1715, na capela de Stº António do Socorro, com D. Antónia Isidora Maria Bezerra de Vargas Cirne (a), falecida a 18.8.1730, filha do capitão de Cavalos Miguel Bezerra e sua mulher D.Maria Cirne. Casou a 2ª vez com D. Águeda Luiza Gomes de Lima (b), já viúva do sargento-mor António da Costa Coelho, sendo filha do capitão Manuel Rodrigues Brandão e sua mulher D. Maria Rebouças.

3.6.6.1.  (a) D. Ana, nascida em S. Francisco do Conde e falecida solteira a 13.5.1731.

3.6.6.2.  (a) Frei João de Argollo de Menezes, nascido ib, carmelita na Baía.

3.6.6.3.  (a) D. Maria, nascida ib e falecida menor a 12.1.1718.

3.6.6.4.  (a) Rodrigo de Argollo Vargas Cirne de Menezes, coronel do Regimento de Cavalaria de Auxiliares da Baía em 1770, de que tinha sido sargento-mor, vereador do Senado da Câmara, escrivão da Casa da Moeda (8.5.1780), ofício que passou a seu genro Francisco Alexandre de Freitas e Eça a 11.11.1794, Familiar do Stº Ofº (26.3.1772), membro da Academia Brasileira dos Renascidos (1759), irmão da Stª Casa da Misericórdia da Baía em 1726, donde foi expulso por incivilidade em 1762 e readmitido no ano seguinte, sendo escrivão da irmandade. Foi bat. a 1.5.1722 em Nª Sª do Monte e falecido a 25.6.1795. Casou com D.Marcela da Purificação da Silva, filha de António da Silva Gomes, natural do Porto, familiar do Stº Ofício e ferreiro da Casa da Moeda. C.g.

3.6.6.5.  (a) D. Ana Maria de Argollo Vargas Cirne de Menezes, bat. em 1718 em Nª Sª do Monte do Recôncavo (S. Francisco do Conde) e falecida menor a 3.5.1731.

3.6.6.6.  (a) D. Joana Baptista de Argollo, que casou com Estêvão da Mata Gomes, que morreu na Ilha do Príncipe com os bens sequestrados, tendo ela permissão para se repatriar.

3.6.6.7.  (a) D. Rosa, falecida menor a 8.9.1733, ib.

3.6.6.8.  (a) D. Helena, bat. a 7.11.1729 em Nª Sª do Monte e falecida com nove meses a 13.2.1730.

3.6.6.9.  (b) Pedro de Argollo de Menezes, capitão de Cavalos do Estado do Brasil (12.12.1762), nascido a 2.9.1734. Casou com D. Josefa Maria ...., s.m.n.

3.6.6.10. (b) Victorino de Argollo de Menezes, gémeo do anterior, capitão de Cavalos, inquiridor, contador e distribuidor da Baía (17.2.1763), escrivão da coroa e fazenda da Baía, familiar do Stº Ofº (12.11.1765), irmão da Stª Casa da Misericórdia (27.3.1763), falecido a 29.5.1785. Casou com D. Ana Inez Josefa de Saldanha de Andrade, falecida a 17.11.1768 na vila de S. Francisco do Conde (Baía) com inventário de menores, deixando filhos a António de Argollo e Menezes, de 3 anos de idade, que veio a falecer, e D.Maria Clara de Argollo e Menezes, de 13 anos, que veio a suceder no ofício de escrivão da Coroa e Fazenda (5.11.1804) e a casar com o capitão Vicente José de Souza Lisboa. Outro filho, Manuel, nascido em 1763, já tinha falecido. D. Ana Inez era a filha mais velha do Doutor José Borges de Sequeira, também inquiridor, contador e distribuidor da Baía, natural de Évora (irmão do comissário do Stº Ofº António da Costa de Andrade), e de sua mulher D. Clara Josefa de Saldanha. 

3.6.7.   Vicente de Argollo e Menezes, capitão-mor de Jaguaripe (confirmado a 23.10.1723), foi um dos cavaleiros dos jogos hípicos e bélicos da Baía em 1717. Casou a 21.10.1726 na capela de Stº António da Casa de Cinco Rios com sua concunhada D. Ana Maria Bezerra de Vargas Cirne.

3.6.7.1.   D. Maria, nascida em S. Francisco do Conde e falecida menina a 15.1.1728, ib.

3.6.7.2.   D. Antónia de Argollo Vargas Cirne de Menezes, nascida ib, e casada a 23.2.1756, ib, com Francisco de Vasconcellos e Albuquerque, falecido a 31.5.1778 em Stº Amaro, c.g.

3.6.7.3.   D. Maria, bat. a 15.1.1731 em Nª Sª do Monte, s.m.n.

3.6.7.4.   Francisco Xavier de Argollo Vargas Cirne de Menezes, bat. a 19.5.1732, ib, e falecido a 18.2.1751. Casou a 29.9.1750 com sua prima D. Antónia Isidora Bezerra de Vargas, s.g. 

3.6.7.5.   Inácio de Argollo de Menezes, bat. a 30.9.1733, ib, falecido solteiro.

3.6.7.2.   D. Ana Maria de Argollo Vargas Cirne de Menezes, que casou a 1ª vez a 10.8.1760 com José Pinto Ribeiro, falecido a 11.5.1774 em Passé, filho de António Pinto Ribeiro e sua mulher D. Rosa Maria de França. Casou a 2ª vez a 12.10.1774 em Passé com João Crisóstomo da Costa Pinto, filho do capitão António da Costa Pinto e sua mulher D. Maria de Jesus José. C.g. do 2º casamento.

3.6.7.6.   Leandro de Argollo Vargas Cirne de Menezes, que morava junto do Carmo quanto teve conflitos com os frades do mosteiro, tendo falecido em Stº Amaro. Casou a 30.8.1768 com D. Tereza Maria de Jesus Filgueiras, filha do capitão Francisco Corrêa Filgueiras e sua mulher D. Maria Josefa de Jesus. C.g.

3.6.8.   Manuel Telles de Argollo e Menezes, capitão de Infantaria da Ordenança de Nage (12.1.1719). Casou com D.Isabel da Rocha, filha de Zenóbio de Almeida e sua mulher Maria da Rocha de Ávila.

3.6.8.1.    António Moreira de Menezes, casado, s.m.n.

3.6.8.2.   Carlos José de Argollo de Menezes, casado, s.m.n.

3.6.8.3.   João de Argollo de Menezes, s.m.n.

3.7.   D. Joana Telles de Menezes, bat. a 9.3.1654, ib, e casada com o licenciado Bartolomeu Soares, senhor de engenho, que obteve sesmaria no Recôncavo a 29.5.1684, sendo vereador do Senado da Câmara em 1694. Nas actas da Câmara é referido como «pessoa abonada e segura». Em 1684 pagou o que devia o tesoureiro, de que foi fiador. S.g.

4.      Paulo de Argollo, fidalgo da Casa Real (30.1.1711), senhor das fazendas e engenhos S. Miguel das Almas, na freguesia de Nª Sª do Socorro (Baía), onde foi baptizado a 30.5.1646, e de Stº António de Cinco Rios, na freguesia de Nª Sª do Monte do Recôncavo (S. Francisco do Conde, Baía), onde viveu, sendo juiz ordinário de S. Francisco do Conde em 1711 e irmão da Santa Casa da Misericórdia da Baía (15.4.1696). Casou a 18.2.1692 no engenho de Copacabana com sua parente D. Inez de Gusmão, nascida possivelmente em 1674, filha única de Miguel Rodrigues de Gusmão (que no Brasil também aparece, certamente por erro, como Manuel), cavaleiro da Ordem de Cristo (26.2.1680), irmão da Stª Casa da Misericórdia da Baía (24.9.1678), natural da Baía, onde instituiu uma capela (cuja extinção em 1800 obteve D. Leonor Antónia Francisca de Queiroz, viúva de seu neto, referida adiante), e de sua mulher (casados em 1673) D. Maria de Teive e Gusmão (que também aparece documentada como D. Maria de Souza), natural da Baía, que a 24.10.1664, sendo referida apenas como D. Maria, teve promessa real de 50.000 reais de pensão, com o hábito de Cristo, para quem com ela casar, pelos serviços de seu pai Belchior Barreto de Teive (mercê confirmada a 27.11.1673). Esta D. Maria, baptizada a 20.4.1644 na Sé da Baía, teve um curto 1º casamento, sem geração, com João Soares Brandão, e era irmã de Pedro de Teive Barreto ou Barreto de Teive, baptizado a 29.10.1639, ib, arcediago da Sé da Baía e capelão fidalgo da Casa Real com 1.280 réis de moradia (29.12.1664), que a 7.8.1655 teve o hábito de noviço da Ordem de Avis, com a pensão de 20.000 reais (16.4.1657), depois acrescida de mais 10.000 reais (7.3.1663); de João de Teive Barreto, baptizado a 9.7.1646, ib, como António, mudando o nome para João no crisma, que faleceu solteiro sem geração; e de D.Joana de Teive Barreto, baptizada a 25.6.1648, ib, que casou com o capitão Gaspar Maciel de Sá. Eram todos filhos e D. Maria sucessora do capitão Belchior Barreto de Teive, fidalgo da Casa Real (1663), falecido a 7.9.1662, ib, e sepultado no mosteiro do Carmo, e de sua mulher D. Clara de Souza. Esta D.Clara, nascida cerca de 1620, ib, era irmã de António Ferreira de Souza, que a 22.10.1646 teve o hábito de cavaleiro noviço da Ordem de Santiago, por estar casado com D. Antónia Bezerra, filha de Luiz Bártolo e sua mulher D. Maria Furtado, sendo nesta mercê referido como filho de Eusébio Ferreira e sua mulher D. Catarina de Souza. De facto, eram ambos filhos de Eusébio Ferreira, natural de Porto Santo (Madeira) e falecido a 1.11.1636 na Baía, e de sua mulher (casados a 13.5.1603, ib) D. Catarina de Souza, falecida a 21.8.1649, ib, e sepultada no mosteiro do Carmo. Esta D. Catarina era filha de Belchior de Souza Drummond e de sua mulher D. Mécia de Armas (filha de Luiz de Armas, cavaleiro da Casa Real, e de sua mulher Catarina Jacques), e neta paterna de João Gonçalves Drummond, fidalgo, documentado em Ilhéus em 1552, e de sua mulher Marta de Souza 7, outra das donzelas órfãs que foi para o Brasil, conforme já ficou referido. Aquele Miguel Rodrigues de Gusmão (que não se percebe donde lhe veio este nome, usado por sua mulher) era filho de Gregório Rodrigues Varella e sua mulher Maria Bernardes. Teve 50.000 reais de pensão e a Ordem de Cristo, conforme prometido a sua mulher, pelos serviços de seu sogro o capitão Belchior Barreto de Teive, sendo ele, Miguel, como se diz no respectivo processo 8, «pessoa nobre, morador na cidade da Baía, onde tem servido os melhores cargos da república», gozando «de todos os foros de nobre, por se tratar com semelhante luzimento, tendo em seu serviço criados, cavalos e escravos». O antedito capitão Belchior Barreto de Teive era filho de D. Pedro de Teive y Guzmán (irmão do 1º marquês de La Fuente) e de sua mulher D. Leonor Barreto; neto paterno de D. Belchior de Teive, natural da Madeira (filho dos morgados da Ribeira Brava), gentil-homem de D. Filipe II de Espanha, um dos quatro ouvidores da sua câmara e membro do Conselho de Guerra, superintendente da fazenda real (1607), genealogista, etc., e de sua mulher (casados em 1608) D. Mariana Tello de Guzmán, senhora de Lerena, filha herdeira de  D. Pedro Tello de Guzmán, senhor de Lerena, alcaide-mor de Sevilha, cavaleiro dos 24 e da Ordem de Santiago, etc., e de sua 1ª mulher e prima D. Mariana Ponce de León, descendentes da principal fidalguia sevilhana, nomeadamente dos senhores (depois condes) de Orgaz e dos condes de Arcos. Antes de ser cavaleiro da Ordem de Cristo, Miguel Rodrigues de Gusmão teve a 22.9.1678 mercê real de 50.000 reais de pensão e promessa em bens da Ordem de Cristo, por estar casado com D. Maria de Teive. 

4.1.   José de Argollo de Gusmão, fidalgo da Casa Real (24.3.1711), capitão-mor de Nª Sª do Monte de Recôncavo (12.2.1720), capitão de Infantaria (18.8.1718) do regimento do coronel Egas Moniz Barreto, etc., nasceu em 1693 e faleceu solteiro, s.g.

4.2.   D. Joana Maria de Argollo e Gusmão, nascida na Casa Grande do engenho de Cinco Rios. Casou a 27.2.1729, ib, com João Pereira Barbosa de Araújo, filho de António Barbosa de Araújo e de sua mulher D. Mónica de Menezes.

4.2.1.   António Barbosa de Argollo e Araújo, bat. a 1.2.1730 em Iguape, vivia solteiro em 1772.

4.2.2.   D. Ana, bat. a 5.1.1731, ib., fal. solteira antes de 1772.

4.2.3.   D. Mónica Maria de Menezes, que faleceu solteira em 1776, em Iguape, freguesia de Santiago.

4.2.4.   José Pereira de Argollo e Araújo, padre, já fal. em 1772.

4.2.5.   D. Joana, fal. solteira antes de 1772.

4.2.6.   D. Rosa, bat. a 1.1.1735, ib.

4.2.7.   D. Antónia, bat. a 15.5.1737, ib.

4.2.8.   D. Ana Maria de Monserrate, solteira em 1772.

4.2.9.   Manuel Xavier do Nascimento Pereira Barbosa de Araújo, padre, fal. depois de 1772.

4.3.   Paulo de Argollo e Gusmão, que segue no nº 5.

4.4.   Miguel Bernardino de Argollo, fidalgo da Casa Real (24.3.1711), s.m.n.

4.5. João de Teive Barreto e Argollo, fidalgo da Casa Real (21.4.1714), pessoa de grande fortuna, bat. a 6.9.1711 na capela de Stº António da casa da fazenda e engenho de Cinco Rios, sucedeu na fazenda e engenho de S. Miguel das Almas, na freguesia de Nª Sª do Socorro, e faleceu depois de 1784, ano em que, sendo viúvo, testemunha um casamento. Casou com D.Ana Joaquina Marques de Almeida (já viúva, s.g. de Luiz Bardalho de Negreiros Corte Real), falecida a 17.2.1771, sem testamento mas com inventário de menores de 17.2.1772, deixando uma fortuna avaliada em 49.615.722 réis, ficando tutor o pai, que deu contas a 10.10.1785. Era irmã do mestre de campo Bernardino Marques de Almeida, ambos filhos de André Marques, capitão e contratador, cavaleiro da Ordem de Cristo, e de sua mulher D. Isabel de Almeida.

4.5.1.   Paulo de Argollo e Teive, fidalgo da Casa Real (3.8.1783), nascido em 1758, pois tinha 13 anos quando do inventário. Casou antes de 1780 com sua prima-direita D. Francisca Clara de Queiroz e Argollo, referida abaixo, filha de Paulo de Argollo e Gusmão, no nº 5.

4.5.1.1.  ?João de Teive de Argollo e Queiroz, capitão das milícias de Marinhas da Praia (9.5.1803), que julgo filho destes. Deve ser o João de Teive e Argollo que casou com D. Maria da Assunção Freire de Carvalho e foram, nomeadamente, pais de:

4.5.1.1.1.    Miguel de Teive e Argolo, coronel, nascido em Cotegipe (Baía), que casou antes de 1842 com sua prima D. Maria Murtha Ferrão de Pina e Mello, nascida a 7.5.1822 na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 13.1.1824, referida abaixo no §2, filha do coronel José Maria de Pina e Mello de Argollo e Queiroz.

4.5.1.1.1.1. D. Maria Capitulina de Teive e Argollo, nascida a 26.10.1842 em Salvador e D. Maria Capitulina de Teive e Argollofalecida a 9.1.1882 em São Francisco do Conde. Casou a 31.10.1863 com seu primo o doutor Garcia Dias Pires de Carvalho e Albuquerque, senador e deputado à Constituinte, advogado, secretário do Governo da Baía, nascido a 20.9.1840 em Salvador e falecido em 15.5.1917 no Rio de Janeiro, referido adiante, filho dos 1ºs viscondes da Torre de Garcia d'Ávila. C.g. 

4.5.1.2.   D. Maria Luiza de Teive e Argollo, 1ª viscondessa de Pirajá pelo casamento, falecida a 19.4.1854 emVisconde de Pirajá Santo Amaro (Baía). Casou cerca de 1812 com Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, 1º barão (5.5.1826) e 1º visconde com honras de grandeza (12.10.1826) de Pirajá, coronel de linha, brigadeiro graduado, benemérito da Independência, grande do Império, gentil-homem da Imperial Câmara, dignitário da Imperial Ordem da Rosa, comendador das imperiais ordens de Avis e de Cristo, etc., bat. a 13.1.1788 na capela da casa do Unhão, em Salvador, e falecido a 29.7.1848 em Itapagipe (Baía). Era já viúvo, s.g., de D. Josefa Maria de Sá Pitta e Argollo, prima da 1ª mulher, referida abaixo, com quem casou a 28.1.1806. O visconde de Pirajá era filho de José Pires de Carvalho e Albuquerque, nascido em 1756, secretário de Estado do Brasil, senhor dos escravos envolvidos na «Revolução dos Alfaiates» e a quem se deve a lousa armoriada da igreja da Graça (1797), e de sua mulher (casados em 1781) D. Ana Maria de S. José e Aragão, morgada da Torre de Garcia d'Ávila.

4.5.1.2.1.    D. Ana Maria de S. José e Aragão, nascida em 1813 em Salvador (Baía) e falecida a 30.11.1855 na Baía. Foi a 1ª viscondessa da Torre de Garcia d'Ávila pelo casamento, a Visconde da Torre de Garcia d’Avila (coleção de Luiz Guilherme D’Aguiar de Ávila Pires)28.5.1834, com ou tio paterno António Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, 1º barão (1.12.1822) e 1º visconde (12.10.1826) da Torre de Garcia d'Ávila, com honras de grandeza (18.7.1841), nascido em 1779, bat. a 12.2.1785 em Salvador (Baía) e falecido a 5.12.1852, ib, secretário de Estado do Governo do Brasil, notável da independência, gentil-homem da Imperial Câmara, cavaleiro da imperial Ordem de Cristo, coronel de milícias, etc.

4.5.1.2.1.1. Dr. Domingos António Pires de Carvalho e Albuquerque, advogado, nascido a 11.1.1838 em Salvador e falecido a 3.10./1889 no engenho Periperi (Baía). S.g.

4.5.1.2.1.2. Dr. Garcia Dias Pires de Carvalho e Albuquerque, senador e deputado à Garcia Dias Pires de Carvalho e AlbuquerqueConstituinte, advogado, secretário do Governo da Baía, nascido a 20.9.1840 em Salvador e falecido em 15.5.1917 no Rio de Janeiro. Casou a 31.10.1863 em Gotegipe com sua prima D. Maria Capitulina de Teive e Argollo, nascida a 26.10.1842 em Salvador e falecida a 9.1.1882 em São Francisco do Conde, referida acima, filha do coronel Miguel de Teive e Argollo e de sua mulher e prima D. Maria Murtha Ferrão de Pina e Mello. C.g. que mantém esta varonia até à actualidade.

4.5.1.2.1.3. D. Catarina Álvares Paraguassu Pires de Aragão, nascida a 14.8.1842 em Salvador e falecida em 28.10.1884, ib. Casou com o Dr. Baltazar de Araújo e Aragão Bulcão, advogado, c.g.

4.5.1.2.1.4. D. Leonor Maria de la Penha Deus-Dará Pires Aragão, nascida a 10.9.1843 em Salvador e falecida a 21.2.1888, ib. Casou com seu primo o Coronel José Joaquim de Teive e Argollo, referido acima, c.g.

4.5.1.2.1.5. José Pires de Carvalho e Albuquerque, nascido a 2.2.1845 em Salvador e falecido com 7 anos de idade a 19.3.1852, ib.

4.5.1.2.1.6. Francisco Pires de Carvalho e Albuquerque, nascido a 21.9.1846 em Salvador e falecido falecido com 7 anos de idade a 2.2.1854, ib.

4.5.1.2.1.7. D. Tereza de Jesus Cavalcanti e Albuquerque, baronesa de Mataripe pelo casamento, nasceu a 25.7.1848 em Salvador e faleceu a 13.12.1913 em Stº Amaro (Baía). Casou com o António Muniz Barreto de Aragão, barão de Mataripe, c.g.

4.5.1.2.2.    José Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, 2º barão de Pirajá, com grandeza (25.3.1849), embaixador do Império do Brasil, etc., bat. com nove meses a 2.2.1815, no engenho Pouco-Ponto, em São Francisco do Conde, e falecido a 15.2.1888, ib. Casou a 14.10.1843 com D. Águeda Maria Zeferina da Silva, nascida a 26.8.1807 em Salvador e falecida a 12.8.1869, ib, filha do capitão-mor Simão Alvares da Silva e sua mulher D. Maria Joaquina Pereira de Andrade. S.g.

4.5.2.   D. Maria Leonor, nascida em 1759 e que já estava casada em 1785, conforme informa o inventário de menores, s.m.n.

4.5.3.   José Joaquim de Teive e Argollo, fidalgo da Casa Real (30.8.1783), 1º vereador do Senado da Câmara de S. Francisco do Conde (1816), nasceu em 1760 e sucedeu na fazenda e engenho de S. Miguel das Almas. Casou com sua prima D. Maria Luiza de Queiroz e Argollo, abaixo. 

4.5.3.1.   Miguel José Maria de Teive e Argollo, 1º barão de Pará-Mirim (14.3.1860), nascido em 1802 em Salvador da Baía e falecido a 13.10.1863 no seu engenho de S. Miguel das Almas. Fez aos 20 anos de idade a campanha da Independência, como capitão de Infantaria de Milícias. Comandante e tenente-coronel da Guarda Nacional do município da Vila de S. Francisco (1839), teve as honras de coronel honorário do Exército (1864), se bem que em 1847 já apareça como coronel. Foi fidalgo da Casa Imperial, comendador da imperial Ordem de Cristo, cavaleiro da imperial Ordem do Cruzeiro, e tinha a medalha da Independência da Baia. Casou com sua prima D. Bernarda Maria de Teive e Argollo, s.m.n.

4.5.4.   D. Antónia Marcelina, nascida em 1763, solteira em 1785, s.m.n.

4.5.5.   D. Isabel Luiza Marques, nascida em 1767, que já tinha falecido em 1785, conforme informa o inventário de menores.

4.5.6.   António Feliciano de Teive e Argollo, fidalgo da Casa Real (30.8.1783), nascido em 1768, já tinha falecido em 1785, conforme informa o inventário de menores.

5.       Paulo de Argollo e Gusmão, fidalgo da Casa Real (24.3.1711), vereador do Senado da Câmara da Baía, alferes do Regimento da Baía, familiar do Stº Ofº (2.1.1771), obteve em 1777 lugar no convento do Desterro para quatro das suas dez filhas. Abastado proprietário de terras, sucedeu nomeadamente no engenho da Pitanga, em fazendas e engenhos em Piedade, e na fazenda e engenho de Cinco Rios (Nª Sª do Monte do Recôncavo, Baía), onde viveu, e em cuja capela de Stº António foi baptizado a 10.6.1708, sendo padrinho José Telles de Menezes e D. Ana de Argollo, e onde faleceu a 21.6.1779, sem testamento mas com inventário de menores de 27 de Agosto desse ano, deixando aos filhos uma fortuna avaliada em 48.096.646 réis de renda (o total da fortuna do casal montava a 173.528.029 réis), tendo ficado tutora sua mulher, por provisão régia de 5.10.1780, a qual deu contas a 13.5.1783, 2.6.1802 e 24.3.1810. Na justificação de nobreza (18.2.1780) de seus filhos 9 diz-se que a família «era muito nobre, que se tratavam com cavalos e creados e todo o mais estado pertencente à Nobreza, servindo no Púlpito e o Militar os lugares expostos que só servem as pessoas de conhecida e notória Nobreza». Pelas legítimas de seus filhos documenta-se que possuiu mais de 500 escravos, que trabalhavam nas suas fazendas e engenhos. Casou a 7.1.1748 na Baía com D. Leonor Antónia Francisca de Queiroz (no casamento aparece apenas como D. Antónia de Queiroz), nascida cerca de 1730 e falecida viúva a 10.6.1816 na Casa Grande de Cinco Rios. Já viúva, requereu em 1800 a abolição da capela instituída por Miguel (ou Manuel) Rodrigues de Gusmão (Anais do BA, v.37, p.54), avô materno de seu marido, como ficou referido. Em 1796 vivia no seu engenho de S. Lourenço. Era filha do capitão António Gonçalves da Rocha e de sua mulher (casados cerca de 23.10.1722, data em que ela obteve autorização do Stº Ofº para casar, após inquirições de genere, insertas no processo do marido) D. Luiza de Queiroz e Araújo, «dos Queirozes de Amarante»10, sucessora, que faleceu a 23.8.1770 e foi sepultada em São Francisco. Esta D. Luiza casou 2ª vez com o doutor Manuel Vieira Pedrosa da Veiga, juiz de fora (27.10.1733), desembargador da Relação da Baía (6.2.1741), cavaleiro da Ordem de Cristo (6.9.1751), familiar do Stº Ofº, nascido em Trancoso e falecido em 1770 na Baía, s.g. Aquele António Gonçalves da Rocha   11 era natural de Lanhezes (Viana do Castelo) e falecido 8.11.1740 na Baía. Foi cavaleiro da Ordem de Cristo, com 12.000 reais de tença (12.12.1733)12, capitão do Forte de S. Lourenço da Ponte das Baleias (18.3.1717)13, na ilha de Itaparica (ilha grande em frente a Salvador da Baía), que fez à sua custa em 1716, familiar do Santo Oficio (8.11.1701) 14, provedor (1726) e irmão da Santa Casa da Misericórdia da Baía (24.6.1716), senhor de vários engenhos, nomeadamente o de Itatingui e o do Meio, etc. Em 1739 diz ter 66 anos de idade, pertencia então à ordem dos vereadores e capitaneava a fortaleza de S. Lourenço. A 11.2.1733 teve mercê de um tença de 8.000 reais. Para mais informação ver adiante o que digo em ARAÙJO DE GÒIS, família de que descendia D. Leonor Antónia Francisca de Queiroz por ambos os seus avós, António de Araújo de Góis e Sequeira e sua mulher D. Maria de Queiroz Cerqueira, onde também trato a origem dos Queiroz de Amarante.

5.1.    Miguel Jerónimo de Argollo e Queiroz, fidalgo da Casa Real (12.6.1780), coronel de Milícias e mestre de campo da Infantaria das Marinhas de Pirajá, na Baía (23.1.1796 e 2.2.1805), agregado ao Terço de Pirajá,  senhor do engenho da Pitanga, etc. Foi bat. a 3.1.1753 na capela de Stº António de Cinco Rios, sendo padrinhos os tios, D. Luiza de Queiroz e seu marido o desembargador doutor Manuel Vieira Pedrosa da Veiga. Faleceu solteiro e teve na legítima de seu pai o engenho da Pintanga, com sua fábrica, casas e acessórios, quintãs, casa de habitação, capela, terras de pasto e de plantar cana, escravos (cerca de 100), utensílios, gado (cerca de 140 cabeças), etc. 

5.2.    D. Luiza Clara de Queiroz e Argollo, que segue no §2.

5.3.   José Joaquim de Argollo e Queiroz, Escudo de armas dos Argollo (Argollo, Queiroz, Gusmão e Rocha), conforme se encontra no jazigo do barão de Cajaíba tenente-coronel de Cavalaria (1818), fidalgo da Casa Real (17.6.1780), com 12.000 reis de moradia, fidalgo de Cota de Armas, com carta de brasão para Argollo, Queiroz, Gusmão e Rocha (21.2.1780), cavaleiro da Ordem de Cristo (5.5.1779), familiar do Stº Ofº (16.3.1779), sargento-mor do Regimento de Milícias da vila de S. Francisco do Conde (12.1.1805) e capitão e ajudante de Campo de Cavalaria do Regimento de Auxiliares da Baía (18.5.1804). Foi vereador ao Senado da Câmara da Baía (1803), senhor (com sua irmã D. Luiza Clara e seu marido o capitão Luiz Carlos de Pina e Mello) da Ilha de Cajaíba, no município de S. Francisco do Conde, onde construíram engenho e casa grande, e senhor do engenho de Itatingui ou Catingui. Quando, com seus irmãos, justificou a sua nobreza (18.2.1780) era alferes cadete do Regimento da Baía. Foi bat. a 29.9.1756, ib, pelo Padre Simão de Queiroz, sendo padrinhos os mesmo de seu irmão Miguel. De sua legítima, além de dinheiro, ficou com roupas de seda bordadas a fio de prata, objectos de prata e ouro (entre eles uma medalha de ouro e diamantes do Santo Ofício), etc. Casou cerca de 1792 com D. Maria Joaquina Gomes Ferrão Castello-Branco, irmã do coronel Alexandre Gomes Ferrão Castello-Branco, deputado às Cortes de Lisboa pela Baía, e de D. Joana Ferrão Castello-Branco, referidos adiante no §2, e todos filhos do tenente-coronel José Diogo Gomes Ferrão Castello-Branco e de sua mulher D. Maria Sofia de Araújo e Azevedo, que já estavam casados quando ela recebeu em S. Francisco do Conde a 12.7.1770 a legítima de seu pai, então avaliada em 2.378.476 réis. Este Diogo Gomes Ferrão Castello-Branco era irmão de Alexandre Gomes Ferrão Castello-Branco, coronel de Ordenanças, fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo (22.6.1735), ambos filhos de António Gomes, fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo (29.1.1688), n. na Baía, e de sua mulher D. Maria Francisca Castelo-Branco, baptizada em Lisboa (S. João da Barra); netos paternos de Pedro Gomes, natural de Arcos de Valdevez mestre de campo pago na Baía, governador do Rio de Janeiro, fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, e de sua mulher D. Isabel Madeira, n. na Baía; e netos maternos do Dr. Pedro de Unhão de Castello-Branco, desembargador, e de sua mulher D. Damiana Francisca da Silva Ferrão, naturais de Lisboa.

5.3.1.   José Maria de Argollo Ferrão, sucessor no engenho de Itatingui ou Catingui e em parte do da ilha de Cajaíba, onde nasceu em 1793 e faleceu solteiro.

5.3.2.   D. Maria José Gomes Ferrão de Argollo, nascida em 1795 na Casa Grande de Cajaíba e falecida a 24.11.1843. Casou com Joaquim da Costa Pinto Simões, falecido a 9.1.1837, senhor do «encapelado» de Bento Simões, filho primogénito do capitão António da Costa Pinto. 

5.3.3.    D. (...)  de Argollo Ferrão,  que casou com (...) de Araújo.

5.3.3.1.   D. Leonor Antónia de Araújo e Argollo, que tocou a coroa no baptismo a 6.5.1849 de seu primo Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, referido adiante.

5.3.3.2.   João de Araújo e Argollo, capitão, sobrinho do major Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que o nomeou seu testamenteiro em primeiro lugar.

5.3.3.3.   ?D. Leopoldina de Argollo, sobrinha do major Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que lhe deixou 100.000 réis.

5.3.3.4.   ?D. Cora de Argollo, sobrinha do major Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que lhe deixou 100.000 réis.

5.3.4.   D. Joaquina Amélia de Argollo Ferrão, herdeira de seu irmão o major Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão. Casou com (...) Moniz.

5.3.4.1.   ?Paulo de Argollo e (Brotelo), capitão, afilhado do major Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que o nomeou seu testamenteiro em terceiro lugar.

5.3.5.   Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, major, nascido em 1797 na Casa Grande de Cajaíba, foi administrador da quinta dos Lázaros, em Salvador da Baía, e faleceu em 1871 em Sergipe do Conde, solteiro, sem geração. No testamento (7.5.1836) de seu primo o coronel José Maria de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, adiante, é referido como o sargento-mor Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão. Fez testamento a 1.4.1871. A pedido de sua irmã herdeira foi passado o seguinte traslado: «Tiburcio Tavares de Oliveira Escrivão da Provedoria nessa Villa de São Francisco da Barra de Sergipe do Conde por Mercê de Serventia Vitalícia, conferido para sua Magestade Imperial e Constitucional o Senhor Dom Pedro Segundo Imperador e defensor do Brazil e Quem Deos Guarde e certifico aos que aprezente a minha certidão virem, que meo (puder) e cartório do dito officio que Sirvo, se acha um Livro sob numero doze que servi para registro de testamento, o qual lhe próprio e idêntico de que trata e dou fé, e revendo-o a coisa que me foi pedido por certidão pela Supplicante Dona Joaquina Amélia de Argollo Ferrão n'ella a folha vinte e seis, se acha o registro do testamento com que faleceo o Major Jeronimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão de qual o seo theor de verbo (...) he da forma modo e (...) seguinte: «Testam.to de f.26 (..) f. 29. Registro do testamento com que faleceo o Major Jeronimo Felisberto Gomes d' Argollo Ferrão morador n'esta Freguesia de São Gonçalo, feito e approvado no primeiro de abril de mil oitocentos e setenta e um e aberto no dia dois do dito mêz, Testamenteira Dona Joaquina Amélia de Argollo Ferrão Muniz; e conta e tempo da Lei , e d'elle o seo theor é o seguinte. Em nome de Deos Amen e Eu o Major Jeronimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, estando doente de cama, porém em meo perfeito juízo, e entendimento, faço este meu testamento pela maneira seguinte. Primeiro declaro que sou filho legitimo dos falecidos Tenente Coronel Jozé Joaquim de Argollo, e Donna Maria Joaquina Gomes Ferrão CasteloBranco; Segundo declaro que nunca fui Casado e que no estado de solteiro nunca tive filhos; Terceiro Institulo a minha Irmã Donna Joaquina Amélia d'Argollo Ferrão e Muniz por minha herdeira de que ficar dos meus bens depois de cumpridos os meus legados e deposições; Quarto Deixo a minha Afilhada Dona Leopoldina de Argollo cem mil reis, a Donna Cândida Xavier da Cunha igual a quantia de cem mil reis e minha Afilhado Izabel Maria Borges cem mil reis; Quinta Deixo a minha sobrinha Donna Cora de Argollo cem mil reis; Sexta Deixo igual quantia de cem mil reis a Donna Maria Barbosa Gomes e a Dona Maria Joaquina outros cem mil reis, em consideração aos serviços que me tem prestado na minha enfermidade; Septina Nomeio por meus testamentos em primeiro lugar o meu Sobrinho João de Araújo e Argollo, em segundo lugar a minha Irmã Donna Joaquina Amália de Argollo Ferrão Muniz e em terceiro o meu Afilhado o capitão Paulo de Argollo e (Brotelo) E por esta forma hei por findo este meu testamento, que pedi a Antonio Frutctuozo da Silva Faria o escrevesse, e n'elle me assigno na Villa de São Francisco primeiro de abril de mil oitocentos e setenta e um; Jeronimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão Coroa testamento que o escreveu Antonio Fructuozo da Silva Farias a Approvação e Saibão quanto este publico instrumento de approvação do testamento virem que no anno do Nascimento de Nosso senhor JEzús Christo de mil oitocentos e setenta e um ao primeiro dia do mez de Abril do dito annon'esta Villa de São Francisco da Barra de Sergipe do Conde e Cazas de rezedencia do testador o Major Jeronimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, onde eu o Tabellião visa a seu chamado e sendo ahi prezente o mesmo testador, doente de cama, porém em seo perfeito juízo e entedimento ao parecer de mim Tabellião, e das testemunhas prezentes, do que dou fé bem como de ser próprio de mim conhecido, e em prezençã das mesmas testemunhas ao diante nomeadas e assignadas me entregou esse papel, dizendo-me ser o seu solemne testamento que depois de escripto por mim».

5.3.6.   Alexandre Gomes de Argollo Ferrão,1º barão de Cajaíba 1º barão de Cajaíba (18.7.1841) com honras de grandeza (25.3.1849), marechal do Exército (25.9.1852), presidente (1865) e vice-presidente (10.4.1838, durante 20 anos) da província da Baía, comandante das Armas da Baía (13.9.1831 - exonerado a seu pedido a 23.7.1835), deputado pela Baía às cortes portuguesas de 1821, moço fidalgo (11.4.1826) e vedor (14.3.1860) da Casa Imperial, comendador da Ordem de Avis, comendador e oficial da Ordem de Cristo, foi condecorado com a medalha destinada ao exército que expulsou da província da Baía as tropas portuguesas. A 20.2.1822 emigrou para o Recôncavo, onde fez a campanha da Independência. Encarregado da polícia das vilas de Santo Amaro e S. Francisco do Conde (19.4.1831), comandou a brigada que venceu os revoltosos da denominada «Sabinada» (27.11.1837). Assentou praça com 6 anos de idade como 1.º cadete (21.10.1807) na 8.ª Companhia do 2.º Regimento de 1.ª Linha, passando depois para a 2.ª Companhia do 1.º Batalhão de Caçadores, na mesma praça (1.4.1810), alferes do 2.º Batalhão de Caçadores (21.7.1818), tenente (13.5.1820), capitão (10.9.1824), sargento-mor do 14.º Batalhão de Caçadores, tenente-coronel graduado (30.1.1826), tenente-coronel efectivo (20.8.1838), coronel (29.11.1838), em remuneração dos serviços que prestou ao governo legal, por ocasião da revolta da «Sabinada», e brigadeiro graduado (2.11.1842), sendo reformado no posto de marechal. Nasceu em 1801 na Casa Grande de Cajaíba, acabando, com sua mulher, também co-herdeira, por ser o principal possuidor da ilha, onde faleceu a 10.5.1870, sendo sepultado em túmulo no cemitério do Campo Santo, em Salvador, em jazigo armoriado com o escudo de armas concedido a seu pai. Casou a 1.11.1831, tinha a noiva 15 anos de idade, com sua prima D. Eudóxia Cândida Ferrão de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, baronesa de Cajaíba, adiante no §2, falecida a 24.12.1858, «da Epidimia», sendo sepultada na capela do engenho São José da vila de S. Francisco do Conde. Quando estava a estudar em Salvador, Alexandre Gomes de Argollo Ferrão teve um filho ilegítimo em Felicidade Perpétua, moça solteira do povo, falecida a 27.3.1866 na Baía, que legitimou na sequência da sua brilhante carreira militar.

5.3.6.1.    (N) Alexandre Gomes de Argollo Ferrão,1º visconde de Itaparica 1º visconde de Itaparica com honras de grandeza (26.12.1868), marechal e comandante em chefe do Exército que combateu na guerra do Paraguai, grande do Império, grande dignitário da Imperial Ordem da Rosa, dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro, comendador da Imperial Ordem de S. Bento de Avis, cavaleiro da Imperial Ordem de Cristo, condecorado com as medalhas de Mérito e Bravura Militar e da Campanha do Paraguai. Nasceu a 8.8.1821 em Salvador, filho natural da referida Felicidade Perpétua, e faleceu solteiro a 28.6.1870, na Baía, na sequência de ferimentos que recebera na batalha de Itorocó. S.g. 

5.3.6.2.   José Joaquim Francisco Gomes de Argollo Ferrão, o primogénito legítimo, nascido a 26.12.1841 na Casa Grande de Cajaíba, em cujo oratório foi bat. com sete anos, a 6.5.1849, sendo padrinho o coronel Miguel José Maria de Teive e Argollo e marinha sua avó paterna D. Maria Joaquina Gomes Castello-Branco. Faleceu a 16.9.1861 em Starnberg, na Baviera, onde estava a estudar.

5.3.6.3.   D. Maria Augusta Gomes de Argollo Ferrão, nascida a 12.12.1844 na Casa Grande de Cajaíba, em cujo oratório foi bat. com quatro anos, a 6.5.1849, sendo padrinho o tenente-coronel Manuel José de Almeida Couto e marinha sua tia D. Elisa Amália de Argollo Pina e Mello. Casou com o Doutor José de Saldanha da Gama, director da Escola Politécnica de Rio de Janeiro, falecido a 8.9.1905. S.g.

5.3.6.4.  Alexandre, filho legítimo homónimo do ilegítimo, acima, que nasceu em 1846 e faleceu com um ano de idade a 24.1.1847, «de um achaque respiratório», tendo sido bat. em casa por estar em perigo de vida, sendo sepultado num carneiro no convento dos franciscanos.

5.3.6.5.  Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, filho legítimo homónimo do ilegítimo, acima, nasceu a 22.9.1847 na Casa Grande de Cajaíba, em cujo oratório foi bat. com os irmãos a 6.5.1849, sendo padrinho o major José Diogo Ferrão de Pina e Mello, seu tio materno, e Nª Senhora, tendo posto a coroa D. Leonor Antónia de Araújo e Argollo. Foi conhecido por «o Barãozinho» e morreu a 3.9.1878, assassinado às três da madrugada por seus próprios escravos do engenho de Catingui. Sucedeu ainda na administração do engenho de Cajaíba. Casou com D. Clara Luiza Moniz Viana, que lhe sobreviveu.

5.3.4.7.1.    D. Maria Augusta Vianna de Argollo Ferrão, casada com Luiz de Araújo de Aragão Bulcão, filho dos 3ºs barões de S. Francisco.

 5.3.6.5.  D. Maria Josefina Gomes de Argollo Ferrão, nascida em 1850 na Casa Grande de Cajaíba. Casou com o Doutor Clemente de Oliveira Mendes, s.g.

5.3.6.6.  Eusébio Gomes de Argollo Ferrão, nascido em 1852 na Casa Grande de Cajaíba, foi capitão na guerra do Paraguai e fal. solteiro, s.g.

5.3.6.7.  D. Ana Matilde Gomes de Argollo Ferrão, nascida em 1856 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu solteira.

5.3.6.8.  D. Maria Idalina Gomes de Argollo Ferrão, nascida em 1857 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu solteira.

5.3.6.9.  José Joaquim Gomes de Argollo Ferrão, nascido em 1858 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu jovem.

5.3.7.   Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, capitão, nascido cerca de 1802 e fal. a 12.10.1876, ib. Foi irmão da Santa Casa da Misericórdia da Baía (14.6.1847), documento onde vem referido como Tenente Felisberto Gomes de Argollo Ferrão. Casou cerca de 1830 com D. Urânia Vanério, falecida a 3.12.1849, ib., filha do doutor Euzébio Vanério, deputado por Sergipe, professor do Liceu da Baía (1818) e depois de fundador de um colégio particular em Sergipe e Salvador. O doutor Euzébio Vanério ofereceu a D. João VI a tradução do Sistema lancasteriano acerca da educação da mocidade, numa carta em que solicitava para ele e sua mulher subsídios para se irem instruir em Inglaterra ou na França na prática deste método, ou ser encarregado de difundir os seus conhecimentos teóricos, sendo para isso admitido ao real serviço. Em Outubro de 1820 este requerimento encontrava-se para ser discutido na Mesa do Desembargo do Paço. Ele teria sido o primeiro a utilizar no Brasil o método lancasteriano, desde 1817, conforme afirmou em ofício que dirigiu a D. Pedro I em 1825, ao oferecer-lhe a Memória concernente ao Ensino Mútuo. Pedia amparo e protecção ao imperador e oferecia-se para auxiliar a educação na Baía como director das escolas elementares da província; instrutor de uma escola normal de adultos e tradutor de algumas obras tendentes ao melhoramento e progresso da educação da mocidade, segundo o método do Ensino Mútuo. Seu pedido certamente não foi atendido, pois no início da década de 30 estava estabelecido com um curso particular de inglês para meninas, auxiliado por sua mulher e netas, em São Cristóvão, capital da província de Sergipe. Em 1838 continuava com sua escola particular em Salvador, e em 1845 o Almanaque da Bahia, de Manuel da Silva Serva, relaciona entre as Casas de Educação particulares existentes em Salvador, a de Euzébio Vanério, localizada na Igreja da Barroquinha, que ensinava todas as matérias primárias, atendendo a meninos e meninas em regime de externato apenas. Por morte do Capitão Felisberto Gomes de Argollo Ferrão foi feito inventário dos seus bens no Tribunal da Relação da Baía, processo onde consta o seguinte documento: «Aos vinte cinco dias do mês de Outubro de mil oitocentos e setenta e seis, nesta cidade da Bahia rua da Menzareia e caza de numero cincoenta e cinco na fazenda de Santa Anna desta cidade onde foi reunido o Doutor Antonio Luiz Affonso de Carvalho Juiz de Direito da vara, comigo (...) cargo abaixo nomeado, ali presente i inventariante Felisberto Gomes de Argollo este defiro o Juiz o juramento aos Santos Evangelhos em um livro delles em que paz na mão direita, e o (...) que sem dolo nem malicia e com verdade declarousse o dia mez e ano em que falleceo seu Pai e sua Mai Felisberto Gomes d'Argollo Ferrão e D. Urânia Vanario d'Argollo Ferrão e os seus herdeiros e os bens deixados pelos mesmo finados. E (...) por elle o dito juramento assim prometo, cumprir, declarando que sua Mai D. Urânia Vaneria d'Argollo Ferrão fallecera em trez de Dezembro de mil oitocentos e quarenta e nove, e seu Pai o Capitão Felisberto Gomes d'Argollo Ferrão no dia doze do corrente mez e annos, e seos mais herdeiros são Fernando Augusto Nobrega por cabeça de sua mulher D. Angélica d'Argollo Nóbrega, D. Olympia d'Argollo Castro, D. Urânia d'Argollo Silvado, Engenheiro Jayme Gomes d'Argollo Ferrão, Capitão Euzébio Gomes d'Argollo Ferrão e o Doutor Manoel Gomes d'Argollo Ferrão. Do que para constar passou este termo em que assignou o mesmo Inventariante».

5.3.7.1.   Jaime Gomes de Argollo Ferrão, engenheiro, tenente da Armada, cavaleiro da Ordem de Avis, nascido Jaime Gomes de Argollo Ferrão (foto cedida por sua bisneta a Drª Carole Vidal, de Paris)4.6.1832 na Baía e falecido 4.2.1931 em Cannes, França. Foi adido militar em Londres e depois viveu em Paris, onde estava a 17.2.1877 quando passou ao referido seu irmão uma procuração para o representar no inventário e partilha dos bens de seus pais, documento onde é referido como tenente da Armada e cavaleiro da Ordem de Avis. Casou em Londres a 8.10.1864 com D. Júlia Pereira de Andrade, nascida a 4.12.1842 no Rio de Janeiro e falecida a 4.9.1929 em Cannes, e tiveram quatro filhos que chegaram à idade adulta: Jaime, Gastão, Victor André (casado em Abril de 1905 com D. Alice de Aragão Bulcão) e D. Júlia de Argollo Ferrão, nascida a 13.4.1868 no Rio de Janeiro e falecida a 4.6.1948 em Cannes, que casou a 4.2.1890 em Paris com o Eng. Artur Gonçalves da Cunha, nascido no Rio de Janeiro, diplomado em Engenharia pela Ecole Centrale de Paris, com geração que vive em Paris.

5.3.7.2.   D. Angélica Vanério de Argollo, professora no colégio fundado por seu avô materno. Casou com Fernando Augusto Nóbrega, s.m.n.

5.3.7.3.   D. Olímpia Vanério de Argollo, professora no colégio fundado por seu avô materno. Casou com o Doutor Joaquim José da Silva Castro, também ai professor, s.m.n.

5.3.7.4.   D. Urânia Vanério de Argollo, casada com (...) Silvado, s.m.n.

5.3.7.5.   Eusébio Gomes de Argollo Ferrão, capitão, s.m.n.

5.3.7.6.   Manuel Gomes de Argollo Ferrão, doutor, s.m.n.

5.3.7.7.   Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, n. em 1841 na cidade da Baía, onde faleceu a 6.2.1889, na paróquia de S. Pedro, dizendo-se no respectivo óbito que era funcionário público aposentado, morador na rua da Lapa, nº 19, de 48 anos de idade, natural da dita cidade, tendo falecida de angina, sendo casado com D. Fausta dos Reis e deixando quatro filhos, chamados: João, de 22 anos; Lídia, de 20; Felisberto, de 14; e Maria, de 10. Como Felisberto Gomes de Argollo recebeu de seu irmão Jaime, a 17.2.1877, uma procuração para o representar no inventário e partilha dos bens de seus pais, que se fez a 25 de Outubro do mês seguinte, sendo ele o inventariante.

5.3.8.    Bernardo, bat. a 3.1.1802 no oratório da casa de vivenda de seus pais, sendo padrinho José Maria de Argollo de Pina e Mello.

5.4.   D. Maria Luiza de Queiroz e Argollo, nascida em 1757. Casou com seu primo José Joaquim de Teive e Argollo, fidalgo da Casa Real (1783), senhor do engenho de S. Miguel das Almas, acima, onde segue.

5.5.   Francisco António Jerónimo de Argollo e Queiroz, que segue no nº 6.

5.6.   D. Francisca Clara de Queiroz e Argollo, nascida em 1759. Casou antes de 1780 com seu primo Paulo de Argollo e Teive, fidalgo da Casa Real (3.8.1783), nascido em 1758, acima, onde segue. 

5.7.   Paulo de Argollo e Queiroz, tenente-coronel, fidalgo da Casa Real (12.6.1780), bat. a 5.8.1760, ib, sendo padrinhos D. Inez de Gusmão e o chanceler Tomaz Robin de Barros Barreto. Faleceu a 26.5.1816 na Baía (vila de S. Francisco do Conde), sem testamento mas com inventário de menores de 8 de Agosto do mesmo ano, deixando uma fortuna avaliada em 28.536.473 réis  e ficando a mulher tutora dos filhos e sendo as partilhas julgadas por sentença de 5.12.1818. Casou em 1779 com sua sobrinha D. Maria Benedita de Argollo e Queiroz de Pina e Mello, no §2.

5.7.1.   Luiz Carlos de Argollo e Queiroz, nascido em 1798, pois tinha 18 anos quando do inventário. Da legítima de seu pai, avaliada em 4.076.639 réis, consta uma morada de casas de sobrado na vila, dois hábitos de Cristo, um pequeno de brilhantes e outro de águas marinhas, uma bengala com castão e o mais de ouro, um relógio com caixa e corrente de ouro, esporas, fivelas e florete de prata, seis escravos, um cavalo de montar e o crédito de várias dívidas de familiares.

5.7.2.   José Egídio de Argollo e Queiroz, nascido em 1799, s.m.n. 

5.7.3.   Paulo de Argollo e Queiroz, nascido em 1800, s.m.n.

5.7.4.   Francisco de Paula de Argollo e Queiroz, nascido em 1802, s.m.n.

5.7.5.   António Gonçalves da Rocha e Argollo, nascido em 1804, s.m.n.

5.7.6.   D. Luiza Clara, nascida em 1807, s.m.n.

5.7.7.   Manuel Inácio de Argollo e Queiroz, nascido em 1813, s.m.n.

5.8.    D. Inez de Queiroz e Argollo, nascida em 1761, para quem seu pai obteve em 1777 lugar no convento do Desterro, onde foi freira.

5.9.    D. Leonor Antónia de Queiroz e Argollo, nascida em 1762, para quem seu pai obteve em 1777 lugar no convento do Desterro, onde foi freira.

5.10.  D. Ana Maria do Nascimento de Queiroz e Argollo, nascida depois de 1763 e falecida menina em 1779.

5.11.  D. Clara de Queiroz e Argollo, nascida em 1765, para quem seu pai obteve em 1777 lugar no convento do Desterro, onde foi freira.

5.12.  D. Antónia de Queiroz e Argollo, nascida em 1766 e casada com seu sobrinho Joaquim Bernardino Falcão de Queiroz e Argollo, referido no §2.

5.13.  D. Mariana Tereza de Queiroz e Argollo, nascida em 1767 e casada com o sargento-mor Gaspar José de Matos Ferreira de Lucena, falecido antes de 1818, s.m.n.

5.14.  D. Maria Rosa de Queiroz e Argollo, nascida cerca de 1768 e falecida depois de 1818. Casou com Luiz de Bettencourt Berenger César, falecido em 1817, s.m.n.

5.15.  Francisco de Paula de Argollo e Queiroz, fidalgo da Casa Real (12.6.1780), que no foro vem, como seus irmãos, filho de Paulo de Argollo, mas que não consta no inventário de menores feito por morte deste em 1779. Como recebeu o foro junto com seus irmãos, pode ter acontecido que tenha falecido em 1779, antes de seu pai, pelo que naturalmente não aparece no inventário, tendo portanto recebido o foro após a sua morte, o que é provável, dado o tempo que naturalmente demorava entre o pedido no Brasil e a mercê em Lisboa.

6.       Francisco António de Argollo e Queiroz, fidalgo da Casa Real (12.6.1780), tenente-coronel do Regimento da Baía, foi abastado proprietário de terras, sucedendo nomeadamente na fazenda e engenho de Cinco Rios, em cuja capela de Stº António foi baptizado a 21.11.1758, sendo padrinhos os tios, D.Luiza de Queiroz e seu marido o desembargador doutor Manuel Vieira Pedrosa da Veiga, e faleceu a 22.9.1800, com apenas 42 anos de idade. Da legítima de seu pai, além da dita fazenda e engenho, com todos os seus pertences e utensílios, casas de engenho, casas de vivenda, capela, escravos (cerca de 200), gado bovino (cerca de 150 cabeças) e cavalar (cerca de 50), ficou com vários objectos de ouro e pratas. Casou a 22.9.1780 em Matain com D. Antónia Tereza de Sá Pitta, filha de António da Rocha Pitta e de sua mulher D. Inácia Marinho Pereira de Macedo; neta paterna de Francisco da Rocha Pitta e de sua mulher e prima D. Rosa Maria Falcão de Magalhães; neta materna do capitão Pedro Marinho e de sua mulher D. Rosa Pereira de Macedo.

6.1.     D. Josefa Maria de Sá Pitta e Argollo, viscondessa de Pirajá, falecida antes de 1810. Casou a 28.1.1806 com Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, 1º visconde de Pirajá, referido acima, s.g.

6.2.   D. Maria José Pitta de Argollo e Queiroz, nascida em 1789 e e falecida solteira a 1.5.1836.

6.3.   Paulo de Argollo da Rocha Pitta, nascido em 1790 e falecido depois de 1864, s.g.

6.4.   António Bernardino da Rocha Pitta e Argollo, que segue no nº 7.

6.5.   José Maria de Argollo Sá Barreto, coronel (era-o em 1836), nascido cerca de 1795, que em 1836 já estava casado com sua prima D. Leopoldina Ferrão de Pina e Mello, adiante no §2.

7.        António Bernardino de Argollo da Rocha PittaConde de Passé, 1º conde de Passé (14.3.1860), nascido em 1793 na Baía e falecido a 8.2.1877, ib. Agraciado sucessivamente com os títulos de barão (11.9.1843), visconde com as honras de grandeza (21.12.1854) e conde de Passé. Grande do Império e vedor de S.M. a imperatriz, foi comandante da Guarda Nacional e condecorado com a medalha da Restauração da Baía, tendo prestado valiosos serviços na campanha da Independência e na revolta da Sabinada. Durante a campanha do Paraguai, organizou e manteve um batalhão de guardas nacionais para o policiamento da capital da província da Baía. Foi senhor de dez engenhos de açúcar (Pindobas, Cabaxi, Pinheiro, Sapucaia, Feliz União, Matoim, Novo Caboto ou Freguesia, etc.) e de grandes fazendas de criação no interior da Baía, sendo ainda abastado proprietário na cidade de Salvador e considerado ao seu tempo o homem mais rico do Recôncavo, onde tinha dez engenhos e vivia na cidade da Baía nas suas casas sobradas da praça das Portas de S. Bento. Prestou valiosos serviços à campanha da Independência, à revolta da Sabinada. Era comendador da Imperial Ordem de Cristo e dignitário da Imperial Ordem da Rosa. Casou a 2.2.1831 com sua prima-direita D. Maria Luiza da Rocha Pitta Moniz Barreto, baptizada a 10.4.1810 e falecida a 26.2.1838, antes das concessões dos títulos a seu marido, filha do brigadeiro Jerónimo Moniz Fiuza Barreto (1761 - 1.11.1830), comissário-geral do Exército Pacificador na guerra de 1822-1823 - cargo que declinou por motivo de moléstia, e de sua mulher D. Catarina Josefa de Araújo Pita; neto paterno de João Lopes Fiuza Barreto, que faleceu a 20.3.1776 na vila de S. Francisco do Conde, sem testamento mas com inventário de menores de 19 de Abril desse ano, deixando aos filhos uma fortuna avaliada em 9.334.640 réis, e de sua mulher D. Luiza Tereza de Santana.

7.1.   António da Rocha Pitta e Argollo, 2º barão (2.6.1862) e 2º visconde de Passé (17.5.1871), nascido a 12.12.1831 em Salvador da Baía e falecido a 22.11.1871 no seu engenho Cobé (Baía), devido à explosão de uma caldeira, antes de seu pai, de quem tinha recebido os títulos, primeiro de barão e depois de visconde,  após este passar a conde. Casou a 2.6.1866 com D. Maria José da Conceição Martins, falecida a 5.1.1893, filha dos viscondes de São Lourenço. S.g.

7.2.   D. Antónia Tereza de Sá Pitta e Argollo, baronesa de Cotegipe, nascida a 16.1.1834 em Passé e falecida a 22.9.1871. Casou com o Dr. João Maurício Wanderley, 1º barão de Cotegipe (14.3.1860, com honras de grandeza, em sua vida), 1º O barão de Cotegipe, 1º ministro do Brasil ministro do Brasil (1885), senador, ministro e grande do Império, que nasceu na vila da Barra do Rio S. Francisco (Baia) a 23.10.1815 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro a 13.2.1889, filho de João Maurício Wanderley, capitão-mor da Vila de Campo Largo, e de sua mulher D. Francisca Antónia do Livramento. Bacharel em Direito pela Faculdade de Olinda (1837), foi juiz de Direito da comarca de Santo Amaro, chefe de Policia e depois presidente da Baia (1852), deputado provincial, representou também sua província natal da 5ª à 9ª legislaturas, desde 1843 até 1856, sendo então nomeado senador vindo mais tarde a presidir ao Senado (1882-1885). Foi presidente do Governo (1885) e oito vezes ministro de Estado ocupando as pastas do Império, Estrangeiros, Marinha, e Fazenda, entre 1853 e 1885. Como ministro plenipotenciário esteve na República do Prata para firmar o tratado de paz nos termos do tratado da Tríplice Aliança. Foi provedor da Santa Casa de Misericórdia (5.8.1883) e deve-se a seus esforços a fundação, no Rio de Janeiro, do Instituto Pasteur (25.2.1888). Foi presidente do Banco do Brasil e sócio do IHGB. Era grande do Império, do Conselho de S. Majestade (13.9.1855), dignitário da Imperial Ordem do Cruzeiro, comendador da Imperial Ordem da Rosa (2.12.1854), Grã-Cruz da Ordem de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa (17.5.1870, por D. Luiz I de Portugal), da Ordem de Dom Carlos III de Espanha (20.7.1877), de Isabel-a-Católica (26.8.1870), de Leopoldo da Bélgica (9.1.1871), da Coroa da Itália e da Águia Branca da Rússia (1887), etc.  

Ver esquema dos Argollo que foram titulares e suas relações familiares.

Casa Grande do engenho e fazenda de Cajaíba

§2  Descendência portuguesa

6.        D. Luiza Clara de Queiroz e Argollo, que ficou no nº 5.2 do §1, filha de Paulo de Argollo e Gusmão e sua mulher D. Leonor Antónia Francisca de Queiroz. Nasceu na Baía (vila de S. Francisco do Conde) em finais de 1754 e faleceu em 1790. Teve de seu pai uma legítima avaliada em 3.699.742 réis em 1780, sendo já então viúva de seu 1º marido. A 28.5.1777, quando pediu licença ao rei para casar 2ª vez, conforme adiante se refere, é dita «das principais famílias da cidade da Bahia, viúva do desembargador Bernardino Falcão de Gouveia, do qual lhe ficou um único filho, de idade de três anos (na verdade 5 anos)», tendo ela 22 anos, «sem a necessária deliberação para as disposições que requer uma casa grande como a sua», com dois engenhos de açúcar e mais fazendas. Com seu 2º marido e seu irmão José Joaquim compraram a ilha de Cajaíba, onde construíram engenho e casa. Esta construção foi encomendada a João Roiz Bahia, oficial de carpinteiro de obra branca, que num requerimento de 28.8.1790 diz que «sendo vivo o Sarg.to Mor Luiz Carlos da S.ª Pinna e Mello, com este se ajustou a hirlhe fazer as cazas de seo Engenho da Cajaíba a jornais, metendo o Sup.e os mais officiais q. necessario fossem, e com efeito tendo o mesmo Sup.e, faleceo logo o d.º Sarg.to Mor, e mandando continuar a obra a viuva sua m.er D. Luiza, por morte desta lhe ficou devendo o q. consta da conta justa tirada p.lo caixa d.o Engenho, q. a lançoi no 1.º dele e porq. está o Sup.e por embolsar, e p.ª haver o seu pagamento he precizo q. responda o Ttr.o e Tutor dos menores q. fiara sobre a verd.e da dívida». O casal deixou ainda uma dívida de dezassete contos, trezentos e setenta e três mil e quinhentos e sessenta réis a José Pires de Carvalho e Albuquerque, contraída quando da compra da ilha de Cajaíba. D.Luiza Clara casou a 1ª vez em 1769 com o doutor Bernardino Falcão de Gouveia (a), desembargador da Relação da Baía (8.4.1754), ouvidor-geral da comarca do Espírito Santo (4.10.1748), provedor das Fazendas dos Defuntos e Ausentes, Capelas e Resíduos da dita comarca (30.10.1748), provedor da Fazenda Real da Capitania do Espírito Santo (28.10.1748), etc., cavaleiro da Ordem de Cristo (21.6.1754), já viúvo de D. Eufrásia Pereira dos Santos sem geração, nascido em Cascais (filho de Agostinho Henriques Falcão, capitão de Infantaria, e de sua mulher D. Mariana Maria de Gouveia, aí moradores) e falecido a 4.1.1774, ib, sem testamento mas com inventário de menores de 19 do mesmo mês, ficando tutora sua mulher. D. Luiza Clara requereu a 28.5.1777 licença para casar com o capitão Manuel Caetano de Araújo Côrte-Real, como já ficou referido, casamento que não se deve ter realizado, pois logo no ano seguinte requereu igual licença para casar com o coronel Carlos Manuel Gago da Câmara, de 41 anos, natural de S. Gonçalo, no Recôncavo, familiar do Stº Ofº, já viúvo de Juliana Josefa Tomassini, natural de Liorne (Toscana), com quem casara em Lisboa em 1774. Também este casamento não deve ter-se realizado ou então foi muito curto, pois no ano seguinte D. Luiza pede nova autorização para casar com o que foi o seu 2º marido conhecido. E efectivamente casou pela 2ª vez  cerca de 1780 com o capitão Luiz Carlos da Silva de Pina e Mello (b), sargento-mor do 2º Regimento da Baía, nascido na cidade de Elvas em 1746, que foi para o Brasil como capitão da Capitania da Baía (2.9.1767), tendo a 3.10.1781 provisão para, da Capitania da Baía, vir à corte de D. Maria I em Lisboa  15, e que faleceu em 1790. Tinha casa na freguesia de S. Gonçalo da vila de S. Francisco do Conde, como se documenta num inventário de menores de 3.3.1785 feito por morte da mulher do capitão António José Ferreira  16. Luiz Carlos era irmão do doutor António Procópio da Silva de Pina e Mello, nascido em Elvas em 1742, cavaleiro da Ordem de Cristo (7.8.1779), desembargador da Relação do Porto (10.2.1785), corregedor de Évora (31.7.1779), etc., e do doutor José Cândido da Silva de Pina e Mello, desembargador do Paço e da Relação do Porto, juiz de fora e dos Órfãos do Porto, etc., todos filhos do doutor Francisco Martins da Silva de Carvalho, nascido em Monforte (Vila Viçosa), desembargador da Relação do Porto, bacharel habilitado ao serviço de Sua Majestade (19.3.1729), juiz de fora em Olinda (31.5.1730) e aí provedor das fazendas dos defuntos e ausentes (3.7.1730), etc., de sua mulher D. Antónia Josefa Bárbara de Pina e Mello, nascida em Elvas; neto paterno de Luiz Martins da Silva de Carvalho, senhor da herdade de Stº Aleixo, em Monforte (Vila Viçosa), onde nasceu e «viveu à lei da nobreza», e de sua mulher D. Luiza Gomes de Andrade Pimentel, natural de Nª Sª de Orada; e neto materno do capitão António Rodrigues de Pina e Mello, nascido em 1668 em Elvas, fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem de Cristo (22.4.1704), capitão da Praça de Elvas, vereador do Senado e tesoureiro da Câmara de Elvas (29.6.1698), etc., e de sua mulher D. Isabel Tereza de França de Aguillar e Menezes, também nascida em Elvas. Com o falecimento do Cap. Luiz Carlos e de sua mulher D. Luiza Clara no mesmo ano, fez-se inventário de menores na Baía a 11.8.1790, ficando tutora dos filhos deste casamento, todos menores, a avó materna, D. Leonor Antónia Francisca de Queiroz, referida no §1. 

6.1.   (a) Joaquim Bernardino Falcão de Queiroz e Argollo, que nasceu em 1770, pois tinha 4 anos de idade quando seu pai morreu, cabendo-lhe uma herança avaliada em 26.952.695 réis, da qual constava uma fazenda e engenho Gorgaia Grande, com todas as suas pertenças e acessórios e casas de vivenda sobradas de pedra e cal (onde vivia com sua mãe), outra fazenda dita de Dornelas, mais de 500 cabeças de gado bovino e cavalar, vários escravos, muita mobília sobretudo em vinhático e jacarandá, um hábito de Cristo de casaca de granadas, diamantes e outras pedras, um espadim de prata, um quadro do rei Dom João VI e outro da rainha sua mãe, várias louças, carros de cavalos, etc. Ficaram seus tutores a mãe e o padrasto, e por morte destes seu tio materno o coronel e mestre de campo Miguel Jerónimo de Argollo e Queiroz. A 30.9.1796, sendo já maior de idade (tinha 25 ou 26 anos), dispensou a tutoria de seu tio e constituiu advogado em seu nome para cuidar dos interesses da sua legítima materna. Talvez seja este que, com o nome de Bernardino Falcão de Gouveia, teve a 27.3.1801 carta de confirmação da patente de capitão-mor da vila da Vitória. Casou com sua tia D. Antónia de Queiroz e Argollo, nascida em 1766, no §1, s.m.n.

6.2.   (b) José Maria de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, coronel de Cavalaria (era-o em 1826), senhor nomeadamente da fazenda e engenho novo de S. João, que comprou, e, a avaliar pela legítima dos filhos, tinha mais de 500 escravos. Foi ainda co-herdeiro dos engenhos Grande, de Itatigui e de Cajaíba, assim como as fazendas da Silveira, de Rio Verde, do Boqueirãozinho e de Poções. Por morte de seu cunhado sucedeu no engenho de Santa Cruz. Além do engenho novo de S. João comprou ainda os engenhos de Baixo e de Água Comprida, construindo assim um enorme complexo agro-industrial só superado pelo de seu primo o conde de Passé. Nasceu na Casa Grande de Cajaíba em 1783 e faleceu a 29.5.1836 em S. Francisco do Conde, com testamento e inventário de menores, deixando o casal uma avultada fortuna então avaliada em 442.318.555 réis, ficando testamenteiro e tutor dos menores o coronel Alexandre Gomes de Argollo Ferrão (futuro visconde de Itaparica), com partilhas julgadas por sentença de 22.10.1839, tendo sido prestadas contas a 19.7.1847 e 17.7 do mesmo ano. Ainda menor, com 19 para 20 anos, José Maria saiu de casa de sua avó e tutora D. Leonor Antónia de Queiroz e tomou posse do engenho de Cajaíba, que com obrigação de tornas lhe tinha ficado em herança. A dita sua avó insurgiu-se e fez um requerimento de 13.5.1803 onde diz que, «sendo tutora de seus nettos f.os do Sarg. mor Luiz Carlos da Sª Pinna e Mello, q. segregando-se da sua comp.a o mais velho de nome Joze Maria de Pinna e Mello, e passando ao Engº de Cajaíba onde foi em cabeça do bem pretendido conculcar o governo da Sup.e a respeito da economia do m.mo Eng.o, e no q. a Sup.e tem tido o mayor cuidado em ordem a conservação do m.mo, e porq. este procedimento escandaloso, e despotico, com tempo q. inda lhe não he permitido governar por ter dos 19 p.a vinte annos, se oppôem a q. ao Dirt.o, a razão da Sua Tutora, de Sua Avo, e de o ter criado desde a idade de 5 annos pouco mais ou menos, e pode hum pronto remédio p.a impedir os dannos q. podem haver na má administração de sem.e pessoa inerme de todo conhecim.to m.or p.a dirigir e conservar a sua p.e da herança q. ali tem, mais a de dous Irmãos, recorre (...)». O coronel José Maria fez testamento a 7.5.1836 no seu engenho da Cajaíba, estando doente e identificando-se como coronel José Maria Pina e Mello de Argollo e Queiroz, filho legítimo do sargento-mor Luiz Carlos da Silva de Pina e Mello e de sua mulher D. Luiza Clara de Argollo e Queiroz, acrescentando que é viúvo de D. Joana Gomes Ferrão Castello-Branco e que foi pai de oito filhos, que nomeia: José Maria, Eudoxia Cândida, José Diogo, Elisa Amália, Maria Marta, Ana Cipreste e Joana. Declara que quer ser sepultado no convento de S. Francisco , deixa  a seu filho José Diogo os engenhos de Cajaíba, de Baixo e de Água Comprida, a seu genro Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, casado com sua filha Eudoxia Cândida, e Engenho Novo e a administração de engenho de Santa Cruz, e às restantes filhas rendas em dinheiro (seu filho José Maria tinha falecido criança). Deixa ainda um legado a seu sobrinho Bernardo Gomes de Argollo Ferrão e o restante para ser divido pelos seus herdeiros. Manda ainda libertar duas escravas, Domingas e Gertrudes, que o estavam a tratar, deixando 500.000 réis a cada uma, e nomeia testamenteiros seu genro Alexandre, seu primo o sargento-mor Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão e seu afilhado Bernardo Gomes de Argollo Ferrão. O coronel José Maria casou em 1814 com D. Joana Ferrão Castello-Branco, bat. a 15.5.1789 na capela de S. Miguel, na Baía, e falecida em 1825 na sequência do parto de gémeas, irmã do coronel Alexandre Gomes Ferrão Castello-Branco, senhor nomeadamente do engenho de Santa Cruz, que faleceu a 18.2.1826, na Baía (vila de S. Francisco do Conde), deixando herdeiros, de uma fortuna então avaliada em 87.295.272 réis, seus sobrinhos menores, pelo que se fez inventário de bens a 5.5.1826, sendo testamenteiro e inventariante seu cunhado o coronel José Maria de Pina e Mello, com partilhas julgadas a 29.3.1830, ficando o dito coronel tutor dos bens de seus filhos. Julgo que esta D. Joana e este Alexandre eram ainda irmãos de D. Maria Joaquina Gomes Ferrão Castello-Branco casada com o tenente-coronel José Joaquim de Argollo e Queiroz, acima no §1, e todos filhos do tenente-coronel José Diogo Gomes Ferrão Castello-Branco e de sua mulher D. Maria Sofia de Araújo e Azevedo, que já estavam casados quando ela recebeu em S. Francisco do Conde a 12.7.1770 a legítima de seu pai, então avaliada em 2.378.476 réis.

6.2.1.   José Maria, nascido a 1.11.1814 na Casa Grande da Cajaíba, onde foi bat. a 6.11.1814, por estar em perigo de vida, tendo falecido no dia seguinte, sendo sepultado na matriz. 

6.2.2.   D. Euzébia Ferrão de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, nascida em 1816 na Casa Grande da Cajaíba, pois tinha 10 anos quando do inventário de 1826 de seu tio Alexandre Gomes Ferrão, de que foi herdeira com seus irmãos. Já tinha falecido em 1838, pois não consta do inventário de menores feito por morte de seu pai.

6.2.3.   D. Eudóxia Cândida Ferrão de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, baronesa de Cajaíba, nascida a 13.2.1816 na Casa Grande da Cajaíba, sendo bat. a 17.4.1816 na matriz, sendo padrinhos o coronel José Diogo Ferrão Castello-Branco e sua mulher D. Maria Sofia de Araújo e Azevedo, por procuração passada a seu filho Alexandre Gomes Ferrão. Faleceu a 24.12.1858, «da Epidimia», sendo sepultada na capela do engenho São José da vila de S. Francisco do Conde. Casou a 31.8.1831, tinha 15 anos de idade, com seu primo Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, 1º barão de Cajaíba (18.7.1841), acima no §1, onde segue. O matrimónio realizou-se no oratório do Engenho Novo, sendo testemunhas D. Ana Joaquina de Araújo e Azevedo, viúva, D. Luzia Joaquina de Carvalho Pontes e seu marido Manuel de Carvalho Pontes, o major Francisco de Alcovia, solteiro, morador em Abrantes, e o tenente José Cassiano da Costa, solteiro, morador em Paripe.

6.2.4.   D. Leopoldina Ferrão de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, nascida em 1818 na Casa Grande da Cajaíba, em 1838 já estava casada com seu primo o coronel José Maria de Argollo Sá Barreto, acima no §1. S.m.n.

6.2.5.   José Diogo Ferrão de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, major do Exército (já o era em 1836), nascido a 14.2.1819 na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 22.4.1821, sendo padrinho Alexandre Gomes Ferrão, solteiro, morador em Nª Sª do Monte, e madrinha a Madre Leonor Querubina de Santa Efigénia, freira no convento de Santa Clara do Desterro da Baía, por procuração passada ao capitão Luiz Lopes Vilas Boas. Além de co-herdeiro de seu tio materno o coronel Alexandre Gomes Ferrão de Argollo, com uma legítima de 14.549.211 réis, que incluía o engenho de Santa Cruz, como ficou dito no no §1, teve de seus pais uma legítima então avaliada em 63.188.365 réis (15.002.670 do pai e 48.185.695 da mãe). Faleceu, sendo referido como major e casado, em S. Francisco do Conde a 1.12.1859, óbito que não refere o respectivo dia e mês, apenas o ano, sabendo-se o resto no inventário da viúva, sendo sepultado num carneiro do convento de S. Francisco. Casou a 16.4.1844 em Cotegipe, no oratório do barão de Maragogipe, com D. Raimunda de Bettencourt Berenguer César, filha do coronel Sancho de Bettencourt Berenguer César e sua mulher D. Caetana Luiza de Villas-Boas, já falecida, sendo testemunhas o brigadeiro José de Sá Bettencourt, o comendador Sebastião Sampaio de Almeida Bastos e o comendador tenente-coronel José Maria de Sá Barreto. A 16.5.1861 pediu que se fizesse inventário dos bens.

6.2.5.4.   D. Joana Leopoldina de Bettencourt Pina e Mello, nascida cerca de 1645, pois tinha 16 anos a 16.5.1861, sendo já casada com o alferes Joaquim Alvarenga Cruz de Malta Filho

6.2.5.1.   Maria Eudóxia, fal. a 13.6.1848 em S. Francisco do Conde e sepultada num carneiro no convento de S. Francisco.

6.2.5.2.   José Diogo de Bettencourt Pina e Mello, fal. com 11 anos de idade, como se diz no inventário da mãe.

6.2.5.3.   José Maria de Bettencourt Pina e Mello, fal. com 9 anos de idade, como se diz no inventário de sua mãe.

6.2.6.   D. Elisa Amália Ferrão de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, nascida a 20.1.1821 na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 22.4.1821, sendo padrinho José Joaquim Moniz Barreto e sua mulher D. Josefa Joaquina Ferrão Moniz Barreto, moradores em Nª Sª do Monte. Tinha 15 anos à morte do pai e faleceu a 5.9.1852 em S. Miguel de Gotegipe, de «moléstia febre amarella», sendo sepultada no convento de S. Francisco. Em 1847 já estava casada com seu primo o doutor João de Araújo Gomes de Argollo, que lhe sobreviveu. S.g. 

6.2.7.   D. Maria Murta Ferrão de Pina e Mello, nascida a 7.5.1822 na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 13.1.1824, sendo padrinho Alexandre Gomes Ferrão, solteiro, e madrinha a Madre Maria Gertudes de S. José, freira no convento da Soledade, por procuração passada ao tenente-coronel José Joaquim Moniz Barreto. A 2.2.1840 foi bat. no oratório da engenho de Cajaíba Leoncio, crioulo menor, filho de Gestrudes, africana, escravos de D. Maria Murta Ferrão Pina e Mello. Casou antes de 1842 com seu primo o coronel Miguel de Teive e Argollo, referido no §1, onde segue. 

6.2.8.   D. Ana Cipreste Ferrão de Pina e Mello, nascida a 20.6.1823 na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 13.1.1824, sendo padrinho Alexandre Gomes Ferrão e madrinha a Madre Ana Rosa do Salvador, freira no convento da Soledade, por procuração passada a Miguel José Maria de Teive e Argollo. Em 1847 já estava casada com um primo, s.m.n. A 27.6.1841 foi sepultado no adro da matriz de S. Francisco do Conde um  preto de nome Felix, escravo de D. Ana Cipreste de Pina e Mello.

6.2.9.   D. Joana, nascida em 1825 na Casa Grande da Cajaíba e falecida a 7.6.1827, com dois anos de idade, em S. Miguel de Cotegipe, sendo sepultada na matriz, «das grades para cima».

6.2.10. D. Corina Ferrão de Pina e Mello, gémea da anterior, era menor à morte do pai e faleceu nova. Ficou tutor desta menor legatária o coronel Miguel José Maria de Teive e Argollo (futuro barão de Pará-Mirim) e, após a sua desistência, o irmão dela o major José Diogo Ferrão de Pina e Mello. 

 6.2.11. ?(N) José Feliciano de Argolo, bat. a 21.12.1806 em S. Francisco do Conde como filho natural de Maria da Conceição, sem indicação do nome do pai, sendo padrinhos António José Teixeira, viúvo, e Francisca Gouveia de Macedo. Mais tarde (1838), no seu casamento, é  dito filho natural de Águida Maria da Conceição, também sem indicação de pai. Foi irmão e tesoureiro da Ordem 3ª do Carmo, tendo tomado o hábito a 26.2.1836 e professado a 17.3.1837. Faleceu a 14.4.1881 na vila da Cachoeira, sendo sepultado nos carneiros da dita ordem, com indicação de que «faleceu em estado de pobreza». Não é certo que tenha sido filho natural do coronel José Maria, havido portanto antes do seu casamento. Se o foi, é certo que não foi legitimado, pois não consta das partilhas dos bens de seu pai, nem tão pouco reconhecido, pois não consta do seu testamento e, em 1837, quando do seu casamento, já o coronel José Maria tinha morrido, ainda vem referido apenas como filho natural de Maria da Conceição. É possível, por exemplo, que fosse filho natural do Paulo, irmão deste José Maria, que faleceu solteiro no início de 1807, com 22 anos, ou seja, alguns dias depois do baptismo deste José Feliciano. Casou a 1.9.1838 em Salvador (Sé) com Januária Sena da Costa Peixoto, filha natural de Francisco Xavier. Mais tarde casou com Emília Maria de Jesus, de quem já tinha filhos. C.g. 17

6.3.   (b) D. Maria Benedita de Argollo e Queiroz de Pina e Mello, nascida em 1784 na Casa Grande de Cajaíba. Herdou nomeadamente o engenho de Catingui. Casou com seu tio o tenente-coronel Paulo de Argollo e Queiroz, acima no §1, onde segue.

6.4.    (b) Paulo de Argollo de Pina e Mello, nascido em 1785 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu a 12.1.1807, com 22 anos de idade, solteiro, sem geração.

6.5.    (b) D. Ana Bernardina de Pina e Mello de Argollo e Queiroz, nascida em 1786 na Casa Grande de Cajaíba. Foi freira no convento do Desterro, com o nome de D. Ana Bernardina de Jesus.

6.6.    (b) António Procópio de Pina e Mello de Argollo de Queiroz, que segue no nº 7.

6.7.    (b) D. Leonor Efigénia de Queiroz e Argollo de Pina e Mello, nascida em 1788 na Casa Grande de Cajaíba e bat. em Março desse ano, tendo falecido menina.

7.       António Procópio de Pina e Mello de Argollo de Queiroz, fidalgo da Casa Real (aparece como tal mas não encontrei o registo do foro) que nasceu em 1787 na Casa Grande de Cajaíba e faleceu já viúvo a 26.11.1831 em Portugal, na quinta do Paço de Valpedre, em Penafiel, com 44 anos de idade, diz o óbito que de repente, de «ataque apoplético», sendo sepultado dentro da igreja matriz no dia seguinte. Tendo ficando órfão de pai e mãe com 3 anos de idade, foi chamado ao Porto e adoptado por seus tio paternos, os desembargadores doutor António Procópio da Silva de Pina e Mello e doutor José Cândido da Silva de Pina e Mello, de quem viria a ser herdeiro. Na sequência do inventário de menores que se fez por morte de seus pais, seu tio (e cunhado) Paulo de Argollo e Queiroz diz que, procedendo à partilha dos bens dos menores de que era tutora a avó D. Leonor Antónia de Queiroz, «coube ao menor José Maria Pinna e Mello Argollo e Queiroz o Engenho da Cajaíba com obrig.m de pagar a menor D. Anna Bernardina de Jesus, hoje Religioza no Conv.to do Desterro, a torna do seu formal de partilha, e coube a menor D. Maria Benedita de Queiroz e Argollo Pinna e Mello, hoje casada com o sup.e, o Engº Catingui com obrig.m de pagar outra torna também constante do seu formal de partilha a António Procopio Pinna e Mello de Argollo e Queiroz ausente em Portugal e tendo a menor D. Anna Bernardina de Jesus constituido o seu vitalicio nos juros da sua torna q. importão annnualm.e na quantia de duzentos e tantos mil r.s, p.a ser mais pronpto o pagam.to necessr.o p.a as despezas dos seus alim.tos se tem valido do Sup.e q. sempre a tem socorrido, sem os cobrar aos respectivos rendim.tos da m.ma Religioza, e desejando continuar na assistencia desta p.or hua parte, e considerando p.or outra q. o menor António Procópio Pinna e Mello de Argollo e Queiroz a q.m deve pagar a torna q. lhe foi lançada no seu Engº Catingui, depois da invasão dos Franceses na Cid.e do Porto, aonde residia, não tem dado copia do lugar da sua existencia, q. se ignora, nenhuã pensão recebe, em ficar percebendo a sua torna do d.o coherdr.o também encabeçado; pretende o Sup.e permutar as m.mas tornas de hum p.a outro Eng.º ficando o da referida Religioza no do Sup.e e a do menor aus.e no daqq.le outro, todas com as hypotecas Legaes com q. as Leis segurão os principaes, e juros, emqto não forem pagas; e como se não possa fazer a d.a permutação dos quinhões, ainda q.e iguaes, sem autorid.e deste Juizo, recorre e P. a V.S. seja servido mandar ouvir a Tutora, e ao D.or Cur.or (...)». Portanto, já António Procópio estava casado quando no Brasil seu tio e cunhado não sabia do seu paradeiro após a invasão francesa (1807-8). De facto, casou a 22.2.1808 em Valpêdre (Penafiel), com D. Maria Jerónima da Cunha e Castro Ferraz de Brito Ozorio de Portocarreiro, que sucedeu a seus pais como 11ª senhora da quinta do Paço de Valpedre, em Penefiel, entre outras propriedades. Nasceu a 25.10.1779 no morgadio da Casal-Soeiro, nos Arcos de Valdevez, e faleceu no palácio da Bandeirinha, no Porto, a 4.4.1823. Nos paroquiais de Valpedre consta que dia 30.6.1826 se fizeram três ofícios pela alma de D. Maria Jerónima, da Qtª do Paço, falecida no Porto. Quando das invasões francesas, foi viver para a sua quinta do Paço, em Valpedre, onde casou, bem assim como viveu na vizinha casa de Maragoça, que aforou, e ainda no palácio da Bandeirinha, no Porto, com sua cunhada. Era irmã do célebre «Fidalgo da Bandeirinha», o tenente-coronel João Bento da Cunha de Brito de Araújo e Castro de Portocarrero, senhor do dito palácio da Bandeirinha, 19º senhor da torre de Portocarreiro, etc., que morreu assassinado a 20.3.1809 pela fúria popular na revolta do Porto desse ano, nas vésperas da chegada do marechal Soult à cidade, onde ficara porque, nas palavras de seu outro irmão, o barão de Pombalinho, «tendo marchado para Almeida o 6º Regimento, do qual elle era commandante; o Bispo Chefe da Regencia o privou de o acompanhar, e o encarregou de guarnecer todas as fortificações (então levantadas em torno daquela cidade) com Artilharia, não só do Arsenal mas também de diferentes embarcações que se achavam surtas no Douro, o que lhe custou aquela bagatela». D. Maria Jerónima era já órfã à data do casamento, tendo sido o último marido (casados a 22.7.1798) de sua mãe, sem geração, o dito desembargador doutor José Cândido da Silva de Pina e Mello, tio do noivo e portanto padrasto da noiva. D. Maria Jerónima era filha do doutor Francisco Luiz de Brito de Araújo e Casto, juiz e provedor das vilas de Ourém e Castelo Branco (2.4.1778), cavaleiro da Ordem de Cristo (25.5.1782) e 7º morgado de Stª Bárbara de Casal-Soeiro, nos Arcos de Valdevez, onde nasceu a 12.8.1733 e faleceu a 20.9.1793, e de sua mulher D. Ana Luiza da Cunha Coutinho Ozorio e Alarcão de Portocarreiro, chefe de armas desta linhagem, 2ª senhora do palácio da Bandeirinha, no Porto, 18ª senhora da torre de Portocarreiro, 5ª morgada de S. Tiago de Melres, 8ª senhora a quinta do Paço, em Valpêdre, etc., etc., nascida no dito palácio da Bandeirinha, baptizada a 6.8.1737, ib, e falecida a 6.5.1801 no dito morgadio de Stª Bárbara de Cazal-Soeiro.

7.1.   D. Ana Luiza da Cunha de Argollo e Brito de Portocarreiro, nascida em 1809, que viveu na quinta do Paço e na casa da Maragoça, onde faleceu a 30.1.1835, sendo sepultada na capela da casa. Casou a 9.8.1827 em Vaspedre com Francisco de Souza Guedes da Gama Lobo Coutinho, tenente-coronel do Batalhão Realista de Penafiel, senhor da quinta do Casal, em Figueiras (Lousada), nascido em Soutelo (Lamego) e falecido a 22.12.1898 na dita casa da Maragoça. Tiveram seis filhos, todos falecidos solteiros sem geração.

7.2.   D. Antónia Adelaide da Cunha e Alarcão de Portocarreiro, que segue no nº 8.

7.3.   D. Maria Matilde da Cunha e Brito de Portocarrero, nascida em 1814, que casou cerca de1836 com o Dr. José Pedro Solano de Souza de Barbosa, nascido em Paço de Souza. Tiveram uma única filha que faleceu solteira sem geração.

8.     D. Antónia Adelaide Vasques da Cunha e Alarcão de Portocarreiro,D. Antónia Adelaide da Cunha e Alarcão de Portocarreiro e sua filha única D. Maria Adelaide que sucedeu como 12ª senhora da quinta do Paço de Valpêdre. Nasceu a 22.4.1812 na casa da Maragoça, em cuja capela foi baptizada a 3 de Maio. Viveu casada na casa de Coura, em Bitarães (Paredes), onde faleceu no final de 1840, com apenas 28 anos de idade. Casou a 31.5.1837 na capela da casa de Coura com o Dr. António Augusto Teixeira de Vasconcel-los, famoso escritor, jornalista e romancista, par do Reino, conselheiro de Sua Majestade Fidelíssima, vice-presidente da Academia de Ciências de Lisboa, embaixador, deputado, director-geral da Câmara de Deputados, governador de Vila Real durante a Patuleia, em que participou, tendo sido o redactor da convenção de Gramido, grã-cruz da Ordem de Isabel-a-Católica, comendador e cavaleiro de inúmeras ordens nacionais e estrangeiras, moço fidalgo da Casa Real, etc., etc.

8.1.    D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos de Portocarreiro, que segue no nº 9.

9.       D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos de Portocarreiro, D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero filha única, sucedeu a sua tia-avó paterna como senhora da casa do Barreiro, em Stª Mª Madalena (Paredes), onde viveu, e e ca sua mãe como 13ª senhora da quinta do Paço de Valpêdre, e em vários outros bens. Não sucedeu na casa de Coura, nem na quinta da Vidigueira, em Besteiros (Paredes), ou na casa dos Castros, em Jugueiros (Felgueiras), tudo propriedades de família que seu pai vendeu. Nasceu a 12.6.1838 na casa de Coura, em cuja capela foi baptizada a 16 seguinte, e faleceu a 22.7.1908, com 70 anos de idade, na casa do Barreiro. Casou a 21.5.1854, num domingo à tarde, na igreja de Stª Mª Madalena (Paredes), tinha ela apenas 16 anos e o noivo já 43 anos de idade, com o Dr. João Corrêa Pacheco Pereira de Magalhães  18, fidalgo da Casa Real (22.10.1875), comendador da Ordem de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa (29.7.1875), administrador do concelho de Paredes (28.7.1851 - 1.9.1863), juiz ordinário do julgado de Paredes, advogado, etc. Ainda estudante de Direito, participou na guerra civil como comandante da 1ª Companhia de Granadeiros do Regimento nº 11 de Infantaria, posto no qual combateu valorosamente na batalha da Asseiceira, travada a 16 de Maio daquele ano, e se manteve até ao fim das hostilidades, sendo um dos convencionados de Évora Monte. Foi 8º senhor da casa do Valinho de Beire (Paredes), 10º senhor da quinta do Maravedi, em Mafamude (V. N. de Gaia), onde nasceu a 27.9.1811 sendo baptizado na respectiva capela de S. João Baptista, vindo a falecer a 25.12.1888 na casa do Barreiro, onde viveu casado. Tiveram 12 filhos, quatro deles com geração, vários netos, cinco deles com geração, e muitos bisnetos, 14 deles com geração. Ver esquema.

2000-2005

 



ORIGEM DOS ARAÚJO DE GÓIS, do Brasil

Os Araújo de Góis, do Brasil, descendem de Gaspar de Araújo e sua mulher Catarina de Góis, que segundo Frei Jaboatão foram para o Brasil «pelos anos de 1563», já com pelo menos dois filhos, acrescentando que desembarcaram na vila de São Jorge, capitania de Ilhéus. Catarina de Góis faleceu depois de 1588 em Ilhéus. Viúvo, Gaspar de Araújo foi para a Baía e fez-se jesuíta, vindo a falecer muito velho cerca de 1600, sendo sepultado na igreja matriz de Cairu (Baía).

Gaspar de Araújo

Começando por Gaspar de Araújo, pouco ou nada até agora se descobriu com consistência sobre a sua ascendência. Sobre ele há sobretudo duas fontes: uma secundária, que é o testemunho do referido Frei Jaboatão, e outra primária, que é o processo para a Ordem de Cristo (1651) de seu neto o desembargador João de Araújo de Góis. Conta Frei Jaboatão que Gaspar de Araújo se meteu no Colégio de Jesuítas, que a princípio não o quiseram aceitar, mas venceu-lhes a resistência servindo-os fora de portas, como carregador de potes de água e feixes de lenha, que deixava na portaria dos padres. Sua filha mais velha, segundo o mesmo frade, morreu em 1643 com 82 anos, nascendo portanto cerca de 1561. O outro filho que com ele foi de Lisboa casou cerca de 1603 e faleceu em 1662, devendo ter nascido em 1562, morrendo com 99 ou 100 anos de idade. Em 1587 Gaspar de Araújo documenta-se como dono de engenho com sua mulher, pelo que só depois desta data enviuvou. Não deve assim ter falecido antes de 1600. Faleceu portanto velho, e não teria menos de 85 nem mais de 95 anos, pelo que terá nascido entre 1505 e 1515, indo portanto para o Brasil com cerca de 48/58 anos de idade. Pela cronologia dos filhos, já referida, deve ter casado cerca de 1560, em Lisboa, donde era natural a mulher.

No antedito processo para a Ordem de Cristo do neto, Gaspar de Araújo documenta-se que morreu religioso no Colégio do Rio de Janeiro e que era natural de Ponte de Lima, embora Frei Jaboatão também o diga natural dos Arcos de Valdevez. O nascimento de Gaspar de Araújo, seja nos Arcos seja em Ponte de Lima, a sua ida para o Brasil e a sua relação com a Baía podem indiciar um parentesco quer com Francisco de Araújo, que também era natural dos Arcos de Valdevez e foi para a Baía, onde faleceu a 27.8.1602, e onde casou cerca de 1577 com Maria Dias, neta de Diogo Álvares Correa, o Caramuru, quer com seu meio-irmão Baltazar Barbosa de Araújo, também casado com uma neta do Caramuru, irmã da dita Maria Dias. E ainda com os irmãos Gaspar Barbosa e António de Araújo, também casados com netas do Caramuru e apontados como naturais de Ponte de Lima e primos destes. Aquele Francisco de Araújo e seu irmão Baltazar eram, segundo as genealogias, filhos naturais de Gaspar Barbosa de Araújo ou Gaspar de Araújo Barbosa, morador nos Arcos de Valdevez, e netos de Francisco Rodrigues de Araújo e sua mulher Juliana Barbosa de Souza, igualmente moradores nos Arcos de Valdevez. Pela cronologia associada, este Gaspar Barbosa de Araújo ou Gaspar de Araújo Barbosa terá nascido cerca de 1535. Seu pai Francisco Rodrigues de Araújo terá nascido cerca de 1510, sendo filho do 2º casamento (com Ana da Cunha) de Rodrigo Álvares de Araújo, nascido cerca de 1460 e legitimado com seus irmãos Paio e Gonçalo, por carta real de 1.9.1475, como filhos de Álvaro Rodrigues de Araújo, comendador de Rio Frio (Arcos de Valdevez) na Ordem de Cristo, e de Constança da Lama, mulher solteira.

Ora, o Gaspar de Araújo que nos interessa (casado com Catarina de Góis) podia perfeitamente ser um irmão inteiro mais novo do antedito Francisco Rodrigues de Araújo, portanto filho do 2º casamento de Rodrigo Álvares de Araújo. Teria sido, assim, o 1º desta família a ir para o Brasil, chamando depois seus sobrinhos, filhos naturais de seu irmão Francisco, que foram em 1571. Gaio, de resto, dá a Francisco Rodrigues de Araújo um irmão inteiro a que chama Gaspar Rodrigues de Araújo e diz que foi abade de Cabaços e Oliveira e que também dá por pai dos ditos irmãos Francisco de Araújo e Baltazar Barbosa de Araújo. Mas como esta paternidade não se confirma, é de supor que seja igualmente errada a informação de que esse Gaspar Rodrigues de Araújo foi abade (salvo se é referência a ter sido jesuíta depois de viúvo). Na verdade, deve tratar-se do Gaspar Rodrigues de Araújo que a 5.3.1516 era moço da câmara da Casa Real quando teve 4.000 reais de mercê. Teria assim nascido cerca de 1507 e já então serviria o rei em Lisboa, onde viria a casar. O que, por outro lado, justificaria o foro que lhe apontam no Brasil.

A hipotese que apresento de este Gaspar Rodrigues de Araújo, moço da câmara da Casa Real em 1516, ser filho de Rodrigo Álvares de Araújo e sua sua 2ª mulher Ana da Cunha e ser o Gaspar de Araújo que em 1563 foi com sua mulher Catarina de Góis e filhos para o Brasil, ganha foros de uma quase certeza perante um testemunho no processo para Ordem de Cristo de seu neto. Com efeito, uma testemunha, curiosamente também chamada Gaspar de Araújo, morador na freguesia de Calheiros, de 53 anos (em 1651), diz que era parente do habilitado e que «tem por certo a si pelo conhecimento que ele testemunha tem de seus parentes como pela fama pública que há de sua qualidade são todos tidos e havidos por cristãos velhos por parte de seu pai sem terem raça de mouro cristãos novos judeu nem mulato nem disse serem infamados nem que descendam de mecânico algum, antes são parentes dos Alcaides digo parentes do Alcaide mor que foi de Castro Laboreiro que foi visabo do Suplicante segundo viu de papéis». A testemunha parece indecisa sobre se o alcaide-mor de Castro Laboreiro era parente ou bisavo do suplicante (neste caso o pai de Gaspar de Araújo). A verdade é que o alcaide-mor de Castro Laboreiro, nomeado a 2.6.1483, foi Paio Rodrigues de Araújo, irmão inteiro (legitimado na mesma carta real) de Rodrigo Álvares de Araújo, sendo que este Rodrigo é, nesta minha hipótese, o tal «visabo do Suplicante». Seria fácil concluir, com base no testemunho, que Gaspar de Araújo era filho de Paio Rodrigues de Araújo, alcaide-mor de Castro Laboreiro. Mas deste não há notícia de que Paio Rodrigues de Araújo tivesse tido filhos. O mais provável é que Rodrigo Álvares de Araújo também tivesse sido alcaide-mor de Castro Laboreiro, como interino de seu irmão Paio. Ou então foi confusão da testemunha, que trocou o tio com o pai, como aliás fica de alguma forma patente na hesitação quanto ao exacto grau de parentesco entre o suplicante e o alcaide. Como quer que seja, de Rodrigo Álvares ou de seu irmão Paio Gaspar de Araújo era certamente filho. Não sendo minimamente aceitável a hipótese adiantada por meu falecido primo José Ernesto de Menezes e Sousa de Fontes, no artigo que sobre estes Araújo de Góis publicou em 1994, em co-autoria com Marcelo Meira Amaral Bogaciovas, no nº 1 da Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia, que sem qualquer fundamento sério supõe Gaspar de Araújo filho de Diogo de Souza de Araújo e Menezes. Desde logo, Diogo de Souza (é assim que se documenta, sem Araújo nem Menezes), não foi alcaide-mor de Castro Laboreiro, tal como não o foram seu pai e avô. Foi sim alcaide-mor de Lindoso, nomeado por D. João III (CJIII, 5, 29v), sucedendo a seu pai João Rodrigues de Araújo, nomeado 7.1.1496, que por sua vez sucedeu a seu pai Lopo (Rodrigues) de Araújo, que antes de ser alcaide fora senhor do couto de Lindoso (11.3.1464), mas perdeu o senhorio em 1468 por ter fugido para Castela após ter morto várias pessoas. Quem foi alcaide-mor de Castro Laboreiro, como já disse, foi Paio Rodrigues de Araújo, sobrinho deste Lopo, nomeado por D. Afonso V a 2.6.1483, confirmado por D. João II a 2.6.1483, e que certamente ainda se manteve no cargo no reinado de D. Manuel I, pois este rei não nomeou ninguém para o cargo. Como Paio Rodrigues morreu solteiro, D. João III passou a alcaidaria-mor de Castro Laboreiro para o duque de Bragança, Casa onde ficou.

Podemos assim concluir que o Gaspar (Rodrigues) de Araújo que foi para o Brasil não era filho mas sim sobrinho do alcaide-mor de Castro Laboreiro, como a hesitação da testemunha parece explicar. Acresce que, se fosse filho de Paio Rodrigues, seria o seu único filho conhecido e naturalmente o sucessor na alcaidaria, não sendo provável a sua ida para o Brasil. Já como filho tardio do 2º casamento de Rodrigo Álvares, não só se explica melhor o patronímico (Rodrigues) com que aparece em Lisboa, como também a necessidade de fazer pela vida, primeiro na capital e depois no Brasil. Como vimos, o Gaspar de Araújo que foi para o Brasil podia ter nascido entre 1505 e 1515. Na verdade, terá nascido na mais recuada destas datas, teria seu proposto pai cerca de 45 anos de idade (o que concorda perfeitamente com um 2º casamento). Filho mais novo, provavelmente sem grandes perspectivas de herança, cedo foi foi posto ao serviço do rei, não sendo portanto de estranhar que seja o Gaspar Rodrigues de Araújo que a 5.3.1516, teria 11 anos de idade, era moço da câmara da Casa Real quando teve 4.000 reais de mercê. Só muito mais tarde viria a casar com Catarina de Góis, já com cerca de 55 anos de idade, sendo ela muitíssimo mais nova. Provavelmente até casou antes uma 1ª vez, com mulher por enquanto desconhecida. Neste interim a sua vida prosseguiu: terá servido no norte de África, quiçá na Índia, e deve ser o Gaspar de Araújo que D. João III nomeou escrivão da correição da ilha de S. Tomé (CJIII, 40, 219) e depois escrivão das sisas da Ribeira de Santarém (55, 26v).

Rodrigo Álvares de Araújo

Seu proposto pai, Rodrigo Álvares de Araújo, foi cavaleiro da Ordem de Santiago, como vem referido na carta de armas de seu filho Gonçalo. A 5.5.1496 Rodrigo Álvares de Araújo, morador na vila de Ponte de Lima, teve carta de perdão, com a obrigação de pagar 1.000 reais para a arca da piedade. Era acusado por Lourenço de Antas, morador nessa vila, de saltar com ele de propósito, após tê-lo já ameaçado. E deve ser o Rodrigo Álvares de Araújo, criado do visconde de Vila Nova de Cerveira, que a 2.4.1511 teve confirmação de cavaleiro. Como já disse, foi com seus irmãos legitimado por carta real de 1.9.1475. É o seguinte o teor desta carta: «Dom Affonço pella graça de Deos Rey de Castella de Leão, de Portugal, de Tolledo, de Galiza, de Sevilha, de Cordova, de Jaen, de Murcia, e dos Algarves daquem e dalem em Africa, Gibaltar, e das Algueziras, e senhor de Biscaya, e de Molina &c. a quantos esta nossa carta virem fazemos saber que nos querendo fazer graça e merce a Rodrigo Alvares de Araujo, e a Payo Rodrigues de Araujo, e a Gonçalo Rodrigues de Araujo, filhos de Alvaro Rodrigues de Araujo Comendador, e de Constança de Lama mulher solteyra ao tempo de sua nacença de nossa certa sciencia, poder absoluto, que havemos e dispensamos com elles, e legitimamolos, e fazemolos legitimos, e queremos, e outrogamos, que elles hajão e possão haver todos os outros previlegios, e liberdades dignidades, e officios tão publicos, como privados, que de feito e direyto haver poderião, assi como de legitimo matrimonio nascidos fossem, e que outrosi possão haver e herdar os bens do dito seu padre, e madre, e de outras quaiquer pessoas que lhos derem, ou que lhos deixarem por qualquer guiza que seja, asi por testamento, como por codecilio, ou por outra qualquer guiza, que seja, assim por testamento, como por codecilio, ou por outra qualquer guiza (sic), ou via ou doacção, e que outrosi possam succeder ab intestato ao dito seu padre, e quaisquer outros lhes possão fazer quaisquer doacções tãbem entre vivos, como cauza mortis, assi puros, como condicionais, e que outrosi possão succeder em morgados, e outras quaiquer heranças, ou Direitos que lhe forem dados, ou deixados, por qualquer via que seja, e por aquelles, que para isso seu poder houverem, comtanto, que não sejam bens, nem terras da Coroa de nossos Reynos, e outrosi queremos, e outrogamos, que com esta legitimação os sobreditos hajão a nobreza, e previlegios della, que por Direito comum, ordenação e uzança de nossos reinos haver deverião, se de legitimo matrimonio nascidos forão, não embargante quaisquer Leis, decretos, declaracois, costumes, constituicois, foros, oppiniois de Doutores, e quaisquer outras couzas, que esta legitimacão poderiam annular, ou embargar, posto que tais sejão de que em esta nossa dispensação devesse ser feito expressa menção, porque nos havemos aqui por expessas, e declaradas, e queremos, que em elle não hajão lugar, porque nossa tenção he legitimarmos ao dito Rodrigo Alvares de Araujo, Payo Rodrigues de Araujo, e Gonçalo Rodrigues de Araujo o mais firmemente, que nos o poderiamos fazer, e o elles devem e podem fazer digo ser pella guiza que dito he, e esta dispensação lhes fazemos a requerimento do dito seu padre que pareceo perante nos em pessoa, e nolo por elles pedio, supprimos todos os fallecimentos de solemnidade, que de feito, ou direyto for necesario para esta legitimação firme ser, e mais valer, em pezo, não he nossa tenção, q por esta legitimação seja feito nenhum prejuizo a alguns herdeyros legitimos, se os tinha, e outras quaisquer pessoas, que algu~ Direito hajão em os ditos bens, e couzas, que assim lhes forem dadas, e deixadas em testamento, em testemunho da verdade lhes mandamos dar esta nossa Carta, dada em Lisboa ao primeyro dia de Septembro. Elrey o mandou pello Doutor João Teixeyra do seu Concelho, Dezembargo, e peticois, Ruy Vas por Affonço Trigo o fes anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatro centos e settenta e sinco annos».

Rodrigo Álvares de Araújo casou duas vezes, a 1ª com Babiana Álvares de Antas, de quem teve Gonçalo Rodrigues de Araújo, nascido em Ponte de Lima, que a 20.2.1531 teve carta de armas para Araújo. Casou a 2ª vez com Ana da Cunha, senhora da quintã da Torre de Picanços, em S. Vicente de Távora, de quem teve Francisco Rodrigues de Araújo, morador em Ponte de Lima, que herdou a dita Torre de Picanços, já referido acima, e Gaspar Rodrigues de Araújo, que identifico com o Gaspar de Araújo em epígrafe, como ficou dito.

Álvaro Rodrigues de Araújo

Como ficou dito, Rodrigo Álvares de Araújo era filho de Álvaro Rodrigues de Araújo, fidalgo da Casa Real, capitão da guarda do infante D.Henrique, comendador de Rio Frio (Arcos de Valdevez) na Ordem de Cristo e senhor donatário das igrejas de Linhares e Guilhedezes. Álvaro Rodrigues de Araújo teve ao todo cinco filhos e cinco filhas, todos legitimados por carta real, sete deles em Constança de Lama e três em Branca Afonso. Fez testamento a 25.4.1506, cujo texto é o seguinte: «Em nome de Deos amen, saybão quantos os que esta manda, y testamento virem como eu Alvaro Rodrigues de Araujo Cavaleyro, e Comendador da Comenda de Riofrio, que he da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo jazendo doente em cama de dor, que eu tenho no Corpo, e enfermo, e são do entendimento, faço minha manda por esta guiza, que se segue // Primeyramente encomendo minha Alma ao Senhor Deos, que a criou, e rogo a Virgem Maria, que com toda a Corte celestial rogue ao Senhor Deos por mim // Mando que enterrem meu corpo dentro na Igreja no jazigo, que hora mandey fazer // Mando hum marco de prata para hum Calix ao Mosteyro // Mando que no prymeiro dia me digão sincoenta Missas, e se as não poderem dizer no dito dia, que as digão athe o terceyro dia // Mando que ao mes me digão vinte missas // Mando que ao anno me digão trinta e se as não poderem dizer nos ditos dias, que as digão nos seguintes dias // Ao presente dem de obrada a metade de huã vaca e dois carneyros e trinta reis de pão, e hum odre de vinho; ao mes vinte reis de pão, hu~ carneyro e hum alqueyre de vinho; // Mando que me obradem cada sabado, ou cada Domingo com sinco reis de pão alvo, e huma canada de vinho, e carne ou pescado, como se puder haver, e que o Cappelão va sobre minha sepultura com agoa benta cada Domingo // Mando que digão hum trintario encerrado o mais sedo que puder ser // Deixo por meu Cumpridor a Rodrigo Alvares meu filho, que cumpra estas couzas, e deixo o Abbade de Cabreyro por accuzador // Mando a todos os meus filhos e filhas sob pena de minha bencão, e maldicão, que não sejão contra minha manda // Estas são as dividas que devo: devo a Payo Rodrigues seis mil reis, ou aquillo que acharem assignado por minha mão // Devo a Fernão Velho meu sobrinho onze mil reis, ou aquillo que se achar assignado por minha mão, e elle tem em penhor o meu Lugar em Lubeyra, e tanto que lhe derem o dito dinheyro, que elle largue o Lugar // Devo a Rodrigo Alvares de Mantelães trezentos e quarenta e sinco reis, que lhe fiquey por Pedro de Cadorcas, e lhe devo em outra parte cem reis // Devo a Pedro Affonco de pano que lhe mandey tomar para a mulher de João Lopes dous mil reis // A Rodrigo Alvares de Mantelães de pano que tomey para minha neta mulher de João do Barreyro de Monte Redondo dous mil duzentos e sassenta reis, e elle Rodrigo Alvares recebeo a renda de hum Cazal, que traz Gonçalo da Lama, o mais seja a conta // Ao Abbade de Tavora de vinho, que lhe comprey novecentos e settenta reis // Devo a Diogo Dias Bom christão mercador de pano, que lhe mandey tomar em Sancta Luzia para vestir minha Caza, e de outro que lhe ja devia deantes em que se montão quatro mil duzentos e sassenta reis. // - A Henrique de Lima de pano que lhe tomey no Ladaryo novecentos e dezaseis reis // Devo a Froillos de Araujo dous mil reis // A João de Arranhados mil reis de bezerros // Devo a Alvaro Ennes sapateyro cento e quarenta reis // Estas são as dividas que me devem. Deve Pedro de Cadorcas cento e quarenta reis // Gonçalo Gil de São Mamede, mil e quatro centos reis de bezerros que lhe vendi, e de adianamentos (sic) athe esta era de quinhentos e sinco // Deixey a João do Pezo dois bezerros em mil, e novecentos reis, ittem em outra parte me deve seiscentos reis de dois bezerros meus, q vendeo // A mulher e filhos de João de Travacos trezentos reis, que emprestey a João de Travacos // Rodrigo de Travacos mil e cem reis de bezerros, que lhe vendi, me deve mais os adianamentos em Riofrio, Senlarey [Serraleis], Parada e Guilhadezes // João de Senlarey quinhentos reis ou o que se achar em bonna conta, que são de adianamentos, que fes comigo // Fernando filho de João do Fojo, deve hum bezerro, e não me lembra o preço, e recebi delle duzentos reis // Fernão Ennes de eira da Villa me deve de hum bezerro, ou boy de luctuosa mil e quatrocentos reis, e destes recebi por a metade de hua vaca quatrocentos e vinte e sinco reis // Estes são os Cazamentos que eu dey a minhas filhas, primeyramente Pedro Alvares ouve desasette mil reis, e a mulher vestida de dous vestidos de Londres, e suas camas de roupas // Goncalo de Morim des mil reis em dinheyro, e suas camas de roupa, e a mulher vestida de Londres. // Rodrigo Alvares de Mantelães des mil reis, e suas camas de roupa, e a mulher vestida de Londres.// A mulher de João Gomes deulhe meu Irmão o Cazamento, e eu deylhe a roupa da cama // Alvaro Pires de Caravana outro boy e outro gado que lhe dey, que valia sinco mil, e quinhentos reis, e sua roupa, e ella vestida de Londres. // Luis de Moreyra oito mil reis em dinheyro, e sua cama de roupa e ella vestida de Londres. // Affonso Garcia deulhe o Visconde o cazamento, e eu deylhe a roupa // Dey a João Lopes de Calvos sinco mil reis, e sua cama de roupa, e sua mulher vestida de Londres. // Mando que esta minha filha Lucrecia Rodrigues herde Irmammente com os outros meus filhos, e mando que em a Alvaro Fernandes meu Criado quatrocentos reis por serviço, que me fez, a João Grova (?) outrosi meu Criado tres mil reis, mando a Mayor minha neta, que a vistão assi como vestirão a sua Irmam, e lhe dem quatro mil reis. // Mando a Constanca Goncalves mil reis, mando a Maria minha Criada, que lhe dem trezentos reis, porquanto ja agora esta vestida. // Mando que os moços pequenos, que eu criey que fazendo Deos de mim al, mando a meus Cumpridores, que lhe satisfacão, como cada hum merecer. // Mando que a Pedro Galego meu Criado lhe dem tres mil reis. // Mando, que todos os meus bens se paguem estas dividas, e servicos assima escriptos, segundo por mim he mandado, e tanto que apartadas forem as dividas me apartem meu terco para cura de minha Alma, do qual mando ao dito Rodrigo Alvares meu filho, e assi a Alvaro Rodrigues outrosi meu filho que tambem lhe dou por ajudador, que cumpra todas as couzas assima escriptas, que cumprão para cura de minha Alma, e assim o mais, e cumprido, o mais que remanecer de meu terço o hajão por seu trabalho, e se ahi houver tanta quantidade, mando que dem dous mil reis para duas orphans, onde virem que he mais necessario, e assim mando a Guiomar de Villafranca, que meus herdeyros lhe não vão a couza alguma, que ella tiver destas portas a dentro a saber em peças de Caza, e mais mando, que por serviço, que me fes lhe dem quatro milreis em gado, quer em dinheyro, mais mando lhe não vão ao quinhão de duas vacas, e duas filhas, que trago comigo // Mando que dem a Branca Affonco de Tavora dois mil reis. // Mando que de todos os meus bens se apartem tres mil reis, e mando aos dois meus herdeyros os distribuão pella Alma de Constanca de Lama por muito serviço que me fes; mando a meus herdeyros, que não vão a huas pertencas, que comprou Guiomar de Villafranca a Goncalo de Villafranca em Gouvellas; Mando que os bens que comprou Guiomar de Villafranca a Lopo, que jazem em Villafranca, que forão de Mecia Affonco, que lhe não vão a elles. digo mais, que o Campo das Coraceiras, que pertence aos filhos de Constanca de Lama, que ella o comprou; e por esta maneyra hey por revogadas outras quaisquer mandas, e codecilios, que eu athe aqui tenha feitos, que não valhão em juizo, nem fora delle, salvo esta, e por ella peco a Elrey Nosso Senhor, e a todas as suas justicas, a que for mostrada, que em todo o facão cumprir, e guardar, porque esta he a minha postrimeyra vontada e esta hey por bonna e valioza deste dia para todo sempre // E mais me deve Pedro Alvares de Cazal Soeiro o que lhe emprestey; feita, e outorgada foi a dita manda dentro das Cazas da morada da dita Comenda de Rio frio, aos vinte e sinco dias do mes de Abril do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil e quinhentos e seis, e logo ahi pello dito Alvaro Rodrigues Comendador foi dito que seu dezejo e vontade era por alguns respeitos ao prezente todos não serem sabedores do Contheudo em seu testamento, disse que mandava a mim Taballião, que fizesse hum instrumento ao pee della de fee, como elle outorgava prezentes as testemunhas, o qual instrumento he o seguinte: Saibão quantos este instrumento de fee, e outoga virem, que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quinhentos e seis annos, aos vinte e sinco dias do mes de Abril dentro das Cazas da morada da Comenda de Rio frio, do Julgado de Val de Ves em prezença de mim Tabalião, e testemunhas jazendo em cama Alvaro Rodrigues de Araujo Comendador da dita Comenda, que elle agora fazia sua manda, e testamento, e por nella mandar alguas couzas por descargo de sua Alma, comigo Tabalião del Rey Pedro Annes no dito Julgado, como assima deste escripto está escripto, e por ao prezente todos não serem sabedores do que eu mando, por descargo de minha Alma, vos Tabalião me dareis hum instrumento, como heu hey por boa, valioza, e firme para sempre, como nella fas menção, e outorgo por este escripto em pessoa vossa, e das testemunhas, que me vem, e ouvem outorgar, assim, e pella guiza, que nella fas menção, e por vos Tabalião escripta, porque esta he minha tenção digo minha vontade, porque a fis com todo o meu sizo, e entendimento, e de todo peco assim, hum instrumento, e por elle protesto ser firme, valioza em juizo, e fora delle, como couza por mim he mandado, e por de tudo peco o dito instrumento para minha guarda, e de minha alma, testemunhas que forão prezentes João Lopes de Calvos, e Goncalo Gomes seu filho, e Diogo Lopes de Alvim, e Fernão de Calvos, e Diogo do Torrão, e Diogo da Fonte, morador em Tavora, e outros e eu Pedro Annes Tabalião no dito Julgado, que este escrevi, e assi foi testemunha Diogo Fernandes Abbade de Peruzello // Alvaro Roiz // // Gonçalo Gomes // Diogo Lopes // Diogo da Fonte // Fernão de Calvos // Diogo do Torrão // Martinho Alvares // João Lopes. E não se continha mais nada no dito testamento, e termo delle, que tudo se tresladou na verdade e ao proprio me reporto».

Paio Rodrigues de Araújo

Álvaro Rodrigues de Araújo era um dos filhos mais novos de Paio Rodrigues de Araújo, o Cavaleiro, guarda-mor de D. João I e seu embaixador a Castela, alcaide-mor de Lindoso, comendador de Rio Frio e Rio Caldo, senhor de Lobios (Galiza), senhor de juro e herdade de Lindoso, senhor de Castelo Rodrigo (26.11.1433), senhor de juro e herdade de Monção, etc., e de sua mulher Leonor Pereira, filha herdeira de Bernardim de Barbudo, senhor de Barbudo, do castelo de Bouro e do couto de Sabaris. Paio Rodrigues de Araújo esteve em Ceuta (1415) com 300 homens, e em Tanger (1437), teve mercês confirmadas a 26.11.1436. Foi ainda senhor do couto de Val de Poldros, que aforou. É a seguinta a carta de aforamento: «Aforamento de Payo Rodrigues de Araujo o Cavaleyro, do Couto de Val de poldros. Saybão quantos este instrumento de aforamento virem de como eu Payo Rodrigues de Araujo fidalgo da Caza do muito magnifico e poderoso Senhor Elrey Dom João primeiro, e guardador de sua pessoa, e Comendadeyro da Comenda de Riofrio, e Rio Caldo, Alcayde mor do Castello de Lindozo, e senhor de Lobeos em Galiza, ora aforo para sempre em fateosim a vos Anes Pescosso e a vos Braz Alquerno (?), e a vossas mulheres Catharina Petiza, e Anna Chamissa, que presentes estades o meu Couto de Val de poldros, e assim como eu o deffendi, demarquey, e melhorey, com tal condiçom, que vos e todos vossos descendentes serdes obrigados a ser nossos piões de pee, e de nossos descendentes, que pessuirem o dito Couto, no qual farey huã caza, onde residira o meu mordomo, o qual seredes obrigados servir naquillo que de nossa parte vos demandar non sendo vos vergonhozo; e quando eu for cassar ao dito Couto pousarey na dita Caza, levarey vinho e pão branco, e vos seredes obrigados a nos dar para nosso gazalho cada hum, huã pessa do milhor movel de vossa caza, e os que o não tiverdes nos pagareis com sendas e boas vontades; e por que quero que sejades defendidos e amparados deixo de consenso para sempre de cada hum anno no dito Couto a meu Compadre Nuno de Amorim Comendataryo de Paderne digo do Mosteyro de Paderne, e aos que apos delle forem quatrocentos reis em cada hum anno, para que vos defendão, e amparem de tão maos homes como são Lopo Gomes de Abreu senhor dos Regalados, e Fernão Annes senhor de Giella, e de outros semelhantes, e por de todo ser contente, e vos aceitardes este aforamento com as ditas condicois mandey fazer a presente, em que forão testemunhas etc. (sic)». Já tinha falecido a 11.3.1464 quando D. Afonso V doou a Lopo de Araújo, escudeiro, fidalgo da sua Casa, enquanto sua mercê for, o couto de Lindoso, seu castelo e respectivo senhorio, rendas e pertenças, em substituição de Paio Rodrigues de Araújo, seu pai, que morrera. E a 25.2.1464 o mesmo rei confirmou adoação vitalícia a Paio Rodrigues e a Lopo Rodrigues de Araújo, escudeiros e fidalgos da sua Casa, das rendas e direitos dos reguengos situados na vila de Monção, que ficarem por morte de Paio Rodrigues de Araújo, seu pai.

Origem dos Araújo

Paio Rodrigues de Araújo, o Cavaleiro, nascido cerca de 1400, era o filho sucessor de Pedro Anes de Araújo, senhor de Lobios, senhor de juro e herdade (20.5.1398) e alcaide-mor (16.8.1398) de Lindoso, etc., e de sua mulher Leonor Gonçalves Pedroso. Pedro Anes de Araújo, que é referido por Fernão Lopes, achou-se com Lopo Gomes de lira na defesa de Ponte de Lima contra o mestre de Avis, o que este depois lhe perdoou, comfirmando-lhe as terras que tinha em Portugal e dando-lhe em tença as de Lindoso. Este Pedro Anes era filho sucessor de Gonçalo Rodrigues de Araújo, senhor de Lobios, alcaide-mor de Lindoso e Castro Laboreiro (12.10.1382 e 20.4.1383), que apoiou o partido da rainha D. Beatriz contra o mestre de Avis, e de sua 1ª mulher Maria Ribeiro (e não da segunda, Froile Afonso de Magalhães, como dizem algumas genealogias, coisa que a cronologia não permite). Este Gonçalo Rodrigues de Araújo serviu com quatro lanças o rei D. Fernando I, que lhe deu as terras de Vilar de Vacas, Cidrais e Lindoso (12.10.1382 e 30.4.1383). Gonçalo Rodrigues de Araújo era filho sucessor de outro Pedro Anes de Araújo, fronteiro da Galiza, e neto materno de Gonçalo Rodrigues Veloso, que fez a torre de Lobios, na Galiza, verificando-se nesta linhagem uma onomástica muito extravagante para a época. Ao contrário do que dizem as genealogias tardias, o antedito Pedro Anes de Araújo (Araúxo) é que terá sido o 1º deste nome, certamente por ser senhor de Araúxo, junto a Lobios, o que cronologicamente concorda com o facto de o conde D. Pedro não tratar esta família. E Vasco Rodrigues de Araújo seria seu filho (portanto irmão de Gonçalo Rodrigues de Araújo), como a sua cronologia indicia, e não seu pai, como dizem as mesmas genealogias tardias.

Catarina de Góis

Quanto a Catarina de Góis, mulher de Gaspar de Araújo, documenta-se no processo para a Ordem de Cristo do neto como natural de Lisboa, filha de Rui Gonçalves de Góis, escrivão do Fisco Real, tendo ido com o marido e filhos povoar Ilhéus. Apura-se ainda que Catarina de Góis era parente do Padre João de Matos, jesuíta e visitador desta ordem, de D. Serafina de Góis, moradora na rua de S. Boaventura (que era mãe de D. Juliana de Mello, viúva de Bartolomeu de Vasconcellos da Cunha, governador que foi da ilha da Madeira), de D. Ana de Góis, de 67 anos, viúva de João Coelho de Castro, escrivão que foi do fisco real, moradora na rua direita de Santana, e do cónego desembargador Luiz de Góis de Matos, já falecido, todos de Lisboa. Uma das testemunhas ouvidas em Lisboa, António Correa Freire, morador a S. João da Praça, de mais de 40 anos de idade, disse que o neto de Catarina de Góis, quando veio do Brasil estudar a Coimbra, nas férias pousava em casa de seu "tio" o cónego desembargador Luiz de Góis de Matos e que ouviu muitas vezes falar de sua avó paterna (Catarina de Góis) ao dito desembargador e dizer que tinha estes primos Araújo e Góis moradores na Baía, e que o pai do justificante por nome Jorge de Araújo de Góis de cá fora para o Brasil, e lhe parece que desta cidade de Lisboa. E que sendo o dito justificante de quem ele testemunha depoente desta família de Góis e Araújo sabe serem limpíssimos de sangue e muito nobres por geração, sem terem raça de judeu, cristão novo, mouro, herege, nem de gentios, por serem descendentes do escrivão do fisco desta cidade Julião de Góis.

Rui Gonçalves de Góis

Na verdade, como se refere no já citado artigo da RABPHG, Rui Gonçalves de Góis viveu em Lisboa, onde foi escrivão do fisco real e almoxarife dos paços reais. A 11.1.1571, sendo morador na freguesia do Castelo, vem referido como cavaleiro fidalgo do cardeal D. Henrique quando fez uma doação a seu filho Pedro de Góis, moço da câmara da Casa Real e tabelião, servindo de testemunha seu outro filho, Julião de Góis (Index das Notas de Vários Tabeliães de Lisboa - Séculos XV-XVIII - tomo 4º, pág. 213, em notas do tabelião Jerónimo Teixeira do ano de 1570 e 1571, folha 342, BN, 1949). Rui Gonçalves de Góis casou com Margarida de Anseres e faleceu a 15.7.1571 na freguesia de Stª Cruz do Castelo (Lisboa), sendo no óbito referido como escrivão do fisco e ficando testamenteiro seu filho Julião de Góis. Este seu filho Julião de Góis sucedeu-lhe como escrivão do fisco e casou com Apolónia de Matos, filha de João de Matos e sua mulher Antónia de Madureira e prima de D. António de Matos, bispo de Elvas e inquisidor. Deste casal descendem os anteditos sobrinhos de Catarina de Góis. O antedito filho Pedro de Góis, moço da Câmara e tabelião em 1571, deve ser o homónimo que casou com Catarina de Aragão e teve dois filhos baptizados na freguesia de Stª Cruz do Castelo (Lisboa): Margarida, a 31.12.1567, e Luiz, a 20.4.1578, devendo ter servido na Índia ou norte de África pelo menos em parte do dilatado intervalo destes nascimentos. Aquela D. Serafina de Góis, moradora na rua de S. Boaventura, faleceu aí (freguesia das Mercês) a 23.10.1653, sendo casada com José Ferreira de Mello. A filha, D. Juliana de Mello, casou a 23.6.1630, ib. com Bartolomeu de Vasconcellos da Cunha, nascido ib, sendo pais de pelo menos um filho, Francisco, baptizado a 19.4.1631, ib.

Como vimos, Catarina de Góis casou cerca de 1560, sendo necessariamente muito mais nova do que o marido (devia até ser a sua 2ª mulher), o qual propomos ter nascido cerca de 1505. Catarina de Góis terá nascido cerca de 1540/4 e deve ter sido a mais velha dos filhos de Rui Gonçalves de Góis, sendo que este não terá nascido antes de 1516/20, sendo portanto mais novo do que o genro, particularidade que se verifica muitas vezes. Esta datação Rui Gonçalves de Góis resulta não só da cronologia dos filhos, mas também do facto de em 1571, data da sua morte, ainda exercer o cargo. E de só ter sido nomeado para os cargos por D. Sebastião, não aparecendo no reinado de D. João III, o que o faz supor ainda relativamente novo à data da morte deste rei, em 1557.

Mas de quem era filho o escrivão do fisco Rui Gonçalves de Góis, que as genealogias não referem e que terá nascido cerca de 1516/20? Infelizmente não me foi possível encontrar ainda qualquer referência directa que permita localizar os pais de Rui Gonçalves nas já vastas linhas de Góis que floresciam nos primórdios do século XVI. E ficaria num beco sem saída não fosse o caso de, entre os netos de Catarina de Góis e Gaspar de Araújo, aparecer uma neta inexplicavelmente chamada Maria de Góis de Macedo. Em geral, os netos de Gaspar de Araújo e Catarina de Góis usaram o nome composto Araújo de Góis, alguns apenas Góis, outros Sequeira de Góis ou apenas Sequeira (das noras Maria de Sequeira e Ângela de Sequeira), ou Góis da Fonseca e Araújo da Fonseca (do genro Domingos da Fonseca Saraiva), ou finalmente Araújo de Brum, do genro Melchior de Armas de Brum. E é justamente deste Melchior de Armas de Brum e de sua mulher Francisca de Araújo que foi filha a antedita Maria de Góis de Macedo, com filhos que seguiram estes dois nomes. Desta Maria, para além de um Gaspar de Armas de Brum e de um Marcos de Araújo de Brum, foi irmã uma Margarida de Anseres, justamente o nome de sua bisavó, a mulher de Rui Gonçalves de Góis.

Sendo ténue, este indício não deixa de ser significativo. Na verdade, a família Araújo de Góis não estava isolada no Brasil, como se documenta, tendo vários dos filhos e netos de Gaspar de Araújo e Catarina de Góis vindo a Portugal, nomeadamente para estudar em Coimbra, sabendo-se que visitavam os parentes. E assim todos saberiam que capela-mor da igreja do Espírito Santo de Alenquer estavam vários túmulos armoriados, de Macedo em pleno, entre eles o de Sebastião de Macedo, falecido em 1570, e o de seu pai Francisco de Macedo, nascido cerca de 1469 e falecido em 1545, sendo este nada mais nada menos do que o meio-irmão mais velho do celebrado Damião de Góis, e chefe deste ramo, ambos filhos de Rui Dias de Góis.

Esta recuperação do nome Macedo é portanto um fortíssimo indício de que Rui Gonçalves de Góis era não só da linha de Alenquer como descendente de Rui Dias de Góis e sua 1ª mulher Inez de Oliveira ou de Macedo.

Rui Dias de Góis

Rui Dias de Góis nasceu cerca de 1438, foi escudeiro da Casa Real, esteve na conquista de Arzila (1471), sendo depois almoxarife de Alenquer, cargo que ocupava em 1509, vindo a falecer em 1513. Casou quatro vezes. Tendo em conta a cronologia dos filhos dos seus dois primeiros matrimónios, casou a primeira cerca de 1468 com a antedita Inez de Oliveira ou de Macedo, que terá falecido de parto no ano seguinte. Ficando com uma criança, tratou de casar logo outra vez, desta feita com uma parente, Filipa de Góis, tendo o filho deste 2º casamento nascido cerca de 1470. O filho mais novo do 4º casamento, Damião de Góis, só haveria de nascer em 1502, ficando órfão de pai aos 11 anos de idade.

Rui Dias de Góis viveu em Estremoz pelo menos de 1469 até 1475. A ida para Estremoz terá ficado a dever-se à nomeação do pai, como direi adiante. A ligação a Alenquer deste ramo de Góis, apesar da episódica relação de seu pai com esta vila como contador (a vila era da rainha D. Leonor, a quem ele servia), veio a fazer-se sobretudo pelo 2º casamento de Rui Dias de Góis com Filipa de Góis, do ramo de Alenquer.

Com efeito, a 16.1.1469 D. Afonso V privilegiou Rui Dias de Góis, escudeiro da sua Casa, morador em Estremoz, concedendo-lhe licença para uso e porte de armas nesta vila e seu termo, e por todo o reino e senhorio, para se defender dos filhos de João Rodrigues Mealheiro, desembargador régio, que eram seus inimigos. E a 18.6.1472 o mesmo rei perdoou a justiça régia a Rui Dias de Góis, escudeiro da sua Casa, morador na vila de Estremoz, acusado da morte de Gonçalo Rodrigues Mealheiro, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquista da vila de Arzila e da cidade de Tânger, e mediante o perdão das partes. Finalmente, a 13.2.1475 privilegiou por dois anos Rui Dias de Góis, escudeiro da sua Casa, morador na vila de Estremoz, concedendo-lhe licença para alugar a judeus umas casas suas, fora da judiaria.

Francisco de Macedo

O filho do primeiro casamento de Rui Dias de Góis, cuja mãe terá falecido de parto, foi o já referido Francisco de Macedo, escudeiro e depois cavaleiro da Casa Real, contador das comarcas de Alenquer e Sintra e 1º provedor do hospital e Santa Casa do Espírito Santo de Alenquer. A 7.8.1501 já estava casado (e há muito). Com efeito, nesta data Francisco de Macedo, escudeiro da Casa d'el rei, morador em Alenquer, enviou dizer, por sua informação, que um dia, véspera da Trindade de 1500, chegara ele com sua mulher ao lugar de Tojal, termo dessa vila, por serem convidados para um Pentecoste, que se no dito lugar fazia. E estando assim no dito lugar, um dia, à boca da noite, Isabel Rodrigues, mulher solteira, moradora em Olhalvo, termo da mesma vila, e Bartolomeu Fernandes, seu tio, o requereram, e assim mesmo a certos parentes e amigos, para haverem de saltar com Filipe Pires, morador em Lisboa, que aquela noite havia de ir dormir a casa de Isabel Rodrigues, assim como estava em costume e fazia, havia bem dois anos, quando Isabel Rodrigues queria, sem nunca Filipe Pires a querer receber por mulher. E sobre isso o suplicante e os ditos parentes e amigos fizeram conselho para determinarem o que haviam de fazer. O qual conselho, tanto que fora feito, logo ao serão partiram todos para o Tojal, onde jazia a dita Isabel Rodrigues com o Filipe Pires, indo armados, uns com couraças e lanças e espadas, e outros de espadas e capas. E chegaram entre as 11 horas da noite, pouco mais ou menos, e saltaram com os sobreditos, onde jaziam em uma cama. E tanto que se assim chegaram, fizeram vir uma candeia, por força e contra vontade de Filipe Pires, e o fizeram receber com Isabel Rodrigues por marido e mulher. E tanto que fora manhã do dia seguinte, Filipe Pires se fora agravar do suplicante e dos outros todos às justiças, e sobre isso fora tirada inquirição, e o suplicante culpado e preso sobre sua menagem, como ainda era nesta cidade. E se procedera tanto no seu feito que, estando em contraditas, ele, suplicante, se chamara às ordens, e por isso lhe fora assinado termo que fizesse certo como, ao tempo do malefício estava honesto em hábito de tonsura. E, estando o feito nestes termos, Filipe Pires lhe viera a perdoar, por um instrumento feito e assinado por João Gonçalves, tabelião em Lisboa, aos 17 de Julho de 1501. Enviando pedir lhe perdoasse sua justiça e o mandasse soltar, el rei, vendo seu dizer e visto o perdão da parte e um praz-me com o seu passe, lhe perdoou a força que assim fizera, e mandou que lhe levantassem sua menagem e o soltassem, contanto pagasse 6.000 reais para a Piedade.

Francisco de Macedo foi escrivão dos contos e contador das comarcas de Alenquer e Sintra, com 6.407 e depois 10.000 reais de mantimento, pelo menos de 1504 a 1524. A 30.4.1504 Francisco de Macedo, escudeiro da Casa d'el rei, teve quitação de todo o dinheiro, ouro e prata, raiz e móvel, que recebeu dos judeus e mouros das comarcas de Alenquer e Sintra: de prata, 44.662 reais, 9 marcos, 5 onças e 3 oitavas; e de cobre dourado e por dourar que saiu da prata, 5 marcos, 2 onças e 2 oitavas, e todas as vestimentas de brocado, veludo e seda. A 6.1.1515 Francisco de Macedo, escrivão dos contos de Alenquer, passou recibo em como recebeu do almoxarife João de Brito o mantimento que tem com o dito ofício. A 24.7.1515 D. Manuel I ordenou ao almoxarife de Alenquer que pagasse a Francisco de Macedo, escrivão dos contos do dito almoxarifado, 6.407 reais de seu mantimento. A 14.8.1516 Francisco de Macedo, contador no almoxarifado de Alenquer, fez saber ao almoxarife do dito almoxarifado como este fora arrematado a Diogo da Fonseca por 1.073.000 reais, e 1 por cento em salvo para o rei. A 21.2.1519 Francisco de Macedo mandou Fernando Vaz, recebedor da távola da vila de Alenquer, pagar a Afonso Álvares 100 reais de levar umas cartas. A 2.1.1520 Francisco de Macedo, contador, mandou o almoxarife de Alenquer dar 100 reais a Fernão Pires, homem do almoxarifado. A 3.1.1520 Francisco de Macedo, contador dos almoxarifados de Alenquer e Sintra, mandou Garcia Rodrigues, almoxarife de Alenquer, dar a Pedro Álvares 100 reais em pagamento de certo serviço. A 10.11.1520 Francisco de Macedo, contador das comarcas de Alenquer e Sintra, ordenou ao almoxarife que desse a Pedro Alvares 230 reais para ir a Évora levar uns livros a D. Manuel I. A 30.10.1521 o contador dos almoxarifados de Alenquer e Sintra Francisco de Macedo passou certidão em que consta terem sido tomadas várias propriedades dos rendeiros, em satisfação do que ficaram devendo. Finalmente, a 10.12.1524 Francisco de Macedo, que serve de contador da comarca, teve provisão para o almoxarife ou recebedor do almoxarifado de Sintra lhe dar 10.000 reais de seu mantimento.

Pelo menos desde 1517 que Francisco de Macedo era o primeiro provedor do hospital e Santa Casa de Santo Espírito de Alenquer. Com efeito, a 8.2.1517 Francisco de Macedo, provedor do hospital de Santo Espírito de Alenquer, passou recibo segundo o qual recebeu do tesoureiro da Casa Real uma bandeira de damasco carmesim, que o mesmo senhor deu ao dito hospital. E de 18.9.1540 existe uma carta de Francisco de Macedo à rainha, dando parte que enviava o traslado do compromisso e regimento que a rainha D. Leonor e o rei D. Manuel ordenaram para o governador da Santa Casa do Espírito Santo de Alenquer e que não remetia o traslado de como a dita casa se edificara milagrosamente pela rainha Santa Isabel por a dita senhora já o saber.

A 12.2.1515 Francisco de Macedo, já então referido como cavaleiro do rei, teve mercê da corredoria de terra que está nas lezírias reais da Azambuja. Faleceu a 22.12.1545, segundo se diz na inscrição (posterior) do seu túmulo, em laje armoriada (Macedo) no chão na capela-mor da igreja do Espírito Santo, em Alenquer, que diz: «ESTA SEPVLTURA HE / D FR.º D. MACEDO O PRI / M.RO PROVEDOR QUE FOI / DESTA CASA DO ESPRI / TO SANTO E DE SVA / MOLHER BRIOLANGA / PIZ E DE SEVS ERDEIROS / FALECEO AOS 22 / DE DEZEMBR° DE / 1545».

Alão dá cinco filhos a Francisco de Macedo e sua mulher Briolanja Pires, o mais velho dos quais, Sebastião de Macedo, também já referido, nasceu cerca de 1496 e faleceu a 5.7.1570, segundo se diz na inscrição do seu túmulo, em laje armoriada (Macedo) no chão na capela-mor da igreja do Espírito Santo, em Alenquer, que diz: «SEPVLTURA DE BAS / TIAN DE MACEDO CA / MAREIRO GUARDA ROV / PA E VEADOR DO CAR / DEAL INFANTE DON AN / RIQVES GOVERNADOR / QUE FOI DESTES REI / NOS E PROVEDOR DES / TA CASA E DE SVA MO / LHER ILENA IORGE /FALECEO A. 5. DE IVLHO / DE 1570».

A 23.7.1515 era moço da câmara de D. Manuel I, pois nesta data este rei ordenou ao seu tesoureiro que desse a Sebastião de Macedo, seu moço da câmara, um capuz, pelote, calças e gibão por alvíssaras da notícia da chegada da nau da Índia e caravela da Mina. Foi depois tabelião de Alenquer, por nomeação de D. João III (CJIII, 14, 105v), que a 9.6.1529 deu provisão para o almoxarife de Alenquer dar a Sebastião de Macedo 20.000 reais de sua tença e ainda lhe deu carta para comprar casas em Lisboa (ib, 53, 68). Por morte de seu pai, sucedeu-lhe como provedor do hospital e Santa Casa do Espírito Santo de Alenquer (ib, 71, 161) e nas terras em Azambuja (ib, 7, 46v).

Dedução possível

Tendo em conta este conjunto de dados, é muito provável que Rui Gonçalves de Góis seja filho de Francisco de Macedo e, portanto, neto de Rui Dias de Góis. Chamasse-se ele Rui Dias em vez de Rui Gonçalves e eu não teria dúvida nenhuma! Embora pudesse hesitar entre a possibilidade de ser um filho legítimo ou ilegítimo de Francisco de Macedo, tendo em conta a cronologia e o facto de as genealogias o não referirem. Com efeito, nascido entre 1516 e 1520, Rui Gonçalves de Góis é ligeiramente tardio, embora nada de especial, tendo em conta que as mulheres casavam então muito novas, entre os 12 e os 15 anos de idade, pelo que Briolanja Pires podia perfeitamente ter um filho primogénito cerca de 1496, aos 15 anos, e um filho tardio cerca de 1516, com 35 anos de idade.

O prenome Rui não tem dúvida, seria o do avô paterno. Mas porquê o patronímico Gonçalves, que nesta época em geral já não funcionava como tal, mas muitas vezes como mera reminiscência onomástica. Investigando bem, contudo, podemos encontrar uma explicação, que aliás se prende com o curioso facto de o primogénito de Rui Dias de Góis usar não só o nome como o escudo de armas dos Macedo.

Infelizmente não me foi possível documentar a mãe de Francisco de Macedo, que Alão chama Inez de Oliveira de Macedo, nome demasiado composto para a época. Ou se chamou Inez de Oliveira, provável nome da mãe dela, ou Inez de Macedo. Alão não a filia, o que é significativo. Já o mesmo não acontece com o facto de Gaio dizer que era filha de Jorge de Macedo e neta de um Diogo Gonçalves de Macedo. Este Jorge de Macedo documento-o como cavaleiro da Casa do duque de Viseu e coudel de Santarém entre 1468 e 1479 e sendo filho de Diogo Gonçalves de Macedo poderia estar aí a origem do patronímico. Mas a informação de Gaio vale o que vale, ou seja, muito pouco ou nada. Na verdade, julgo que Inez de Oliveira ou de Macedo, que terá nascido cerca de 1453, era irmã de Rui Gonçalves de Macedo, nascido cerca de 1452, que se documenta escudeiro de D. João II e casou com Maria Fernandes em Pedorido (Castelo de Paiva), onde teve prazos do mosteiro de Paço de Sousa, com geração nos Vieira de Mello, morgados do Ribeiro, em Bemviver, e nos Brandão de Macedo e Mello, morgados da Sobreira, em Melres. Este Rui Gonçalves de Macedo era meio-irmão de João de Macedo, alcaide-mor do Outeiro de Miranda, almoxarife da alfândega do porto de Bragança, etc., fidalgo da Casa Real, que teve carta de armas para Macedo a 15.4.1518, como filho de Gonçalo de Macedo e neto de Fernão Esteves de Macedo, do tronco desta linhagem (9, 61; e 6 de Místicos, 168), e tirou ordens menores a 1.7.1461 em Ervededo.

Sobre este João de Macedo, que deixou vários filhos legitimados por carta real, há muita documentação: a 15.1.1481 D. Afonso V nomeou João de Macedo, escudeiro do infante D. João, para o cargo de almoxarife da alfândega do porto de Bragança, em substituição de seu pai Gonçalo de Macedo, que morrera (26, 7), que D. João II confirmou a 20.5.1482 (6, 55). A 26.9.1483 foi alcaide-mor de Outeiro de Miranda (CJII, 26, 106). A 16.7.1483 foi nomeado vedor dos vassalos de Bragança (ib, 24, 87). A 26.6.1483 teve carta de privilégio de fidalgo (ib, 24, 88). A 25.4.1496 João de Macedo, escudeiro da Casa d'el rei, teve confirmação da tença anual de 5.100 reais, em respeito aos 13.200 reais do assentamento da prima do rei, de quem era então escudeiro. Os 8.100 reais que falecem montou na moradia e cevada (CMI, 33, 94). A 18.5.1496 João de Macedo teve confirmação da carta de privilégio de fidalgo (ib, 43, 19). E a 27.5.1496 confirmação da tença anual de 10.000 reais de prata (ib, 43, 20). A 25.5.1496 João de Macedo, fidalgo da Casa d'el rei, alcaide da vila e castelo do Outeiro, teve confirmação de uma carta de D. Afonso V de 8.1.1481 sobre uns bens que João Afonso de Castro, morador em Colmelos, lhe vendera por morte de Vasco Roiz de Castro, seu dono, os quais constavam de uma doação feita no Porto, a 3.7.1440, nas pousadas de Álvaro Gonçalves, o qual apresentou a Afonso Martins, tabelião por el-rei, uma carta de D. João I de 6.11.1401, na qual o rei o encarregava de repartir os bens e herdades confiscados a alguns escudeiros e homens de pé e criados de João Afonso Pimentel, e outros moradores de Bragança e Vinhais, por erro e desserviço contra si e seus reinos. E pelo poder que lhe dera, fizera doação valedoira a Vasco Rodrigues de Castro, vassalo d'el rei, enquanto sua mercê fosse, das rendas e herdades que Álvaro Gonçalves de Revoredo havia em Quiraz, e dos bens de dona Teresa Raposo em Quintela e em Valpaços e Travanca, e em Lomba, e dos que Fernão Gonçalves de Revoredo havia em Tuiselo, e em Nozelos, a par de Torre de Dona Chama. Todavia, porquanto João Afonso de Castro se temia de que alguém os viesse pedir, e por lhe fazer de bom título, o rei lhos dava para sempre carta (segunda), escrita em Vouzelo, aldeia do termo da vila do Outeiro de Miranda, a 21.10.1484, nas casas de Afonso Gonçalves, tabelião, onde João Afonso de Castro mostrou uma carta d'el rei D. Afonso V na qual lhe fazia mercê dos bens que Álvaro Gonçalves de Revoredo havia em Quiraz, além das rendas que arrecadava em Tuiselo e no reguengo de Nozelos, a par da Torre de Dona Chama, e dos de dona Teresa Raposo, em Quintela e na Lomba, afora os que trazia Afonso Tomé. Os quais bens João Afonso tinha e a ele pertenciam, em virtude da dita carta e de um alvará de D. João II de 21.4.1484, no qual dava licença a João [Afonso] de Castro, morador em terra de Vinhais, para vender uns bens que tinha por carta de D. Afonso V a João de Macedo. E pela dita carta de mercê e alvará de licença os vendia a João de Macedo, para ele e todos os seus herdeiros e descendentes, pelo preço certo e nomeado de 18.000 reais correntes, de 10 pretos o real, os quais logo recebeu, em 3 taças de prata, sendo duas douradas e uma branca, um Anrique de ouro, e reais de prata, pelo que se deu por bem pago. E pedindo João de Macedo a el rei que lhe confirmasse o alvará de licença, lho confirmava nesta carta, em que mandava juntar a carta de compra e doação dos ditos bens, como constava do alvará (ib, 38, 77 e 77v). A 1.4.1500 João de Macedo, fidalgo da Casa de D. João II, teve confirmação de 30 214 reais de tença, em satisfação da alcaidaria-mor da vila do Outeiro de Miranda (ib, 31, 26). A 4.7.1513 João de Macedo, fidalgo da Casa Real, teve mercê de uma tença anual de 10.000 reais, a partir de Janeiro de 1514 (ib, 42, 69). A 10.5.1508 teve cópia do padrão de 25.214 reais de tença de que se fez mercê a João de Macedo, fidalgo da Casa Real, em satisfação da alcaidaria-mor do Outeiro de Miranda que largou para o duque de Bragança (CC, II, 14, 116). A 12.9.1506, João de Macedo, fidalgo da Casa d'el rei, solicitou o trespasse de 4.100 reais em Simão Correa, seu genro, apresentado duas cartas de D. Manuel I e um alvará, nos quais, casando ele sua filha com Simão Correa, moço da câmara d'el rei, lhe trespassava 15.100 reais. de sua tença, os quais obtivera por uma carta de D. Manuel I, dada em Setúbal, a 27.5.1496, na qual se continha uma de D. João II de 27.9.1483, onde lhe concedia uma tença de 10.000 reais de prata, e ainda uma outra de D. Manuel, de 25.4.1496, na qual confirmava ao mesmo João de Macedo, então escudeiro da Casa d'el rei, uma tença de 5.100 reais que D. João lhe concedera em sendo príncipe, por respeito dos 13.200 reais que o dito senhor houvera por ele do assentamento da Excelente Senhora, de quem então era escudeiro, e os 8.100 reais que faltavam, lhe montou na moradia e cevada (ib, 38, 13). Mas logo a 4.3.1518 João de Macedo, fidalgo da Casa Real e alcaide-mor do Outeiro, pediu e obteve que lhe fossem concedidos os restantes 10.000 reais, explicando que teve uma tença anual, em dias de sua vida, de 10.000 reais, e ao querer casar sua filha com Simão Correia, criado do rei, dera-lhe este 20.000 reais de tença em satisfação da dita alcaidaria. Por falecimento do seu genro, fora trespassada essa quantia, vagando em seguida, tornando o rei a dar 10.000 reais (ib, 10, 130).

Portanto, Francisco de Macedo seria sobrinho-direito de Rui Gonçalves de Macedo, não sendo assim de estranhar que chamasse a um filho Rui Gonçalves, como o tio, tanto mais que Rui era o prenome de seu pai, recuperando nele o nome Góis da varonia.

De notar, finalmente, que Rui Gonçalves de Góis vivia em Lisboa na freguesia do Castelo, a mesma em que viveu seu proposto tio, o celebrado Damião de Góis quando regressou a Portugal e onde lhe nasceram os seus últimos quatro filhos, entre 1548 e 1565. Não deixa também de ser uma coincidência assinalável que Damião de Góis tenha casado em 1438, em Lovaina, com Johanna van Hargen. E que seu proposto sobrinho Rui Gonçalves de Góis, pouco mais novo do que ele, tenha casado cerca de 1539 com Margarida de Anseres, que parece ter origem flamenga. Isto, conjugado com o facto de Rui Gonçalves de Góis não ter deixado rasto documental na documentação de D. João III, tendo já cerca de 40 anos à morte deste rei, em 1557, permite supor que esteve ausente do país, podendo ter acompanhado o tio à Flandres e aí, justamente, ter casado com Margarida de Anseres. Tendo Damião de Góis ido à Flandres como embaixador, onde estava como tal em 1530, é natural que tivesse levado pessoas ao seu serviço, entre elas o proposto sobrinho. Por outro lado, sabemos que Damião de Góis manteve relações com o cardeal D. Henrique, a quem em 1538 devia 4.000 reais (CC, I, 60, 114). Ora, Rui Gonçalves era, ou vira a ser, cavaleiro fidalgo da Casa deste cardeal.

Lopo Dias ( de Góis)

Finalmente, resta saber a origem destes Góis. Rui Dias de Góis era filho de Lopo Dias, sacador das terras régias de Alenquer, vedor da gafaria da cidade de Coimbra, escrivão do almoxarifado de Estremoz e recebedor-mor dos portos de Entre-Tejo-e-Odiana, nascido cerca 1415 e falecido depois de 22.8.1480, e de sua mulher Maria Dias de Almaça, casados cerca de 1437, aragonesa, sumilheira da rainha D. Leonor de Aragão (mulher de D. Duarte), a quem acompanhou a Toledo, quando esta para aí se retirou em 1438, após ter sido forçada a abandonar a regência do reino de Portugal, onde ficou até à sua morte, em 1448.

Lopo Dias também serviu a rainha D. Leonor de Aragão, que também acompanhou a Toledo em 1438, sendo então, por esta rainha, que era senhora de Alenquer, sacador das terras régias desta vila e seu termo, cargo que assim abandonou. A 1.5.1441 D. Afonso V (ou seja, o novo regente D. Pedro) nomeou João Vasques, morador em Alenquer, escudeiro de Fernão Gonçalves de Miranda, do seu Conselho, para o cargo de sacador das terras régias, em substituição de Lopo Dias, que deixara de exercer o cargo em deserviço.

Mas, ao contrário de sua mulher, que parece ter ficado em Toledo com a rainha até à sua morte, em 1448, Lopo Dias terá regressado a Portugal, talvez por morte de seu pai, pois aparentemente sucedeu-lhe como vedor da gafaria da cidade de Coimbra, cargo a que renunciou em 1450. Com efeito, a 18.11.1450 D. Afonso V nomeou Aires Gonçalves, escudeiro do bispo de Coimbra, para o cargo de vedor da gafaria da cidade de Coimbra, com mantimento e porções, em substituição de Lopo Dias, que renunciara, por instrumento público de 17.11.1450.

Dizem que Lopo Dias não terá usado o nome Góis (o que é um facto) por seu pai não o ter deixado ir com ele ao fatídico cerco de Tânger, em 1437, provavelmente porque então teria apenas 17 anos de idade. Mas provavelmente já seu pai não usou Góis.

Gomes Dias de Góis

Era Lopo Dias filho de Gomes Dias de Góis, escudeiro do infante D. Henrique, com quem esteve no desastre de Tânger em 1437, e de sua mulher Beatriz Vaz, a quem as genealogias chamam-lhe Beatriz Vaz de Lemos. Mas não há nenhuma Beatriz Vaz de Lemos nesta época.

Embora referido nas crónicas, Gomes Dias de Góis não se documenta em fontes primárias. Provavelmente não usou o nome Góis, como o filho. Braamcamp refere-se a ele como Gomes Dias de Góis, fidalgo da Casa do infante D. Henrique e «senhor das saboarias de Alenquer, Arruda, e outras», mas não refere onde isso se documenta e não se encontra qualquer referência a isso em fonte primária. As genealogias também dizem que foi provedor da gafaria de Coimbra, o que igualmente não se documenta, embora seu filho já se documente com este cargo, como ficou dito.

Nenhuma genealogia filia este Gomes Dias de Góis de forma minimamente credível, o que necessariamente diz muito sobre a sua origem, tendo em conta que é bisavô de Damião de Góis, genealogista e guarda-mor da Torre do Tombo. Mesmo que a memória familiar da sua filiação já se tivesse perdido no tempo de seu bisneto Damião de Góis, esse simples facto demonstra que a origem seria algo obscura. Se a isto acrescentarmos ou a dificuldade ou o desinteresse de Damião de Góis em apurar e revelar a verdade, podemos com facilidade concluir que alguma coisa haverá na filiação de Gomes Dias que a tem mantido opaca.

Tendo em conta a cronologia própria e do filho, Gomes Dias terá nascido entre 1380 e 1390. E a verdade é que não se conhece, e muito menos se documenta, nenhum Diogo (nem nenhum Dias) entre os Góis da passagem do séc. XIV para o XV. Acontece, porém, que por carta dada em Lisboa a 20.6.1388, D. João I legitimou um Gomes Dias, filho de Diogo Lourenço, «abade de tresmjras clerigo d ordeens sacras» e de mulher solteira, não nomeada. Tresmiras pode tratar-se de Transmiras, município galego de Orense, ou Tresminas, freguesia de Vila Pouca de Aguiar.

É um tiro no escuro, mas este abade Diogo Lourenço pode perfeitamente ser mais um bastardo do prior do Crato D. Frei Lourenço Esteves de Góis, havido na sua juventude. As genealogias dão a D. Frei Lourenço Esteves apenas um bastardo, o também prior do Crato D. Frei Nuno Gonçalves de Góis. E a este D. Frei Nuno Gonçalves dão vários bastardos, que de facto teve (alguns deles legitimados por carta real), e um que não teve, Estêvão de Góis, que se documenta seu sobrinho. Com efeito, a 1.1.1441 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Estêvão de Góis, sobrinho do prior do Crato, D. Frei Nuno Gonçalves de Góis, por ter estado no castelo da dita vila com o dito prior a maldizer do rei.

Apesar do conceito lato que então tinha o termo sobrinho, filho não era, pois nem como eufemismo se pode entender, uma vez que nesta data (1441) já os verdadeiros filhos de D. Frei Nuno estavam legitimados por carta real.

Portanto, tudo indica que D. Frei Nuno Gonçalves tinha um irmão (meio-irmão), que seria justamente o antedito abade Diogo Lourenço, que na sua juventude teve Gomes Dias, nascido cerca de 1386 e legitimado a 20.6.1388, e que mais tarde, já na meia idade, teve Estêvão de Góis, nascido cerca de 1410, desta feita, ao que tudo indica, numa Clara Botelho, pois a 3.3.1455 D. Afonso V privilegiou Estêvão de Góis, cavaleiro da Casa do infante D. Fernando, concedendo-lhe a administração dos bens de morgado na vila de Abrantes que foram de Clara Botelho.

É de notar que, ao contrário de seu proposto meio-irmão o abade Diogo Lourenço (cerca de 7 anos mais velho) que assim usou o patronímico certo, D. Frei Nuno Gonçalves usou um patronímico que não tem qualquer justificação na ascendência paterna, pelo que, necessariamente, lhe veio pela mãe, que seria Gonçalves (ou filha de um Nuno Gonçalves), não tendo sido assim assumido pelo pai à nascença, razão pela qual terá tido o patronímico de origem materna.

Para facilitar a compreensão da genealogia medieval dos Góis, que anda muito baralhada nos nobiliários, apresento adiante um breve esquema da sua reconstituição.

Semião de Araújo de Góis, o Velho

Voltando a Gaspar de Araújo e sua mulher Catarina de Góis, cabe ainda dizer que tiveram seis filhos e vasta e ilustre descendência no Brasil, de que apresento adiante um breve esquema das primeiras gerações, para a elaboração do qual contei com a colaboração do genealogista brasileiro João Monteiro Gomes. A este artigo interessa o filho mais velho, Semião de Araújo de Góis, o Velho, cavaleiro fidalgo da Casa Real, segundo Frei Jaboatão, que diz dele que teve o «dom profético». Nasceu em Lisboa cerca de 1562, tendo vivido em (Rio) Matoim, onde faleceu a 1.1.1662, com cerca 99 anos, embora nas «Denunciações de 1618» se diga que «de sua única consorte teve vinte batizados, dos quais 12 homens de capa e espada e um Religioso da Companhia e duas filhas casadas com multiplicidade de netos e bisnetos, entre o decurso de 90 anos que contou de sua vida». A 6.4.1647, ainda estava vivo, seu filho Francisco de Góis de Araújo teve carta padrão de uma tença de 20.000 reais pelos serviços de seu pai Simeão de Araújo (RGM, Ordens, 2, 299). Casou nos finais de 1603 com Maria de Sequeira, nascida cerca de 1589 e falecida a 14.8.1664, ib, filha de Sebastião Pedroso Barbosa, natural de Viana do Castelo, e de sua 1ª mulher Leonor de Sequeira, moradores na capitania de Ilhéus, sendo esta Leonor irmã do jesuíta Padre Domingos de Sequeira (HCJB, I, 582; V, 228, 267, 268), nascido cerca de 1564 na vila de S. Jorge dos Ilhéus e falecido a 15.5.1621 na Baía com 57 anos de idade e 40 de Companhia. Aos 17 anos de idade Domingos de Sequeira ingressou na Companhia de Jesus, onde foi pregador, confessor, língua (conhecia a língua brasílica) e mestre dos meninos. Residiu, como jesuíta, na sua Casa do Espírito Santo, em Porto Seguro, em Santo António de Jaguaripe. Sebastião Pedroso Barbosa era filho de Sebastião Pedroso do Porto e sua mulher Maria Barbosa, moradores em Viana do Castelo, sendo esta filha de Tomé Lobato de Lamego e sua mulher Ana Barbosa de Moraes, também moradores em Viana do Castelo, sendo esta Ana tia paterna de Sebastião Barbosa de Moraes, arcipreste de Viana.

No já referido processo para a Ordem de Cristo do desembargador João de Góis de Araújo, em 1654, foram também ouvidas testemunhas em Viana do Castelo, mas, como é natural, já ninguém vivo conhecera Sebastião Pedroso Barbosa, que terá nascido cerca de 1560 e foi novo para o Brasil. Uma testemunha, Francisco de Paiva, de 72 anos, diz que conhecera uma irmã dele, Maria do Porto, e que eram de família nobre. Outra testemunha, o tenente Miguel Bezerra da Rocha, de 70 anos de idade, disse que Maria do Porto fora mãe do capitão Fernão Barbosa e de Gaspar Barbosa, por alcunha o "Gasparote", e uma filha, cujo nome não se lembrava, que fora casada com Marcos Pereira, das principais famílias desta vila, e ouviu dizer que a dita Maria do Porto tinha um irmão que «desta vila foi moço para as partes do Brasil por nome Sebastião Pedroso Barbosa e que lá casara».

Neste mesmo processo diz-se ainda que a antedita Leonor de Sequeira foi a 2ª mulher de Sebastião Pedroso Barbosa, mas é confusão, pois a 1ª mulher que lhe indicam era sobrinha da filha desta Leonor de Sequeira. Com efeito, Sebastião Pedroso Barbosa casou 2ª vez com Isabel de Eça, e só a 3ª vez com a já referida Maria de Góis de Macedo, que era sobrinha deste Semião de Araújo de Góis, genro de Sebastião Pedroso Barbosa. E deste 3º casamento ainda teve 11 filhos!

Semião de Araújo de Góis, o Velho, e sua mulher Maria de Sequeira tiveram 16 filhos, interessando a este artigo dois deles: Gaspar de Araújo de Góis, o primogénito, e Semião de Araújo de Góis, o Moço.

Gaspar de Araújo de Góis

Gaspar de Araújo de Góis foi b. a 26.11.1606 em Maoim e faleceu a 9.8.1692 na Baía, onde foi vereador (1650), provedor da Santa Casa da Misericórdia (1682) e encarregado de cobrar no Reconcavo os açucares da vintena.

Casou a 1ª vez a 8.9.1630, ib, com Maria de Vasconcellos, a qual, juntamente com três dos quatro filhos, foi morta pelos holandeses a 8.9.1637. Era filha de Paulo de Carvalhal, cavaleiro fidalgo da Casa Real, b. a 11.7.1557, ib, e decapitado em Salvador com cadeia no pé, a 7.10.1614, e de sua mulher D. Francisca de Aguiar de Espinosa, filha de Cristóvão de Aguiar de Altero, o Velho, «fidalgo mui esclarecido e neto de Pedro Vaz, colaço del rei D. Pedro I» (Jaboatão), e de sua mulher Isabel de Figueiró (possivelmente filha de Francisco Bruzza de Espinosa, o bandeirante). Paulo de Carvalhal de Oliveira era filho de António de Oliveira, cavaleiro fidalgo que foi feitor e almoxarife da capitania da Baia (CJIII, 24, 104v), e não, como dizem, alcaide-mor da Baía, cargo que teve Diogo Moniz Barreto (CJIII, 59, 13v). Jaboatão conta que Paulo de Carvalhal e o filho, Bartolomeu de Vasconcellos, «mataram ao ancião Francisco de Barbuda em 11.3.1607, abrindo-o a machado, de alto a baixo pelas costas», e, sendo nobre, Paulo de Carvalhal teve o privilégio da decapitação.

Gaspar de Araújo de Góis casou a 2ª vez a 24.1.1638, na capela de Santa Luzia, com Maria do Rego, filha de Sebastião Paes de sua primeira mulher Isabel de Azevedo, neta paterna de Aleixo Paes, o Velho, natural da ilha de Santa Maria, «lavrador de canas» no engenho de Diogo Lopes Ulhoa, e de sua mulher Apolónia Nunes. E casou a 3ª vez a 4.3.1650 na Baía com Ana de Azevedo, fal. antes de 1655, filha de Gaspar de Azevedo e de Maria Nunes, s.g. E ainda casou a 4ª vez a 11.5.1655, ib, com D. Isabel Telles, filha de António Moniz Telles, fidalgo escudeiro, e de sua mulher Cristina Coutinho. Gaspar de Araújo de Góis teve 15 filhos do 1º e 2º casamentos. A este artigo interessa a filha do 2º casamento, D. Isabel de Azevedo de Góis, casada com o capitão António de Queiroz Cerqueira.

António de Queiroz Cerqueira e os Queiroz de Amarante