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Argollo
Uma
família brasileira de 1500
Subsídios
para a sua genealogia,
para
a dos Lobo de Souza e
para a dos Góis

As
donzelas Lobo de Souza
Uma
das
mais antigas famílias da Baía que manteve a varonia, os Argollo, de
origem andaluza (Baeça), foram para o Brasil em 1549 com o 1º governador
Tomé de Souza. Com a independência, vários membros da varonia da família
foram grandes do Império, com os títulos de condes (1860), viscondes
(1854) e barões (1843) de Passé, viscondes de Itaparica (1868), barões
de Cajaíba (1841) e barões de Pará-Mirim (1860), e um foi mesmo figura
proeminente na implantação da República
dos Estados Unidos do Brasil.
Nos
finais do séc. XVIII, Paulo de Argollo e Gusmão, então o chefe da família,
tinha uma fortuna avaliada em mais de 48.000.000 réis, com fazendas,
engenhos de açúcar e mais de 500 escravos. Ao contrário do que aconteceria
depois, antes da independência do Brasil, os Argollo, com foro de fidalgos
da Casa Real referido desde o séc. XVI e documentado desde 1711, mantiveram-se
relativamente afastados da administração geral, ocupando apenas cargos
militares e da governança da Baía, mantendo nas gerações iniciais a
propriedade da provedoria da fazenda e da alfândega da Baía. Família
extremamente endogâmica, são inúmeros os casamentos entre primos e vários
entre tio e sobrinha e tia e sobrinho.
O
primeiro da família, Rodrigo de Argollo (nos documentos aparece Argolo,
Argullo ou Arguelo), foi provedor da fazenda real do Brasil e casou
ainda em Lisboa com a portuguesa Joana Barbosa, que é dita «sobrinha
do conde da Sortelha» nas genealogias brasileiras e erradamente
incluída no lote das órfãs, donzelas da rainha D. Catarina, que D. João
III, em 1551 na armada de António de Oliveira e
em 1553 na armada de Duarte da Costa,
enviou
ao governador do Brasil Tomé de Souza para casarem com «pessoas principais
que houvesse na terra», respondendo assim a pedido (1543) do Padre
Manuel da Nóbrega, para evitar os casamentos consanguíneos entre a nobreza.
A verdade é que Joana Barbosa
era tia de uma das ditas órfãs e prima da outra, e foi para o Brasil
já casada e com filhos.
Mas,
tanto quanto nos permite a documentação até agora inventariada, analisemos
toda a confusa questão das chamadas donzelas órfãs Lobo de Souza, que
Frei Jaboatão, não sei com que bases, refere que «dizem as memórias,
que delas tratam, eram sobrinhas do conde de Sortelha» e filhas
de Baltazar Lobo de Souza. É certo que uma das filhas de Baltazar Lobo
de Souza nem foi órfã nem enviada por D. João III,
como dizem, tendo ido para o Brasil já casada e com alguns filhos.
E que outra das alegadas filhas de Baltazar Lobo de Souza se documenta
sua neta. Com efeito, Joana Barbosa nasceu cerca de 1515 e casou em
Lisboa cerca de 1529 com o andaluz Rodrigo de Argollo, então moço da
câmara da rainha D. Catarina, que para cá o trouxe, e futuro 1º provedor
da fazenda real do Brasil e provedor da alfândega e defuntos da capitania
da Baía, como ficou dito. A outra era filha de um irmão desta Joana
Barbosa, Henrique Lobo, nascido cerca de 1517, e de sua mulher Isabel
de Reboredo 1a,
com quem tinha casado cerca de 1540.
Como
demonstrarei adiante, esta história das órfãs sobrinhas
do conde de Sortelha que foram enviadas ao Brasil por D. João
III para casar, tem muitos erros: não eram sobrinhas do conde
de Sortelha nem dos Lobo do Alvito, e nem todas eram órfãs
ou eram filhas de quem as genealogias alegam.
Começando pelo princípio, quem era este Baltazar Lobo
de Souza? Nascido cerca de 1492,
fidalgo referido por João de Barros, esteve em Surate (1530), foi capitão-mor
de Cananor (CJIII, 15, 30v) e de Bardez, e
em 1547 comandou uma armada que foi a Madagáscar. A 24.2.1547 Baltazar
Lobo de Souza, fidalgo da Casa de D. João III, teve deste rei
mercê para poder mandar vir da Índia duas caixas forras
(RCI, 7, 55). A 10.12.1555 escreveu à rainha pedindo-lhe que rogasse
ao rei que mandasse fazer um recolhimento em Goa para os órfãos e desamparados.
A 10.12.1556 escreveu outra carta1b
aos reis, onde diz que andou no serviço da Índia e comandou uma armada,
onde seu irmão Belchior de Souza foi capitão da nau Santa Cruz, a única
da armada de seis que não se perdeu, e que estava pobre, e velho, e
com dez filhos e filhas e mulher na ilha de S. Lourenço, que o governador
Francisco Barreto o mandara descobrir, pela parte de fora, e fazer,
no melhor porto e baía que descobrisse, uma fortaleza para servir de
escola às naus da Índia. Tendo-lhe o dito governador feito mercê da
fortaleza que se fizesse, por seis anos, com o ordenado da Índia, o
que tudo fez com grandes perigos, e queria agora que o rei lhe confirmasse
o senhorio de juro e herdade da ilha, com o título de capitão general,
pedindo mercê de todas as ilhas que descobrisse e dos portos que achasse
do cabo da Boa Esperança até ao das Correntes, tarefa em que mandaria
seus filhos, pedindo ainda para o filho mais velho o cargo de juiz da
alfândega de Goa no caso de ele morrer. Acrescenta que para a ilha de
S. Lourenço foi como comandante de uma armada de três navios, sendo
capitães Heitor Nunes de Góis, filho de Fructus de Góis (meio-irmão
do grande Damião de Góis, referido adiante), e Pedro Rodrigues Barriga,
cavaleiro da Casa Real. Diz ainda ter levado consigo dois padres franciscanos
para instruírem os habitantes na fé, e pede licença para ali edificar
uma igreja a Nossa Senhora da Conceição. Assina esta carta como Baltazar
Lobo de Souza. Finalmente, a 24.2.1568 Baltazar Lobo de Souza, fidalgo
da Casa de D. Sebastião, teve deste rei mercê da capitania-mor
de Bardez (RCI, 11, 414).
O
seu nome, conjugado com a referência de que as alegadas filhas eram
sobrinhas do conde de Sortelha, apontaria claramente para que fosse
filho de D. Diogo Lobo (de Souza), 2º barão de Alvito, e de sua 2ª mulher
D. Leonor da Silveira, justamente irmã do 1º conde de Sortelha. Mas
deste casamento não há notícia de nenhum filho Baltazar, além de que
todos os filhos dos 2ºs barões de Alvito se documentam com Dom, apesar
de um esclarecimento real de 6.10.1488, segundo o qual os barões de
Alvito e sucessores podiam usar Dom, mas os outros filhos não. Mas,
mais determinante ainda, D. Diogo só casou com D. Leonor depois de 1508,
ano em que morreu sua 1ª mulher D. Joana de Noronha, filha dos 2ºs condes
de Abrantes. E menos crível ainda é pensar que Baltazar pudesse ser
filho de D. Joana de Noronha, sendo no geral de rejeitar por completo
a ideia de que bisnetas dos barões de Alvito pudessem ser enviadas aos
molhos para casarem no Brasil, por muita vontade que D. João III tivesse
em satisfazer o pedido do Padre Manuel da Nóbrega.
Baltazar Lobo de Souza era, como vimos, irmão de Belchior de Souza,
que aliás as genealogias dizem (erradamente, como veremos) avô
da outra órfã Lobo de Souza. Mas felizmente foi-me possível documentar
a filiação deste Belchior, pois trata-se do Belchior de Souza, fidalgo,
filho de Diogo Lobo e sua mulher D. Filipa de Souza, que embarcou para
a Índia na nau Stº António em 1534, com 1.240 reais de moradia do seu
foro de escudeiro fidalgo, como regista D. Flamínio de Souza (Arquivo
de Documentos Históricos). É o Belchior de Souza Lobo que D. João
III nomeou capitão de viagens da Índia (CJIII, 56, 53v), e ainda
o que é referido numa carta que a 28.11.1545 Manuel de Vasconcellos
escreveu ao rei, dizendo que ao tempo em que chegara a Cananor se estava
em guerra por Belchior de Souza, capitão de costa, ter matado um regedor
mouro e seu cunhado, e que só há seis meses tinha conseguido a paz.
E o Belchior de Souza Lobo, fidalgo da Casa de D. João III, a
quem este rei a 3.3.1553, pelos seus serviços, fez mercê
da capitania-mor de Sofala, por três anos (RCI, 8, 63).
Finalmente, a 13.13.1563 D. Sebastião, pelos serviços
de Belchior de Souza Lobo, fidalgo da sua Casa, marido de Dona Luiza
de Goes, fez mercê da capitania de uma das naus da ìndia
por duas viagens à pessoa que casar com sua filha D. Filipa de
Souza (RCI, 11, 129).
Portanto, Baltazar Lobo de Souza era de facto filho de um Diogo Lobo,
mas completamente distinto do homónimo que foi 2º barão de Alvito, e
daí talvez a confusão genealógica que se estabeleceu. De resto, já Alão,
sem o identificar e sem apontar o irmão documentado Belchior, dá ao
casal Diogo Lobo e D. Filipa de Souza um único filho, justamente chamado
Baltazar Lobo de Souza!
Temos portanto estabelecida a filiação de Baltazar e, com ela, a sua
ascendência. E ficamos assim a saber que Baltazar, inegavelmente um
fidalgo, tinha uma origem mista, algo típica de Quatrocentos, onde se
misturou o sangue plebeu, nobilitado pela toga, com a velha fidalguia,
no caso vertente algo dissoluta. Com efeito, Baltazar era trineto por
varonia, segundo Alão, de um ourives de Lisboa, quiçá cristão-novo.
Mas também era neto dos senhores de Baião e, por esta linha, 6º neto
do rei D. Pedro I e de D. Inez de Castro.
Antes de analisar a sua ascecendência, convém dizer que
o mesmo D. Flamínio de Sousa, em notas soltas sobre os Lobo,
diz num parágrafo que Belchior de Souza Lobo, filho de Diogo
Gonçalves Lobo, casou com D. Luiza, filha de Fruitos de Góis
e Isabel Perdigão, sendo pais de D. Filipa de Souza, que casou
com seu primo Diogo de Góis Perdigão, filho de António
de Góis Perdigão. Acrescentado que em 6.12.1561 D. Luiza
de Góis fez, no escrivão Bernardo Moniz, o arrendamento
das casas em que vivia, na ilha Terceira, que lhe aforara sua filha
D. Filipa de Souza. E noutro parágrafo, aparentemente sem perceber
a ligação, diz que Diogo Lobo, filho do Chanceler,
casou com D. (espaço em branco) de Souza, sendo
pais de: 1) João de Souza Lobo, que passou à
Índia na armada de 1508, como o foro de moço fidalgo da
Casa Real com 150 reais de moradia (teria 17 ou 18 anos); 2)
Baltazar Lobo, que também tinha o foro de moço fidalgo
da Casa Real com 150 reais de moradia e passou a escudeiro fidalgo em
1527; 3) Cristóvão Lobo, o mesmo; 4)
Belchior Lobo, o mesmo, indo para a Índia em 1534. É portanto
o já referido Belchior
de Souza, fidalgo, filho de Diogo Lobo e sua mulher D. Filipa de Souza,
que embarcou para a Índia na nau Stº António em 1534, com 1.240 reais
de moradia do seu foro de escudeiro fidalgo; 5) Francisco
de Souza Lobo, que em 1526 tinha foro de moço fidalgo da Casa
Real; 6) Jorge de Souza Lobo, o mesmo; 7)
Gaspar Lobo, que tinho o mesmo foro de moço fidalgo em 1528.
Tendo em conta a cronologia conhecida e a referida pelo próprio
D. Flamínio, tudo indica que Belchior de Souza Lobo fosse não
o 4º mas o mais novo dos filhos, sendo Baltazar de facto o 2º.
A mãe destes, D. Filipa de Souza, nascida cerca de 1472, era filha do
conturbado casamento de João Fernandes de Souza, 4º senhor de juro e
herdade de Baião (3.6.1500), com sua 2ª mulher D. Joana da Guerra.
João Fernandes de Souza, nascido cerca de 1454/5 e falecido depois de
1513, cedo ficou órfão de pai e era o único neto de Luiz Álvares de
Souza, 3º senhor de juro e herdade de Baião (23.10.1412, ainda menor,
confirmado a 4.11.1434), fidalgo do Conselho e provedor da fazendo do
Porto (1451), que ainda vivia a 9.2.1480, data em que D. Afonso V mandou
que Luiz Álvares de Souza, do seu Conselho e provedor da fazenda régia
da cidade do Porto, e seu neto João Fernandes de Souza, que têm a jurisdição
do crime do mosteiro de Ancêde, que não entrem em disputas com o prior
D. João, que tem a jurisdição do cível do dito mosteiro. E provavelmente
ainda viveu até 1500, pois só a 3 de Junho deste ano seu neto é confirmado
no senhorio de Baião. O que faz com que tenha falecido com muito avançada
idade, uma vez que casou com contracto de 21.6.1428 com D. Filipa Coutinho,
conforme mais detalhadamente refiro no meu trabalho
«Os filhos e netos do «muj honrrado barom» Dom Frei Lopo Dias de
Souza, 8º mestre da Ordem de Cristo».
A
3.6.1500 João Fernandes de Souza teve de D. Manuel I confirmação da
doação das terras de Baião, Lage e S. Salvador com os moinhos de Avitoure
(concelho de Cinfães), «de juro e herdade, com toda sua jurisdição
cível e crime e ponha em eles juízes e justiças» e possa apresentar
tabeliães, como sucessor de seu avô Luiz Álvares de Souza e seu bisavô
(na verdade trisavô) D. Frei Álvaro Gonçalves Camelo, prior da ordem
do Hospital, o qual as recebera do irmão Vasco Gonçalves Camelo que
falecera sem deixar filho lídimo, a quem haviam sido doadas por D. João
I. Insertas confirmações de D. Duarte de 4.11.1434 e de Afonso V de
22.7.1449. Na mesma data teve confirmação da doação dos padroados das
igrejas de Santa Maria de Gove e de S. Bartolomeu, na terra de Baião.
Inserta a carta de D. Afonso V de 3.10.1464 com a outorga desta mercê
a seu avô Luiz Álvares de Souza, do Conselho d'el rei e vedor da fazenda
na cidade do Porto. A 2.7.1500 João Fernandes de Souza, fidalgo da Casa
d'el rei, teve confirmação do privilégio (inserido diploma de 6.12.1493)
pelo qual todos os caseiros, amos, mordomos e lavradores que viverem
e lavrarem nas suas terras, quintas, herdades e casais encabeçados sejam
escusados, entre outras obrigações, de servirem nos encargos do concelho.
Embora Mafra e Ericeira pertencessem na sua maior parte ao conde de
Penela, João Fernandes de Souza terá tido ainda, de sua avó, uma parte
destas vilas, pois a 3 de Junho do mesmo ano João Fernandes de Sousa,
fidalgo da Casa Real, teve confirmação de um privilégio (inseridos diplomas
de 10.1.1476 e 28.8.1409) pelo qual os moradores de Mafra e da Ericeira
são escusos de servir por mar ou por terra, não havendo, por outro lado,
nesses lugares, alcaide dos homens do mar nem almirante do rei que use
desse ofício. A vila de Mafra e seus termos gozam ainda do privilégio
de que não haja besteiros do conto, nem anadel dos mesmos nas suas terras.
E ainda vivia a 13.3.(1513 - a carta não indica o ano), pois nesta data
Lançarote Domingues, morador em Benavente, foi nomeado tabelião do público
e judicial no concelho de S. Cristóvão de Nogueira por proposta de João
Fernandes de Souza, senhor dessa terra, tal como até aqui foi João Pires,
tendo-o renunciado para a coroa por carta de 10.3.1513.
João Fernandes de Souza era filho de Fernão Martins de Souza, que morreu
em vida do pai, e de sua mulher Joana de Almada (a quem Alão
chama erradamente D. Joana Nogueira), filha de João Afonso de Brito,
o Moço, morgado de Stº Estêvão de Beja, e de sua mulher Violante Nogueira,
herdeira do morgado e capela de S. Lourenço de Lisboa e da capela de
D. Pedro Pires (neta do celebrado doutor João das Leis). Este casamento
realizou-se antes de 11.4.1455, data em que D. Afonso V fez quitação
a Fernão Martins de Souza, fidalgo da sua Casa, marido de Joana de Almada,
donzela da infanta D. Catarina, doando-lhe uma tença anual de 30.000
reais de prata até ao pagamento das 3.000 coroas de ouro que tinham
recebido pelo seu casamento.
Fernão Martins de Souza teve a 26.1.1453, ainda solteiro, carta de perdão
real, a pedido da rainha D. Isabel, da acusação de ter ferido João Fernandes,
porteiro da câmara na cidade de Lisboa. A 21.6.1462 um seu criado foi
nomeado para o cargo de requeredor das sisas do haver de peso, do ferro,
madeira e hortaliça da cidade do Porto. A 23.7.1462 o rei doou a Fernão
Martins de Souza, fidalgo da sua Casa, uma tença anual de 28.000 reais
de prata. E ainda vivia a 17.2.1466 quando D. Afonso V privilegiou Vasco
Martins de Resende, do seu Conselho e regedor da justiça na comarca
de Entre-Douro-e-Minho, para que possa nomear Fernão Martins de Souza,
fidalgo da sua Casa, para o cargo de juiz dos feitos nessa comarca.
Voltando ao 4º senhor de Baião João Fernandes de Souza, o mais que se
conhece dele são os problemas de saias… Segundo Alão, «teve amores»
na corte de Lisboa com D. Isabel da Silva, filha dos futuros 1ºs viscondes
de Vila Nova de Cerveira, mandando-a por isso o pai recambiada para
o seu paço de Giela, no Minho. Mas João Fernandes seguiu-a e conseguiu
entrar às escondidas em Giela, onde foi apanhado pelos irmãos da amante,
que o queriam matar, o que não fizeram porque sua irmã lhes garantiu
que tinham casado em segredo. Não foi o futuro visconde em conversas
e obrigou-os a casarem ali mesmo, cerimónia forçada que deve ter ocorrido
cerca de 1470, seriam ambos ainda menores. Mas pouco depois João Fernandes
foi para as terras do avô em Baião, abandonando a grávida D. Isabel
em Giela e (diz Alão que «em vingança») cerca de 1471 casou «a
furto» com sua prima D. Joana da Guerra, raptando-a da casa de seu
avô materno, o reposteiro-mor e conselheiro Álvaro Pires de Távora,
senhor de juro e herdade de Mogadouro e S. João da Pesqueira. Esta D.
Joana, nascida cerca de 1454/5, era da idade do marido, teriam então
ambos apenas 17 anos de idade, e eram primos relativamente próximos,
pois eram ambos trinetos do marechal-mor e meirinho-mor Vasco Fernandes
Coutinho, senhor de Marialva.
Diz Alão que João Fernandes foi depois a Roma e trouxe de lá a validade
deste 2º casamento, o que se confirma, pois dez anos mais tarde, a 1.6.1481,
D. Afonso V privilegiou D. Joana da Guerra, mulher de João Fernandes
de Souza, fidalgo da sua Casa, concedendo-lhe autorização para que nos
anos de 1481 e 1482, enquanto o marido estiver na armada contra o turco,
possa gerir os bens de que era usufrutuário o dito seu marido.
Contudo, algum tempo depois de regressar do combate ao turco, parece
que João Fernandes teve notícia de que D. Joana da Guerra tinha tido
uma relação incestuosa com seu meio-irmão Manuel Coutinho, pelo que
a repudiou e voltou de novo para a 1ª mulher D. Isabel da Silva, de
quem tinha uma filha.
Na
sequência deste escândalo, D. Joana fugiu para Castela com o dito seu
meio-irmão. De seu marido tinha D. Joana dois filhos, Fernão Martins
de Souza e a dita D. Filipa de Souza, nascidos entre 1471 e 1473. A
fuga para Castela de D. Joana deve ter-se realizado cerca de 1488, pois
Alão diz que com ela iam os filhos, mas que refugiando-se em Fonte Arcada
da Beira, em casa de Pedro de Gouveia, aí casou seu filho com uma filha
deste. Talvez se trate do Pedro de Gouveia, fidalgo da Casa Real, a
quem a 26.8.1475 D. Afonso V doou as rendas da pensão dos tabeliães
da cidade de Lamego. Suponho eu que o filho e a filha de D. Joana terão
assim ficado em casa do dito Pedro de Gouveia, tendo apenas ela e seu
meio-irmão seguido para Castela, certamente receosos pela sua vida.
Terá havido de facto um caso de incesto, ou tudo não passou de uma tramóia
dos Lima e de D. Isabel, que deste modo conseguiu reaver o marido? Na
verdade, o fundamento desta história de incesto parece precário, uma
vez que D. Joana nasceu cerca de 1454/5 e seu meio-irmão, filho bastardo
de Gonçalo Vaz Coutinho, matriculou-se em ordens menores em Braga a
29.4.1480, pelo que não terá nascido antes 1467, ou seja, era pelo menos
12 a 13 anos mais novo do que a meia-irmã D. Joana. Na data em que esse
caso de incesto poderia ter acontecido, cerca de 1487/8, D. Joana teria
entre 32 e 34 anos e seu meio-irmão no máximo 20 de idade, pelo que
tudo me parece mais resultado de uma maquinação. De resto, o dito Manuel
Coutinho veio a casar e a ter filhos que nasceram entre 1504 e 1510,
o que aponta para que de facto tenha nascido alguns anos depois de 1467.
Mas, verdadeira ou não, esta história, que parece tirada de um romance
barato, tem contudo antecedentes suficientemente escabrosos para que
a simples suspeita, mesmo infundada, apavorasse o suficiente D. Joana
para que a sua fuga se compreenda, mesmo se inocente. É que D. Joana
da Guerra era filha do mal-afamado Gonçalo Vasques Coutinho, filho herdeiro
dos senhores de Basto, figura violenta e instável que sucessivamente
matou as suas duas mulheres, sendo julgado culpado e degolado em Santarém
pela morte da segunda, D. Joana de Noronha. A execução de Gonçalo Vaz
deu brado na época e dizia-se que o seu fantasma apareceu em Santarém,
em S. Domingos das Donas, ao rei D. João II, como muito circunspecto
nos conta Alão...
Mas
D. Joana era filha da 1ª mulher, de cuja morte o marido escapou ao castigo.
Era essa 1ª mulher D. Isabel da Guerra, com quem Gonçalo Vaz Coutinho
casou com autorização real de 27.3.1451 e escritura de dote de 3.2.1454,
feita nos paços de seu tio o arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra.
Era filha dos senhores de juro e herdade de Mogadouro e S. João da Pesqueira,
o já referido reposteiro-mor e conselheiro Álvaro Pires de Távora e
sua mulher D. Inez da Guerra, sendo esta filha de D. Pedro da
Guerra e de sua mulher D. Tereza Anes de Andeiro (filha do mal-afamado
D. João Fernandes de Andeiro, 2º conde de Ourém) e neta paterna do infante
D. João.
Não será portanto difícil imaginar a pesada herança que recaía sobre
a jovem D. Filipa de Souza, cujo nascimento estimo para 1473 e que teria
assim cerca de 15 anos quando, como suponho e ficou referido acima,
sua mãe a deixou na Beira ao cuidado de Pedro de Gouveia, sogro de seu
irmão Fernão Martins de Souza, nascido cerca de 1471/2, pelo que teria
16 para 17 anos quando foi casado. O que certamente determinou que,
pouco depois, D. Filipa tenha casado, muito abaixo da sua condição,
com um tal João Gomes, que Alão diz que era filho de Mestre Pedro, boticário
de Lisboa, mas que na verdade deve ser o Mestre Pedro, escolar em Física
(portanto médico), a quem D. Afonso V a 3.8.1439 concedeu licença para
exercer o ofício de cirurgião, por todo o reino e senhorio, mercê que
confirma a 23.2.1445. É também quase certo que o dito João Gomes era
seu filho legitimado, pois a 25.3.1454 o mesmo rei legitimou João e
Gonçalo, filhos de Mestre Pedro, cirurgião, e de Maria Gonçalves, mulher
solteira.
Este casamento de D. Filipa de Souza com o filho legitimado do cirurgião,
que se terá realizado cerca de 1588, teria ela 15 anos de idade, além
de desigual em condição foi-o também em idade, se aceitarmos que o marido
é o João legitimado em 1454, pois neste caso teria pelo menos mais 22
anos do que ela. Donde se conclui que foi casamento tratado pela família,
ou pelo dito Pedro de Gouveia, pelo que o filho de Mestre Pedro devia
ser rico... E esta diferença de idades também se avalia pelo facto de
este casamento ter sido necessariamente muito curto e, dizem as genealogias,
sem geração.
Portanto, foi já viúva deste João Gomes, e possivelmente viúva rica,
que D. Filipa casou 2ª vez, cerca de 1490, com Diogo Lobo, de uma família
de notáveis jurisconsultos.
Diogo Lobo, nome com que se documenta, a quem as genealogias em geral
chamam Diogo Lobo Teixeira, estudou na Universidade de Bolonha com seu
irmão mais velho, o doutor Luiz Teixeira, desembargador do Paço, mestre
de Gramática de D. João III e comendador da Granja e de S. Gonçalo de
Amarante na Ordem de Cristo, ambos filhos do notável jurisconsulto doutor
João Teixeira e de sua mulher Maria Lobo, irmã de Rui Lobo, fidalgo
da Casa Real, desembargador e corregedor de Lisboa no reinado de D.
Afonso V e vedor da fazenda de D. João II, ambos filhos do corregedor
de Lisboa Diogo Gonçalves Lobo, que foi vedor da Casa da rainha D. Leonor
e válido de seu marido o rei D. Duarte, e de sua mulher a castelhana
D. Elvira de Olivares, dama da dita rainha D. Leonor. A 10.4.1451 D.
Afonso V nomeou Diogo Gonçalves Lobo, escudeiro, vedor que foi da rainha,
para o cargo de corregedor da cidade de Lisboa, em substituição do doutor
Pedro Faleiro. E a 13.4.1452 doou a Gonçalo Dias Lobo, filho de Diogo
Gonçalves Lobo, corregedor na cidade de Lisboa, uma tença anual de 4.800
reais de prata para mantimento de seus estudos.
Aquele doutor João Teixeira foi chanceler-mor do reino (10.7.1484),
do Conselho de D. Afonso V e D. João II, desembargador do Paço, embaixador
de D. Afonso V ao Papa Xisto IV, para tratar do casamento deste rei
com a sobrinha, e de D. João II aos Reis Católicos, para propor e tratar
o casamento do herdeiro português com a herdeira de Castela. Foi ele
que recitou o elogio a D. Pedro de Menezes na cerimónia em que o rei
o fez marquês de Vila Real. O doutor João Teixeira estudou Direito nas
universidades de Paris e Bolonha, tendo para o efeito recebido do rei
a 29.7.1451 uma tença anual para estudos de 4.800 reais de prata. A
15.9.1473 era já desembargador e a 25.8.1475 D. Afonso V nomeou o doutor
Diogo da Fonseca, do seu Conselho, para o cargo de desembargador régio
e das petições, em substituição do doutor João Teixeira. Antes, a 6.1.1475,
o rei tinha nomeado vitaliciamente o doutor João Teixeira, do seu Conselho,
desembargador régio e das petições, para o cargo de vice-chanceler,
com todas as honras, liberdades, franquezas e privilégios dos vice-chanceleres,
mandando que lhe entreguem os selos redondos com os pendentes de prata
e de metal. E a 23 de Outubro do mesmo ano D. Afonso V doou vitaliciamente
ao doutor João Teixeira, seu criado e do seu Conselho e desembargador
régio e das petições, a moradia do Conselho por ano, tal como tem Álvaro
Pires Vieira, do seu Conselho, acrescentando-lhe mais 40.000 reais.
O doutor João Teixeira era filho de outro notável jurisconsulto, o desembargador
Luiz Martins, um dos compiladores e revisores das «Ordenações Afonsinas»,
e de sua mulher Isabel Teixeira. Esta filiação, referida por Alão, documenta-se
na já referida bolsa de estudo de 1451, que é dada a João, filho de
Luiz Martins, desembargador do Paço. Luiz Martins aparece em dezenas
de documentos da Chancelaria, durante todo o reinado de D. Duarte, como
seu vassalo e do seu desembargo, cargo que manteve com D. Afonso V.
A 26.4.1439 este rei confirmou o privilégio a Luiz Martins, seu desembargador,
pelo qual lhe coutava a terra a que chamavam Romão Grande e Pequeno,
situada perto do Paço da Valada, conforme carta de D. Duarte de 10.2.1434.
A 12 de Junho do mesmo ano o mesmo rei confirmou o privilégio a João
Escudeiro, morador em Benfica, termo da cidade de Lisboa, criado da
mãe de Luís Martins, desembargador régio, pelo qual estava isento de
ser posto por besteiro do conto, conforme alvará de 20.3.1435. Segundo
Alão, como ficou dito, este desembargador Luiz Martins era filho de
um ourives de Lisboa, arte que, convém notar, era a única nobilitante.
Voltando a Baltazar Lobo de Souza, nasceu cerca 1492 e, como vimos,
tinha o foro de moço fidalgo da Casa Real com 150 reais de moradia
quando em 1527 passou a escudeiro fidalgo. A avaliar pelo nome da filha,
casou com uma senhora Barbosa, possivelmente Joana, justamente como
a filha, não devendo ser esta mulher, mas já outra, que em 1556
estava com ele e os filhos na ilha de S. Lourenço, como ficou dito.
Na expedição a Madagáscar de 1547 era acompanhado por seu filho Diogo
Lobo, como diz João de Barros, certamente o primogénito (após
a morte de Henrique, do 1º casamento) para quem em 1556 pediu ao
rei o cargo de juiz da alfândega de Goa, e o Diogo Lobo que foi feitor
de Achem (CJIII,7, 230v). Poderia tê-lo acompanhado a Madagáscar
o filho Henrique Lobo, e aí ter falecido? O certo é que já
tinha falecido quando sua filha foi para o Brasil. Henrique Lobo casou
com Isabel de Reboredo e foram pais da outra das órfãs que nos interessam,
Catarina Lobo, nascida em 1541 em Setúbal, que casou no Brasil em 1560,
aos 19 anos de idade, com Gaspar de Barros de Magalhães, nessa data
contador da fazenda real do Brasil. Desta Catarina sabemos que efectivamente
foi uma das órfãs enviadas ao Brasil por D. João
III, pois ela própria o declarouem 1591, diante do inquisidor
(Denunciações da Bahia, ed. Capistrano, p. 404), dizendo
que era natural de Setúbal, que tinha 50 anos e era «uma
das órfãs que El Rei D. João mandou a este Brasil»
e filha de Henrique Lobo. Estes foram, nomeadamente, pais de Felícia
Lobo, que, dos seus quatro casamentos, um foi com seu primo Paulo de
Argollo, filho dos ditos Rodrigo de Argollo e Joana Barbosa.
De Baltazar era irmão o já referido Belchior de Souza Lobo, que
também tinha o foro de moço fidalgo da Casa Real com 150
reais de moradia quando em 1527 passou a escudeiro fidalgo e que já
fora servir para a Índia em 1534. Casou este Belchior com D. Luiza de
Góis, como já acima ficou documentado, irmã de António de Góis
Perdigão, ambos filhos de Fructus de Góis (meio-irmão do grande Damião
de Góis), camareiro e guarda-roupa do D. Manuel I e D. João III,
e de sua mulher Isabel Perdigão, que trato adiante em GÓIS MEDIEVAIS.
De Belchior de Souza de sua mulher foi filha D. Filipa de Souza, que,
como acima ficou documentado, teve a 13.12.1563 mercê da capitania
de uma das naus da Índia para quem com ela casasse, e que casou,
provavelmente neste ano, com seu primo-direito Diogo de Góis, filho
do dito António de Góis Perdigão. Ao contrário do que alguns
dizem e eu também já segui, deste Belchior de Souza Lobo
não há descendência conhecida nem de sua filha D.
Filipa, ainda solteira em 1563, podem ser filhas D. Marta de Souza e
D. Maria (ou Mécia) Lobo, casadas em 1553. Na verdade, como diz
Frei Jaboatão, embora de forma muito confusa, estas são
filhas de Baltazar Lobo de Souza. Só que, se foram envidas por
D. João III para o Brasil, não eram então órfãs,
pelo menos de pai. Como vimos, Baltazar Lobo de Souza estava bem vivo
na Índia em 1556, com mulher e 10 filhos, e lá continuava
em 1568, teria então cerca de 75 anos. Mas os termos da carta
de 1556 indica que a mulher (e os filhos) seria um 2º casamento,
pois o 1º ter-se-à realizado cerca de 1517/8. Assim, D.
Marta de Souza e D. Maria (ou Mécia) Lobo deviam ser apenas órfãs
de mãe e donzelas da rainha quando em 1553 (ou 1551?) foram enviadas
para o Brasil, juntamente com sua sobrinha Catarina Lobo (que então
tinha 11 anos de idade e só casaria em 1560), essa sim órfã
de pai, sendo que na Baía já morava D. Joana Barbosa,
casada com Rodrigo de Argollo, irmã daquelas D. Marta e D. Maria/Mécia.
D. Marta de Souza, nascida cerca de 1534 e falecida a 6.6.1602 na Baía,
veio casar (1553) com João Gonçalves Drummond (Dormondo), nesse ano
documentado em Ilhéus. Nas Denunciações da Bahia de
1591 documenta-se esta «Dona Marta mulher de João
Gonçalves Dormondo», moradora na vila de Ihéus,
cristã velha e mulher virtuosa. João Gonçalves Drummond nasceu
cerca de 1502 na ilha da Madeira, filho de João Gonçalves, dito das
Ilhas, e de sua mulher Mécia Lourenço (Drummond), como adiante se detalha.
Este João Gonçalves das Ilhas deve ser o João Gonçalves que foi rendeiro
das ilhas dos Açores. Com efeito, a 14.3.1513 D. Manuel I mandou o almoxarife
das rendas do Sabugal levar em conta a João Gonçalves, rendeiro que
foi das ilhas, 31.000 reais por outros tantos que havia de haver Pedro
da Fonseca (CC, II, 37, 228). E a 25.3.1514 João Gonçalves fez obrigação
de 800 reais por 30 alqueires de trigo que recebeu de Namorante Vaz,
e se obrigou a pagar a quem tiver a cobrança do rendimento das ilhas
dos Açores (CC, II, 45, 202). A 17.12.1511 João Gonçalves passou recibo
por que consta ser devedor de 1.000 reais de meio moio de trigo que
recebeu do rendeiro das ilhas (CC, II, 29, 180). E a 4.11.1512 João
Gonçalves passou recibo por que se obriga a pagar ao rei 1 moio de trigo
de preço de 1.600 reais dos dízimos das Ilhas de que é rendeiro Namorante
Vaz. (CC, II, 35, 57). De D. Marta de Souza e seu marido foi filho,
entre outros, Belchior de Souza Drummond, nascido cerca de 1555, que
casou com Mécia de Armas e foram pais de D. Catarina de Souza, falecida
a 21.8.1649 ns Baía e aí sepultada no mosteiro do Carmo, que casou a
13.5.1603, ib, com Eusébio Ferreira, natural de Porto Santo (Madeira),
que foi vereador da Câmara (1626) e juiz ordinário (1635)
da Baía, onde faleceu a 1.11.1636. Destes foi filha mais nova
D. Clara de Souza, nascida cerca de 1621, que casou no início
de 1639 com o capitão Belchior Barreto de Teive, nascido cerca de 1620
na Madeira e que em 1638 foi para o Brasil como capitão (teria
18 anos), estando na Baía em Abril deste ano, quando contribuiu
com um empréstimo de 20.000 reais à Câmara para
auxílio à Infantaria. Em 1658 era escrivão da Misericórdia
da Baía e a 26.1.1663 foi acrescentado fidalgo cavaleiro da Casa
Real (Matrículas, 4, 262), vindo a falecer a 7.9.1663 (1662 segundo
o óbito referido por Pedro Calmon, mas é erro), sendo
sepultado no mosteiro do Carmo. Por sua morte, sua filha D. Maria teve
a 24.10.1664, pelos serviços de seu pai Belchior Barreto de Teive,
a promessa da Ordem de Cristo com 50.000 reais de pensão para
quem com ela casasse (RGM, Ordens, 5, 309v). Este Belchior Barreto de
Teive, que no foro vem referido como filho de Pedro de Teive (era filho
de Pedro de Teive y Guzmán e sua mulher Leonor Barreto), era
sobrinho de D. Gaspar de Teive y Guzmán, que em Espanha foi o
1º marquês de La Fuente e o 1º conde de Benazuza (13.12.1663),
sumilher-mor de D. Filipe IV, do seu Conselho de Estado (1661), do Conselho
de Guerra e das Índias, seu embaixador em França, Veneza
e Alemanha, etc., e que a seu avô materno D. Pedro Tello de Guzmán
sucedeu como senhor do mayorazgo de Lerena, alcaide-mor de Sevilha,
cavaleiro de Santiago e dos XXIV de Sevilha. Belchior Barreto de Teive
e sua mulher D. Clara de Souza tiveram dois filhos e duas filhas, nomeadamente
Pedro de Teive Barreto, baptizado a 26.10.1639, arcediago da Sé
da Baía, e D. Maria de Souza, que também aparece documentada
como D. Maria de Teive, baptizada a 20.4.1644 na Sé da Baía, que casou
a 1ª vez com João Soares Brandão, sem geração, e a 2ª vez com Miguel
Rodrigues de Gusmão, cavaleiro da Ordem de Cristo (26.2.1680, conforme
a referida promessa), irmão da Stª Casa da Misericórdia da Baía (24.9.1678),
etc., que foram pais de D. Inez de Gusmão. Esta D. Inez casou a 18.2.1692
no engenho de Copacabana com seu parente Paulo de Argollo, fidalgo da
Casa Real (30.1.1711), bisneto da outra órfã, Catarina Lobo, e igualmente
bisneto da tia desta Catarina, Joana Barbosa, filha de Baltazar Lobo
de Souza.
A outra filha de Baltazar Lobo de Souza que ficou referida acima, D.
Maria Lobo (que nas genealogias também aparece como D. Mécia
ou Mícia), nasceu cerca de 1536 e casou (1553) com Francisco
Bicudo, um dos fundadores da Baía, onde então era tabelião
(1553). Francisco Bicudo, que seria letrado, foi para Brasil com o 1º
governador Tomé de Souza em 1549, sendo espingardeiro d'el rei,
de quem recebia soldo neste mesmo ano (Doc. Hist. XIII, p. 289), e participou
na fundação da cidade da Baía (ib, vol. 37, p.
19), onde foi tabelião (CJIII, 57, 127). Tiveram três filhas,
a mais velha das quais, D. Mécia Lobo, foi bat. a 21.11.1554
na Sé da Baía, sendo a 1ª mulher de Jerónimo
Moniz Barreto, fidalgo da Casa Real, aí falecido a 12.10.1606.
Destes foi filha, entre outros, D. Mécia Lobo de Mendonça,
que casou a 25.11.1621 com seu primo Paulo de Argollo, sem geração,
como delalho adiante.
O
facto de todas estas donzelas terem ou pais ou parentes vivos (tio,
tias e avós) significa sobretudo que a decisão política/religiosa de
D. João III de enviar donzelas nobres para casarem no Brasil, respondendo
ao pedido do Padre Manuel da Nóbrega, deve ter-se confrontado com a
dificuldade de as arranjar, pois não parece fácil que os respectivos
pais o deixassem, podendo evitá-lo. Assim, o recurso a órfãs foi uma
solução, mas não a única, parecendo que
serem donzelas da rainha é o denominador comum. O que também
significa que a ida para o Brasil, das duas uma: ou foi autorizada pelas
famílias ou estas não tiveram como contrariar a vontade do rei. No caso
das Lobo de Souza, havia mesmo uma relação familiar, ou seja, uma irmã
(e tia) já tinha ido com seu marido (Rodrigo de Argollo) para a Baía
em 1549, o que pode ter sido determinante para o consentimento do pai
(e avô), então na Índia, cheio de filhos do que
parece ser um segundo casamento, e, segundo ele próprio, pobre
e velho, se bem que estas expressões em petições
ao rei são quase obrigatórias e muitas vezes estão
longe da realidade.
Esta questão era central na genealogia dos Argollo, pois descendendem
de três dessas alegadas órfãs (duas filhas e uma
neta de Baltazar Llobo de Souza). Tendo alguma dessa descendência regressado
a Portugal na viragem do séc. XVIII para o XIX, cerca de 250 anos depois
das suas antepassadas terem ido para o Brasil.

GENEALOGIA
1.
Rodrigo
de Argollo
(Argollo, Argullo ou Arguelo, como aparece documentado em Portugal;
mais tarde a família também aparece Argolo, sem a dupla consoante),
fidalgo nascido cerca de 1507, provavelmente em Baeça (Andaluzia), pois
usava o mesmo escudo de armas dos daí. Não se sabe a sua filiação, sendo
contudo quase certo que seria filho de Alonso de Arguello, morador em
Baeça, que a 2.7.1525 teve carta destas armas, a saber: escudo de ouro
com duas chaves de azul postas em pala, com os anéis para baixo, dispostas
em faixa e contrapostas, com bordadura de vermelho carregada de oito
aspas em ouro. Timbre: Leão rompante de vermelho segurando na garra
dextra uma das chaves. Este escudo de armas, usado pelos Argollo do
Brasil, é diferente dos restantes Argollo, que em geral usam um escudo
de vermelho com cinco flores de lis de ouro em aspa, com bordadura de
ouro, que também aparece carregada de oito quadros de veiros de azul.
Os Arguello de Brozas e Badajoz usam já um escudo de armas diferente:
de azul, um carvalho da sua cor com frutos em ouro e duas cabras de
ouro em pala, empinadas no tronco. Pela análise heráldica pode-se assim
concluir que os Argollo do Brasil descendem do ramo de Baeça.
O
certo é que Rodrigo de Argollo passou muito novo a Lisboa, em 1525,
com a rainha D. Catarina, de quem foi porteiro da câmara (Moradias,
2,4,59V) e moço da estribeira ou estribo (Moradias, 2,1,28). A
2.6.1529, já como moço da estribeira da Casa da rainha, teve desta provisão
para receber 2.000
reais da sua moradia de 12.000 reais por ano. Era então muito jovem,
e só 20 anos depois,
a 16.1.1549, D. João
III o nomeou 1º provedor da fazenda real do Brasil, bem assim como 1º
provedor (proprietário) da alfândega e defuntos da capitania da Baía
2,
dando-lhe ainda um alvará para resgatar um escravo cada ano
3.
Rodrigo de Argollo embarcou a 1.2.1549 em Lisboa, com o 1º governador
Tomé de Souza, tendo chegado ao Brasil a 29 de Março do mesmo ano, onde
por pouco tempo desempenhou aqueles cargos, uma vez que faleceu relativamente
novo a 15.11.1553. A
historiografia brasileira refere que Rodrigo de Argollo veio viúvo e
com filhos de Portugal, tendo na Baía casado 2ª vez, por insistência
do Padre Manuel da Nóbrega, com a dita Joana Barbosa, de quem não teve
geração, o que se documenta errado. A 18.11.1553 foi nomeado no cargo
de provedor Rodrigo de Freitas, o futuro jesuíta, «contratado para
haver de casar com uma sobrinha de Rodrigo de Arguello que Deus tem».
Rodrigo
casou
em Lisboa em finais de 1529 com D. Joana Barbosa, nascida
cerca de 1517, filha de Baltazar Lobo de Souza e de sua mulher (Joana)
Barbosa e neta paterna de Diogo Lobo e de sua mulher D. Filipa de Souza,
filha dos 4ºs senhores de juro e herdade de Baião, como largamente ficou
dito na introdução. Desta Joana Barbosa há duas cartas, ambas escritas
e assinadas por si e datadas de 10.8.1556 (CC, P.I, m.99, nºs 55
e 84), sendo viúva, uma pedindo para seu filho ao bispo da Baía
uma conezia na Sé que estava vaga, e outra carta para seu filho Luiz
de Vada, cónego da Sé da dita cidade, em que lhe diz a mesma coisa,
ou seja, que peça ao bispo uma conezia que se acha vaga para o seu irmão
e fala-lhe na dívida que deve a André Cabreira, para que ele saiba deste
em que género quer a paga e a quem o há-de pagar. Esse outro filho para
quem a mãe pediu a conezia foi Francisco de Argollo, que então tinha
cerca de 19 anos de idade, e que a obteve nos finais do ano seguinte.
1.1.
Luiz de Argollo,
que usou o nome de Padre Luiz de Vada. Foi cónego da Sé da Baía (10.10.1553)
e faleceu a 16.6.1568, no trágico acidente da nau «Nossa Senhora
da Ajuda», que deu à praia do rio Coruípe, tendo sido os passageiros
trucidados pelos índios caetés. De Portugal já veio clérigo de Ordens
Menores, onde terá nascido cerca de 1530, tendo sido apresentado pelo
pai ao bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, que o proveu cónego da Sé.
1.2. D.
Ana de Argollo, nascida em Lisboa cerca de
1532. Casou a 1ª vez a 24.11.1552 na Baía com João de Brito,
senhor do engenho de Paraguaçu, s.g. Casou a 2ª vez, também s.g., com
Gabriel Soares de Souza, autor do «Tratado Descritivo do Brasil»
(1587), que faleceu no sertão em 1592, nomeando seu sobrinho por afinidade
Bernardo Ribeiro, adiante, seu testamenteiro, com a obrigação de levar
o seu corpo a sepultar na igreja dos beneditinos sobre uma pedra onde
se dissesse «Aqui jaz um pecador». Por alvará de 13.12.1590 teve
Gabriel Soares mercê da Ordem de Cristo, com tenças de 50.000 reais,
para quatro cunhados e dois primos que o acompanharam no descobrimento
de minas no sertão.
1.3. D.
Maria de Argollo, nascida em Lisboa cerca
de 1534 e falecida a 11.2.1602 na Baía, ficando testamenteiro seu filho
Bernardo Ribeiro e sendo sepultada em S. Bento. Levou por dote a propriedade
do ofício provedor-mor da fazenda real do Brasil e da alfândega
da Baía. Casou a 5.11.1556 na Sé da Baía (Salvador), sendo testemunha
o governador D. Duarte da Costa, com António Ribeiro, capitão
e governador dos índios de Santa Cruz de Itaparica, por nomeação do
governador Mem de Sá. Em 1561 era capitão em Ilhéus, sendo nomeado a
14.10.1562 provedor-mor da fazenda real do Brasil e da alfândega
da Baía, cuja propriedade levara em dote. António Ribeiro tomou
o partido do governador D. Duarte da Costa contra o bispo D. Pedro Fernandes
Sardinha. Devia ser irmão de D. Agostinho Ribeiro, também bispo de Angra
e bispo de Lamego, nascido em Lisboa em 1483 e falecido em Xabregas
a 27.3.1554, que era filho de Martim Ribeiro, escrivão da Casa da Índia,
e de sua mulher Maria de Carvalho.
1.3.1. D.
Joana Barbosa, bat. a 10.3.1558 na Sé da Baía e falecida em
1589, sendo sepultada no Colégio. Casou com Diogo Correa de
Sande. Jabotão diz que este Diogo Correa, natural de Portugal, era
da casa dos Correa de Sá, tronco dos visconde de Asseca. Diogo Correa
de Sande tinha em 1584 um engenho em Jaguaribe considerado «uma das
melhores peças da Bahia, porque está muito bem acabado, com grandes
aposentos e outras oficinas, e uma fresca igreja de Vera Cruz»,
ficando perto do engenho de Gabriel Soares. Quando da invasão dos aimorés
em Ilhéus, o governador Manuel Telles ordenou que fossem repelir esses
bárbaros Diogo Correa de Sande e Fernão Cabral de Ataíde, «que possuíam
muitos escravos e tinham aldeias de índios forros». Diogo Correa
tinha também uma fazenda em Caípe.
1.3.1.1. André Correa de Sande, s.m.n.
1.3.1.2. António Ribeiro, referido como «primo
do capitão Francisco de Paula», combateu valentemente os holandeses
acastelados na Baía em 1624-5.
1.3.1.3. D. Maria de Argollo, s.m.n.
1.3.1.4. D. Leonor de Sande, que casou com Braz da
Costa Cirne, com ascendência cristã-nova. Foram pais de Valentim
da Costa, solicitador das causas da Baía, referido como «estudante
que tem raça de nação» nas Denunciações da Bahia de 1618.
1.3.1.5. D. Luiza de Sande, s.m.n.
1.3.1.6. Pedro Correa, s.m.n.
1.3.1.7. D. Catarina de Sande de Andrade, que foi
a 2ª mulher de Sebastião Pacheco de Castro, que tinha um engenho
em Itaparica, donde os holandeses foram desalojados em 1624. Tiveram
uma filha, D. Clara de Sande, que casou com o capitão Francisco Fernandes
da Ilha, que tinha uma fortuna avaliada em 700.000 cruzados. Destes
foram filhas D. Francisca de Sande e D. Catarina de Sande, esta a 1ª
mulher de Aires de Ornellas de Vasconcellos (1620-83), 6º morgado do
Caniço (Funchal), de quem nasceu Agostinho de Ornellas de Vasconcellos.
1.3.2.
D. Helena de Argollo, bat. a 7.6.1560, ib, que levou em dote a propriedade
do ofício provedor-mor da fazenda real do Brasil e da alfândega
da Baía. Casou em 1578 com Manuel de Sá Sottomayor,
que por sua mulher foi provedor da fazenda real e da alfândega da Baía
em 1578, tendo fal. em 1606.
1.3.2.1. D. Ana de Argollo, que levou em dote a propriedade
da provedoria da fazenda real e da alfândega da Baía e casou
em 1614 com o doutor Sebastião Parvi de Brito, que depois
casou com D. Joana de Argollo, referida adiante, prima da 1ª mulher,
o que veio a causar as maiores confusões genealógicas.
A 20.11.1614 o licenciado Sebastião Parvi de Brito pediu o cargo
de provedor-mor da fazenda da Baía por ser casado com uma filha
de D. Helena de Argollo, à qual o rei tinha confirmado o cargo
para casamento da filha. E a 30.1.1615 teve o respectivo alvará
de D. Sebastião I de provedor da fazenda real da Baía
(CSI, 33, 213). Sebastião Parvi de Brito enviuvou pouco depois, sem
geração, voltanto a casar em 1620 com D. Joana de Argollo,
referida adiante, onde trato este Sebastião com mais detalhe.
Este duplo casamento com duas Argollo não só confundiu
as genealogias como as próprias inquirições de
genere. É o caso do processo para familiar do Stº Ofº
(1689) de Sebastião de Brito e Castro, onde se diz que sua avó
materna D. Joana de Argollo, natural da Baía, era filha de Paulo
de Argollo, dizendo algumas testemunhas que era irmã do bispo
de Angra D. Agostinho Ribeiro. Estas, na verdade, estavam a confundir
numa só as duas mulheres de Sebastião
Parvi de Brito. Confusão que se estende mesmo a aguns historiadores
da Baía, que não percebem que o Sebastião Parvi de
Brito nomeado provedor da fazenda real em 1642 é o mesmo que
em 1615 foi nomeado para o mesmo cargo, conforme explico adiante.
1.3.3. Bernardo
Ribeiro, bat. a 20.8.1562, ib, bacharel formado em Teologia
pela Universidade de Coimbra (1588), a quem seu tio Gabriel Soares de
Souza, acima, nomeou testamenteiro. Foi procurador do
conde de Linhares em 1606 e, por morte de seu cunhado provedor-mor da
fazenda real do Brasil e da alfândega da Baía (24.11.1606). Em 1612
teve sesmaria em Jequiriçá, com engenho de açúcar. Pelas suas «ideias
heterodóxas» e proposições heréticas teve problemas com a
Inquisição de Lisboa a 29.7.1591, sendo referido como «Bernardo Ribeiro,
mancebo solteiro da idade de 30 anos mais ou menos», n. em Pernambuco,
com sentença de 19.2.1592 (TSO, IL, 13957).
1.3.4. D.
Agostinho Ribeiro (Frei Agostinho de S. Gonçalo), bat. a 4.3.1564,
ib, e falecido em Lisboa a 12.8.1621. Foi bispo de Angra
(29.7.1613), bispo de Ceuta e Tanger (1602), doutorado em Teologia e
cónego magistral da Sé de Lisboa. Foi o primeiro prelado natural do
Brasil e o primeiro baiano formado na Universidade de Coimbra, onde
se licenciou em Teologia em 1593.
1.3.5. Gonçalo
Ribeiro, estudante de Teologia na Universidade de Coimbra
em 1588.
1.4. D.
Inez de Argollo, nascida em Lisboa cerca
de 1536 e falecida a 14.9.1605 na Baía, sendo sepultada na igreja de
São Francisco, ib. Casou com Jácome Raymundo, s.m.n.
1.5. Francisco
de Argollo, cónego da Sé da
Baía, que nasceu em Lisboa cerca de 1537. Como ficou dito, a
10.8.1556 sua mãe pediu para ele uma conezia na Sé da
Baía, vindo a obter a 20.12.1559 confirmação de
meia conezia.
1.6. Paulo
de Argollo, que segue no nº 2.
2.
Paulo
de Argollo,
que nasceu em Lisboa cerca de 1538 e
foi para a Baía com seus pais em 1549, onde viveu
e faleceu a 12.1.1619, deixando testamenteiros sua mulher Felícia Lobo
e seu enteado Baltazar Lobo, filho de Pedro Dias. Teve várias terras
em Passé
(1598)
e sesmarias em Ilhéus (1608). A 11.11.1600 teve meia légua de terra
em Jequiriçá. Foi provedor-mor da fazenda real do Brasil e da alfândega
da Baía em 1608 (cuja propriedade tinha sua sobrinha) e era vereador
do Senado da Câmara
em 1607.
A cidade de Aratuíbe nasceu de uma capela aí feita por seus descendentes.
Muito provavelmente foi cavaleiro da Ordem de Cristo a 13.12.1590, data
de um alvará para seu cunhado Gabriel Soares, que conferia a este o
direito de dar a quatro cunhados e dois primos, que o acompanhavam no
descobrimento das minas do sertão, hábitos de Cristo com tenças de 50.000
reais. Casou cerca de 1599 com sua prima-direita Felícia Lobo,
já viúva, filha de Gaspar de Barros de Magalhães, contador da fazenda
real do Brasil
(3.1.1560),
vereador do Senado da Câmara da Baía (1562), provedor da alfândega da
Baía (1568), cuja propriedade tinha seu genro, morador em Recôncavo
(Baía), no lugar chamado São Paulo, muito rico e já falecido em 1591,
e sua mulher Catarina Lobo, nascida em Setúbal em 1541, «uma
das órfãs que el rei D. João mandou a este Estado»,
como se documenta das Denunciações da Bahia.
Esta Catarina Lobo era filha de Henrique Lobo e de sua mulher Isabel
de Reboredo; neta paterna de Baltazar Lobo de Souza e de (Joana) Barbosa,
como já ficou referido. Felícia Lobo tinha casado a 1ª vez a 4.11.1582
na Sé da Baía com Pedro Dias de Figueiroa, de 50 anos de idade, mercador
e rico fazendeiro no Brasil, natural a cidade do Porto, filho de Gonçalo
Álvares, «homem do mar», e de sua mulher Bárbara Dias de Figueiroa,
de quem teve quatro filhos: Baltazar Lobo, bat. a 29.4.1584 na Sé da
Baía e falecido a 27.1.1628, ib, que casou com Ana de Gambôa; Bárbara,
bat. a 3.9.1585, ib; Pedro, bat. a 1.11.1587, ib e falecido a falecido
a e 11.1.1618, sendo seu padrinho e testamenteiro Paulo de Argollo;
e Frei Gonçalo de Stº António, professo no convento de S. Francisco
da Baía a 13.6.1610, tinha 18 anos de idade. Depois de viúva de Paulo
de Argollo, Felícia Lobo ainda casou mais duas vezes, primeiro com Vicente
Coelho e depois com Constantino de Menelao, governador do Rio de Janeiro
(1614-1616 - CFII, 11, 267v), capitão da carreira da Índia (CFI, 4,
249v), sem geração destes matrimónios.
2.1.
Paulo de Argollo, capitão da Ordenança de
Passé (20.10.1650), foi bat. a 7.6.1601 na Sé da Baía e fal. antes de
12.1.1641. Na sua nomeação para capitão da Ordenança de Passé diz-se:
«Achando-se nas ocasiões do inimigo que se tem oferecido no Recôncavo,
e procedido nelas com muito honrada opinião». Casou a 25.11.1621
em Paripe com sua prima D. Mécia Lobo de Mendonça, n. cerca de
1604, ib, filha de Egas Moniz Barreto, fidalgo escudeiro da Casa Real,
falecido a 23.10.1643 em Camamu, e de sua 1ª mulher Águeda
de Lemos, nascida a 12.2.1583 na Baía e falecida em 1609; e neta
paterna de Jerónimo Moniz Barreto, o Velho, fidalgo escudeiro,
falecido em 1606, e de sua 1ª mulher D. Mécia Lobo (1559-1593), filha
de outras da órfãs que vieram para o Brasil, também D. Maria Lobo, e
de seu marido Francisco Bicudo, como ficou dito na introdução.
Parece que s.g., pois esta não é conhecida e sucedeu o
irmão mais novo.
2.2.
D.
Joana de Argollo, nascida na Baía cerca de
1602 e falecida nova a 18.1.1626, ib, sendo sepultada no convento de
S. Francisco. Jaboatão diz que foi bat. na Sé da Baía a 23.9.1620,
o que é impossível, pelo que deve ser gralha disléxica por 1602,
portanto cerca de um ano depois do nascimento de seu irmão. Ou, em alternativa,
a data de 1620 não é baptismo mas sim do seu 2º casamento. Infelizmente
estão desaparecidos os livros de assentos paroquiais que Jaboatão terá
consultado. Se nasceu em 1602, o que parece, morreu com
apenas 24 anos de idade. Apesar disso casou duas vezes e ainda viveu
em Braga, onde lhe nasceram dois filhos do 2º casamento. Casou a 1ª
vez, teria 15 anos de idade, com o doutor Francisco Subtil de Sequeira
(a), desembargador da Relação da Baía e provedor da Alfândega
pelo casamento, que chegou ao Brasil em 1602, cavaleiro da Ordem de
Cristo, familiar do Santo Ofício, natural de Tancos (Portugal) e falecido
a 4.4.1619 no Baía, com sepultura no convento do Carmo (Socorro). D.
Joana casou 2ª vez, em 1620, com doutor Sebastião Parvi de Brito
(b), fidalgo da Casa Real, ouvidor geral da Baía, provedor
da alfândega da Baía e provedor-geral da fazenda real,
três vezes provedor da Misericórdia da Baía (1622,
1643 e 1652), etc. O marquês de Montalvão disse sobre ele
que «é dos mais nobres homens de Évora e que
hoje no estado em que está o Brasil não há pessoa
capaz se suceder naquele governo faltando o governador senão
ele» (AHU, MG, cod. 80, 267v).
Sebastião Parvi de Brito nasceu em Évora cerca de 1580 e fal.
a 20.1.1661, na Baía, sendo sepultado no convento de S. Francisco. Matriculou-se
em Cânones na Universidade de Coimbra em 1598, como natural de
Évora, filho de André Parvi, tirando o bacharelado a 3.6.1604
e a formatura a 24.5.1605. Chegou ao Brasil a 19.2.1609, com o governador
D. Francisco de Souza, como ouvidor geral da sua repartição,
com apelação e agravo para a Relação da
Baía (Anais, 1885-1886, vol. 13). Como já ficou dito atrás,
casou a 1ª vez em finais de 1614 com D. Ana de Argollo, prima desta
D. Joana, que levou em dote a propriedade dos ofícios de provedor-mor
da real fazenda do Brasil e da alfândega da Baía, sendo
neles empossado por carta real de 30.1.1615. Mas desempenhou pouco tempo
o cargo, pois a 7.5.1619 Belchior Rodrigues foi provido na serventia
dos ofícios de provedor da fazenda e da alfândega da Baía
durante o impedimento do respectivo proprietário Sebastião
Parvi de Brito (Anais, 1917, vol. 39). Foi exercendo de forma intermitente
este cargo, cuja propriedade a 3.3.1638 deu em dote a sua filha D. Leonor
de Brito, como refiro adiante. Mas continuou como titular dos ofícios,
pois 30.3.1639 o genro é neles nomeado apenas como seu substituto
e 12.1.1641 Sebastião Parvi de Brito volta a ser empossado nos
ofícios por D.
João IV (CJIV, 13, 172). Sebastião Parvi de Brito era irmão mais novo
do doutor Reginaldo Parvi, nascido em Évora e matriculado em
Cânones na UC em 1594, como filho de André Parvi, tirando
o bacharelado a 27.6.1600 e a formatura a 17.7.1600. Na IG para o Stº
Ofº de seu neto, diz-se que era irmão de D. Luiza de Brito e
D. Ambrósia de Brito, que faleceram solteiras na Baía, e primo de Aires
Falcão Pereira, guarda-mor da Torre do Tombo, do doutor Francisco da
Silva de Menezes, colegial de S. Pedro, e do doutor Martim de Almada.
Era filho de André Parvi e sua mulher D. Leonor de Brito, natural de
Castelo Branco, que era irmã do doutor Pedro Barreto de Vasconcellos
(vide o meu estudo
Leitão, Linha ascendente dos senhores do paço da Torre de Figueiredo
das Donas), avô do referido doutor Francisco da Silva de
Menezes, colegial de S. Pedro da Universidade de Coimbra e familiar
(25.9.1650), deputado e promotor do Santo Ofício. O também referido
Aires Falcão Pereira, guarda-mor da Torre do Tombo, era certamente filho
ou neto de Francisco Pereira Falcão e sua mulher D. Jerónima Barreto,
também irmã do dito doutor Pedro Barreto de Vasconcellos. O antedito
doutor Martim de Almada deve ser confusão com odoutor Martim Leitão,
célebre general e ouvidor-geral do Brasil, que casou com D. Babiana
Barreto, irmã do mesmo doutor Pedro Barreto de Vasconcellos. André
Parvi era irmão do Doutor João Parvi, abade de S. Pedro
d’Este, e de Maria Parvi, falecida a 21.2.1600 em Braga (Souto),
mulher de Geraldo de Paiva Brandão, cidadão de Braga,
vereador da Câmara em 1588 e juiz pela ordenação
em 1590 e 1601, aí falecido a 24.6.1605, como refiro no meu estudo
sobre os Paiva Brandão,
de Braga. Todos filhos de Reginaldo Parvi, referido
no testamento do bispo D. João Parvi como seu sobrinho e herdeiro,
mas que tudo indica que fosse seu filho. D. João Parvi foi bispo
de Cabo Verde (23.9.1538). Era membro do cabido da prestigiada Sé
de Évora, como arcediago do bago e cónego magistral, tendo
oficiado nesta cátedra. Contemporâneo de D. Martinho de
Portugal, foi enviado régio a Roma a fim de criar as dioceses
de Angra, Cabo Verde, S. Tomé e Goa. Era natural da Normandia
(Bayeux), tendo sido naturalizado por mercê de D. João
III. Documenta-se como doutor em 1520 na Universidade de Lisboa (Estudos
Gerais). Esteve integrado no núcleo humanista de Évora,
de que também fizeram D. Francisco de Melo, mestre André
de Resende e Nicolau Clenardo. Demorou a ir para o bispado, permanecendo
em Évora até Janeiro de 1545. Em Setembro deste ano fez
testamento, no qual deixou por herdeiro Reginaldo Parvi, seu "sobrinho".
Aí afirma estar de partida para a ilha de Santiago de Cabo Verde,
onde terá chegado em finais de 1545, tornando-se o primeiro bispo
residente. Faleceu na cidade da Ribeira Grande a 29.12.1546, com apenas
cerca de um ano de episcopado. Manuel Severim de Faria, em tom apologético,
refere-se a D. João Parvi como um sacrificado ao serviço
da igreja, afirmando que faleceu rapidamente depois de chegar devido
ao fervor com que se dedicava à actividade pastoral, não
tendo sequer observado o devido resguardo de saúde de alguns
meses a que o clima local obrigava os reinóis. Diz que «expirou
estando crismando, afrontado com o trabalho de muita gente».
Ainda em Portugal, em 1538, fez chegar à Inquisição
de Lisboa uma carta sobre os abusos dos cristãos-novos nas ilhas
de Cabo Verde, pelo que deve ter trocado correspondência com as
autoridades civis e eclesiásticas locais. D. João Parvi
deu início à organização das estruturas
diocesanas, nomeadamente ao cabido, conforme o prescrevia a bula de
criação do bispado de Cabo Verde. Deixou um foro ao cabido
para lhe dizer missas por sua alma. Foi sepultado na igreja de Nossa
Sr.ª do Rosário da Ribeira Grande.
2.2.1.
(a) Agostinho Subtil de Sequeira,
irmão da Santa Casa da Misericórdia da Baía (1679), falecido
a 18.6.1683 e sepultado em Stª Mª do Socorro. Casou com D. Francisca
de Menezes, filha de Cristóvão da Costa Doria e sua mulher D. Maria
de Menezes, filha de Jerónimo Moniz Barreto de Menezes.
2.1.1.1.
Francisco Subtil de Sequeira, vereador do Senado
da Câmara de Salvador da Baía em 1671, falecido a 3.9.1693, ib. Casou
a 2.4.1667 na Sé da Baia com D. Bárbara de Azevedo Henriques,
fal. a 8.3.1686, ib, filha do doutor António Mendes de Oliva, já fal.
em 1667, e sua mulher D. Isabel de Azevedo Henriques. C.g.
2.1.1.2.
D. Joana de Argollo, que casou a 5.12.1655 em Passé
com Braz Lobo de Mesquita, c.g.
2.1.1.3.
D. Maria de Menezes, que casou com João de Barros
Aranha.
2.1.1.4.
D. Leonor de Menezes, bat. a 11.9.1646 na capela
de S. Paulo, em Stª Maria do Socorro.
2.1.1.5.
D. Mariana de Menezes, que casou a 12.1.1663
na capela de S. Paulo (Socorro) com Lucas Tavares de Alvim, filho
de Tomé Tavares de Alvim e sua mulher D. Bárbara Pereira de Gusmão.
C.g.
2.1.1.6.
D. Antónia de Menezes, que casou com António
Telles Pereira, s.g.
2.1.1.7.
D. Ângela, falecida menina.
2.2.2.
(a)
Frei Francisco dos Anjos, da Ordem dos Carmelitas Calçados,
na Baía.
2.2.3.
(b)
Manuel de Brito Lobo, nascido em Braga, cavaleiro da Ordem
de Cristo, capitão, vereador (1660) e juiz ordinário (1664
e 1673) da Baía. Casou com D. Margarida de Araújo, filha
de Feliciano de Araújo Soares e sua D. Antónia de Mello de Vasconcellos.
2.2.3.1.
D. Antónia de Mello de Vasconcellos,
bat. a 8.5.1646, que foi a 3ª mulher de Pedro Baldes Barbosa,
s.g.
2.2.3.2.
D. Luiza de Mello de Vasconcellos,
bat. a 3.7.1649 em Socorro.
2.2.3.3.
André Parvi de Brito, bat. a 25.5.1652, que foi
capelão-mor da Baía, já fal. a 28.3.1684, data
em que o provedor-mor mandou dar baixa no assento do padre capelão-mor
André Parvi de Brito (Anais, 1878-1879, vol 5).
2.2.3.4.
Sebastião Parvi de Brito, bat. a 14.5.1657 e fal.
menino.
2.2.3.5.
D. Leonor de Brito
2.2.3.6.
Manuel de Brito Lobo, natural de S. Domingos de Sacagena
(Baía), bat. a 29.12.1660 na igreja da Purificação. Fal.
quando decorriam as habilitações para familiar do Stº
Ofício (1699). Casou a 14.10.1697 na Sé da Baía com D. Tereza
Borges de Abreu, n. na Baía, filha de Cristóvão Barbosa de
Villasboas e sua mulher D. Bárbara Borges de Abreu. C.g. Deste
parece filho o Sebastião Parvi de Brito que foi capitão
de Ordenanças no Brasil (3.12.1725) e coronel de Infantaria de Ordenanças
(30.1.1728) e a 27.1.1742 teve o hábito da Ordem de Cristo com 12.000
reais de tença.
2.2.3.7.
Feliciano de Araújo de Brito
2.2.3.8.
Bento de Araújo de Brito, bat. a 14.5.1657. Casou
com D. Tereza Inácia de Menezes, filha do doutor Manuel Botelho de Oliveira,
capitão-mor da Baía, cavaleiro fidalgo da Casa Real, e de sua 1ª mulher
D.Antónia de Menezes. C.g.
2.2.3.9.
D. Ana de Brito, bat. a 11.7.1662
2.2.4.
(b) D. Leonor de Brito, nascida
em Braga cerca de 1622 e moradora na Baía, onde Jaboatão diz que fal.
a 26.5.1678 e que foi sepultado na igreja do Carmo.
A 3.3.1638 teve em dote a propriedade a propriedade do ofício
de provedor-mor da real fazenda do Brasil e da alfândega da Baía.
Casou em 1638 com António de Brito de Castro, cavaleiro
da Ordem de Cristo, com 100.000 reais de pensão (17.3.1673), que
a 30.3.1639 foi nomeado como substituto do genro nos ofícios
de provedor da real fazenda do Brasil e da alfândega da Baía.
António de Brito de Castro, que fal. a 1.4.1675 na Baía,
sendo sepultado na igreja do Carmo, nasceu em Braga
e passou à Baía em 1625 na armada de D. Fradique de Toledo,
para libertar a cidade de Salvador do domínio holandês.
Voltou para Portugal, mas em 1630 organizou à sua custa uma companhia
em Viana do Castelo e voltou definitivamente ao Brasil, onde se destacou
na luta contra os holandeses. Em 1659 foi obrigado a deixar a provedoria
por ter sido promovido a tenente de mestre de campo general do Brasil,
posto do qual deu baixa em 1663. Em 1671 era novamente provedor da alfândega
da Baía, assim como provedor da Santa Casa de Misericórdia
de Salvador. A 12.2.1674
teve alvará de D. Afonso VI para poder formar uma vila no distrito do
Rio de S. Francisco (Baía), no prazo de 6 anos. Era filho de Francisco
de Brito de Sampayo, nascido em Mansos (Braga), e de sua mulher D. Susana
Barbosa, nascida em Barcelos; neto paterno de António de Brito de Castro
e de sua mulher Antónia de Sampayo (filha de António Mendes de Vasconcellos
e sua mulher Isabel Pereira, moradores em Sabrosa); bisneto de Pedro
de Brito Pimenta e sua mulher Francisca Godins (filha de António Freire
de Andrade e sua mulher Antónia Godins); trineto paterno de Simão Pimenta
de Castro e de sua mulher Isabel de Brito de Noronha, filha esta de
Fernão de Brito, abade de Mouçós, como tudo se diz na IG de seu filho.
2.2.4.1.
Sebastião de Brito de Castro, fidalgo da Casa Real, cavaleiro
da Ordem de Cristo (1675), familiar do Stº Ofº (21.5.1689), que sucedeu
na donataria da vila de S. Francisco (29.11.1689). Casou com D. Maria
de Aragão, irmã de Pedro Camelo Pereira de Aragão, António de Aragão
Pereira e Diogo de Aragão Pereira, todos cavaleiros da Ordem de Cristo
e filhos de Diogo de Aragão Pereira, nascido na ilha da Madeira e morador
na Baía, e de sua mulher D. Isabel de Aragão, nascida na Baía; netos
paternos de Pedro Camelo de Aragão e Inez Martins, ambos da Madeira;
netos maternos de Baltazar de Aragão de Souza, da Madeira, e de sua
mulher Maria de Araújo, da Baía. S.m.n.
2.2.4.2.
André de Brito e Castro, cavaleiro da Ordem de Cristo,
com 20.000 reais de tença (13.3.1679). Foi provedor da alfândega (1678)
e da fazenda (5.4.1688) da Baía, irmão da Misericórdia da Baía (1672),
etc. Casou com D. Francisca Maria Leite, c.g. desenvolvida em
«Gorjão Henriques», 2006 (2 volumes), de Nuno Gorjão Henriques
e Miguel Gorjão-Henriques
2.2.4.3.
Francisco de Brito de Sampayo, capitão de
cavalos, também foi provedor da alfândega da Baía (1676) e em
1709 obteve uma sesmaria em Terra Nova Casou com Maria Francisca
Xavier Aranha, segundo Jaboatão. Foram pais de António de Brito
de Castro, fidalgo cavaleiro da Casa Real, com 1.600 reais de moradia
por mês (21.3.1690), e de André de Brito de Sampayo, também fidalgo
cavaleiro da Casa Real (5.3.1699).
2.2.4.4.
D. Joana de Brito de Castro, que casou com Francisco
Pereira Ferraz, provedor da alfândega da Baía (1689).
2.2.4.5.
D. Antónia de Castro, fal. a 8.11.1665,
solteira, segundo Jaboatão.
2.2.4.6.
António de Brito de Castro, sobre quem
Jaboatão dá ampla notícia da sua extraordinária vida. A 10.3.1694 foi
nomeado provedor da alfândega de Baía.
2.3.
Rodrigo de Argollo,
que segue no nº 3.
3. Rodrigo
de Argollo,
fidalgo da
Casa Real
4,
nascido cerca de 1603 e falecido em 1665. Parece ter sido o 1º senhor
da fazenda e engenho S. Miguel das Almas, na freguesia de Nª Sª do Socorro
da vila de S. Francisco do Conde (S. Francisco da Barra de Sergipe do
Conde), na Baía, onde casou a 28.7.1642 com D. Isabel Pereira
de Magalhães, irmã do capitão Francisco de Padilha, que se celebrizou
na luta contra os holandeses, ambos filhos do capitão André de Padilha
de Barros, cavaleiro fidalgo da Casa Real e cavaleiro da ordem de Cristo,
fidalgo português que chegou ao Brasil em 1589, capitão de Infantaria
que esteve na tomada de Sergipe e nas guerras contra os holandeses,
nomeadamente em 1624-25, senhor de uma sesmaria com duas léguas de Passé
a Jacuipe (10.7.1612), etc., e de sua mulher Maria Rangel, baptizada
a 15.4.1585 na Sé da Baía, irmã do Padre António Rangel, jesuíta no
Brasil, baptizado a 22.4.1595 na Sé da Baía, de
Juliana Rangel, casada com Egas Moniz Barreto, fidalgo escudeiro da
Casa Real, falecido a 23.10.1643 em Camamu, de Isabel Telles, casada
a 26.7.1651 na Baía com Cristóvão de Aguiar de Altero (Daltro), falecido
a 15.1.1664, e de Joana
Rangel,
casada com seu cunhado
Francisco de Padilha.
André de Padilha, quando pediu
a sesmaria ao rei, em 1612, diz que há 23 anos que estava na Baía, «sempre
servindo a S. Majestade em todas as ocasiões que então até hoje se ofereceram,
como foi na ocasião de duas naus inglesas e um patacho que a esta terra
vieram, governando nela Cristóvão de Barros. E na ocasião das naus holandesas
governando Álvaro de Carvalho e outrossim na ocasião das naus que aqui
vieram governando Diogo Botelho, assim se achou na tomada de Sergipe,
em companhia do capitão-mor Cristóvão de Barros e também acompanhou
a Gabriel Soares de Sousa na jornada que fez por mandado de S. Majestade
e em todos os rebates e alardes gerais que no tempo de vossa senhoria
se ofereceram, acudiu sempre com muita vontade. Em todo esse tempo serviu
a S. Majestade com sua pessoa e armas e escravos sempre à custa do suplicante,
sem gastar da fazenda de S. Majestade cousa alguma, e é morador na terra
e tem mulher e filhos, e não tem terra nenhuma que de sesmaria lhe fosse
dada». André de Padilha de Barros era certamente irmão do
antedito Francisco de Padilha, portanto ambos casados com duas irmãs.
Terão ambos ido para o Brasil, sendo filhos de outro Francisco
de Padinha, que se documenta escudeiro do secretário de Estado
Pedro de Alcáçova Carneiro, e filho de Bartolomeu Fernandes
de Padilha, quando embarcou para a Índia a 24.12.1553 (D.
Flamíninio de Sousa). Que é certamente o Francisco de
Padilha que teve foro de escudeiro fidalgo da Casa Real (Ementas, 4,
37). Tendo em conta o nome da filha de André de Padilha de Barros,
julgo que este Francisco
de Padila casou com uma (Isabel) Pereira de Magalhães. Era, portanto,
filho de
Bartolomeu Fernandes de Padilha, que é o escudeiro da Casa Real
que a 30.4.1530 tirou carta de armas para Padilha (de Castela), e era
irmão Francisco Fernandes de Padilha, morador em Lisboa, que tirou igual
carta de armas a 23.8.1532. E este
Bartolomeu Fernandes de Padilha terá casado com uma Barros, porventura
tia do antedito Cristóvão de Barros, que governava a Baía
quando seu primo-sobrinho André
de Padilha de Barros foi para o Brasil servir às suas ordens.
Maria
Rangel, que ficou acima, era
filha de Rafael Telles, natural da Madeira, lavrador que passou à Baía,
e de sua mulher (casados a 6.1.1583, ib) Maria Rangel, nascida no Porto
em 1567 (em 1591 diz ter nascido nesta cidade e ter 24 anos); neta paterna
de António Fernandes de Abreu e sua mulher Maria de Gouveia, moradores
na Madeira; e neta materna de
Miguel Ribeiro, procurador do número do Porto e morador na rua de São
Francisco desta cidade, e de sua mulher Marta Vilela,
«pessoas opulentas e de cabedal». Esta Marta Vilela, natural
do Porto, cristã-velha, em 1591 vivia na Baía, em casa da filha, quando
foi acusada de praticar magia (Confissões de Santo Oficio, 1591). Miguel
Ribeiro era certamente dos Ribeiro Rangel, de Aveiro.
Rafael Telles casou 2ª vez, sem geração, com Mécia de Armas, já viúva
do capitão Belchior de Souza Drummond, referidos adiante.
3.1.
Padre
Rodrigo de Argollo,
bat. a 30.6.1643 na Baía (Jaguaripe). Foi clérigo de ordens sacras.
3.2.
Francisco de Padilha, parece que s.g., s.m.n.
3.3.
Paulo
de Argollo, que segue no nº 4.
3.4.
D. Felícia Lobo, bat. a 19.9.1647, ib, s.m.n.
3.5.
D. Mariana Pereira de Menezes,
bat. a 5.1.1649, ib, foi freira do convento do Desterro, onde recebeu
hábito a 28.10.1679 com o nome de Soror Maria de Santa Clara.
3.6.
D. Ana de Argollo de Menezes, bat. a 19.2.1650 em Nª Sª do Socorro.
Casou cerca 1670 com o capitão António Moreira de Menezes5,
natural de Passé, juiz ordinário da Câmara da Baía em 1691, irmão da
Stª Casa da Misericórdia (21.4.1671), que era irmão de Martim Afonso
de Mendonça, e ambos filhos de António Moreira de Gambôa, fidalgo da
Casa Real, senhor de engenho em Socorro, etc., e de sua mulher D. Antónia
de Menezes
3.6.1.
Rodrigo de Argollo, padre, que julgo
ter sido o mais velho.
3.6.2.
D. Helena Maria de Argollo, bat. a 29.2.1672 em Stª Mª do Socorro.
Casou a 1ª vez com Bartolomeu Soares, e a 2ª vez com Francisco
de Negreiros Côrte-Real, falecido a 26.7.1790, s.g., sendo ele já
viúvo de D. Antónia de Araújo de Aragão. Do 1º casamento parece
filho o Bartolomeu Soares de Argollo que a 13.8.1723 teve carta patente
de srgento-mor (Anais, 1887-1888, vol. 15).
3.6.3.
D. Inez de Argollo, que casou com Teodósio
de Sá Brandão, de Sergipe d'El Rei, s.g.
3.6.4.
D. Antónia de Argollo,
bat. a 31.7.1675 em Stª Mª do Socorro. Casou a 1ª vez com João Pereira
Coronel e a 2ª vez com Baltazar de Vasconcellos Cavalgante de
Albuquerque, s.g. de ambos os matrimónios.
3.6.5.
José de Argollo de Menezes,
nascido cerca de 1676, foi senhor de uma sesmaria em
Jaguaripe, donde expulsou os índios, segundo uma carta real de
17.1.1726, onde se diz que era «homem muito poderoso naqueles sítios».
Esta carta real surge na sequência de um requerimento de 17.1.1755
ao rei D. João V, feito pelos índios da aldeia de Stº
António de Jaguaripe, no Recôncavo da Baía, solicitando
ordenasse a José de Argollo de Menezes que lhes restituisse as
terras tomadas e que não maltratasse mais as suas mulheres (AHU-Bahia,
c. 18, d. 8). Casou
a 1ª vez a 4.6.1710 em Guadalupe (dispensados no 3º grau de consanguinidade)
com D. Francisca de Menezes (a), irmã de João Pereira
Barbosa de Araújo, referido adiante, ambos filhos de António Barbosa
de Araújo e sua mulher D. Mónica de Menezes. Casou a 2ª vez a 8.1.1727,
na capela de S. Domingos, com sua concunhada D. Catarina Ponciana
Bezerra de Vargas Cirne (b), nascida em S. Francisco do Conde.
3.6.5.1.
(a) João de Argollo de Menezes, que nascido cerca de 1711
da vila de Jaguaripe. Por ter morto dois seus escravos, cumpriu pena
de cinco anos de degredo em Angola, onde ainda estava a 8.5.1747, quando
fez requerimento a D. João V solicitando provisão para
que o governador e capitão-geral do reino de Angola o liberte
logo após acabar a pena (AHU-Bahia, c. 96, d. 32). Casou
na vila de Cairu com D. Fé de Souza, dos Eça e Couros, s.g.
3.6.5.2.
(a) António Moreira de Menezes, falecido solteiro.
3.6.5.3.
(b) D. Maria Bernarda de Argollo de Vargas Cirne, nascida
em Stº Amaro em 1727. Casou a 14.4.1749 com o guarda-mor Bernardo
da Silveira de Menezes, cavaleiro da Ordem de Cristo, tabelião e
escrivão do público, judicial e notas de Maragogipe (14.12.1726), filho
do doutor Bernardo Mendes da Silveira e de sua mulher D. Antónia de
Menezes. C.g.
3.6.5.4.
(b) Simão Manuel de Argollo de Menezes, juiz ordinário
de S. Francisco do Conde, fazendeiro de cana do açúcar, familiar do
Stº Ofº (1756), processo que ficou incompleto com a sua morte. Foi bat.
a 28.12.1730, ib, e faleceu em 1756, com apenas 26 anos de idade. Casou
com D. Maria Clara da Encarnação da Costa Coelho, filha do sargento-mor
António da Costa Coelho e sua mulher D. Águeda Luiza Gomes de Lima,
referidos adiante. C.g.
6
3.6.5.5.
(b) José de Argollo de Menezes, bat. a 15.4.1731 em Nª
Sª do Monte, falecido solteiro.
3.6.6.
Bartolomeu de Argollo de Menezes, sargento-mor de Stº Amaro em 5.8.1748,
ocupando o cargo há 18 anos, juiz ordinário de S. Francisco do Conde,
irmão da Santa Casa da Misericórdia da Baía (1733), senhor do engenho
de Itacuipe, em 1720 desistiu de uma contenda com os carmelitas sobre
os limites das suas propriedades entre os rios Jacuibe e Itacuibe, sendo
«pessoa que se fez célebre não só pela sua nobreza de sangue mas
também por suas muitas virtudes morais» (Frei Bento da Apresentação,
in «Cartágrafo Epipompteutico»). Nasceu cerca 1677 e faleceu
octogenário a 10.7.1764. Casou a 1ª vez a 29.1.1715, na capela de Stº
António do Socorro, com D. Antónia Isidora Maria Bezerra de Vargas
Cirne (a), falecida a 18.8.1730, filha do capitão de Cavalos
Miguel Bezerra e sua mulher D. Maria Cirne. Casou a 2ª vez com D.
Águeda Luiza Gomes de Lima (b), já viúva do sargento-mor
António da Costa Coelho, sendo filha do capitão Manuel Rodrigues Brandão
e sua mulher D. Maria Rebouças.
3.6.6.1.
(a) D. Ana, nascida em S. Francisco do Conde e falecida
solteira a 13.5.1731.
3.6.6.2.
(a) Frei João de Argollo de Menezes, nascido ib, carmelita
na Baía.
3.6.6.3.
(a) D. Maria, nascida ib e falecida menor a 12.1.1718.
3.6.6.4.
(a) Rodrigo de Argollo Vargas Cirne de Menezes, governador
interino da Baía (7.4.1762), coronel do Regimento de Cavalaria
de Auxiliares da Baía (23.10.1762), de que tinha sido sargento-mor,
vereador do Senado da Câmara da Baía, escrivão da Casa da Moeda
da Baía (8.5.1780), ofício que passou a seu genro Francisco Alexandre
de Freitas e Eça a 11.9.1794, familiar do Stº Ofº (26.3.1772), membro
da Academia Brasileira dos Renascidos (1759), irmão da Stª Casa da Misericórdia
da Baía em 1726, donde foi expulso por incivilidade em 1762 e readmitido
no ano seguinte, sendo escrivão da irmandade. Foi bat. a 1.5.1722 em
Nª Sª do Monte e fal. a 25.6.1795. A 23.10.1762 Rodrigo de Argollo Vargas
Cirne de Menezes requereu ao rei D. José I que se lhe passasse
carta patente de confirmação do posto de coronel de Cavalaria
de um dos Regimentos do Reconcavo da cidade da Baía (AHU-Bahia,
c.156, d. 49). E a 9.3.1771 requereu ao mesmo rei carta patente
de confirmação do posto de coronel de Cavalaria Auxiliar
da Baía (AHU-Baia, c. 170, d. 12). Casou
com D. Marcela da Purificação da Silva, filha de António da Silva
Gomes, natural do Porto, familiar do Stº Ofício e ferreiro da Casa da
Moeda. C.g.
3.6.6.5.
(a) D. Ana Maria de Argollo Vargas Cirne de Menezes, bat.
em 1718 em Nª Sª do Monte do Recôncavo (S. Francisco do Conde) e falecida
menor a 3.5.1731.
3.6.6.6.
(a) D. Joana Baptista de Argollo, nascida em Parrnamerim,
que casou com Estêvão da Matta Gomes, que morreu degredado na
Ilha do Príncipe, com os bens sequestrados, tendo ela, após a
morte do marido, provisão de 4.2.1793 para regressar à
Baía (Anais, 1912, vol. 34).
3.6.6.7.
(a) D. Rosa, falecida menor a 8.9.1733, ib.
3.6.6.8.
(a) D. Helena, bat. a 7.11.1729 em Nª Sª do Monte e falecida
com nove meses a 13.2.1730.
3.6.6.9.
(b) Pedro de Argollo de Menezes, nascido a 2.9.1734, que
a 12.12.1762 teve carta de capitão de Cavalos do Estado do Brasil. A
10 de Novembro desse ano requereu a D. José I que se lhe passe
carta patente de confirmação do posto de capitão
de Cavalos da borda da mata e feira da Capuame do Regimento de Cavalaria
de que é coronel João Pais de Vasconcellos (AHU-Bahia,
c.156, d. 58). Casou com D. Josefa Maria ...., s.m.n.
3.6.6.10.
(b) Victorino de Argollo de Menezes, gémeo do anterior,
que foi capitão de Cavalos do Regimento do Recôncavo da Baía
(1754), a 17.2.1763 teve, por sua mulher, a propriedade do ofício
de inquiridor, contador e distribuidor da Baía (AHU-Bahia, c.157,
d. 4), e foi ainda escrivão dos feitos da coroa e fazenda da Baía,
familiar do Stº Ofº (12.11.1765) e irmão da Stª Casa da Misericórdia
(27.3.1763), tendo falecido a 29.5.1785. O conde de Atouguia, vice-rei
e governador-geral do Estado do Brasil, deu a 10.7.1754 carta patente
a Vitorino de Argollo de Menezes do posto de capitão de uma tropa
de cavalos (AHU-Bahia, c. 129 d. 7), tendo este a 25 seguinte
requerido a D. José I confirmação do posto de capitão
de cavalos do Regimento do Recôncavo da Baía (AHU-Bahia,
c. 134 d. 26). Casou em 1763 com D. Ana Inez Josefa de Saldanha de
Andrade, sucessora de seu pai José Borges de Cerqueira, inquiridor,
contador e distribuidor (proprietário) da Baía. D. Ana faleceu
a 17.11.1768 na vila de S. Francisco do Conde (Baía) com inventário
de menores, deixando filhos a António de Argollo e Menezes, de 3 anos
de idade, que veio a falecer, e D. Maria Clara Rufina de Argollo e Menezes,
de 13 anos, que veio a suceder nos ofícios de inquiridor, contador e
distribuidor da cidade da Baía (confirmação de
12.8.1802) e de
escrivão dos feitos da coroa e fazenda (confirmação de
5.11.1804) e a casar com o capitão Vicente José de Souza Lisboa, de
quem já estava viúva a 10.3.1790 (AHU-Bahia, c. 192,
d. 6). Outro filho, Manuel, nascido em 1763, já tinha falecido.
D. Ana Inez era a filha mais velha do Doutor José Borges de Sequeira,
também inquiridor, contador e distribuidor da Baía, natural de Évora
(irmão do comissário do Stº Ofº António da Costa de Andrade), e de sua
mulher D. Clara Josefa de Saldanha.
3.6.7.
Vicente de Argollo e Menezes,
coronel da Cavalos de Auxiliares, capitão-mor de Jaguaripe (confirmado
a 23.10.1723), foi um dos cavaleiros dos jogos hípicos e bélicos da
Baía em 1717. Casou a 21.10.1726 na capela de Stº António da Casa de
Cinco Rios com sua concunhada D. Ana Maria Bezerra de Vargas Cirne.
3.6.7.1.
D. Maria, nascida em S. Francisco do Conde e falecida
menina a 15.1.1728, ib.
3.6.7.2.
D. Antónia de Argollo Vargas Cirne de Menezes, nascida ib, e casada
a 23.2.1756, ib, com Francisco de Vasconcellos e Albuquerque,
falecido a 31.5.1778 em Stº Amaro, c.g.
3.6.7.3.
D. Maria, bat. a 15.1.1731 em Nª Sª do Monte, s.m.n.
3.6.7.4.
Francisco Xavier de Argollo Vargas Cirne de Menezes, bat. a 19.5.1732,
ib, e falecido a 18.2.1751. Casou a 29.9.1750 com sua prima D. Antónia
Isidora Bezerra de Vargas, s.g.
3.6.7.5.
Inácio de Argollo Vargas Cirne de Menezes, bat. a 30.9.1733, ib,
falecido solteiro depois de 1784. Era soldado quando a 19.10.1763 requereu
a D. José I dispensa para os postos imediatos até ao de
tenente, inclusivé, visto ser filho de um coronel da Cavalaria
Auxiliar (AHU-Bahia, c.158, d. 51, 53). A 1.6.1779 teve confirmação
da carta patente de capitão do 2º Regimento de Infantaria
da Baía (Anais, 1910, vol. 32). Era
sargento-mor de Auxiliares de Cachoeira, Maragogipe e Jaguaripe quando
a 3.3.1784 requereu à rainha D. Maria I carta patente do posto
(AHU-Bahia, c. 186, d. 11). E sargento-mor do Terço
Auxiliar da vila de Cachoeira quando a 15.5.1785 requereu idêntica
carta patente (AHU-Bahia, c. 187, d.1). Finalmente, a 2.3.1790
fez justificação de serviços, sendo sargento-mor
da Infantaria de Auxiliares das vilas de Cachoeira, Maragogipe e Jaguaripe
(AHU-Bahia, c. 192, d. 5)
3.6.7.2.
D. Ana Maria de Argollo Vargas Cirne de Menezes, que casou a 1ª
vez a 10.8.1760 com José Pinto Ribeiro, falecido a 11.5.1774
em Passé, filho de António Pinto Ribeiro e sua mulher D. Rosa Maria
de França. Casou a 2ª vez a 12.10.1774 em Passé com João Crisóstomo
da Costa Pinto, filho do capitão António da Costa Pinto e sua mulher
D. Maria de Jesus José. C.g. do 2º casamento.
3.6.7.6.
Leandro de Argollo Vargas Cirne de Menezes, que morava junto do
Carmo quanto teve conflitos com os frades do mosteiro, tendo falecido
em Stº Amaro. Casou a 30.8.1768 com D. Tereza Maria de Jesus Filgueiras,
filha do capitão Francisco Corrêa Filgueiras e sua mulher D. Maria Josefa
de Jesus. C.g.
3.6.8.
Manuel Telles de Argollo e Menezes,
capitão de Infantaria da Ordenança de Nage (12.1.1719). Casou com D.Isabel
da Rocha, filha de Zenóbio de Almeida e sua mulher Maria da Rocha
de Ávila.
3.6.8.1.
António Moreira de Menezes,
casado, s.m.n.
3.6.8.2.
Carlos José de Argollo de Menezes, casado, s.m.n.
3.6.8.3.
João de Argollo de Menezes, s.m.n.
3.7.
D. Joana Telles de Menezes, bat. a 9.3.1654,
ib, e casada com o licenciado Bartolomeu Soares, senhor de engenho,
que obteve sesmaria no Recôncavo a 29.5.1684, sendo vereador do Senado
da Câmara em 1694. Nas actas da Câmara é referido como «pessoa abonada
e segura». Em 1684 pagou o que devia o tesoureiro, de que foi fiador.
S.g.
4.
Paulo
de Argollo, fidalgo da
Casa Real (30.1.1711), senhor das fazendas e engenhos S. Miguel das
Almas, na freguesia de Nª Sª do Socorro (Baía), onde foi baptizado a
20.5.1646, e de Stº António de Cinco Rios, na freguesia de Nª Sª do
Monte do Recôncavo (S. Francisco do Conde, Baía), onde viveu, sendo
juiz ordinário de S. Francisco do Conde em 1711 e irmão da Santa Casa
da Misericórdia da Baía (15.4.1696). Casou a 18.2.1692 no engenho de
Copacabana com sua parente D. Inez de Gusmão, nascida
possivelmente em 1674 e falecida depois de 1760. Era filha única de
Miguel Rodrigues de Gusmão (que no Brasil também aparece, certamente
por erro, como Manuel), cavaleiro da Ordem de Cristo (26.2.1680), irmão
da Stª Casa da Misericórdia da Baía (24.9.1678), natural da Baía, onde
instituiu uma capela (cuja extinção em 1800 obteve D.
Leonor Antónia Francisca de Queiroz, viúva de seu neto, referida adiante),
e de sua mulher (casados em 1673) D. Maria de Teive e Gusmão (que também
aparece documentada como D. Maria de Souza), natural da Baía, que a
24.10.1664, sendo referida apenas como D. Maria, teve promessa real
de 50.000 reais de pensão, com o hábito de Cristo, para quem com ela
casar, pelos serviços de seu pai Belchior Barreto de Teive (como já
ficou dito acima, mercê esta confirmada a 27.11.1673 - RGM, Ordens,
9, 263). Esta D. Maria, baptizada a 20.4.1644 na Sé da Baía, teve um
curto 1º casamento, sem geração, com João Soares Brandão, e era irmã
de Pedro de Teive Barreto ou Barreto de Teive, baptizado a 29.10.1639,
ib, arcediago da Sé da Baía e capelão fidalgo da Casa Real com 1.280
réis de moradia (29.12.1664), que a 7.8.1655 teve o hábito de noviço
da Ordem de Avis, com a pensão de 20.000 reais (16.4.1657), depois acrescida
de mais 10.000 reais (7.3.1663); de João de Teive Barreto, baptizado
a 9.7.1646, ib, como António, mudando o nome para João no crisma, que
faleceu solteiro sem geração; e de D. Joana de Teive Barreto, baptizada
a 25.6.1648, ib, que casou com o capitão Gaspar Maciel de Sá. Eram todos
filhos e D. Maria sucessora do capitão Belchior Barreto de Teive, fidalgo
da Casa Real (1663), falecido a 7.9.1663, ib, e sepultado no mosteiro
do Carmo, e de sua mulher D. Clara de Souza, ambos já largamente
referidos acima. Esta D. Clara, nascida cerca de 1621, ib, era irmã
de
António Ferreira de Souza, que a 22.10.1646 teve o hábito de cavaleiro
noviço da Ordem de Santiago, por estar casado com D. Antónia Bezerra,
filha de Luiz Bártolo e sua mulher D. Maria Furtado, sendo nesta mercê
referido como filho de Eusébio Ferreira e sua mulher D. Catarina de
Souza.
De facto, eram ambos filhos de Eusébio Ferreira, natural de Porto Santo
(Madeira) e falecido a 1.11.1636 na Baía, e de sua mulher (casados a
13.5.1603, ib) D. Catarina de Souza, falecida a 21.8.1649, ib, e sepultada
no mosteiro do Carmo. Esta D. Catarina era filha de Belchior de
Souza Drummond e de sua mulher D. Mécia de Armas (filha de Luiz de Armas,
cavaleiro da Casa Real, e de sua mulher Catarina Jacques), e neta paterna
de
João Gonçalves Drummond
7,
fidalgo, documentado em Ilhéus em 1552, e de sua mulher D. Marta de
Souza, outra das donzelas que foi para o Brasil, conforme já ficou referido
na introdução. Aquele Miguel Rodrigues de Gusmão (que
não se percebe donde lhe veio este nome, usado por sua mulher) era filho
de Gregório Rodrigues Varella e sua mulher Maria Bernardes. Teve 50.000
reais de pensão e a Ordem de Cristo, conforme prometido a sua mulher,
pelos serviços de seu sogro o capitão Belchior Barreto de Teive, sendo
ele, Miguel, como se diz no respectivo processo
8,
«pessoa nobre, morador na cidade da Baía, onde tem servido os melhores
cargos da república», gozando «de todos os foros de nobre, por
se tratar com semelhante luzimento, tendo em seu serviço criados, cavalos
e escravos». O antedito capitão Belchior Barreto de Teive era filho
de Pedro de Teive y Guzmán (irmão do 1º marquês de La Fuente e 1º
conde de Benazuza), nascido em Madrid cerca de 1600, e
de sua mulher D. Leonor Barreto, com quem casou na Madeira cerca de
1619; neto paterno de Belchior de Teive, nascido cerca de 1555 na Madeira
(filho dos morgados da Ribeira Brava),
gentil-homem de D. Filipe II de Espanha,
um dos quatro ouvidores da sua câmara
e membro do Conselho de Guerra,
superintendente da fazenda real em Lisboa (1607), lente da Universidade
de Coinbra, genealogista, etc., e de sua mulher (casados cerca de 1598,
embora Alão diga que casaram em 1602) D. Mariana Tello de Guzmán,
4ª senhora dos mayorazgos de Lerena e Benazuza, filha herdeira
de D. Pedro Tello de Guzmán, senhor do mayorazgo de Lerena, alcaide-mor
de Sevilha, cavaleiro da Ordem de Santiago e dos 24 de Sevilha, aí
falecido velho com testamento de 4.11.1613, e de sua 1ª mulher e prima
D. Mariana Ponce de León, senhora do mayorazgo de Benazuza, ambos descendentes
da principal fidalguia sevilhana. D. Pedro era bisneto de D. Luiz de
Guzmán, 2º senhor de la Algaba, e trineto de D. Juan Ponce
de León, 2º conde dos Arcos e marquês de Cádiz.
Antes de ser cavaleiro da Ordem de Cristo, Miguel Rodrigues de Gusmão
teve a 22.9.1678 mercê real de 50.000 reais de pensão e promessa em
bens da Ordem de Cristo, por estar casado com D. Maria de Teive.
4.1.
José de Argollo de Gusmão,
fidalgo da Casa Real (24.3.1711), nasceu em 1693 e faleceu solteiro,
s.g. A 18.8.1718 foi nomeado capitão de Infantaria do regimento do coronel
Egas Moniz Barreto, e a 16.16.1719, por carta patente do governador-geral
do Brasil, o conde de Vimeiro D. Sancho de Faro e Souza, foi feito capitão-mor
de Nª Sª do Monte de Recôncavo (AHU-Bahia, c. 10, d. 54), tendo
a 8.2.1720 rquerido ao rei D. João V carta patente deste posto
(AHU-Bahia, c. 10, d. 98).
4.2.
D. Joana Maria de Argollo e
Gusmão, nascida na Casa Grande do engenho
de Cinco Rios. Casou a 27.2.1729, ib, com João Pereira Barbosa de
Araújo, filho de António Barbosa de Araújo e de sua mulher D. Mónica
de Menezes.
4.2.1.
António Barbosa de Argollo e Araújo,
bat. a 1.2.1730 em Iguape, vivia solteiro em 1772.
4.2.2.
D. Ana, bat.
a 5.1.1731, ib., fal. solteira antes de 1772.
4.2.3.
D. Mónica Maria de Menezes, que faleceu
solteira em 1776, em Iguape, freguesia de Santiago.
4.2.4.
José Pereira
de Argollo e Araújo, padre, já fal. em 1772.
4.2.5.
D. Joana,
fal. solteira antes de 1772.
4.2.6.
D. Rosa, bat. a 1.1.1735, ib.
4.2.7.
D. Antónia, bat. a 15.5.1737, ib.
4.2.8.
D. Ana Maria de Monserrate,
solteira em 1772.
4.2.9.
Manuel
Xavier do Nascimento Pereira Barbosa de Araújo,
padre, fal. depois de 1772.
4.3.
Paulo de Argollo e Gusmão,
que segue no nº 5.
4.4.
Miguel Bernardino de Argollo, fidalgo
da Casa Real (24.3.1711), s.m.n.
4.5.
João de Teive Barreto e Argollo, fidalgo da Casa Real
(21.4.1714), pessoa de grande fortuna, bat. a 6.9.1711 na capela de
Stº António da casa da fazenda e engenho de Cinco Rios, sucedeu na fazenda
e engenho de S. Miguel das Almas, na freguesia de Nª Sª do Socorro,
e faleceu depois de 1784, ano em que, sendo viúvo, testemunhou um casamento.
Casou com D. Ana Joaquina Marques de Almeida (já viúva, s.g.
de Luiz Bardalho de Negreiros Corte Real), falecida a 17.2.1771, sem
testamento mas com inventário de menores de 17.2.1772, deixando uma
fortuna avaliada em 49.615.722 réis, ficando tutor o pai, que deu contas
a 10.10.1785. Era irmã do mestre de campo Bernardino Marques de Almeida,
ambos filhos de André Marques, capitão e contratador, cavaleiro da Ordem
de Cristo, e de sua mulher D. Isabel de Almeida.
4.5.1.
Paulo de Argollo e Teive,
fidalgo da Casa Real (3.8.1783), nascido em 1758, pois tinha
13 anos quando do inventário. Casou antes de 1780 com
sua prima-direita D. Francisca Clara de Queiroz e Argollo, referida
abaixo, filha de Paulo de Argollo e Gusmão, no nº 5.
4.5.1.1.
?João de Teive de Argollo e Queiroz, capitão das milícias de
Marinhas da Praia (confirmação real de 9.5.1803), cargo
para que fora nomeado a 12.7.1802 pelo governado Francisco da Cunha
e Menezes, sendo aí o posto referido como capitão do Regimento
de Milícias das Marinhas de Pirajá. Tudo indica que fosse
filho de Paulo de Argollo e Teive e o João
de Teive e Argollo que casou com D. Maria da Assunção Freire de Carvalho
e foram, nomeadamente, pais de:
4.5.1.1.1.
Miguel
de Teive e Argolo, coronel, nascido em Cotegipe
(Baía), que casou antes de 1842 com sua prima D. Maria Murtha Ferrão
de Pina e Mello, nascida a 7.5.1822 na Casa Grande da Cajaíba, em
cujo oratório foi bat. a 13.1.1824, referida abaixo no §2, filha do
coronel José Maria de Pina e Mello de Argollo e Queiroz.
4.5.1.1.1.1.
D. Maria Capitulina de Teive e Argollo, nascida a 26.10.1842
em Salvador e falecida
a 9.1.1882 em São Francisco do Conde. Casou a 31.10.1863 com seu primo
o doutor Garcia Dias Pires de Carvalho e Albuquerque, senador
e deputado à Constituinte, advogado, secretário do Governo da Baía,
nascido a 20.9.1840 em Salvador e falecido em 15.5.1917 no Rio de Janeiro,
referido adiante, filho dos 1ºs viscondes da Torre de Garcia d'Ávila.
C.g.
que,
por morte do cunhado, herdou a Torre de Garcia d'Avila, que vendeu a
Laurindo Regis (Revista do IPHAN, nº 3, de 1939).
4.5.1.2.
D. Maria Luiza de Teive e Argollo, 1ª viscondessa de Pirajá pelo
casamento, falecida a 19.4.1854 em
Santo Amaro (Baía). Casou cerca de 1812 com Joaquim Pires de Carvalho
e Albuquerque, 1º barão (5.5.1826) e 1º visconde (12.10.1826) de
Pirajá, com honras de grandeza, coronel de linha, brigadeiro graduado,
benemérito da Independência, grande do Império, gentil-homem da Imperial
Câmara, dignitário da Imperial Ordem da Rosa, comendador das imperiais
ordens de Avis e de Cristo, etc., bat. a 13.1.1788 na capela da casa
do Unhão, em Salvador (Baía), e falecido a 29.7.1848 em Itapagipe (ib).
Era já viúvo, s.g., de D. Josefa Maria de Sá Pitta e Argollo, prima
da 1ª mulher, referida abaixo, com quem casou a 28.1.1806. O visconde
de Pirajá era filho de José Pires de Carvalho e Albuquerque (1756 -
21.1.1808), secretário de Estado do Brasil, capitão-mor da Baía,
senhor dos escravos envolvidos na «Revolução dos Alfaiates» e
a quem se deve a lousa armoriada da igreja da Graça (1797), e de sua
mulher e prima (casados em 1781) D. Ana Maria de S. José e Aragão, morgada
da Torre de Garcia de Ávila, e neto de outro José Pires de Carvalho
e Albuquerque (1703 -1774), também secretário de Estado
(cargo que comprou), desembargador, membro da Academia dos Esquecidos
em 1724, etc., e de sua mulher D. Isabel Joaquina de Aragão;
e bisneto de João Pires de Carvalho, coronel de Ordenanças,
fazendeiro, etc., e de sua mulher D. Tereza Cavalcanti de Albuquerque.
Aquela D. Ana Maria de S. José e Aragão era filha de outro José Pires
de Carvalho e Albuquerque (1728-1796), fidalgo da Casa
Real, escrivão proprietário da alfândega
da Baía (1749), e de sua mulher D. Leonor Pereira Marinho de
Aragão, filha herdeira do mestre de campo Francisco Dias de Ávila,
morgado da Torre de Garcia de Ávila.
4.5.1.2.1.
D. Ana Maria Pires de S. José e Aragão,
nascida em 1813 em Salvador (Baía) e falecida a 30.11.1855 na Baía.
Foi a 1ª viscondessa da Torre de Garcia d'Ávila pelo seu 1º casamento,
a 28.5.1834,
com o tio paterno António Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque
(a), 1º barão (1.12.1822)
e 1º visconde (12.10.1826) da Torre de Garcia d'Ávila, com honras de
grandeza (18.7.1841), bat. a 12.2.1785 em Salvador (Baía) e falecido
a 5.12.1852, ib, secretário de Estado do Governo do Brasil, notável
da independência, gentil-homem da Imperial Câmara,
cavaleiro da imperial Ordem de Cristo, coronel de milícias, etc.
D.
Ana Maria de S. José e Aragão casou 2ª vez com Francisco
Elesbão Pires de Carvalho e Albuquerque (b),
2º barão de Jaguaripe, falecido a 16.8.1884, ib,
sobrinho do 1º marido, s.g.
4.5.1.2.1.1.
(a) Dr. Domingos
António Pires de Carvalho e Albuquerque, advogado, sucessor na Torre
de Garcia d'Avila, nascido a 11.1.1838 em Salvador e falecido a 3.10.1889
no engenho Periperi (Baía). S.g.
4.5.1.2.1.2.
(a) Dr.
Garcia Dias Pires de Carvalho e Albuquerque, senador e deputado
à Constituinte,
advogado, secretário do Governo da Baía, nascido a 20.9.1840 em Salvador
e falecido em 15.5.1917 no Rio de Janeiro. Casou a 31.10.1863 em Gotegipe
com sua prima D. Maria Capitulina de Teive e Argollo, nascida
a 26.10.1842 em Salvador e falecida a 9.1.1882 em São Francisco do Conde,
referida acima, filha do coronel Miguel de Teive e Argollo e de sua
mulher e prima D. Maria Murtha Ferrão de Pina e Mello. C.g. que mantém
esta varonia até à actualidade.
4.5.1.2.1.3.
(a)
D. Catarina Álvares Paraguassu Pires de Aragão,
nascida a 14.8.1842 em Salvador e falecida em 28.10.1884, ib. Casou
com o Dr. Baltazar de Araújo e Aragão Bulcão, advogado, c.g.
4.5.1.2.1.4.
(a)
D. Leonor Maria de la Penha Deus-Dará Pires Aragão,
nascida a 10.9.1843 em Salvador e falecida a 21.2.1888, ib. Casou com
seu primo o Coronel José Joaquim de Teive e Argollo, referido
acima, c.g. Foi este Coronel José Joaquim que, por morte do cunhado,
herdou a Torre de Garcia d'Avila, que vendeu a Laurindo Regis (Revista
do IPHAN, nº 3, de 1939).
4.5.1.2.1.5.
(a)
José Pires de Carvalho e Albuquerque, nascido
a 2.2.1845 em Salvador e falecido com 7 anos de idade a 19.3.1852, ib.
4.5.1.2.1.6.
(a)
Francisco Pires de Carvalho e Albuquerque,
nascido a 21.9.1846 em Salvador e falecido com 7 anos de idade a 2.2.1854,
ib.
4.5.1.2.1.7.
(a)
D. Tereza de Jesus Cavalcanti e Albuquerque,
baronesa de Mataripe pelo casamento, nasceu a 25.7.1848 em Salvador
e faleceu a 13.12.1913 em Stº Amaro (Baía). Casou com o António Muniz
Barreto de Aragão, 1º barão de Mataripe, nascido a 5.9.1844
e falecido a 28.7.1922, ib, c.g.
4.5.1.2.2.
José Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque,
2º barão de Pirajá, com grandeza (25.3.1849), embaixador do Império
do Brasil, etc., bat. com nove meses a 2.2.1815, no engenho Pouco-Ponto,
em São Francisco do Conde, e falecido a 15.2.1888, ib. Casou a 14.10.1843
com D. Águeda Maria Zeferina da Silva, nascida a 26.8.1807 em
Salvador e falecida a 12.8.1869, ib, filha do capitão-mor Simão Álvares
da Silva e sua mulher D. Maria Joaquina Pereira de Andrade. S.g.
4.5.2.
D. Maria Leonor,
nascida em 1759 e que já estava casada em 1785, conforme informa o inventário
de menores, s.m.n.
4.5.3.
José Joaquim de Teive e Argollo,
fidalgo da Casa Real (30.8.1783), 1º vereador do Senado da Câmara de
S. Francisco do Conde (1816), nasceu em 1760 e sucedeu na fazenda e
engenho de S. Miguel das Almas. Casou com sua prima D. Maria Luiza
de Queiroz e Argollo, referida abaixo.
4.5.3.1.
Miguel José Maria de Teive e
Argollo, 1º barão de Pará-Mirim (14.3.1860),
nascido em 1802 em Salvador da Baía e falecido a 13.10.1863 no seu engenho
de S. Miguel das Almas. Fez aos 20 anos de idade a campanha da Independência,
como capitão de Infantaria de Milícias. Comandante e tenente-coronel
da Guarda Nacional do município da Vila de S. Francisco (1839), teve
as honras de coronel honorário do Exército (1864), se bem que em 1847
já apareça como coronel. Foi fidalgo da Casa Imperial, comendador da
imperial Ordem de Cristo, cavaleiro da imperial Ordem do Cruzeiro, e
tinha a medalha da Independência da Baia. Casou com sua prima D.
Bernarda Maria de Teive e Argollo, s.m.n.
4.5.4.
D. Antónia Marcelina,
nascida em 1763, solteira em 1785, s.m.n.
4.5.5.
D. Isabel Luiza Marques,
nascida em 1767, que já tinha falecido em 1785, conforme informa o inventário
de menores.
4.5.6.
António Feliciano de Teive e Argollo, fidalgo da Casa
Real (30.8.1783), nascido em 1768, já tinha falecido em 1785, conforme
informa o inventário de menores.
5.
Paulo
de Argollo e Gusmão,
fidalgo da Casa Real (24.3.1711), vereador do Senado da Câmara da Baía,
alferes do Regimento da Baía, familiar do Stº Ofº (2.1.1771), obteve
em 1777 lugar no convento de Stª Clara do Desterro para quatro
das suas dez filhas. Abastado proprietário de terras, sucedeu nomeadamente
no engenho da Pitanga, em fazendas e engenhos em Piedade, e na fazenda
e engenho de Cinco Rios (Nª Sª do Monte do Recôncavo, Baía), onde viveu,
e em cuja capela de Stº António foi baptizado a 10.6.1708, sendo padrinho
José Telles de Menezes e D. Ana de Argollo, e onde faleceu a 21.6.1779,
sem testamento mas com inventário de menores de 27 de Agosto desse ano,
deixando aos filhos uma fortuna avaliada em 48.096.646 réis de renda
(o total da fortuna do casal montava a 173.528.029 réis), tendo ficado
tutora sua mulher, por provisão régia de 5.10.1780, a qual deu contas
a 13.5.1783, 2.6.1802 e 24.3.1810. Na justificação de nobreza (18.2.1780)
de seus filhos
9
diz-se que a família «era muito nobre, que se tratavam com cavalos
e creados e todo o mais estado pertencente à Nobreza, servindo no Púlpito
e o Militar os lugares expostos que só servem as pessoas de conhecida
e notória Nobreza». Pelas
legítimas de seus filhos documenta-se que possuiu
mais de 500 escravos, que trabalhavam nas suas fazendas e engenhos.
A 13.11.1778 requereu à rainha D. Maria I provisão para
o ouvidor-geral da comarca da Baía fazer tombo das terras pertencentes
ao seu engenho de moer açúcar denominado Pitanga, situado
na vila de S. Francisco (AHU-Bahia, c. 178, d. 92). Casou
a 7.1.1748 na Baía (freguesia de S. Pedro) com D. Leonor Antónia
Francisca de Queiroz (no casamento aparece apenas como D. Leonor
Antónia de Queiroz), nascida cerca de 1730 e falecida viúva a 10.6.1816
na Casa Grande de Cinco Rios. Já viúva, requereu em 1800 a abolição
da capela instituída por Miguel (ou Manuel) Rodrigues de Gusmão (Anais
do BA, v.37, p.54), avô materno de seu marido, como ficou referido.
Em 1796 vivia no seu engenho de S. Lourenço. Era filha do capitão António
Gonçalves da Rocha e de sua mulher (casados cerca de 23.10.1722, data
em que ela obteve autorização do Stº Ofº para casar, após inquirições
de genere, insertas no processo do marido) D. Luiza de Queiroz
e Araújo, «dos Queirozes de Amarante»10,
sucessora, que faleceu a 23.8.1770 e foi sepultada em São Francisco.
Esta D. Luiza casou 2ª vez com o doutor Manuel Vieira Pedrosa da Veiga,
juiz de fora (27.10.1733), desembargador da Relação da Baía (6.2.1741),
cavaleiro da Ordem de Cristo (6.9.1751), familiar do Stº Ofº, nascido
em Trancoso e falecido em 1770 na Baía, s.g. Aquele capitão
António Gonçalves da Rocha 11
era natural de Lanhezes (Viana do Castelo) e falecido 8.11.1740 na Baía.
Foi cavaleiro da Ordem de Cristo, com 12.000 reais de tença (12.12.1733)12,
e era mestre de campo quando foi nomeado capitão comandante da fortaleza
da ilha de Itaparica (18.6.1716) e do
forte de S. Lourenço da Ponte das Baleias (18.3.1717)13,
na mesma ilha (ilha grande em frente a Salvador da Baía), este último
forte que fez à sua custa em 1716. Foi ainda familiar do Santo Oficio
(8.11.1701)14,
provedor
(1726) e irmão da Santa Casa da Misericórdia da Baía (24.6.1716), senhor
de vários engenhos, nomeadamente o de Itatingui e o do Meio, etc. Em
1739 diz ter 66 anos de idade, que pertencia à ordem dos vereadores
e capitaneava a fortaleza de S. Lourenço. A 11.2.1733 teve mercê de
um tença de 8.000 reais. Para mais informação ver adiante
o que digo em ARAÙJO DE GÒIS, família de que descendia
D. Leonor Antónia Francisca de Queiroz por ambos os seus avós,
António de Araújo de Góis e Sequeira e sua mulher D. Maria de Queiroz
Cerqueira, onde também trato a origem dos Queiroz de Amarante.
5.1.
Miguel
Jerónimo de Argollo e Queiroz,
fidalgo da Casa Real (12.6.1780), coronel de Milícias (23.1.1796) e
mestre de campo (2.2.1805) de Infantaria do Terço das Marinhas
de Pirajá, na Baía (Anais, 1914, vol. 36), senhor do engenho da
Pitanga, etc. Foi bat. a 3.1.1753 na capela de Stº António de Cinco
Rios, sendo padrinhos os tios, D. Luiza de Queiroz e seu marido o desembargador
doutor Manuel Vieira Pedrosa da Veiga. Faleceu solteiro e teve na legítima
de seu pai o engenho da Pintanga, com sua fábrica, casas e acessórios,
quintãs, casa de habitação, capela, terras de pasto e de plantar cana,
escravos (cerca de 100), utensílios, gado (cerca de 140 cabeças), etc.
A 7.8.1796 teve carta patente da rainha D. Maria I confirmando-o no
posto de mestre de campo do Terço de Infantaria Auxiliar das
Marinhas de Pirajá, na Baía (AHU-Bahia, c. 202, d.
4). A 7.8.1798 fez justificação dos seus serviços
e dos de seu avô materno o capitão António Gonçalves
da Rocha, para pedir a Ordem de Cristo (Anais, 1914, vol. 36).
5.2.
D. Luiza Clara de Queiroz e Argollo,
que segue no §2.
5.3.
José Joaquim de Argollo e Queiroz,
tenente-coronel de Cavalaria (1818), fidalgo da Casa Real (17.6.1780),
com 12.000 reis de moradia, que a 21.2.1780 teve carta de armas para
Argollo, Queiroz, Gusmão e Rocha, cavaleiro da Ordem de Cristo (5.5.1779),
familiar do Stº Ofº (16.3.1779), sargento-mor do Regimento de Milícias
da vila de S. Francisco do Conde (12.1.1805). Foi tenente, ajudante
(11.11.1785) e capitão (30.8.1798) de Cavalaria do Regimento de Auxiliares
da Baía. Foi vereador ao Senado da Câmara da Baía (1803), senhor (com
sua irmã D. Luiza Clara e seu marido o capitão Luiz Carlos de Pina e
Mello) da Ilha de Cajaíba, no município de S. Francisco do Conde, onde
construíram engenho e casa grande, e senhor do engenho de Itatingui
ou Catingui. Quando, com seus irmãos, justificou a sua nobreza (18.2.1780)
era alferes cadete do Regimento da Baía, posto que já ocupava
quando a 11.11.1779 requereu à rainha D. Maria I licença
para ir à Corte em Lisboa por um ano (AHU-Baia, c. 180, d.
8).
Foi bat. a 29.9.1756 na capela de
Stº António de Cinco Rios, pelo Padre Simão de Queiroz,
sendo padrinhos os mesmo de seu irmão Miguel. De sua legítima, além
de dinheiro, ficou com roupas de seda bordadas a fio de prata, objectos
de prata e ouro (entre eles uma medalha de ouro e diamantes do Santo
Ofício), etc. Casou cerca de 1792 com D. Maria Joaquina Gomes Ferrão
Castello-Branco, irmã do coronel Alexandre Gomes Ferrão Castello-Branco,
deputado às Cortes de Lisboa pela Baía, e de D. Joana Ferrão Castello-Branco,
referidos adiante no §2, e todos filhos do tenente-coronel
José Diogo Gomes Ferrão Castello-Branco e de sua mulher D. Maria Sofia
de Araújo e Azevedo, que já estavam casados quando ela recebeu em S.
Francisco do Conde a 12.7.1770 a legítima de seu pai, então avaliada
em 2.378.476 réis. Este Diogo Gomes Ferrão Castello-Branco era irmão
de Alexandre Gomes Ferrão Castello-Branco, coronel de Ordenanças, fidalgo
cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo (22.6.1735), ambos
filhos de António Gomes, fidalgo cavaleiro da Casa Real e cavaleiro
da Ordem de Cristo (29.1.1688), n. na Baía, e de sua mulher D. Maria
Francisca Castelo-Branco, baptizada em Lisboa (S. João da Barra); netos
paternos de Pedro Gomes, natural de Arcos de Valdevez mestre de campo
pago na Baía, governador do Rio de Janeiro, fidalgo cavaleiro da Casa
Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, e de sua mulher D. Isabel Madeira,
n. na Baía; e netos maternos do Dr. Pedro de Unhão de Castello-Branco,
desembargador, e de sua mulher D. Damiana Francisca da Silva Ferrão,
naturais de Lisboa.
5.3.1.
José Maria de Argollo Ferrão,
sucessor no engenho de Itatingui ou Catingui e em parte do da ilha de
Cajaíba, onde nasceu em 1793 e faleceu solteiro.
5.3.2.
D. Maria José Gomes Ferrão de Argollo, nascida em 1795 na
Casa Grande de Cajaíba e falecida a 24.11.1843. Casou com Joaquim
da Costa Pinto Simões, falecido a 9.1.1837, senhor do «encapelado»
de Bento Simões, filho primogénito do capitão António da Costa Pinto.
5.3.3.
D. (...) de Argollo Ferrão,
que casou com (...) de Araújo.
5.3.3.1. D.
Leonor Antónia
de Araújo e Argollo, que tocou a coroa no baptismo a 6.5.1849
de seu primo Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, referido adiante.
5.3.3.2. João
de Araújo e Argollo, capitão, sobrinho do major
Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que o nomeou seu testamenteiro
em primeiro lugar.
5.3.3.3. ?D.
Leopoldina de Argollo, sobrinha do major
Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que lhe deixou 100.000
réis.
5.3.3.4. ?D.
Cora de Argollo, sobrinha do major
Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que lhe deixou 100.000
réis.
5.3.4.
D. Joaquina Amélia de Argollo
Ferrão, herdeira de seu irmão o major Jerónimo
Felisberto Gomes de Argollo Ferrão. Casou com (...) Moniz.
5.3.4.1. ?Paulo
de Argollo e (Brotelo), capitão, afilhado do major
Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, que o
nomeou seu testamenteiro em terceiro lugar.
5.3.5.
Jerónimo Felisberto Gomes de
Argollo Ferrão, major, nascido em 1797 na Casa Grande de
Cajaíba, foi administrador da quinta dos Lázaros, em Salvador da Baía,
e faleceu em 1871 em Sergipe do Conde, solteiro, sem geração.
No testamento (7.5.1836) de seu primo o coronel José Maria de Pina e
Mello de Argollo e Queiroz, adiante, é referido como o sargento-mor
Jerónimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão. Fez testamento a 1.4.1871.
A pedido de sua irmã herdeira foi passado o seguinte traslado: «Tiburcio
Tavares de Oliveira Escrivão da Provedoria nessa Villa de São Francisco
da Barra de Sergipe do Conde por Mercê de Serventia Vitalícia, conferido
para sua Magestade Imperial e Constitucional o Senhor Dom Pedro Segundo
Imperador e defensor do Brazil e Quem Deos Guarde e certifico aos que
aprezente a minha certidão virem, que meo (puder) e cartório do dito
officio que Sirvo, se acha um Livro sob numero doze que servi para registro
de testamento, o qual lhe próprio e idêntico de que trata e dou fé,
e revendo-o a coisa que me foi pedido por certidão pela Supplicante
Dona Joaquina Amélia de Argollo Ferrão n'ella a folha vinte e seis,
se acha o registro do testamento com que faleceo o Major Jeronimo Felisberto
Gomes de Argollo Ferrão de qual o seo theor de verbo (...) he da forma
modo e (...) seguinte: «Testam.to de f.26 (..) f. 29. Registro do testamento
com que faleceo o Major Jeronimo Felisberto Gomes d' Argollo Ferrão
morador n'esta Freguesia de São Gonçalo, feito e approvado no primeiro
de abril de mil oitocentos e setenta e um e aberto no dia dois do dito
mêz, Testamenteira Dona Joaquina Amélia de Argollo Ferrão Muniz; e conta
e tempo da Lei , e d'elle o seo theor é o seguinte. Em nome de Deos
Amen e Eu o Major Jeronimo Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, estando
doente de cama, porém em meo perfeito juízo, e entendimento, faço este
meu testamento pela maneira seguinte. Primeiro declaro que sou filho
legitimo dos falecidos Tenente Coronel Jozé Joaquim de Argollo, e Donna
Maria Joaquina Gomes Ferrão CasteloBranco; Segundo declaro que nunca
fui Casado e que no estado de solteiro nunca tive filhos; Terceiro Institulo
a minha Irmã Donna Joaquina Amélia d'Argollo Ferrão e Muniz por minha
herdeira de que ficar dos meus bens depois de cumpridos os meus legados
e deposições; Quarto Deixo a minha Afilhada Dona Leopoldina de Argollo
cem mil reis, a Donna Cândida Xavier da Cunha igual a quantia de cem
mil reis e minha Afilhado Izabel Maria Borges cem mil reis; Quinta Deixo
a minha sobrinha Donna Cora de Argollo cem mil reis; Sexta Deixo igual
quantia de cem mil reis a Donna Maria Barbosa Gomes e a Dona Maria Joaquina
outros cem mil reis, em consideração aos serviços que me tem prestado
na minha enfermidade; Septina Nomeio por meus testamentos em primeiro
lugar o meu Sobrinho João de Araújo e Argollo, em segundo lugar a minha
Irmã Donna Joaquina Amália de Argollo Ferrão Muniz e em terceiro o meu
Afilhado o capitão Paulo de Argollo e (Brotelo) E por esta forma hei
por findo este meu testamento, que pedi a Antonio Frutctuozo da Silva
Faria o escrevesse, e n'elle me assigno na Villa de São Francisco primeiro
de abril de mil oitocentos e setenta e um; Jeronimo Felisberto Gomes
de Argollo Ferrão Coroa testamento que o escreveu Antonio Fructuozo
da Silva Farias a Approvação e Saibão quanto este publico instrumento
de approvação do testamento virem que no anno do Nascimento de Nosso
senhor JEzús Christo de mil oitocentos e setenta e um ao primeiro dia
do mez de Abril do dito annon'esta Villa de São Francisco da Barra de
Sergipe do Conde e Cazas de rezedencia do testador o Major Jeronimo
Felisberto Gomes de Argollo Ferrão, onde eu o Tabellião visa a seu chamado
e sendo ahi prezente o mesmo testador, doente de cama, porém em seo
perfeito juízo e entedimento ao parecer de mim Tabellião, e das testemunhas
prezentes, do que dou fé bem como de ser próprio de mim conhecido, e
em prezençã das mesmas testemunhas ao diante nomeadas e assignadas me
entregou esse papel, dizendo-me ser o seu solemne testamento que depois
de escripto por mim».
5.3.6.
Alexandre Gomes de Argollo
Ferrão,
1º barão de Cajaíba (18.7.1841) com honras de grandeza (25.3.1849),
marechal do Exército (25.9.1852), presidente (1865) e vice-presidente
(10.4.1838, durante 20 anos) da província da Baía, comandante das Armas
da Baía (13.9.1831 - exonerado a seu pedido a 23.7.1835), deputado pela
Baía às cortes portuguesas de 1821, moço fidalgo (11.4.1826) e vedor
(14.3.1860) da Casa Imperial, comendador da Ordem de Avis, comendador
e oficial da Ordem de Cristo, foi condecorado com a medalha destinada
ao exército que expulsou da província da Baía as tropas portuguesas.
A 20.2.1822 emigrou para o Recôncavo, onde fez a campanha da Independência.
Encarregado da polícia das vilas de Santo Amaro e S. Francisco do Conde
(19.4.1831), comandou a brigada que venceu os revoltosos da denominada
«Sabinada» (27.11.1837). Assentou praça com 6 anos de idade como
1.º cadete (21.10.1807) na 8.ª Companhia do 2.º Regimento de 1.ª Linha,
passando depois para a 2.ª Companhia do 1.º Batalhão de Caçadores, na
mesma praça (1.4.1810), alferes do 2.º Batalhão de Caçadores (21.7.1818),
tenente (13.5.1820), capitão (10.9.1824), sargento-mor do 14.º Batalhão
de Caçadores, tenente-coronel graduado (30.1.1826), tenente-coronel
efectivo (20.8.1838), coronel (29.11.1838), em remuneração dos serviços
que prestou ao governo legal, por ocasião da revolta da «Sabinada»,
e brigadeiro graduado (2.11.1842), sendo reformado no posto de marechal.
Nasceu em 1801 na Casa Grande de Cajaíba, acabando, com sua mulher,
também co-herdeira, por ser o principal possuidor da ilha, onde faleceu
a 10.5.1870, sendo sepultado em túmulo no cemitério do Campo Santo,
em Salvador, em jazigo armoriado com o escudo de armas concedido a seu
pai. Casou a 1.11.1831, tinha a noiva 15 anos de idade, com sua prima
D. Eudóxia Cândida Ferrão de Pina e Mello de Argollo
e Queiroz, baronesa de Cajaíba,
adiante no §2, falecida a 24.12.1858, «da Epidimia»,
sendo sepultada na capela do engenho São José da vila de S. Francisco
do Conde. Quando estava a estudar em Salvador,
Alexandre Gomes de Argollo Ferrão teve um filho ilegítimo em
Felicidade Perpétua, moça solteira do povo, falecida a 27.3.1866
na Baía, que legitimou na sequência da sua brilhante carreira militar.
5.3.6.1.
(N) Alexandre Gomes de
Argollo Ferrão,
1º visconde de Itaparica com honras de grandeza (26.12.1868), marechal
e comandante em chefe do Exército que combateu na guerra do Paraguai, grande
do Império, grande dignitário da Imperial Ordem da Rosa, dignitário
da Imperial Ordem do Cruzeiro, comendador da Imperial Ordem de S. Bento
de Avis, cavaleiro da Imperial Ordem de Cristo, condecorado com as medalhas
de Mérito e Bravura Militar e da Campanha do Paraguai. Nasceu a 8.8.1821
em Salvador, filho natural da referida Felicidade Perpétua, e faleceu
solteiro a 28.6.1870, na Baía, na sequência de ferimentos que recebera
na batalha de Itorocó. S.g.
5.3.6.2.
José Joaquim Francisco Gomes de Argollo
Ferrão, o primogénito legítimo, nascido a
26.12.1841 na Casa Grande de Cajaíba, em cujo oratório foi bat. com
sete anos, a 6.5.1849, sendo padrinho o coronel Miguel José Maria de
Teive e Argollo e marinha sua avó paterna D. Maria Joaquina Gomes Castello-Branco.
Faleceu a 16.9.1861 em Starnberg, na Baviera, onde estava a estudar.
5.3.6.3.
D. Maria Augusta Gomes de Argollo Ferrão,
nascida a 12.12.1844 na Casa Grande de Cajaíba, em cujo oratório foi
bat. com quatro anos, a 6.5.1849, sendo padrinho o tenente-coronel Manuel
José de Almeida Couto e marinha sua tia D. Elisa Amália de Argollo Pina
e Mello. Casou com o Doutor José de Saldanha da Gama, director
da Escola Politécnica de Rio de Janeiro, falecido a 8.9.1905. S.g.
5.3.6.4. Alexandre,
filho legítimo homónimo do ilegítimo, acima, que nasceu em 1846 e faleceu
com um ano de idade a 24.1.1847, «de um achaque respiratório»,
tendo sido bat. em casa por estar em perigo de vida, sendo sepultado
num carneiro no convento dos franciscanos.
5.3.6.5. Alexandre
Gomes de Argollo Ferrão, filho legítimo homónimo
do ilegítimo, acima, nasceu a 22.9.1847 na Casa Grande de Cajaíba, em
cujo oratório foi bat. com os irmãos a 6.5.1849, sendo padrinho o major
José Diogo Ferrão de Pina e Mello, seu tio materno, e Nª Senhora, tendo
posto a coroa D. Leonor Antónia de Araújo e Argollo. Foi conhecido por
«o Barãozinho» e morreu a 3.9.1878, assassinado às três da madrugada
por seus próprios escravos do engenho de Catingui. Sucedeu ainda na
administração do engenho de Cajaíba e foi o representante genealógico
da família Argollo. Casou com D. Clara Luiza Moniz Viana,
que lhe sobreviveu.
5.3.6.5.1.
D. Maria Augusta Viana Ferrão de Argollo, nascida
a 6.1.1875 em S. Francisco do Conde e fal. a 1.7.1944 no Rio de Janeiro,
aparentemente a herdeira da representação genealógica
da família Argollo. Casou a 24.6.1897 em S. Francisco do Conde
com seu primo o Dr. Luiz de Araújo de Aragão Bulcão,
nascido a 5.3.1873, ib, e fal. a 12.6.1914 no Rio de Janeiro, filho
do 3º barão de S. Francisco (24.03.1881), António de Araújo
de Aragão Bulcão, vice-presidente da província
da Bahia (1878), governador de Sergipe (1867-8), bacharel em Direito
pela Faculdade do Recife (1854), juiz municipal e dos órfãos
de Santo Amaro (6.3.1860), juiz municipal da 2ª vara de Salvador
(18.10.1862), presidente do Instituto Baiano de Agricultura (1880-1905),
presidente do Conselho Municipal de S. Francisco do Conde (1899), senhor
dos engenhos Água, Guaíba e Quicengue, etc., e de sua
2ª mulher (casados a 10.11.1860) D.
Maria José Moniz Viana. C.g. (foram pais, nomeadamente, de Alexandre
de Argollo de Aragão Bulcão, n. a 18.10.1905 em Salvador
e fal. a 8.11.1929, ib)
5.3.6.6.
D.
Maria Josefina Gomes de Argollo Ferrão, nascida
em 1850 na Casa Grande de Cajaíba. Casou com o Doutor Clemente de
Oliveira Mendes, s.g.
5.3.6.7. Eusébio
Gomes de Argollo Ferrão, nascido em 1852
na Casa Grande de Cajaíba, foi capitão na guerra do Paraguai e fal.
solteiro, s.g.
5.3.6.8. D.
Ana Matilde Gomes de Argollo Ferrão, nascida
em 1856 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu solteira.
5.3.6.9. D.
Maria Idalina Gomes de Argollo Ferrão, nascida
em 1857 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu solteira.
5.3.6.10. José
Joaquim Gomes de Argollo Ferrão, nascido
em 1858 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu jovem.
5.3.7.
Felisberto Gomes de Argollo Ferrão,
capitão, nascido cerca de 1802 e fal. a 12.10.1876, ib. Foi irmão da
Santa Casa da Misericórdia da Baía (14.6.1847), documento onde vem referido
como Tenente Felisberto Gomes de Argollo Ferrão. Casou cerca de 1830
com D. Urânia Vanério, falecida a 3.12.1849, ib., filha do doutor
Euzébio Vanério, deputado por Sergipe, professor do Liceu da Baía (1818)
e depois de fundador de um colégio particular em Sergipe e Salvador.
O doutor Euzébio Vanério ofereceu a D. João VI a tradução do Sistema
lancasteriano acerca da educação da mocidade, numa carta em que solicitava
para ele e sua mulher subsídios para se irem instruir em Inglaterra
ou na França na prática deste método, ou ser encarregado de difundir
os seus conhecimentos teóricos, sendo para isso admitido ao real serviço.
Em Outubro de 1820 este requerimento encontrava-se para ser discutido
na Mesa do Desembargo do Paço. Ele teria sido o primeiro a utilizar
no Brasil o método lancasteriano, desde 1817, conforme afirmou em ofício
que dirigiu a D. Pedro I em 1825, ao oferecer-lhe a Memória concernente
ao Ensino Mútuo. Pedia amparo e protecção ao imperador e oferecia-se
para auxiliar a educação na Baía como director das escolas elementares
da província; instrutor de uma escola normal de adultos e tradutor de
algumas obras tendentes ao melhoramento e progresso da educação da mocidade,
segundo o método do Ensino Mútuo. Seu pedido certamente não foi atendido,
pois no início da década de 30 estava estabelecido com um curso particular
de inglês para meninas, auxiliado por sua mulher e netas, em São Cristóvão,
capital da província de Sergipe. Em 1838 continuava com sua escola particular
em Salvador, e em 1845 o Almanaque da Bahia, de Manuel da Silva
Serva, relaciona entre as Casas de Educação particulares existentes
em Salvador, a de Euzébio Vanério, localizada na Igreja da Barroquinha,
que ensinava todas as matérias primárias, atendendo a meninos e meninas
em regime de externato apenas. Por morte do Capitão
Felisberto Gomes de Argollo Ferrão foi feito inventário dos
seus bens no Tribunal da Relação da Baía, processo onde consta o seguinte
documento: «Aos vinte cinco dias do mês de Outubro de mil oitocentos
e setenta e seis, nesta cidade da Bahia rua da Menzareia e caza de numero
cincoenta e cinco na fazenda de Santa Anna desta cidade onde foi reunido
o Doutor Antonio Luiz Affonso de Carvalho Juiz de Direito da vara, comigo
(...) cargo abaixo nomeado, ali presente i inventariante Felisberto
Gomes de Argollo este defiro o Juiz o juramento aos Santos Evangelhos
em um livro delles em que paz na mão direita, e o (...) que sem dolo
nem malicia e com verdade declarousse o dia mez e ano em que falleceo
seu Pai e sua Mai Felisberto Gomes d'Argollo Ferrão e D. Urânia Vanario
d'Argollo Ferrão e os seus herdeiros e os bens deixados pelos mesmo
finados. E (...) por elle o dito juramento assim prometo, cumprir, declarando
que sua Mai D. Urânia Vaneria d'Argollo Ferrão fallecera em trez de
Dezembro de mil oitocentos e quarenta e nove, e seu Pai o Capitão Felisberto
Gomes d'Argollo Ferrão no dia doze do corrente mez e annos, e seos mais
herdeiros são Fernando Augusto Nobrega por cabeça de sua mulher D. Angélica
d'Argollo Nóbrega, D. Olympia d'Argollo Castro, D. Urânia d'Argollo
Silvado, Engenheiro Jayme Gomes d'Argollo Ferrão, Capitão Euzébio Gomes
d'Argollo Ferrão e o Doutor Manoel Gomes d'Argollo Ferrão. Do que para
constar passou este termo em que assignou o mesmo Inventariante».
5.3.7.1. Jaime
Gomes de Argollo Ferrão, engenheiro, tenente da Armada, cavaleiro
da Ordem de Avis, nascido 4.6.1832
na Baía e falecido 4.2.1931 em Cannes, França. Foi adido militar em
Londres e depois viveu em Paris, onde estava a 17.2.1877 quando passou
ao referido seu irmão uma procuração para o representar no inventário
e partilha dos bens de seus pais, documento onde é referido como tenente
da Armada e cavaleiro da Ordem de Avis. Casou em Londres a 8.10.1864
com D. Júlia Pereira de Andrade, nascida a 4.12.1842 no Rio de
Janeiro e falecida a 4.9.1929 em Cannes, e tiveram quatro filhos que
chegaram à idade adulta: Jaime de Argollo Ferrão, Gastão de Argollo
Ferrão, Victor Andrade de Argollo Ferrão (casado em Abril
de 1905 com D. Alice de Aragão Bulcão, sendo pais do Prof. Doutor Rodrigo
Bulcão de Argollo Ferrão, que foi director da Faculdade
de Medicina e do Hospital da Universidade da Baía) e D. Júlia
de Argollo Ferrão, nascida a 13.4.1868 no Rio de Janeiro e falecida
a 4.6.1948 em Cannes, que casou a 4.2.1890 em Paris com o Eng. Artur
Gonçalves da Cunha, nascido no Rio de Janeiro, diplomado em Engenharia
pela Ecole Centrale de Paris, com geração que vive em Paris.
5.3.7.2. D.
Angélica Vanério de Argollo, professora no colégio fundado por seu
avô materno. Casou com Fernando Augusto Nóbrega, s.m.n.
5.3.7.3. D.
Olímpia Vanério de Argollo, professora no colégio fundado por seu
avô materno. Casou com o Doutor Joaquim José da Silva Castro,
também ai professor, s.m.n.
5.3.7.4. D.
Urânia Vanério de Argollo, casada com (...) Silvado, s.m.n.
5.3.7.5. Eusébio
Gomes de Argollo Ferrão, capitão, s.m.n.
5.3.7.6. Manuel
Gomes de Argollo Ferrão, doutor, s.m.n.
5.3.7.7. Felisberto
Gomes de Argollo Ferrão, n. em 1841 na cidade
da Baía, onde faleceu a 6.2.1889, na paróquia de S. Pedro, dizendo-se
no respectivo óbito que era funcionário público aposentado, morador
na rua da Lapa, nº 19, de 48 anos de idade, natural da dita cidade,
tendo falecido de angina, sendo casado com D. Fausta dos Reis
e deixando quatro filhos, chamados: João, de 22 anos; Lídia, de 20;
Felisberto, de 14; e Maria, de 10. Como Felisberto Gomes de Argollo
recebeu de seu irmão Jaime, a 17.2.1877, uma procuração para
o representar no inventário e partilha dos bens de seus pais, que se
fez a 25 de Outubro do mês seguinte, sendo ele o inventariante.
5.3.8.
Bernardo, bat. a 3.1.1802 no oratório da
casa de vivenda de seus pais, sendo padrinho José Maria de Argollo de
Pina e Mello.
5.4.
D. Maria Luiza de Queiroz e Argollo, nascida em
1757. Casou com seu primo José Joaquim de Teive e Argollo, fidalgo
da Casa Real (1783), senhor do engenho de S. Miguel das Almas,
acima, onde segue.
5.5.
Francisco António Jerónimo de Argollo e Queiroz,
que segue no nº 6.
5.6.
D. Francisca Clara de Queiroz e Argollo, nascida
em 1759. Casou antes de 1780 com seu primo Paulo de Argollo e Teive,
fidalgo da Casa Real (3.8.1783), nascido em 1758, acima,
onde segue.
5.7.
Paulo de Argollo e Queiroz, tenente-coronel, fidalgo
da Casa Real (12.6.1780), bat. a 5.8.1760, ib, sendo padrinhos sua avó
D. Inez de Gusmão e o chanceler Tomaz Robin de Barros Barreto. Faleceu
a 26.5.1816 na Baía (vila de S. Francisco do Conde), sem testamento
mas com inventário de menores de 8 de Agosto do mesmo ano, deixando
uma fortuna avaliada em 28.536.473 réis e ficando a mulher tutora dos
filhos e sendo as partilhas julgadas por sentença de 5.12.1818. Antes
de seu irmão mais velho, requereu a 18.3.1795 justificação
dos seus serviços, e dos de seu avô materno o capitão
António Gonçalves da Rocha, para pedir a Ordem de Cristo
(Anais, 1914, vol. 36), onde nomadamente se vê que assentou praça
a 12.4.1777 e era então cadete do 2º Regimento de Infantaria
da Baía. Casou
em 1797 com sua sobrinha D. Maria Benedita de Argollo e Queiroz de
Pina e Mello, no §2.
5.7.1.
Luiz Carlos de Argollo e Queiroz,
nascido em 1798, pois tinha 18 anos quando do inventário. Da legítima
de seu pai, avaliada em 4.076.639 réis, consta uma morada de casas de
sobrado na vila, dois hábitos de Cristo, um pequeno de brilhantes e
outro de águas marinhas, uma bengala com castão e o mais de ouro, um
relógio com caixa e corrente de ouro, esporas, fivelas e florete de
prata, seis escravos, um cavalo de montar e o crédito de várias dívidas
de familiares.
5.7.2.
José Egídio de Argollo e Queiroz,
nascido em 1799, s.m.n.
5.7.3.
Paulo de Argollo e Queiroz,
nascido em 1800, s.m.n.
5.7.4.
Francisco de Paula de Argollo
e Queiroz,
nascido em 1802, pois tinha 14 anos quando do inventário. Viveu na vila
de São Francisco do Conde, casado com D. Gracinda de Mello
e Silva.
5.7.4.1. Francisco
de Paula Argollo, marechal, ministro da Guerra, que foi um dos signatários
da
Constituição da República dos Estados Unidos do
Brasil. Nasceu
a 28.1.1847 em S. Francisco do Conde (Baía) e faleceu a 11.2.1930
no Rio de Janeiro. Era deputado pela Baía quando em 1891 foi
um dos signatários da Constituição da República
dos Estados Unidos do Brasil, vindo a ser ministro da Guerra por duas
vezes (de 4.1.1897 a 17.5. do mesmo ano, e de 15.11.1902 a 15.11.1904),
nos governos de Prudente de Moraes e Rodrigues Alves. Foi depois ministro
(24.2.1905) e presidente (18.1.1911 a 26.11.1920) do Supremo Tribunal
Militar. Assentou praça em 1866 como voluntário, foi alferes
em 1868, tenente em 1869, participando da Campanha do Paraguai. Matriculou-se
depois na Escola Militar, sendo capitão em 1871; major em 1888;
tenente-coronel em 1890; coronel no mesmo ano; general de brigada em
1893; general de divisão em 1900 e marechal em 1902. Foi deputado
pela Baía à Constituinte de 1890 e à primeira legislativa
ordinária do Congresso Nacional (1891-1893) e comandante da 1ª
Região Militar (1900-2). Em 1892 integrou o diretório
do Partido Nacional Democrata, fundado a 25 de Abril em Salvador. Comandou
uma brigada em operações no sul do Paraná e liderou
as lutas em Niterói, conquistando para República a vitória
no combate de Armação, a 9 de Fevereiro do mesmo ano.
Foi condecorado com as ordens de Mérito Militar, das Repúblicas
Argentinas e do Uruguai, e de Avis e de Cristo. Casou com sua prima
D. Maria José Pires de Argollo, filha do Dr. Garcia
Dias Pires de Carvalho e Albuquerque e sua mulher e prima D. Maria Capitulina
de Teive e Argolo, referidos acima.
5.7.5.
António Gonçalves da Rocha e
Argollo, nascido em 1804, s.m.n.
5.7.6.
D. Luiza Clara, nascida em 1807, s.m.n.
5.7.7.
Manuel Inácio de Argollo e Queiroz,
nascido em 1813, s.m.n.
5.8.
D. Inez de Queiroz e Argollo,
nascida em 1761, para quem seu pai obteve em 1777 lugar no convento
do Desterro, onde foi freira.
5.9.
D.
Leonor Antónia de Queiroz e Argollo,
nascida em 1762, para quem seu pai obteve em 1777 lugar no convento
do Desterro, onde foi freira.
5.10.
D. Ana Maria do Nascimento de
Queiroz e Argollo, nascida depois de 1763
e falecida menina em 1779.
5.11.
D. Clara de Queiroz e Argollo, nascida em 1765, para quem
seu pai obteve em 1777 lugar no convento do Desterro, onde foi freira.
5.12.
D. Antónia de Queiroz e Argollo, nascida em 1766 e casada
com seu sobrinho Joaquim Bernardino Falcão de Queiroz e Argollo,
referido no §2.
5.13.
D. Mariana Tereza de Queiroz e Argollo, nascida em 1767
e casada com o sargento-mor Gaspar José de Matos Ferreira de Lucena,
falecido antes de 1818, s.m.n.
5.14.
D. Maria Rosa de Queiroz e Argollo,
nascida cerca de 1768 e falecida depois de 1818. Casou com Luiz de
Bettencourt Berenger César, falecido em 1817, s.m.n.
5.15.
Francisco de Paula de Argollo e Queiroz, fidalgo
da Casa Real (12.6.1780), que no foro vem, como seus irmãos, filho de
Paulo de Argollo, mas que não consta no inventário de menores feito
por morte deste em 1779. Como recebeu o foro junto com seus irmãos,
pode ter acontecido que tenha falecido em 1779, antes de seu pai, pelo
que naturalmente não aparece no inventário, tendo portanto recebido
o foro após a sua morte, o que é provável, dado o tempo que naturalmente
demorava entre o pedido no Brasil e a mercê em Lisboa.
6.
Francisco
António de Argollo e Queiroz,
fidalgo da Casa Real (12.6.1780), tenente-coronel do Regimento da Baía,
foi abastado proprietário de terras, sucedendo nomeadamente na fazenda
e engenho de Cinco Rios, em cuja capela de Stº António foi baptizado
a 21.11.1758, sendo padrinhos os tios, D.Luiza de Queiroz e seu marido
o desembargador doutor Manuel Vieira Pedrosa da Veiga, e faleceu a 22.9.1800,
com apenas 42 anos de idade. Da legítima de seu pai, além da dita fazenda
e engenho, com todos os seus pertences e utensílios, casas de engenho,
casas de vivenda, capela, escravos (cerca de 200), gado bovino (cerca
de 150 cabeças) e cavalar (cerca de 50), ficou com vários objectos de
ouro e pratas. Casou a 22.9.1780 em Matain com D. Antónia Tereza
de Sá Pitta, filha de António da Rocha Pitta e de sua mulher
D. Inácia Marinho Pereira de Macedo; neta paterna de Francisco da Rocha
Pitta e de sua mulher e prima D. Rosa Maria Falcão de Magalhães; neta
materna do capitão Pedro Marinho e de sua mulher D. Rosa Pereira de
Macedo.
6.1.
D. Josefa Maria de Sá Pitta
e Argollo,
viscondessa de Pirajá, falecida antes de 1810. Casou a 28.1.1806 com
Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque, 1º visconde de Pirajá,
referido acima, s.g.
6.2.
D. Maria José Pitta de Argollo
e Queiroz, nascida em 1789 e e falecida solteira
a 1.5.1836.
6.3.
Paulo de Argollo da Rocha Pitta,
nascido em 1790 e falecido depois de 1864, s.g.
6.4.
António Bernardino da Rocha
Pitta e Argollo, que segue no nº 7.
6.5.
José Maria de Argollo Sá Barreto,
coronel (era-o em 1836), nascido cerca de 1795, que em 1836 já estava
casado com sua prima D. Leopoldina Ferrão de Pina e Mello, referida
adiante no §2. Talvez tenham sido pais de José Maria da Rocha
Argollo
7.
António
Bernardino de Argollo da Rocha Pitta ,
1º conde de Passé (14.3.1860), nascido em 1793 na Baía e falecido a
8.2.1877, ib. Agraciado sucessivamente com os títulos de barão (11.9.1843),
visconde com as honras de grandeza (21.12.1854) e conde de Passé. Grande
do Império e vedor de S.M. a imperatriz, foi comandante da Guarda Nacional
e condecorado com a medalha da Restauração da Baía, tendo prestado valiosos
serviços na campanha da Independência e na revolta da Sabinada. Durante
a campanha do Paraguai, organizou e manteve um batalhão de guardas nacionais
para o policiamento da capital da província da Baía. Foi senhor de dez
engenhos de açúcar (Pindobas, Cabaxi, Pinheiro, Sapucaia, Feliz União,
Matoim, Novo Caboto ou Freguesia, etc.) e de grandes fazendas de criação
no interior da Baía, sendo ainda abastado proprietário na cidade de
Salvador e considerado ao seu tempo o homem mais rico do Recôncavo,
onde tinha dez engenhos e vivia na cidade da Baía nas suas casas sobradas
da praça das Portas de S. Bento. Prestou valiosos serviços à campanha
da Independência, à revolta da Sabinada. Era comendador da Imperial
Ordem de Cristo e dignitário da Imperial Ordem da Rosa. Casou a 2.2.1831
com sua prima-direita D. Maria Luiza da Rocha Pitta Moniz Barreto,
baptizada a 10.4.1810 e falecida a 26.2.1838, antes das concessões dos
títulos a seu marido, filha do brigadeiro Jerónimo Moniz Fiuza Barreto
(1761 - 1.11.1830), comissário-geral do Exército Pacificador na guerra
de 1822-1823 - cargo que declinou por motivo de moléstia, e de sua mulher
D. Catarina Josefa de Araújo Pita; neto paterno de João Lopes Fiuza
Barreto, que faleceu a 20.3.1776 na vila de S. Francisco do Conde, sem
testamento mas com inventário de menores de 19 de Abril desse ano, deixando
aos filhos uma fortuna avaliada em 9.334.640 réis, e de sua mulher D.
Luiza Tereza de Santana.
7.1.
António da Rocha Pitta e Argollo,
2º barão (2.6.1862) e 2º visconde de Passé (17.5.1871), nascido a 12.12.1831
em Salvador da Baía e falecido a 22.11.1871 no seu engenho Cobé (Baía),
devido à explosão de uma caldeira, antes de seu pai, de quem tinha recebido
os títulos, primeiro de barão e depois de visconde, após este
passar a conde. Casou a 2.6.1866 com D. Maria José da Conceição Martins,
falecida a 5.1.1893, filha dos viscondes de São Lourenço. S.g.
7.2.
D. Antónia Tereza de Sá Pitta
e Argollo, baronesa de Cotegipe, nascida
a 16.1.1834 em Passé e falecida a 22.9.1871. Casou com o Dr. João
Maurício Wanderley, 1º barão de Cotegipe (14.3.1860, com honras
de grandeza, em sua vida), 1º ministro
do Brasil (1885), senador, ministro e grande do Império, que nasceu
na vila da Barra do Rio S. Francisco (Baia) a 23.10.1815 e faleceu na
cidade do Rio de Janeiro a 13.2.1889, filho de João Maurício Wanderley,
capitão-mor da Vila de Campo Largo, e de sua mulher D. Francisca Antónia
do Livramento. Bacharel em Direito pela Faculdade de Olinda (1837),
foi juiz de Direito da comarca de Santo Amaro, chefe de Policia e depois
presidente da Baia (1852), deputado provincial, representou também sua
província natal da 5ª à 9ª legislaturas, desde 1843 até 1856, sendo
então nomeado senador vindo mais tarde a presidir ao Senado (1882-1885).
Foi presidente do Governo (1885) e oito vezes ministro de Estado ocupando
as pastas do Império, Estrangeiros, Marinha, e Fazenda, entre 1853 e
1885. Como ministro plenipotenciário esteve na República do Prata para
firmar o tratado de paz nos termos do tratado da Tríplice Aliança. Foi
provedor da Santa Casa de Misericórdia (5.8.1883) e deve-se a seus esforços
a fundação, no Rio de Janeiro, do Instituto Pasteur (25.2.1888). Foi
presidente do Banco do Brasil e sócio do IHGB. Era grande do Império,
do Conselho de S. Majestade (13.9.1855), dignitário
da Imperial Ordem do Cruzeiro, comendador da Imperial Ordem da Rosa
(2.12.1854), Grã-Cruz da Ordem de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa
(17.5.1870, por D. Luiz I de Portugal), da Ordem de Dom Carlos III de
Espanha (20.7.1877), de Isabel-a-Católica (26.8.1870), de Leopoldo da
Bélgica (9.1.1871), da Coroa da Itália e da Águia Branca da Rússia (1887),
etc.
Ver
esquema dos Argollo que foram titulares
e suas relações familiares.

§2
Descendência
portuguesa
6.
D.
Luiza Clara de Queiroz e Argollo,
que ficou no nº 5.2 do §1, filha de Paulo de Argollo e Gusmão
e sua mulher D. Leonor Antónia Francisca de Queiroz. Nasceu na Baía
(vila de S. Francisco do Conde) em finais de 1754 e faleceu em Março
de 1788, em Cajaíba, no parto da sua 7ª filha, tinha 34
anos de idade. Teve de seu pai uma legítima avaliada em 3.699.742 réis
em 1780, sendo então viúva de seu 1º marido. A 28.5.1777, quando pediu
licença ao rei para casar 2ª vez, conforme adiante se refere, é dita
«das principais famílias da cidade da Bahia, viúva do desembargador
Bernardino Falcão de Gouveia, do qual lhe ficou um único filho, de idade
de três anos (na verdade 5 anos)», tendo ela 22 anos, «sem a
necessária deliberação para as disposições que requer uma casa grande
como a sua», com dois engenhos de açúcar e mais fazendas. Com seu
2º marido e seu irmão José Joaquim compraram a ilha de Cajaíba, onde
construíram engenho e casa. Esta construção foi encomendada a João Roiz
Bahia, oficial de carpinteiro de obra branca, que num requerimento de
28.8.1790 diz que «sendo vivo o Sarg.to Mor Luiz Carlos da S.ª Pinna
e Mello, com este se ajustou a hirlhe fazer as cazas de seo Engenho
da Cajaíba a jornais, metendo o Sup.e os mais officiais q. necessario
fossem, e com efeito tendo o mesmo Sup.e, faleceo logo o d.º Sarg.to
Mor, e mandando continuar a obra a viuva sua m.er D. Luiza, por morte
desta lhe ficou devendo o q. consta da conta justa tirada p.lo caixa
d.o Engenho, q. a lançoi no 1.º dele e porq. está o Sup.e por embolsar,
e p.ª haver o seu pagamento he precizo q. responda o Ttr.o e Tutor dos
menores q. fiara sobre a verd.e da dívida». O casal deixou ainda
uma dívida de dezassete contos, trezentos e setenta e três mil e quinhentos
e sessenta réis a José Pires de Carvalho e Albuquerque, contraída quando
da compra da ilha de Cajaíba. D. Luiza Clara casou a 1ª vez em 1769
com o doutor Bernardino Falcão de Gouveia (a),
que também aparece referido como Bernardino Falcão de
Souza, desembargador da Relação da Baía (8.4.1754), ouvidor-geral da
comarca do Espírito Santo (4.10.1748), provedor das fazendas dos defuntos
e ausentes, capelas e resíduos da dita comarca (30.10.1748), provedor
da fazenda real da Capitania do Espírito Santo (28.10.1748), etc., cavaleiro
da Ordem de Cristo (21.6.1754), já viúvo de D. Eufrásia Pereira dos
Santos sem geração, nascido em Cascais (filho de Agostinho Henriques
Falcão, capitão de Infantaria, e de sua mulher D. Mariana Maria de Gouveia,
aí moradores) e falecido a 4.1.1774, ib, sem testamento mas com inventário
de menores de 19 do mesmo mês, ficando tutora sua mulher. Muito depois
da sua morte, a 26.3.1781, D. Luiza Clara de Queiroz e Argollo, viúva
do desembargador Bernadino Falcão de Souza, requereu à
rainha D. Maria I provisão para o ouvidor da comarca fazer tombo
e demarcação de uma propriedade de terras que possuia
no termo da vila de S. Francisco, comarca da cidade de Salvador (AHU-Bahia,
c. 183 , d. 25). Entretanto, D. Luiza Clara requerera a 28.5.1777
licença para casar com o capitão Manuel Caetano de Araújo Corte-Real
(AHU-Baia, c. 176, d. 19), como já ficou referido, casamento
que não se chegou a realizar, pois logo no ano seguinte (1.9.1778) requereu
igual licença para casar com o coronel Carlos Manuel Gago da Câmara,
de 41 anos, natural de S. Gonçalo, no Recôncavo, familiar do Stº Ofº,
já viúvo de Juliana Josefa Tomassini, natural de Liorne (Toscana), com
quem casara em Lisboa em 1774 (AHU-ACL-CU-005, c. 175, d. 13180).
Também este casamento não se chegou a realizar, e logo no ano seguinte
D. Luiza pediu nova autorização para casar com o que foi o seu 2º marido.
E de facto casou a 2ª vez, portanto depois de 26.3.1781, com o capitão
Luiz Carlos da Silva de Pina e Mello (b), sargento-mor
do 2º Regimento da Baía (1788)
15,
nascido na cidade de Elvas em 1746, que foi para o Brasil como capitão
da Capitania da Baía (2.9.1767), sendo depois capitão de Infantaria
do antedito 2º Regimento (1780) e capitão do Regimento da
Guarnição da Prata da Baía (1785). A 3.10.1781
teve provisão para, da Capitania da Baía, vir à corte de D. Maria I
em Lisboa.
15
Faleceu viúvo em 1790. Foi senhor do engenho Itaitingui
(ou Itatigui) e tinha casa na freguesia de S. Gonçalo da vila
de S. Francisco do Conde, como se documenta num inventário de menores
de 3.3.1785 feito por morte da mulher do capitão António José Ferreira. 16
A 19.9.1781 o capitão Luiz Carlos da Silva de Pina e Mello requereu
a D. Maria I provisão para que o ouvidor geral do Cível
da Relação da Baía fizesse a demarcação
e o tombo das terras do seu engenho Itaitingui (AHU-Bahia, c. 183
, d. 66). E
requereu a 27.11.1788 à mesma rainha provisão para exercer
a tutela do menor Joaquim Bernardino, filho do 1º casamento de
sua mulher D. Luiza Clara de Queiroz e Argollo, que tinha falecido (AHU-Bahia,
c. 182, d. 66). Com
o seu falecimento, iniciou-se a 11.8.1790 o inventário de menores na
Baía, ficando tutora dos filhos, todos menores, a avó materna, D. Leonor
Antónia Francisca de Queiroz, referida no §1. Luiz
Carlos era irmão do doutor António Procópio da Silva de Pina e Mello,
nascido em Elvas em 1742, desembargador da Relação do Porto (10.2.1785),
corregedor de Évora (31.7.1779), cavaleiro da Ordem de Cristo (7.8.1779),
etc., e do doutor José Cândido da Silva de Pina e Mello, desembargador
do Paço e da Relação do Porto, juiz de fora e dos Órfãos do Porto, etc.,
todos filhos do doutor Francisco Martins da Silva de Carvalho, nascido
em Monforte (Vila Viçosa), desembargador da Relação do Porto, bacharel
habilitado ao serviço de Sua Majestade (19.3.1729), juiz de fora em
Olinda (31.5.1730) e aí provedor das fazendas dos defuntos e ausentes
(3.7.1730), etc., de sua mulher D. Antónia Josefa Bárbara de Pina e
Mello, nascida em Elvas; neto paterno de Luiz Martins da Silva de Carvalho,
senhor da herdade de Stº Aleixo, em Monforte (Vila Viçosa), onde nasceu
e «viveu à lei da nobreza», e de sua mulher D. Luiza Gomes de
Andrade Pimentel, natural de Nª Sª de Orada; e neto materno do capitão
António Rodrigues de Pina e Mello, nascido em 1668 em Elvas, fidalgo
da Casa Real, cavaleiro da Ordem de Cristo (22.4.1704), capitão da Praça
de Elvas, vereador do Senado e tesoureiro da Câmara de Elvas (29.6.1698),
etc., e de sua mulher D. Isabel Tereza de França de Aguillar e Menezes,
também nascida em Elvas.
6.1.
(a) Joaquim Bernardino Falcão
de Queiroz e Argollo, que também se documenta como Joaquim
Bernardino Falcão de Gouveia de Argollo e Queiroz. Nasceu em
1770, pois tinha 4 anos de idade quando seu pai morreu, cabendo-lhe
uma herança avaliada em 26.952.695 réis, da qual constava uma fazenda
e engenho Gorgaia Grande, com todas as suas pertenças e acessórios e
casas de vivenda sobradas de pedra e cal (onde vivia com sua mãe), outra
fazenda dita de Dornelas, mais de 500 cabeças de gado bovino e cavalar,
vários escravos, muita mobília sobretudo em vinhático e jacarandá, um
hábito de Cristo de casaca de granadas, diamantes e outras pedras, um
espadim de prata, um quadro do rei D. João VI e outro da rainha sua
mãe, várias louças, carros de cavalos, etc. Ficaram seus tutores a mãe
e depois o padrasto, e por morte deste seu tio materno o coronel e mestre
de campo Miguel Jerónimo de Argollo e Queiroz. A 30.9.1796, sendo já
maior de idade (tinha 25 ou 26 anos), dispensou a tutoria de seu tio
e constituiu advogado em seu nome para cuidar dos interesses da sua
legítima materna. Em 1803, como Joaquim Bernardino Falcão de
Gouveia de Argollo e Queiroz, morador na Baía, requereu a demarcação
do seu engenho de Gorgaia (Anais, 1915, vol. 37). Talvez seja este que,
como Bernardino Falcão de Gouveia, teve a 27.3.1801 carta de confirmação
da patente de capitão-mor da vila da Vitória. Casou com sua tia D.
Antónia de Queiroz e Argollo, nascida em 1766, no §1.
6.2.
(b) José Maria de Pina e Mello
de Argollo e Queiroz, coronel de Cavalaria
(era-o em 1826), senhor nomeadamente da fazenda e engenho novo de S.
João, que comprou, e, a avaliar pela legítima dos filhos, tinha mais
de 500 escravos. Foi ainda co-herdeiro dos engenhos Grande, Itaitingui
(ou Itatigui) e de Cajaíba, assim como as fazendas da Silveira, de Rio
Verde, do Boqueirãozinho e de Poções. Por morte de seu cunhado sucedeu
no engenho de Santa Cruz. Além do engenho novo de S. João comprou ainda
os engenhos de Baixo e de Água Comprida, construindo assim um enorme
complexo agro-industrial só superado pelo de seu primo o conde de Passé.
Nasceu na Casa Grande de Cajaíba em 1783 e faleceu a 29.5.1836 em S.
Francisco do Conde, com testamento e inventário de menores, deixando
o casal uma avultada fortuna então avaliada em 442.318.555 réis, ficando
testamenteiro e tutor dos menores o coronel Alexandre Gomes de Argollo
Ferrão (futuro visconde de Itaparica), com partilhas julgadas por sentença
de 22.10.1839, tendo sido prestadas contas a 19.7.1847 e 17.7 do mesmo
ano. Ainda menor, com 19 para 20 anos, José Maria saiu de casa de sua
avó e tutora D. Leonor Antónia de Queiroz e tomou posse do engenho de
Cajaíba, que com obrigação de tornas lhe tinha ficado em herança. A
dita sua avó insurgiu-se e fez um requerimento de 13.5.1803 onde diz
que, «sendo tutora de seus nettos f.os do Sarg. mor Luiz Carlos da
Sª Pinna e Mello, q. segregando-se da sua comp.a o mais velho de nome
Joze Maria de Pinna e Mello, e passando ao Engº de Cajaíba onde foi
em cabeça do bem pretendido conculcar o governo da Sup.e a respeito
da economia do m.mo Eng.o, e no q. a Sup.e tem tido o mayor cuidado
em ordem a conservação do m.mo, e porq. este procedimento escandaloso,
e despotico, com tempo q. inda lhe não he permitido governar por ter
dos 19 p.a vinte annos, se oppôem a q. ao Dirt.o, a razão da Sua Tutora,
de Sua Avo, e de o ter criado desde a idade de 5 annos pouco mais ou
menos, e pode hum pronto remédio p.a impedir os dannos q. podem haver
na má administração de sem.e pessoa inerme de todo conhecim.to m.or
p.a dirigir e conservar a sua p.e da herança q. ali tem, mais a de dous
Irmãos, recorre (...)». O coronel José Maria fez testamento a 7.5.1836
no seu engenho da Cajaíba, estando doente e identificando-se como coronel
José Maria Pina e Mello de Argollo e Queiroz, filho legítimo do sargento-mor
Luiz Carlos da Silva de Pina e Mello e de sua mulher D. Luiza Clara
de Argollo e Queiroz, acrescentando que é viúvo de D. Joana Gomes Ferrão
Castello-Branco e que foi pai de oito filhos, que nomeia: José Maria,
Eudoxia Cândida, José Diogo, Elisa Amália, Maria Marta, Ana Cipreste
e Joana. Declara que quer ser sepultado no convento de S. Francisco
, deixa a seu filho José Diogo os engenhos de Cajaíba, de Baixo
e de Água Comprida, a seu genro Alexandre Gomes de Argollo Ferrão, casado
com sua filha Eudoxia Cândida, e Engenho Novo e a administração de engenho
de Santa Cruz, e às restantes filhas rendas em dinheiro (seu filho José
Maria tinha falecido criança). Deixa ainda um legado a seu sobrinho
Bernardo Gomes de Argollo Ferrão e o restante para ser divido pelos
seus herdeiros. Manda ainda libertar duas escravas, Domingas e Gertrudes,
que o estavam a tratar, deixando 500.000 réis a cada uma, e nomeia testamenteiros
seu genro Alexandre, seu primo o sargento-mor Jerónimo Felisberto Gomes
de Argollo Ferrão e seu afilhado Bernardo Gomes de Argollo Ferrão.
O coronel José Maria casou em 1814 com D. Joana Ferrão Castello-Branco,
bat. a 15.5.1789 na capela de S. Miguel, na Baía, e falecida em 1825
na sequência do parto de gémeas, irmã do coronel Alexandre Gomes Ferrão
Castello-Branco, senhor nomeadamente do engenho de Santa Cruz, que faleceu
a 18.2.1826, na Baía (vila de S. Francisco do Conde), deixando herdeiros,
de uma fortuna então avaliada em 87.295.272 réis, seus sobrinhos menores,
pelo que se fez inventário de bens a 5.5.1826, sendo testamenteiro e
inventariante seu cunhado o coronel José Maria de Pina e Mello, com
partilhas julgadas a 29.3.1830, ficando o dito coronel tutor dos bens
de seus filhos. Julgo que esta D. Joana e este Alexandre eram ainda
irmãos de D. Maria Joaquina Gomes Ferrão Castello-Branco casada com
o tenente-coronel José Joaquim de Argollo e Queiroz, acima no §1, e
todos filhos do tenente-coronel José Diogo Gomes Ferrão Castello-Branco
e de sua mulher D. Maria Sofia de Araújo e Azevedo, que já estavam casados
quando ela recebeu em S. Francisco do Conde a 12.7.1770 a legítima de
seu pai, então avaliada em 2.378.476 réis.
6.2.1.
José Maria,
nascido a 1.11.1814 na Casa Grande da Cajaíba, onde foi bat. a 6.11.1814,
por estar em perigo de vida, tendo falecido no dia seguinte, sendo sepultado
na matriz.
6.2.2.
D. Euzébia Ferrão de Pina e
Mello de
Argollo e Queiroz, nascida em 1816 na Casa
Grande da Cajaíba, pois tinha 10 anos quando do inventário de 1826 de
seu tio Alexandre Gomes Ferrão, de que foi herdeira com seus irmãos.
Já tinha falecido em 1838, pois não consta do inventário de menores
feito por morte de seu pai.
6.2.3.
D. Eudóxia Cândida Ferrão de Pina e Mello de
Argollo e Queiroz, baronesa de Cajaíba, nascida
a 13.2.1816 na Casa Grande da Cajaíba, sendo bat. a 17.4.1816 na matriz,
sendo padrinhos o coronel José Diogo Ferrão Castello-Branco e sua mulher
D. Maria Sofia de Araújo e Azevedo, por procuração passada a seu filho
Alexandre Gomes Ferrão. Faleceu a 24.12.1858, «da Epidimia»,
sendo sepultada na capela do engenho São José da vila de S. Francisco
do Conde. Casou a 31.8.1831, tinha 15 anos de idade, com seu primo Alexandre
Gomes de Argollo Ferrão, 1º barão de Cajaíba (18.7.1841), acima
no §1, onde segue. O matrimónio realizou-se no oratório do Engenho Novo,
sendo testemunhas D. Ana Joaquina de Araújo e Azevedo, viúva, D. Luzia
Joaquina de Carvalho Pontes e seu marido Manuel de Carvalho Pontes,
o major Francisco de Alcovia, solteiro, morador em Abrantes, e o tenente
José Cassiano da Costa, solteiro, morador em Paripe.
6.2.4.
D. Leopoldina Ferrão de Pina e Mello de Argollo e Queiroz,
nascida em 1818 na Casa Grande da Cajaíba, em 1838 já estava casada
com seu primo o coronel José Maria de Argollo Sá Barreto, referido
acima no §1.
6.2.5.
José Diogo Ferrão de Pina e
Mello de Argollo e Queiroz, major do Exército
(já o era em 1836), nascido a 14.2.1819 na Casa Grande da Cajaíba, em
cujo oratório foi bat. a 22.4.1821, sendo padrinho Alexandre Gomes Ferrão,
solteiro, morador em Nª Sª do Monte, e madrinha a Madre Leonor Querubina
de Santa Efigénia, freira no convento de Santa Clara do Desterro da
Baía, por procuração passada ao capitão Luiz Lopes Vilas Boas. Além
de co-herdeiro de seu tio materno o coronel Alexandre Gomes Ferrão de
Argollo, com uma legítima de 14.549.211 réis, que incluía o engenho
de Santa Cruz, como ficou dito no no §1, teve de seus pais uma
legítima então avaliada em 63.188.365 réis (15.002.670 do pai e 48.185.695
da mãe). Faleceu, sendo referido como major e casado, em S. Francisco
do Conde a 1.12.1859, óbito que não refere o respectivo dia e mês, apenas
o ano, sabendo-se o resto no inventário da viúva, sendo sepultado num
carneiro do convento de S. Francisco. Casou a 16.4.1844 em Cotegipe,
no oratório do barão de Maragogipe, com D. Raimunda de Bettencourt
Berenguer César, filha do coronel Sancho de Bettencourt Berenguer
César e sua mulher D. Caetana Luiza de Villas-Boas, já falecida, sendo
testemunhas o brigadeiro José de Sá Bettencourt, o comendador Sebastião
Sampaio de Almeida Bastos e o comendador tenente-coronel José Maria
de Sá Barreto. A 16.5.1861 pediu que se fizesse inventário dos bens.
6.2.5.4.
D. Joana Leopoldina de Bettencourt
Pina e Mello, nascida cerca de 1645, pois tinha 16 anos a
16.5.1861, sendo já casada com o alferes Joaquim Alvarenga Cruz de
Malta Filho.
6.2.5.1.
Maria Eudóxia, fal.
a 13.6.1848 em S. Francisco do Conde e sepultada num carneiro no convento
de S. Francisco.
6.2.5.2.
José Diogo de Bettencourt Pina
e Mello, fal. com 11 anos de idade, como se diz no inventário
da mãe.
6.2.5.3.
José Maria de Bettencourt Pina
e Mello, fal. com 9 anos de idade, como se diz no inventário
de sua mãe.
6.2.6.
D. Elisa Amália Ferrão de Pina
e Mello de Argollo e Queiroz, nascida a 20.1.1821
na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 22.4.1821, sendo
padrinho José Joaquim Moniz Barreto e sua mulher D. Josefa Joaquina
Ferrão Moniz Barreto, moradores em Nª Sª do Monte. Tinha 15 anos à morte
do pai e faleceu a 5.9.1852 em S. Miguel de Gotegipe, de «moléstia
febre amarella», sendo sepultada no convento de S. Francisco. Em
1847 já estava casada com seu primo o doutor João de Araújo Gomes
de Argollo, que lhe sobreviveu. S.g.
6.2.7.
D. Maria Murta Ferrão de Pina e Mello, nascida
a 7.5.1822 na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 13.1.1824,
sendo padrinho Alexandre Gomes Ferrão, solteiro, e madrinha a Madre
Maria Gertudes de S. José, freira no convento da Soledade, por procuração
passada ao tenente-coronel José Joaquim Moniz Barreto. A 2.2.1840 foi
bat. no oratório da engenho de Cajaíba Leoncio, crioulo menor, filho
de Gestrudes, africana, escravos de D. Maria Murta Ferrão Pina e Mello.
Casou antes de 1842 com seu primo o coronel Miguel de Teive e Argollo,
referido no §1, onde segue.
6.2.8.
D. Ana Cipreste Ferrão de Pina e Mello, nascida
a 20.6.1823 na Casa Grande da Cajaíba, em cujo oratório foi bat. a 13.1.1824,
sendo padrinho Alexandre Gomes Ferrão e madrinha a Madre Ana Rosa do
Salvador, freira no convento da Soledade, por procuração passada a Miguel
José Maria de Teive e Argollo. Em 1847 já estava casada com um primo,
s.m.n. A 27.6.1841 foi sepultado no adro da matriz de S. Francisco do
Conde um preto de nome Felix, escravo de D. Ana Cipreste de Pina
e Mello.
6.2.9.
D. Joana, nascida em 1825 na Casa Grande
da Cajaíba e falecida a 7.6.1827, com dois anos de idade, em S. Miguel
de Cotegipe, sendo sepultada na matriz, «das grades para cima».
6.2.10.
D. Corina Ferrão de Pina e Mello, gémea da anterior, era menor à
morte do pai e faleceu nova. Ficou tutor desta menor legatária o coronel
Miguel José Maria de Teive e Argollo (futuro barão de Pará-Mirim) e,
após a sua desistência, o irmão dela o major José Diogo Ferrão de Pina
e Mello.
6.2.11. ?(N)
José Feliciano de Argolo, bat. a 21.12.1806 em S. Francisco do Conde
como filho natural de Maria da Conceição, sem indicação do nome do pai,
sendo padrinhos António José Teixeira, viúvo, e Francisca Gouveia de
Macedo. Mais tarde (1838), no seu casamento, é dito filho natural
de Águida Maria da Conceição, também sem indicação de pai. Foi irmão
e tesoureiro da Ordem 3ª do Carmo, tendo tomado o hábito a 26.2.1836
e professado a 17.3.1837. Faleceu a 14.4.1881 na vila da Cachoeira,
sendo sepultado nos carneiros da dita ordem, com indicação de que «faleceu
em estado de pobreza». Não é certo que tenha sido filho natural
do coronel José Maria, havido portanto antes do seu casamento. Se o
foi, é certo que não foi legitimado, pois não consta das partilhas dos
bens de seu pai, nem tão pouco reconhecido, pois não consta do seu testamento
e, em 1837, quando do seu casamento, já o coronel José Maria tinha morrido,
ainda vem referido apenas como filho natural de Maria da Conceição.
É possível, por exemplo, que fosse filho natural do Paulo, irmão deste
José Maria, que faleceu solteiro no início de 1807, com 22 anos, ou
seja, alguns dias depois do baptismo deste José Feliciano. Casou a 1.9.1838
em Salvador (Sé) com Januária Sena da Costa Peixoto, filha natural
de Francisco Xavier. Mais tarde casou com Emília Maria de Jesus,
de quem já tinha filhos. C.g. 17
6.3.
(b) D. Maria Benedita de Argollo e Queiroz de Pina
e Mello, nascida em 1784 na Casa Grande de Cajaíba. Herdou nomeadamente
o engenho de Catingui. Casou com seu tio o tenente-coronel Paulo
de Argollo e Queiroz, acima no §1, onde segue.
6.4.
(b) Paulo de Argollo de Pina e Mello, nascido em
1785 na Casa Grande de Cajaíba, onde faleceu a 12.1.1807, com 22 anos
de idade, solteiro, sem geração.
6.5.
(b) D. Ana Bernardina de Pina e Mello de Argollo e
Queiroz, nascida em 1786 na Casa Grande de Cajaíba. Foi freira no
convento do Desterro, com o nome de D. Ana Bernardina de Jesus.
6.6.
(b) António Procópio de Pina e Mello de Argollo de
Queiroz, que segue no nº 7.
6.7.
(b) D. Leonor Efigénia de Queiroz e Argollo de Pina
e Mello, nascida em 1788 na Casa Grande de Cajaíba e bat. em Março
desse ano, tendo falecido menina. Sua mãe faleceu no seu parto.
7.
António
Procópio de Pina e Mello de Argollo de Queiroz,
fidalgo da Casa Real (aparece como tal mas não encontrei o registo do
foro), que tambem se documenta como António Procópio de
Argollo de Queiroz de Pina e Mello e outras varientes em torno destes
nomes. Nasceu
em 1787 na Casa Grande de Cajaíba e faleceu já viúvo a
26.11.1831 em Portugal, na quinta do Paço de Valpedre, em Penafiel,
com 44 anos de idade, diz o óbito que de repente, de «ataque
apoplético», sendo sepultado dentro da igreja matriz
no dia seguinte. Tendo ficando órfão de mãe com um ano e de pai
com 3 anos, foi chamado ao Porto e adoptado por seus tio paternos, os
desembargadores doutor António Procópio da Silva de Pina e Mello e doutor
José Cândido da Silva de Pina e Mello, de quem viria a ser herdeiro.
Na sequência do inventário de menores que se fez por morte de seus pais,
seu tio (e cunhado) Paulo de Argollo e Queiroz diz que, procedendo à
partilha dos bens dos menores de que era tutora a avó D. Leonor Antónia
de Queiroz, «coube ao menor José Maria Pinna e Mello Argollo e Queiroz
o Engenho da Cajaíba com obrig.m de pagar a menor D. Anna Bernardina
de Jesus, hoje Religioza no Conv.to do Desterro, a torna do seu formal
de partilha, e coube a menor D. Maria Benedita de Queiroz e Argollo
Pinna e Mello, hoje casada com o sup.e, o Engº Catingui (Itaitingui?)
com
obrig.m de pagar outra torna também constante do seu formal de partilha
a António Procopio Pinna e Mello de Argollo e Queiroz ausente em Portugal
e tendo a menor D. Anna Bernardina de Jesus constituido o seu vitalicio
nos juros da sua torna q. importão annnualm.e na quantia de duzentos
e tantos mil r.s, p.a ser mais pronpto o pagam.to necessr.o p.a as despezas
dos seus alim.tos se tem valido do Sup.e q. sempre a tem socorrido,
sem os cobrar aos respectivos rendim.tos da m.ma Religioza, e desejando
continuar na assistencia desta p.or hua parte, e considerando p.or outra
q. o menor António Procópio Pinna e Mello de Argollo e Queiroz a q.m
deve pagar a torna q. lhe foi lançada no seu Engº Catingui, depois da
invasão dos Franceses na Cid.e do Porto, aonde residia, não tem dado
copia do lugar da sua existencia, q. se ignora, nenhuã pensão recebe,
em ficar percebendo a sua torna do d.o coherdr.o também encabeçado;
pretende o Sup.e permutar as m.mas tornas de hum p.a outro Eng.º ficando
o da referida Religioza no do Sup.e e a do menor aus.e no daqq.le outro,
todas com as hypotecas Legaes com q. as Leis segurão os principaes,
e juros, emqto não forem pagas; e como se não possa fazer a d.a permutação
dos quinhões, ainda q.e iguaes, sem autorid.e deste Juizo, recorre e
P. a V.S. seja servido mandar ouvir a Tutora, e ao D.or Cur.or (...)».
Portanto, já António Procópio estava casado quando no Brasil seu tio
e cunhado não sabia do seu paradeiro após a invasão francesa (1807-8).
Terá sido aliás para resolver as questões da sua
herança que, já casado, António Procópio
de Argollo e Queiroz de Pina de Mello a 9.5.1810 requereu ao príncipe
regente (futuro D. João IV) autorização para regressar
à Baía (AHU-Bahia, c.4, d.28). De
facto,
casou a 22.2.1808 em Valpêdre (Penafiel), com D. Maria Jerónima
da Cunha e Castro Ferraz de Brito Ozorio de Portocarreiro, que
sucedeu a seus pais como 13ª senhora da quinta do Paço de
Valpedre, em Penefiel, entre outras propriedades. Nasceu a 25.10.1779
no morgadio da Casal-Soeiro, nos Arcos de Valdevez, e faleceu no palácio
da Bandeirinha, no Porto, a 4.4.1823. Nos paroquiais de Valpedre consta
que dia 30.6.1826 se fizeram três ofícios pela alma de
D. Maria Jerónima, da Qtª do Paço, falecida no Porto.
Quando das invasões francesas, foi viver para a sua quinta do
Paço, em Valpedre, onde casou, bem assim como viveu na vizinha
casa de Maragoça, que aforou, e ainda no palácio da Bandeirinha,
no Porto, com sua cunhada. Era irmã do célebre «Fidalgo da Bandeirinha»,
o tenente-coronel João Bento da Cunha de Brito de Araújo e Castro de
Portocarrero, senhor do dito palácio da Bandeirinha, 21º senhor da torre
de Portocarreiro, etc., que morreu assassinado a 20.3.1809 pela fúria
popular na revolta do Porto desse ano, nas vésperas da chegada
do marechal Soult à cidade, onde ficara porque, nas palavras
de seu outro irmão, o barão de Pombalinho, «tendo
marchado para Almeida o 6º Regimento, do qual elle era commandante;
o Bispo Chefe da Regencia o privou de o acompanhar, e o encarregou de
guarnecer todas as fortificações (então levantadas
em torno daquela cidade) com Artilharia, não só do Arsenal
mas também de diferentes embarcações que se achavam
surtas no Douro, o que lhe custou aquela bagatela». D. Maria
Jerónima era já órfã à data do casamento, tendo sido o último marido
(casados a 22.7.1798) de sua mãe, sem geração, o dito desembargador
doutor José Cândido da Silva de Pina e Mello, tio do noivo e portanto
padrasto da noiva. D. Maria Jerónima era filha do doutor Francisco Luiz
de Brito de Araújo e Casto, juiz e provedor das vilas de Ourém e Castelo
Branco (2.4.1778), cavaleiro da Ordem de Cristo (25.5.1782) e 8º morgado
de Stª Bárbara de Casal-Soeiro, nos Arcos de Valdevez, onde nasceu a
12.8.1733 e faleceu a 20.9.1793, e de sua mulher D. Ana Luiza da Cunha
Coutinho Ozorio e Alarcão de Portocarreiro, chefe de armas desta
linhagem, 4ª senhora
do palácio da Bandeirinha, no Porto, 20ª senhora da torre de Portocarreiro,
7ª morgada de S. Tiago de Melres, 12ª senhora a quinta do Paço, em Valpêdre,
etc., etc., nascida no dito palácio da Bandeirinha, baptizada a 6.8.1737,
ib, e falecida a 6.5.1801 no dito morgadio de Stª Bárbara de Cazal-Soeiro.
7.1.
D. Ana Luiza da Cunha de Argollo e Brito de Portocarreiro,
nascida em 1809, que viveu na quinta do Paço e na casa da Maragoça,
onde faleceu a 30.1.1835, sendo sepultada na capela da casa. Casou a
9.8.1827 em Vaspedre com Francisco de Souza Guedes da Gama Lobo Coutinho,
tenente-coronel do Batalhão Realista de Penafiel, senhor da quinta do
Casal, em Figueiras (Lousada), nascido em Soutelo (Lamego) em 1807 e
falecido a 22.12.1898 na dita casa da Maragoça. Tiveram seis filhos,
todos falecidos solteiros sem geração.
7.2.
D. Antónia Adelaide da Cunha e Alarcão de Portocarreiro,
que segue no nº 8.
7.3.
D. Maria Matilde da Cunha e Brito de Portocarrero,
nascida em 1814, que casou cerca de 1836 com o Dr. José Pedro Solano
de Souza de Barbosa, nascido em Paço de Souza. Tiveram uma única
filha que faleceu solteira em 1900, sem geração.
8.
D.
Antónia Adelaide Vasques da Cunha e Alarcão de Portocarreiro,
que sucedeu como 14ª senhora da quinta do Paço de Valpêdre. Nasceu a
22.4.1812 na casa da Maragoça, em cuja capela foi baptizada a 3 de Maio.
Viveu casada na casa de Coura, em Bitarães (Paredes), e faleceu no final
de 1840 ou início de 1841, com apenas 28 anos de idade. Casou
a 31.5.1837 na capela da casa de Coura com o Dr.
António Augusto Teixeira de Vasconcellos, famoso escritor,
jornalista e romancista, par do Reino, conselheiro de Sua Majestade
Fidelíssima, vice-presidente da Academia de Ciências de Lisboa, embaixador,
deputado, director-geral da Câmara de Deputados, governador de Vila
Real durante a Patuleia, em que participou, tendo sido o redactor da
convenção de Gramido, grã-cruz da Ordem de Isabel-a-Católica, comendador
e cavaleiro de inúmeras ordens nacionais e estrangeiras, moço fidalgo
da Casa Real, etc., etc.
8.1.
D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos
de Portocarreiro, que segue no nº 9.
9.
D.
Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos de Portocarreiro,
filha única, sucedeu a sua tia-avó paterna como senhora da casa
do Barreiro, em Stª Mª Madalena (Paredes), onde viveu, e a sua mãe
como 15ª senhora da quinta do Paço de Valpêdre, e em vários outros
bens. Não sucedeu na casa de Coura nem na quinta da Vidigueira, em Besteiros
(Paredes), propriedades de família que seu pai vendeu. Nasceu a 12.6.1838
na casa de Coura, em cuja capela foi baptizada a 16 seguinte, e faleceu
a 22.7.1908, com 70 anos de idade, na casa do Barreiro. Casou a 21.5.1854,
num domingo à tarde, na igreja de Stª Mª Madalena (Paredes), tinha ela
apenas 16 anos e o noivo já 43 anos de idade, com o
Dr. João Corrêa Pacheco Pereira
de Magalhães
18,
fidalgo da Casa Real
(22.10.1875), comendador da Ordem de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa
(29.7.1875), administrador do concelho de Paredes (28.7.1851 - 1.9.1863),
juiz ordinário do julgado de Paredes, advogado, etc. Ainda estudante
de Direito, participou na guerra civil como comandante da 1ª Companhia
de Granadeiros do Regimento nº 11 de Infantaria, posto no qual combateu
valorosamente na batalha da Asseiceira, travada a 16 de Maio daquele
ano, e se manteve até ao fim das hostilidades, sendo um dos convencionados
de Évora Monte. Foi 8º senhor da casa do Valinho de Beire (Paredes),
10º senhor da quinta do Maravedi, em Mafamude (V. N. de Gaia), onde
nasceu a 27.9.1811 sendo baptizado na respectiva capela de S. João Baptista,
vindo a falecer a 25.12.1888 na casa do Barreiro, onde viveu casado.
Tiveram 12 filhos, quatro deles com geração, vários netos, cinco deles
com geração, e muitos bisnetos, 14 deles com geração. Ver esquema.
2000-2005
ORIGEM DOS ARAÚJO DE GÓIS, do Brasil
Os
Araújo de Góis, do Brasil, descendem de Gaspar
de Araújo e
sua mulher Catarina de Góis, que segundo
Frei Jaboatão
foram para o Brasil «pelos anos de 1563»,
já com pelo menos dois filhos, acrescentando que desembarcaram
na vila de São Jorge, capitania de Ilhéus.
Catarina de Góis faleceu depois de 1588 em Ilhéus.
Viúvo,
Gaspar
de Araújo
foi para a Baía e fez-se jesuíta, vindo a falecer muito
velho cerca de 1600, sendo sepultado na igreja matriz de Cairu
(Baía).
Gaspar
de Araújo
Começando
por Gaspar de Araújo, pouco ou nada até agora
se descobriu com consistência sobre a sua ascendência.
Sobre ele há sobretudo duas fontes: uma secundária,
que é o testemunho do referido Frei Jaboatão,
e outra primária, que é o processo para a Ordem
de Cristo (1651) de seu neto o desembargador João de
Araújo de Góis. Conta
Frei Jaboatão que Gaspar de Araújo se meteu no
Colégio de Jesuítas, que a princípio não
o quiseram aceitar, mas venceu-lhes a resistência servindo-os
fora de portas, como carregador de potes de água e feixes
de lenha, que deixava na portaria dos padres. Sua filha mais
velha, segundo o mesmo frade, morreu em 1643 com 82 anos, nascendo
portanto cerca de 1561. O outro filho que com ele foi de Lisboa
casou cerca de 1603 e faleceu em 1662, devendo ter nascido em
1562, morrendo com 99 ou 100 anos de idade. Em 1587 Gaspar de
Araújo documenta-se como dono de engenho com sua mulher,
pelo que só depois desta data enviuvou. Não deve
assim ter falecido antes de 1600. Faleceu portanto velho, e
não teria menos de 85 nem mais de 95 anos, pelo que terá
nascido entre 1505 e 1515, indo portanto para o Brasil com cerca
de 48/58 anos de idade. Pela cronologia dos filhos, já
referida, deve ter casado cerca
de 1560, em
Lisboa, donde era natural a mulher.
No antedito processo para a Ordem de Cristo do neto, Gaspar
de Araújo documenta-se que
morreu religioso no Colégio do Rio de Janeiro
e que era natural de Ponte de Lima, embora Frei Jaboatão também
o diga natural dos Arcos de Valdevez. O nascimento de Gaspar
de Araújo, seja nos Arcos seja em Ponte de Lima, a sua ida para
o Brasil e a sua relação com a Baía podem indiciar um parentesco
quer com Francisco de Araújo, que também era natural dos Arcos
de Valdevez e foi para a Baía, onde faleceu a 27.8.1602, e onde
casou cerca de 1577 com Maria Dias, neta de Diogo Álvares Correa,
o Caramuru, quer com seu meio-irmão Baltazar Barbosa de Araújo,
também casado com uma neta do Caramuru, irmã da dita Maria Dias.
E ainda com os irmãos Gaspar Barbosa e António de Araújo, também
casados com netas do Caramuru e apontados como naturais de Ponte
de Lima e primos destes. Aquele Francisco de Araújo e seu irmão
Baltazar eram, segundo as genealogias, filhos naturais de Gaspar
Barbosa de Araújo ou Gaspar de Araújo Barbosa, morador nos Arcos
de Valdevez, e netos de Francisco Rodrigues de Araújo e sua
mulher Juliana Barbosa de Souza, igualmente moradores nos Arcos
de Valdevez. Pela cronologia associada, este Gaspar Barbosa
de Araújo ou Gaspar de Araújo Barbosa terá nascido cerca de
1535. Seu pai Francisco Rodrigues de Araújo terá nascido cerca
de 1510, sendo filho do 2º casamento (com Ana da Cunha) de Rodrigo
Álvares de Araújo, nascido cerca de 1460 e legitimado com seus
irmãos Paio e Gonçalo, por carta real de 1.9.1475, como filhos
de Álvaro Rodrigues de Araújo, comendador de Rio Frio (Arcos
de Valdevez) na Ordem de Cristo, e de Constança da Lama, mulher
solteira.
Ora,
o Gaspar de Araújo que nos interessa (casado com Catarina de
Góis) podia perfeitamente ser um irmão inteiro mais novo do
antedito Francisco Rodrigues de Araújo, portanto filho do 2º
casamento de Rodrigo Álvares de Araújo. Teria sido, assim, o
1º desta família a ir para o Brasil, chamando depois seus sobrinhos,
filhos naturais de seu irmão Francisco, que foram em 1571. Gaio,
de resto, dá a Francisco Rodrigues de Araújo um
irmão inteiro a que chama Gaspar Rodrigues de Araújo
e diz que foi abade de Cabaços e Oliveira e que também
dá por pai dos ditos irmãos Francisco de Araújo
e Baltazar Barbosa de Araújo. Mas como esta paternidade
não se confirma, é de supor que seja igualmente
errada a informação de que esse Gaspar Rodrigues
de Araújo foi abade (salvo se é referência
a ter sido jesuíta depois de viúvo). Na verdade,
deve tratar-se do Gaspar Rodrigues de Araújo que a 5.3.1516
era moço da câmara da Casa Real quando teve 4.000
reais de mercê. Teria assim nascido cerca de 1507 e já
então serviria o rei em Lisboa, onde viria a casar. O
que, por outro lado, justificaria o foro que lhe apontam no
Brasil.
A
hipotese que apresento de este Gaspar Rodrigues de Araújo,
moço
da câmara da Casa Real em 1516, ser filho de Rodrigo
Álvares de Araújo e sua sua 2ª mulher Ana da Cunha e ser
o Gaspar de Araújo
que em 1563 foi com sua mulher Catarina de Góis e filhos
para o Brasil, ganha foros de uma quase certeza perante um testemunho
no
processo para Ordem de Cristo de seu neto. Com efeito, uma testemunha,
curiosamente também chamada Gaspar de Araújo,
morador na freguesia de Calheiros, de 53 anos (em 1651), diz
que era parente do habilitado e que «tem por certo
a si pelo conhecimento que ele testemunha tem de seus parentes
como pela fama pública que há de sua qualidade
são todos tidos e havidos por cristãos velhos
por parte de seu pai sem terem raça de mouro cristãos
novos judeu nem mulato nem disse serem infamados nem que descendam
de mecânico algum, antes são parentes dos Alcaides
digo parentes do Alcaide mor que foi de Castro Laboreiro que
foi visabo do Suplicante segundo viu de papéis».
A testemunha parece indecisa sobre se o alcaide-mor de Castro
Laboreiro era parente ou bisavo do suplicante (neste caso o
pai de Gaspar de Araújo). A
verdade é que o
alcaide-mor de Castro Laboreiro, nomeado a 2.6.1483, foi Paio
Rodrigues de Araújo, irmão inteiro (legitimado
na mesma carta real) de
Rodrigo Álvares de Araújo, sendo que este Rodrigo
é, nesta minha hipótese, o tal «visabo
do Suplicante». Seria fácil concluir, com
base no testemunho, que Gaspar de Araújo era filho de
Paio
Rodrigues de Araújo, alcaide-mor de Castro Laboreiro.
Mas deste não há
notícia de que Paio
Rodrigues de Araújo
tivesse tido filhos.
O mais provável é que Rodrigo
Álvares de Araújo
também tivesse
sido
alcaide-mor de Castro Laboreiro, como interino de seu irmão
Paio. Ou então foi confusão da testemunha, que
trocou o tio com o pai, como aliás fica de alguma forma
patente na hesitação quanto ao exacto grau de
parentesco entre o suplicante e o alcaide. Como quer que seja,
de Rodrigo
Álvares ou de seu irmão Paio
Gaspar de Araújo era certamente filho. Não sendo
minimamente aceitável a hipótese adiantada por
meu falecido primo José Ernesto de Menezes e Sousa de
Fontes, no artigo que sobre estes Araújo de Góis
publicou
em 1994,
em co-autoria com Marcelo Meira Amaral Bogaciovas, no nº
1 da Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores
de História e Genealogia, que sem qualquer fundamento
sério supõe Gaspar de Araújo filho de Diogo
de Souza de Araújo e Menezes. Desde logo, Diogo
de Souza (é assim que se documenta, sem Araújo
nem Menezes), não foi alcaide-mor de Castro Laboreiro,
tal como não o foram seu pai e avô. Foi sim alcaide-mor
de Lindoso, nomeado por D. João III (CJIII, 5, 29v),
sucedendo a seu pai João Rodrigues de Araújo,
nomeado 7.1.1496, que por sua vez sucedeu a seu pai Lopo (Rodrigues)
de Araújo, que antes de ser alcaide fora senhor do couto
de Lindoso (11.3.1464), mas perdeu o senhorio em 1468 por ter
fugido para Castela após ter morto várias pessoas.
Quem foi alcaide-mor de Castro Laboreiro, como já disse,
foi Paio Rodrigues de Araújo, sobrinho deste Lopo, nomeado
por D. Afonso V a 2.6.1483, confirmado por D. João II
a 2.6.1483, e que certamente ainda se manteve no cargo no reinado
de D. Manuel I, pois este rei não nomeou ninguém
para o cargo. Como Paio Rodrigues morreu solteiro, D. João
III passou a alcaidaria-mor de Castro Laboreiro para o duque
de Bragança, Casa onde ficou.
Podemos
assim concluir que o Gaspar (Rodrigues) de Araújo que
foi para o Brasil não era filho mas sim sobrinho do alcaide-mor
de Castro Laboreiro,
como a hesitação da testemunha parece explicar.
Acresce que, se fosse filho de Paio Rodrigues, seria o seu único
filho conhecido e naturalmente o sucessor na alcaidaria, não
sendo provável a sua ida para o Brasil. Já como
filho tardio do 2º casamento de Rodrigo Álvares,
não só se explica melhor o patronímico
(Rodrigues) com que aparece em Lisboa, como também a
necessidade de fazer pela vida, primeiro na capital e depois
no Brasil. Como
vimos, o Gaspar de Araújo que foi para o Brasil podia
ter nascido entre 1505 e 1515. Na verdade, terá nascido
na mais recuada destas datas, teria
seu proposto pai cerca de 45 anos de idade (o que concorda perfeitamente
com um 2º casamento). Filho mais novo, provavelmente sem
grandes perspectivas de herança, cedo foi foi posto ao
serviço do rei, não sendo portanto de estranhar
que seja o Gaspar Rodrigues de Araújo que a 5.3.1516,
teria 11 anos de idade, era moço da câmara da Casa
Real quando teve 4.000 reais de mercê. Só muito
mais tarde viria a casar com Catarina de Góis, já
com cerca de 55 anos de idade, sendo ela muitíssimo mais
nova. Provavelmente até casou antes uma 1ª vez,
com mulher por enquanto desconhecida. Neste interim a sua vida
prosseguiu: terá servido no norte de África, quiçá
na Índia, e deve ser o Gaspar de Araújo que D.
João III nomeou escrivão da correição
da ilha de S. Tomé (CJIII, 40, 219) e depois escrivão
das sisas da Ribeira de Santarém (55, 26v).
Rodrigo
Álvares
de Araújo
Seu
proposto pai, Rodrigo Álvares de Araújo, foi cavaleiro
da Ordem de Santiago, como vem referido na carta de armas de
seu filho Gonçalo. A 5.5.1496 Rodrigo Álvares
de Araújo, morador na vila de Ponte de Lima, teve carta
de perdão, com a obrigação de pagar 1.000
reais para a arca da piedade. Era acusado por Lourenço
de Antas, morador nessa vila, de saltar com ele de propósito,
após tê-lo já ameaçado. E deve ser
o Rodrigo Álvares de Araújo, criado do visconde
de Vila Nova de Cerveira, que a 2.4.1511 teve confirmação
de cavaleiro. Como já disse, foi com seus irmãos
legitimado por carta real de 1.9.1475. É o seguinte o
teor desta carta: «Dom Affonço pella graça
de Deos Rey de Castella de Leão, de Portugal, de Tolledo,
de Galiza, de Sevilha, de Cordova, de Jaen, de Murcia, e dos
Algarves daquem e dalem em Africa, Gibaltar, e das Algueziras,
e senhor de Biscaya, e de Molina &c. a quantos esta nossa
carta virem fazemos saber que nos querendo fazer graça
e merce a Rodrigo Alvares de Araujo, e a Payo Rodrigues de Araujo,
e a Gonçalo Rodrigues de Araujo, filhos de Alvaro Rodrigues
de Araujo Comendador, e de Constança de Lama mulher solteyra
ao tempo de sua nacença de nossa certa sciencia, poder
absoluto, que havemos e dispensamos com elles, e legitimamolos,
e fazemolos legitimos, e queremos, e outrogamos, que elles hajão
e possão haver todos os outros previlegios, e liberdades
dignidades, e officios tão publicos, como privados, que
de feito e direyto haver poderião, assi como de legitimo
matrimonio nascidos fossem, e que outrosi possão haver
e herdar os bens do dito seu padre, e madre, e de outras quaiquer
pessoas que lhos derem, ou que lhos deixarem por qualquer guiza
que seja, asi por testamento, como por codecilio, ou por outra
qualquer guiza, que seja, assim por testamento, como por codecilio,
ou por outra qualquer guiza (sic), ou via ou doacção,
e que outrosi possam succeder ab intestato ao dito seu padre,
e quaisquer outros lhes possão fazer quaisquer doacções
tãbem entre vivos, como cauza mortis, assi puros, como
condicionais, e que outrosi possão succeder em morgados,
e outras quaiquer heranças, ou Direitos que lhe forem
dados, ou deixados, por qualquer via que seja, e por aquelles,
que para isso seu poder houverem, comtanto, que não sejam
bens, nem terras da Coroa de nossos Reynos, e outrosi queremos,
e outrogamos, que com esta legitimação os sobreditos
hajão a nobreza, e previlegios della, que por Direito
comum, ordenação e uzança de nossos reinos
haver deverião, se de legitimo matrimonio nascidos forão,
não embargante quaisquer Leis, decretos, declaracois,
costumes, constituicois, foros, oppiniois de Doutores, e quaisquer
outras couzas, que esta legitimacão poderiam annular,
ou embargar, posto que tais sejão de que em esta nossa
dispensação devesse ser feito expressa menção,
porque nos havemos aqui por expessas, e declaradas, e queremos,
que em elle não hajão lugar, porque nossa tenção
he legitimarmos ao dito Rodrigo Alvares de Araujo, Payo Rodrigues
de Araujo, e Gonçalo Rodrigues de Araujo o mais firmemente,
que nos o poderiamos fazer, e o elles devem e podem fazer digo
ser pella guiza que dito he, e esta dispensação
lhes fazemos a requerimento do dito seu padre que pareceo perante
nos em pessoa, e nolo por elles pedio, supprimos todos os fallecimentos
de solemnidade, que de feito, ou direyto for necesario para
esta legitimação firme ser, e mais valer, em pezo,
não he nossa tenção, q por esta legitimação
seja feito nenhum prejuizo a alguns herdeyros legitimos, se
os tinha, e outras quaisquer pessoas, que algu~ Direito hajão
em os ditos bens, e couzas, que assim lhes forem dadas, e deixadas
em testamento, em testemunho da verdade lhes mandamos dar esta
nossa Carta, dada em Lisboa ao primeyro dia de Septembro. Elrey
o mandou pello Doutor João Teixeyra do seu Concelho,
Dezembargo, e peticois, Ruy Vas por Affonço Trigo o fes
anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatro
centos e settenta e sinco annos».
Rodrigo
Álvares de Araújo casou duas vezes, a 1ª
com Babiana Álvares de Antas, de quem teve Gonçalo
Rodrigues de Araújo, nascido em Ponte de Lima, que a
20.2.1531 teve carta de armas para Araújo. Casou a 2ª
vez com Ana da Cunha, senhora da quintã da Torre de Picanços,
em S. Vicente de Távora, de quem teve Francisco Rodrigues
de Araújo, morador em Ponte de Lima, que herdou a dita
Torre
de Picanços, já referido acima, e Gaspar Rodrigues
de Araújo, que identifico com o Gaspar de Araújo
em epígrafe, como ficou dito.
Álvaro
Rodrigues
de Araújo
Como
ficou dito, Rodrigo
Álvares de Araújo era filho de Álvaro Rodrigues
de Araújo, fidalgo da Casa Real, capitão da guarda
do infante D.Henrique, comendador de Rio Frio (Arcos de Valdevez)
na Ordem de Cristo e senhor donatário das igrejas de
Linhares e Guilhedezes. Álvaro
Rodrigues de Araújo
teve ao todo cinco filhos
e cinco filhas, todos legitimados por carta real, sete deles
em Constança de Lama e três em Branca Afonso. Fez
testamento a 25.4.1506, cujo texto é o seguinte: «Em
nome de Deos amen, saybão quantos os que esta manda,
y testamento virem como eu Alvaro Rodrigues de Araujo Cavaleyro,
e Comendador da Comenda de Riofrio, que he da Ordem de Nosso
Senhor Jesus Cristo jazendo doente em cama de dor, que eu tenho
no Corpo, e enfermo, e são do entendimento, faço
minha manda por esta guiza, que se segue // Primeyramente encomendo
minha Alma ao Senhor Deos, que a criou, e rogo a Virgem Maria,
que com toda a Corte celestial rogue ao Senhor Deos por mim
// Mando que enterrem meu corpo dentro na Igreja no jazigo,
que hora mandey fazer // Mando hum marco de prata para hum Calix
ao Mosteyro // Mando que no prymeiro dia me digão sincoenta
Missas, e se as não poderem dizer no dito dia, que as
digão athe o terceyro dia // Mando que ao mes me digão
vinte missas // Mando que ao anno me digão trinta e se
as não poderem dizer nos ditos dias, que as digão
nos seguintes dias // Ao presente dem de obrada a metade de
huã vaca e dois carneyros e trinta reis de pão,
e hum odre de vinho; ao mes vinte reis de pão, hu~ carneyro
e hum alqueyre de vinho; // Mando que me obradem cada sabado,
ou cada Domingo com sinco reis de pão alvo, e huma canada
de vinho, e carne ou pescado, como se puder haver, e que o Cappelão
va sobre minha sepultura com agoa benta cada Domingo // Mando
que digão hum trintario encerrado o mais sedo que puder
ser // Deixo por meu Cumpridor a Rodrigo Alvares meu filho,
que cumpra estas couzas, e deixo o Abbade de Cabreyro por accuzador
// Mando a todos os meus filhos e filhas sob pena de minha bencão,
e maldicão, que não sejão contra minha
manda // Estas são as dividas que devo: devo a Payo Rodrigues
seis mil reis, ou aquillo que acharem assignado por minha mão
// Devo a Fernão Velho meu sobrinho onze mil reis, ou
aquillo que se achar assignado por minha mão, e elle
tem em penhor o meu Lugar em Lubeyra, e tanto que lhe derem
o dito dinheyro, que elle largue o Lugar // Devo a Rodrigo Alvares
de Mantelães trezentos e quarenta e sinco reis, que lhe
fiquey por Pedro de Cadorcas, e lhe devo em outra parte cem
reis // Devo a Pedro Affonco de pano que lhe mandey tomar para
a mulher de João Lopes dous mil reis // A Rodrigo Alvares
de Mantelães de pano que tomey para minha neta mulher
de João do Barreyro de Monte Redondo dous mil duzentos
e sassenta reis, e elle Rodrigo Alvares recebeo a renda de hum
Cazal, que traz Gonçalo da Lama, o mais seja a conta
// Ao Abbade de Tavora de vinho, que lhe comprey novecentos
e settenta reis // Devo a Diogo Dias Bom christão mercador
de pano, que lhe mandey tomar em Sancta Luzia para vestir minha
Caza, e de outro que lhe ja devia deantes em que se montão
quatro mil duzentos e sassenta reis. // - A Henrique de Lima
de pano que lhe tomey no Ladaryo novecentos e dezaseis reis
// Devo a Froillos de Araujo dous mil reis // A João
de Arranhados mil reis de bezerros // Devo a Alvaro Ennes sapateyro
cento e quarenta reis // Estas são as dividas que me
devem. Deve Pedro de Cadorcas cento e quarenta reis // Gonçalo
Gil de São Mamede, mil e quatro centos reis de bezerros
que lhe vendi, e de adianamentos (sic) athe esta era de quinhentos
e sinco // Deixey a João do Pezo dois bezerros em mil,
e novecentos reis, ittem em outra parte me deve seiscentos reis
de dois bezerros meus, q vendeo // A mulher e filhos de João
de Travacos trezentos reis, que emprestey a João de Travacos
// Rodrigo de Travacos mil e cem reis de bezerros, que lhe vendi,
me deve mais os adianamentos em Riofrio, Senlarey [Serraleis],
Parada e Guilhadezes // João de Senlarey quinhentos reis
ou o que se achar em bonna conta, que são de adianamentos,
que fes comigo // Fernando filho de João do Fojo, deve
hum bezerro, e não me lembra o preço, e recebi
delle duzentos reis // Fernão Ennes de eira da Villa
me deve de hum bezerro, ou boy de luctuosa mil e quatrocentos
reis, e destes recebi por a metade de hua vaca quatrocentos
e vinte e sinco reis // Estes são os Cazamentos que eu
dey a minhas filhas, primeyramente Pedro Alvares ouve desasette
mil reis, e a mulher vestida de dous vestidos de Londres, e
suas camas de roupas // Goncalo de Morim des mil reis em dinheyro,
e suas camas de roupa, e a mulher vestida de Londres. // Rodrigo
Alvares de Mantelães des mil reis, e suas camas de roupa,
e a mulher vestida de Londres.// A mulher de João Gomes
deulhe meu Irmão o Cazamento, e eu deylhe a roupa da
cama // Alvaro Pires de Caravana outro boy e outro gado que
lhe dey, que valia sinco mil, e quinhentos reis, e sua roupa,
e ella vestida de Londres. // Luis de Moreyra oito mil reis
em dinheyro, e sua cama de roupa e ella vestida de Londres.
// Affonso Garcia deulhe o Visconde o cazamento, e eu deylhe
a roupa // Dey a João Lopes de Calvos sinco mil reis,
e sua cama de roupa, e sua mulher vestida de Londres. // Mando
que esta minha filha Lucrecia Rodrigues herde Irmammente com
os outros meus filhos, e mando que em a Alvaro Fernandes meu
Criado quatrocentos reis por serviço, que me fez, a João
Grova (?) outrosi meu Criado tres mil reis, mando a Mayor minha
neta, que a vistão assi como vestirão a sua Irmam,
e lhe dem quatro mil reis. // Mando a Constanca Goncalves mil
reis, mando a Maria minha Criada, que lhe dem trezentos reis,
porquanto ja agora esta vestida. // Mando que os moços
pequenos, que eu criey que fazendo Deos de mim al, mando a meus
Cumpridores, que lhe satisfacão, como cada hum merecer.
// Mando que a Pedro Galego meu Criado lhe dem tres mil reis.
// Mando, que todos os meus bens se paguem estas dividas, e
servicos assima escriptos, segundo por mim he mandado, e tanto
que apartadas forem as dividas me apartem meu terco para cura
de minha Alma, do qual mando ao dito Rodrigo Alvares meu filho,
e assi a Alvaro Rodrigues outrosi meu filho que tambem lhe dou
por ajudador, que cumpra todas as couzas assima escriptas, que
cumprão para cura de minha Alma, e assim o mais, e cumprido,
o mais que remanecer de meu terço o hajão por
seu trabalho, e se ahi houver tanta quantidade, mando que dem
dous mil reis para duas orphans, onde virem que he mais necessario,
e assim mando a Guiomar de Villafranca, que meus herdeyros lhe
não vão a couza alguma, que ella tiver destas
portas a dentro a saber em peças de Caza, e mais mando,
que por serviço, que me fes lhe dem quatro milreis em
gado, quer em dinheyro, mais mando lhe não vão
ao quinhão de duas vacas, e duas filhas, que trago comigo
// Mando que dem a Branca Affonco de Tavora dois mil reis. //
Mando que de todos os meus bens se apartem tres mil reis, e
mando aos dois meus herdeyros os distribuão pella Alma
de Constanca de Lama por muito serviço que me fes; mando
a meus herdeyros, que não vão a huas pertencas,
que comprou Guiomar de Villafranca a Goncalo de Villafranca
em Gouvellas; Mando que os bens que comprou Guiomar de Villafranca
a Lopo, que jazem em Villafranca, que forão de Mecia
Affonco, que lhe não vão a elles. digo mais, que
o Campo das Coraceiras, que pertence aos filhos de Constanca
de Lama, que ella o comprou; e por esta maneyra hey por revogadas
outras quaisquer mandas, e codecilios, que eu athe aqui tenha
feitos, que não valhão em juizo, nem fora delle,
salvo esta, e por ella peco a Elrey Nosso Senhor, e a todas
as suas justicas, a que for mostrada, que em todo o facão
cumprir, e guardar, porque esta he a minha postrimeyra vontada
e esta hey por bonna e valioza deste dia para todo sempre //
E mais me deve Pedro Alvares de Cazal Soeiro o que lhe emprestey;
feita, e outorgada foi a dita manda dentro das Cazas da morada
da dita Comenda de Rio frio, aos vinte e sinco dias do mes de
Abril do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de
mil e quinhentos e seis, e logo ahi pello dito Alvaro Rodrigues
Comendador foi dito que seu dezejo e vontade era por alguns
respeitos ao prezente todos não serem sabedores do Contheudo
em seu testamento, disse que mandava a mim Taballião,
que fizesse hum instrumento ao pee della de fee, como elle outorgava
prezentes as testemunhas, o qual instrumento he o seguinte:
Saibão quantos este instrumento de fee, e outoga virem,
que no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil
e quinhentos e seis annos, aos vinte e sinco dias do mes de
Abril dentro das Cazas da morada da Comenda de Rio frio, do
Julgado de Val de Ves em prezença de mim Tabalião,
e testemunhas jazendo em cama Alvaro Rodrigues de Araujo Comendador
da dita Comenda, que elle agora fazia sua manda, e testamento,
e por nella mandar alguas couzas por descargo de sua Alma, comigo
Tabalião del Rey Pedro Annes no dito Julgado, como assima
deste escripto está escripto, e por ao prezente todos
não serem sabedores do que eu mando, por descargo de
minha Alma, vos Tabalião me dareis hum instrumento, como
heu hey por boa, valioza, e firme para sempre, como nella fas
menção, e outorgo por este escripto em pessoa
vossa, e das testemunhas, que me vem, e ouvem outorgar, assim,
e pella guiza, que nella fas menção, e por vos
Tabalião escripta, porque esta he minha tenção
digo minha vontade, porque a fis com todo o meu sizo, e entendimento,
e de todo peco assim, hum instrumento, e por elle protesto ser
firme, valioza em juizo, e fora delle, como couza por mim he
mandado, e por de tudo peco o dito instrumento para minha guarda,
e de minha alma, testemunhas que forão prezentes João
Lopes de Calvos, e Goncalo Gomes seu filho, e Diogo Lopes de
Alvim, e Fernão de Calvos, e Diogo do Torrão,
e Diogo da Fonte, morador em Tavora, e outros e eu Pedro Annes
Tabalião no dito Julgado, que este escrevi, e assi foi
testemunha Diogo Fernandes Abbade de Peruzello // Alvaro Roiz
// // Gonçalo Gomes // Diogo Lopes // Diogo da Fonte
// Fernão de Calvos // Diogo do Torrão // Martinho
Alvares // João Lopes. E não se continha mais
nada no dito testamento, e termo delle, que tudo se tresladou
na verdade e ao proprio me reporto».
Paio
Rodrigues
de Araújo
Álvaro
Rodrigues de Araújo era um dos filhos mais novos de Paio
Rodrigues de Araújo, o Cavaleiro, guarda-mor de D. João
I
e seu embaixador a Castela,
alcaide-mor de Lindoso, comendador de Rio Frio e Rio Caldo,
senhor de Lobios (Galiza), senhor de juro e herdade de Lindoso,
senhor de Castelo Rodrigo (26.11.1433), senhor de juro e herdade
de Monção, etc., e de sua mulher Leonor Pereira,
filha herdeira de Bernardim de Barbudo, senhor de Barbudo, do
castelo de Bouro e do couto de Sabaris. Paio
Rodrigues de Araújo esteve em Ceuta (1415) com 300 homens,
e em Tanger (1437), teve mercês confirmadas a 26.11.1436.
Foi ainda senhor do couto de Val de Poldros, que aforou. É
a seguinta a carta de aforamento: «Aforamento de Payo
Rodrigues de Araujo o Cavaleyro, do Couto de Val de poldros.
Saybão quantos este instrumento de aforamento virem de
como eu Payo Rodrigues de Araujo fidalgo da Caza do muito magnifico
e poderoso Senhor Elrey Dom João primeiro, e guardador
de sua pessoa, e Comendadeyro da Comenda de Riofrio, e Rio Caldo,
Alcayde mor do Castello de Lindozo, e senhor de Lobeos em Galiza,
ora aforo para sempre em fateosim a vos Anes Pescosso e a vos
Braz Alquerno (?), e a vossas mulheres Catharina Petiza, e Anna
Chamissa, que presentes estades o meu Couto de Val de poldros,
e assim como eu o deffendi, demarquey, e melhorey, com tal condiçom,
que vos e todos vossos descendentes serdes obrigados a ser nossos
piões de pee, e de nossos descendentes, que pessuirem
o dito Couto, no qual farey huã caza, onde residira o
meu mordomo, o qual seredes obrigados servir naquillo que de
nossa parte vos demandar non sendo vos vergonhozo; e quando
eu for cassar ao dito Couto pousarey na dita Caza, levarey vinho
e pão branco, e vos seredes obrigados a nos dar para
nosso gazalho cada hum, huã pessa do milhor movel de
vossa caza, e os que o não tiverdes nos pagareis com
sendas e boas vontades; e por que quero que sejades defendidos
e amparados deixo de consenso para sempre de cada hum anno no
dito Couto a meu Compadre Nuno de Amorim Comendataryo de Paderne
digo do Mosteyro de Paderne, e aos que apos delle forem quatrocentos
reis em cada hum anno, para que vos defendão, e amparem
de tão maos homes como são Lopo Gomes de Abreu
senhor dos Regalados, e Fernão Annes senhor de Giella,
e de outros semelhantes, e por de todo ser contente, e vos aceitardes
este aforamento com as ditas condicois mandey fazer a presente,
em que forão testemunhas etc. (sic)». Já
tinha falecido a 11.3.1464 quando D. Afonso V doou a Lopo de
Araújo, escudeiro, fidalgo da sua Casa, enquanto sua
mercê for, o couto de Lindoso, seu castelo e respectivo
senhorio, rendas e pertenças, em substituição
de Paio Rodrigues de Araújo, seu pai, que morrera. E
a 25.2.1464 o mesmo rei confirmou adoação vitalícia
a Paio Rodrigues e a Lopo Rodrigues de Araújo, escudeiros
e fidalgos da sua Casa, das rendas e direitos dos reguengos
situados na vila de Monção, que ficarem por morte
de Paio Rodrigues de Araújo, seu pai.
Origem
dos
Araújo
Paio
Rodrigues de Araújo, o Cavaleiro, nascido cerca de 1400,
era o filho sucessor de Pedro Anes de Araújo, senhor
de Lobios, senhor de juro e herdade (20.5.1398) e alcaide-mor
(16.8.1398)
de Lindoso, etc., e de sua mulher Leonor Gonçalves Pedroso.
Pedro
Anes de Araújo, que
é referido por Fernão
Lopes, achou-se com Lopo Gomes de lira na defesa de Ponte de
Lima contra o mestre de Avis, o que este depois lhe perdoou,
comfirmando-lhe as terras que tinha em Portugal e dando-lhe
em tença as de Lindoso.
Este Pedro Anes era filho sucessor de Gonçalo Rodrigues
de Araújo, senhor
de Lobios, alcaide-mor de Lindoso e Castro Laboreiro (12.10.1382
e 20.4.1383), que apoiou o partido da rainha D. Beatriz contra
o mestre de Avis, e de sua 1ª mulher Maria Ribeiro (e não
da segunda, Froile Afonso de Magalhães, como dizem algumas
genealogias, coisa que a cronologia não permite). Este
Gonçalo Rodrigues de Araújo
serviu com quatro lanças o rei D. Fernando I, que lhe
deu as terras de Vilar de Vacas, Cidrais e Lindoso (12.10.1382
e 30.4.1383). Gonçalo Rodrigues de Araújo era
filho sucessor de outro Pedro Anes de Araújo, fronteiro
da Galiza, e neto materno de Gonçalo Rodrigues Veloso,
que fez a torre de Lobios, na Galiza, verificando-se nesta linhagem
uma onomástica muito extravagante para a época.
Ao contrário do que dizem as genealogias tardias, o antedito
Pedro Anes de Araújo (Araúxo) é que terá
sido o 1º deste nome, certamente por ser senhor de Araúxo,
junto a Lobios, o que cronologicamente concorda com o facto
de o conde D. Pedro não tratar esta família. E
Vasco Rodrigues de Araújo seria seu filho (portanto irmão
de Gonçalo Rodrigues de Araújo), como a sua cronologia
indicia, e não seu pai, como dizem as mesmas genealogias
tardias.
Catarina
de Góis
Quanto
a Catarina de Góis, mulher de Gaspar de Araújo, documenta-se
no processo para a Ordem de Cristo do neto como natural de Lisboa,
filha de Rui Gonçalves de Góis, escrivão do Fisco Real, tendo
ido com o marido e filhos povoar Ilhéus. Apura-se ainda que
Catarina de Góis era parente do Padre João de Matos, jesuíta
e visitador desta ordem, de D. Serafina de Góis, moradora na
rua de S. Boaventura (que era mãe de D. Juliana de Mello, viúva
de Bartolomeu de Vasconcellos da Cunha, governador que foi da
ilha da Madeira), de D. Ana de Góis, de 67 anos, viúva de João
Coelho de Castro, escrivão que foi do fisco real, moradora na
rua direita de Santana, e do cónego desembargador Luiz de Góis
de Matos, já falecido, todos de Lisboa. Uma das testemunhas
ouvidas em Lisboa, António Correa Freire, morador a S. João
da Praça, de mais de 40 anos de idade, disse que o neto de Catarina
de Góis, quando veio do Brasil estudar a Coimbra, nas férias
pousava em casa de seu "tio" o cónego desembargador
Luiz de Góis de Matos e que ouviu muitas vezes falar de sua
avó paterna (Catarina de Góis) ao dito desembargador e dizer
que tinha estes primos Araújo e Góis moradores na Baía, e que
o pai do justificante por nome Jorge de Araújo de Góis de cá
fora para o Brasil, e lhe parece que desta cidade de Lisboa.
E que sendo o dito justificante de quem ele testemunha depoente
desta família de Góis e Araújo sabe serem limpíssimos de sangue
e muito nobres por geração, sem terem raça de judeu, cristão
novo, mouro, herege, nem de gentios, por serem descendentes
do escrivão do fisco desta cidade Julião de Góis.
Rui
Gonçalves
de Góis
Na
verdade, como se refere no já citado artigo da RABPHG, Rui Gonçalves
de Góis viveu em Lisboa, onde foi escrivão do fisco real e almoxarife
dos paços reais. A 11.1.1571, sendo morador na freguesia do
Castelo, vem referido como cavaleiro fidalgo do cardeal D. Henrique
quando fez uma doação a seu filho Pedro de Góis, moço da câmara
da Casa Real e tabelião, servindo de testemunha seu outro filho,
Julião de Góis (Index das Notas de Vários Tabeliães de Lisboa - Séculos XV-XVIII - tomo
4º, pág. 213, em notas do tabelião Jerónimo Teixeira do ano
de 1570 e 1571, folha 342, BN, 1949). Rui Gonçalves de Góis
casou com Margarida de Anseres e faleceu a 15.7.1571 na freguesia
de Stª Cruz do Castelo (Lisboa), sendo no óbito referido como
escrivão do fisco e ficando testamenteiro seu filho Julião de
Góis. Este seu filho Julião de Góis sucedeu-lhe como escrivão
do fisco e casou com Apolónia de Matos, filha de João de Matos
e sua mulher Antónia de Madureira e prima de D. António de Matos,
bispo de Elvas e inquisidor. Deste casal descendem os anteditos
sobrinhos de Catarina de Góis. O antedito filho Pedro de Góis,
moço da Câmara e tabelião em 1571, deve ser o homónimo que casou
com Catarina de Aragão e teve dois filhos baptizados na freguesia
de Stª Cruz do Castelo (Lisboa): Margarida, a 31.12.1567, e
Luiz, a 20.4.1578, devendo ter servido na Índia ou norte de
África pelo menos em parte do dilatado intervalo destes nascimentos.
Aquela D. Serafina de Góis, moradora na rua de S. Boaventura,
faleceu aí (freguesia das Mercês) a 23.10.1653, sendo casada
com José Ferreira de Mello. A filha, D. Juliana de Mello, casou
a 23.6.1630, ib. com Bartolomeu de Vasconcellos da Cunha, nascido
ib, sendo pais de pelo menos um filho, Francisco, baptizado
a 19.4.1631, ib.
Como
vimos, Catarina de Góis casou cerca de 1560, sendo necessariamente
muito mais nova do que o marido (devia até ser a sua 2ª mulher),
o qual propomos ter nascido cerca de 1505. Catarina de Góis
terá nascido cerca de 1540/4 e deve ter sido a mais velha dos
filhos de Rui Gonçalves de Góis, sendo que este não terá nascido
antes de 1516/20, sendo portanto mais novo do que o genro, particularidade
que se verifica muitas vezes. Esta datação Rui Gonçalves de
Góis resulta não só da cronologia dos filhos, mas também do
facto de em 1571, data da sua morte, ainda exercer o cargo.
E de só ter sido nomeado para os cargos por D. Sebastião, não
aparecendo no reinado de D. João III, o que o faz supor ainda
relativamente novo à data da morte deste rei, em 1557.
Mas
de quem era filho o escrivão do fisco Rui Gonçalves de Góis,
que as genealogias não referem e que terá nascido cerca de 1516/20?
Infelizmente não me foi possível encontrar ainda qualquer referência
directa que permita localizar os pais de Rui Gonçalves nas já
vastas linhas de Góis que floresciam nos primórdios do século
XVI. E ficaria num beco sem saída não fosse o caso de, entre
os netos de Catarina de Góis e Gaspar de Araújo, aparecer uma
neta inexplicavelmente chamada Maria de Góis de Macedo. Em geral,
os netos de Gaspar de Araújo e Catarina de Góis usaram o nome
composto Araújo de Góis, alguns apenas Góis, outros Sequeira
de Góis ou apenas Sequeira (das noras Maria de Sequeira e Ângela
de Sequeira), ou Góis da Fonseca e Araújo da Fonseca (do genro
Domingos da Fonseca Saraiva), ou finalmente Araújo de Brum,
do genro Melchior de Armas de Brum. E é justamente deste Melchior
de Armas de Brum e de sua mulher Francisca de Araújo que foi
filha a antedita Maria de Góis de Macedo, com filhos que seguiram
estes dois nomes. Desta Maria, para além de um Gaspar de Armas
de Brum e de um Marcos de Araújo de Brum, foi irmã uma Margarida
de Anseres, justamente o nome de sua bisavó, a mulher de Rui
Gonçalves de Góis.
Sendo
ténue, este indício não deixa de ser significativo. Na verdade,
a família Araújo de Góis não estava isolada no Brasil, como
se documenta, tendo vários dos filhos e netos de Gaspar de Araújo
e Catarina de Góis vindo a Portugal, nomeadamente para estudar
em Coimbra, sabendo-se que visitavam os parentes. E assim todos
saberiam que capela-mor da igreja do Espírito Santo de Alenquer
estavam vários túmulos armoriados, de Macedo em pleno, entre
eles o de Sebastião de Macedo, falecido em 1570, e o de seu
pai Francisco de Macedo, nascido cerca de 1469 e falecido em
1545, sendo este nada mais nada menos do que o meio-irmão mais
velho do celebrado Damião de Góis, e chefe deste ramo, ambos
filhos de Rui Dias de Góis.
Esta
recuperação do nome Macedo é portanto um fortíssimo indício
de que Rui Gonçalves de Góis era não só da linha de Alenquer
como descendente de Rui Dias de Góis e sua 1ª mulher Inez de
Oliveira ou de Macedo.
Rui
Dias
de Góis
Rui
Dias de Góis nasceu cerca de 1438, foi escudeiro da Casa Real,
esteve na conquista de Arzila (1471), sendo depois almoxarife
de Alenquer, cargo que ocupava em 1509, vindo a falecer em 1513.
Casou quatro vezes. Tendo em conta a cronologia dos filhos dos
seus dois primeiros matrimónios, casou a primeira cerca de 1468
com a antedita Inez de Oliveira ou de Macedo, que terá falecido
de parto no ano seguinte. Ficando com uma criança, tratou de
casar logo outra vez, desta feita com uma parente, Filipa de
Góis, tendo o filho deste 2º casamento nascido cerca de 1470.
O filho mais novo do 4º casamento, Damião de Góis, só haveria
de nascer em 1502, ficando órfão de pai aos 11 anos de idade.
Rui
Dias de Góis viveu em Estremoz pelo menos de 1469 até 1475.
A ida para Estremoz terá ficado a dever-se à nomeação do pai,
como direi adiante. A ligação a Alenquer deste ramo de Góis,
apesar da episódica relação de seu pai com esta vila como contador
(a vila era da rainha D. Leonor, a quem ele servia), veio a
fazer-se sobretudo pelo 2º casamento de Rui Dias de Góis com
Filipa de Góis, do ramo de Alenquer.
Com
efeito, a 16.1.1469 D. Afonso V privilegiou Rui Dias de Góis,
escudeiro da sua Casa, morador em Estremoz, concedendo-lhe licença
para uso e porte de armas nesta vila e seu termo, e por todo
o reino e senhorio, para se defender dos filhos de João Rodrigues
Mealheiro, desembargador régio, que eram seus inimigos. E a
18.6.1472 o mesmo rei perdoou a justiça régia a Rui Dias de
Góis, escudeiro da sua Casa, morador na vila de Estremoz, acusado
da morte de Gonçalo Rodrigues Mealheiro, na sequência do perdão
geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquista
da vila de Arzila e da cidade de Tânger, e mediante o perdão
das partes. Finalmente, a 13.2.1475 privilegiou por dois anos
Rui Dias de Góis, escudeiro da sua Casa, morador na vila de
Estremoz, concedendo-lhe licença para alugar a judeus umas casas
suas, fora da judiaria.
Francisco
de Macedo
O
filho do primeiro casamento de Rui Dias de Góis, cuja mãe terá
falecido de parto, foi o já referido Francisco de Macedo, escudeiro
e depois cavaleiro da Casa Real, contador das comarcas de Alenquer
e Sintra e 1º provedor do hospital e Santa Casa do Espírito
Santo de Alenquer. A 7.8.1501 já estava casado (e há muito).
Com efeito, nesta data Francisco de Macedo, escudeiro da Casa
d'el rei, morador em Alenquer, enviou dizer, por sua informação,
que um dia, véspera da Trindade de 1500, chegara ele com sua
mulher ao lugar de Tojal, termo dessa vila, por serem convidados
para um Pentecoste, que se no dito lugar fazia. E estando assim
no dito lugar, um dia, à boca da noite, Isabel Rodrigues, mulher
solteira, moradora em Olhalvo, termo da mesma vila, e Bartolomeu
Fernandes, seu tio, o requereram, e assim mesmo a certos parentes
e amigos, para haverem de saltar com Filipe Pires, morador em
Lisboa, que aquela noite havia de ir dormir a casa de Isabel
Rodrigues, assim como estava em costume e fazia, havia bem dois
anos, quando Isabel Rodrigues queria, sem nunca Filipe Pires
a querer receber por mulher. E sobre isso o suplicante e os
ditos parentes e amigos fizeram conselho para determinarem o
que haviam de fazer. O qual conselho, tanto que fora feito,
logo ao serão partiram todos para o Tojal, onde jazia a dita
Isabel Rodrigues com o Filipe Pires, indo armados, uns com couraças
e lanças e espadas, e outros de espadas e capas. E chegaram
entre as 11 horas da noite, pouco mais ou menos, e saltaram
com os sobreditos, onde jaziam em uma cama. E tanto que se assim
chegaram, fizeram vir uma candeia, por força e contra vontade
de Filipe Pires, e o fizeram receber com Isabel Rodrigues por
marido e mulher. E tanto que fora manhã do dia seguinte, Filipe
Pires se fora agravar do suplicante e dos outros todos às justiças,
e sobre isso fora tirada inquirição, e o suplicante culpado
e preso sobre sua menagem, como ainda era nesta cidade. E se
procedera tanto no seu feito que, estando em contraditas, ele,
suplicante, se chamara às ordens, e por isso lhe fora assinado
termo que fizesse certo como, ao tempo do malefício estava honesto
em hábito de tonsura. E, estando o feito nestes termos, Filipe
Pires lhe viera a perdoar, por um instrumento feito e assinado
por João Gonçalves, tabelião em Lisboa, aos 17 de Julho de 1501.
Enviando pedir lhe perdoasse sua justiça e o mandasse soltar,
el rei, vendo seu dizer e visto o perdão da parte e um praz-me
com o seu passe, lhe perdoou a força que assim fizera, e mandou
que lhe levantassem sua menagem e o soltassem, contanto pagasse
6.000 reais para a Piedade.
Francisco
de Macedo foi escrivão dos contos e contador das comarcas de
Alenquer e Sintra, com 6.407 e depois 10.000 reais de mantimento,
pelo menos de 1504 a 1524. A 30.4.1504 Francisco de Macedo,
escudeiro da Casa d'el rei, teve quitação de todo o dinheiro,
ouro e prata, raiz e móvel, que recebeu dos judeus e mouros
das comarcas de Alenquer e Sintra: de prata, 44.662 reais, 9
marcos, 5 onças e 3 oitavas; e de cobre dourado e por dourar
que saiu da prata, 5 marcos, 2 onças e 2 oitavas, e todas as
vestimentas de brocado, veludo e seda. A 6.1.1515 Francisco
de Macedo, escrivão dos contos de Alenquer, passou recibo em
como recebeu do almoxarife João de Brito o mantimento que tem
com o dito ofício. A 24.7.1515 D. Manuel I ordenou ao almoxarife
de Alenquer que pagasse a Francisco de Macedo, escrivão dos
contos do dito almoxarifado, 6.407 reais de seu mantimento.
A 14.8.1516 Francisco de Macedo, contador no almoxarifado de
Alenquer, fez saber ao almoxarife do dito almoxarifado como
este fora arrematado a Diogo da Fonseca por 1.073.000 reais,
e 1 por cento em salvo para o rei. A 21.2.1519 Francisco de
Macedo mandou Fernando Vaz, recebedor da távola da vila de Alenquer,
pagar a Afonso Álvares 100 reais de levar umas cartas. A 2.1.1520
Francisco de Macedo, contador, mandou o almoxarife de Alenquer
dar 100 reais a Fernão Pires, homem do almoxarifado. A 3.1.1520
Francisco de Macedo, contador dos almoxarifados de Alenquer
e Sintra, mandou Garcia Rodrigues, almoxarife de Alenquer, dar
a Pedro Álvares 100 reais em pagamento de certo serviço. A 10.11.1520
Francisco de Macedo, contador das comarcas de Alenquer e Sintra,
ordenou ao almoxarife que desse a Pedro Alvares 230 reais para
ir a Évora levar uns livros a D. Manuel I. A 30.10.1521 o contador
dos almoxarifados de Alenquer e Sintra Francisco de Macedo passou
certidão em que consta terem sido tomadas várias propriedades
dos rendeiros, em satisfação do que ficaram devendo. Finalmente,
a 10.12.1524 Francisco de Macedo, que serve de contador da comarca,
teve provisão para o almoxarife ou recebedor do almoxarifado
de Sintra lhe dar 10.000 reais de seu mantimento.
Pelo
menos desde 1517 que Francisco de Macedo era o primeiro provedor
do hospital e Santa Casa de Santo Espírito de Alenquer. Com
efeito, a 8.2.1517 Francisco de Macedo, provedor do hospital
de Santo Espírito de Alenquer, passou recibo segundo o qual
recebeu do tesoureiro da Casa Real uma bandeira de damasco carmesim,
que o mesmo senhor deu ao dito hospital. E de 18.9.1540 existe
uma carta de Francisco de Macedo à rainha, dando parte que enviava
o traslado do compromisso e regimento que a rainha D. Leonor
e o rei D. Manuel ordenaram para o governador da Santa Casa
do Espírito Santo de Alenquer e que não remetia o traslado de
como a dita casa se edificara milagrosamente pela rainha Santa
Isabel por a dita senhora já o saber.
A
12.2.1515 Francisco de Macedo, já então referido como cavaleiro
do rei, teve mercê da corredoria de terra que está nas lezírias
reais da Azambuja. Faleceu a 22.12.1545, segundo se diz na inscrição
(posterior) do seu túmulo, em laje armoriada (Macedo) no chão
na capela-mor da igreja do Espírito Santo, em Alenquer, que
diz: «ESTA SEPVLTURA HE / D FR.º D. MACEDO O PRI / M.RO PROVEDOR
QUE FOI / DESTA CASA DO ESPRI / TO SANTO E DE SVA / MOLHER BRIOLANGA
/ PIZ E DE SEVS ERDEIROS / FALECEO AOS 22 / DE DEZEMBR° DE /
1545».
Alão
dá cinco filhos a Francisco de Macedo e sua mulher Briolanja
Pires, o mais velho dos quais, Sebastião de Macedo, também já
referido, nasceu cerca de 1496 e faleceu a 5.7.1570, segundo
se diz na inscrição do seu túmulo, em laje armoriada (Macedo)
no chão na capela-mor da igreja do Espírito Santo, em Alenquer,
que diz: «SEPVLTURA DE BAS / TIAN DE MACEDO CA / MAREIRO GUARDA
ROV / PA E VEADOR DO CAR / DEAL INFANTE DON AN / RIQVES GOVERNADOR
/ QUE FOI DESTES REI / NOS E PROVEDOR DES / TA CASA E DE SVA
MO / LHER ILENA IORGE /FALECEO A. 5. DE IVLHO / DE 1570».
A
23.7.1515 era moço da câmara de D. Manuel I, pois nesta data
este rei ordenou ao seu tesoureiro que desse a Sebastião de
Macedo, seu moço da câmara, um capuz, pelote, calças e gibão
por alvíssaras da notícia da chegada da nau da Índia e caravela
da Mina. Foi depois tabelião de Alenquer, por nomeação de D.
João III (CJIII, 14, 105v), que a 9.6.1529 deu provisão para
o almoxarife de Alenquer dar a Sebastião de Macedo 20.000 reais
de sua tença e ainda lhe deu carta para comprar casas em Lisboa
(ib, 53, 68). Por morte de seu pai, sucedeu-lhe como provedor
do hospital e Santa Casa do Espírito Santo de Alenquer (ib,
71, 161) e nas terras em Azambuja (ib, 7, 46v).
Dedução
possível
Tendo
em conta este conjunto de dados, é muito provável que Rui Gonçalves
de Góis seja filho de Francisco de Macedo e, portanto, neto
de Rui Dias de Góis. Chamasse-se ele Rui Dias em vez de Rui
Gonçalves e eu não teria dúvida nenhuma! Embora pudesse hesitar
entre a possibilidade de ser um filho legítimo ou ilegítimo
de Francisco de Macedo, tendo em conta a cronologia e o facto
de as genealogias o não referirem. Com efeito, nascido entre
1516 e 1520, Rui Gonçalves de Góis é ligeiramente tardio, embora
nada de especial, tendo em conta que as mulheres casavam então
muito novas, entre os 12 e os 15 anos de idade, pelo que Briolanja
Pires podia perfeitamente ter um filho primogénito cerca de
1496, aos 15 anos, e um filho tardio cerca de 1516, com 35 anos
de idade.
O
prenome Rui não tem dúvida, seria o do avô paterno. Mas porquê
o patronímico Gonçalves, que nesta época em geral já não funcionava
como tal, mas muitas vezes como mera reminiscência onomástica.
Investigando bem, contudo, podemos encontrar uma explicação,
que aliás se prende com o curioso facto de o primogénito de
Rui Dias de Góis usar não só o nome como o escudo de armas dos
Macedo.
Infelizmente
não me foi possível documentar a mãe de Francisco de Macedo,
que Alão chama Inez de Oliveira de Macedo, nome demasiado composto
para a época. Ou se chamou Inez de Oliveira, provável nome da
mãe dela, ou Inez de Macedo. Alão não a filia, o que é significativo.
Já o mesmo não acontece com o facto de Gaio dizer que era filha
de Jorge de Macedo e neta de um Diogo Gonçalves de Macedo. Este
Jorge de Macedo documento-o como cavaleiro da Casa do duque
de Viseu e coudel de Santarém entre 1468 e 1479 e sendo filho
de Diogo Gonçalves de Macedo poderia estar aí a origem do patronímico.
Mas a informação de Gaio vale o que vale, ou seja, muito pouco
ou nada. Na verdade, julgo que Inez de Oliveira ou de Macedo,
que terá nascido cerca de 1453, era irmã de Rui Gonçalves de
Macedo, nascido cerca de 1452, que se documenta escudeiro de
D. João II e casou com Maria Fernandes em Pedorido (Castelo
de Paiva), onde teve prazos do mosteiro de Paço de Sousa, com
geração nos Vieira de Mello, morgados do Ribeiro, em Bemviver,
e nos Brandão de Macedo e Mello, morgados da Sobreira, em Melres.
Este Rui Gonçalves de Macedo era meio-irmão de João de Macedo,
alcaide-mor do Outeiro de Miranda, almoxarife da alfândega do
porto de Bragança, etc., fidalgo da Casa Real, que teve carta
de armas para Macedo a 15.4.1518, como filho de Gonçalo de Macedo
e neto de Fernão Esteves de Macedo, do tronco desta linhagem
(9, 61; e 6 de Místicos, 168), e tirou ordens menores a 1.7.1461
em Ervededo. Portanto, enquanto João de Macedo, o sucessor,
era filho de Gonçalo de Macedo e sua mulher Tereza Sanches,
como se vê nas ordens menores tiradas em
Ervededo
a 1.7.1461, seus propostos meios-irmãos Rui Gonçalves
de Macedo e Inez de Oliveira seriam filhos de um 2º casamento
de Gonçalo de Macedo com uma (Inez) de Oliveira, nascida
lá para 1436, que bem podia ser irmã do Luiz de
Oliveira, escudeiro, morador em Tarouca, a quem a 1.12.1469
D. Afonso V legitimou o filho Diogo de Oliveira, a seu pedido,
havido em Catarina Gonçalves, mulher solteira (CAV, 31,
128v). Os Oliveira são uma família do Alentejo,
que nesta época se documenta no sul, incluindo Lisboa,
e no centro apenas em Montemor-o-Velho. Assim sendo, e tendo
também em conta o prenome do filho legitimado, é
provável que aquele Luiz de Oliveira seja filho de um
Diogo de Oliveira, escudeiro, que a 27.5.1450 vivia em Mondim
(certamente Mondim da Beira) quando D. Afonso V o privilegiou,
recebendo-o sob sua guarda e encomenda. E que não pode
deixar de ser o Diogo de Oliveira, escudeiro do conde de Marialva,
a quem D. Afonso V, a 18 de Junho do mesmo ano, nomeou escrivão
das sisas de Numão, Cedovim e Horta, em substituição
de João Anes, tabelião, que fora destituído
do cargo por não ter licença régia para
exercer o dito cargo. E ainda o Diogo de Oliveira que a 13 de
Agosto do mesmo ano D. Afonso V legitimou, como filho de Rodrigo
Esteves (de Oliveira?), prior que foi do mosteiro de [Alveira]
da ordem de S. Agostinho no arcebispado de Braga, e de Catarina
Pires, mulher solteira.
Sobre
o João de Macedo filho do 1º casamento, que também
deixou vários filhos legitimados por carta real, há muita documentação:
a 15.1.1481 D. Afonso V nomeou João de Macedo, escudeiro do
infante D. João, para o cargo de almoxarife da alfândega do
porto de Bragança, em substituição de seu pai Gonçalo de Macedo,
que morrera (26, 7), que D. João II confirmou a 20.5.1482 (6,
55). A 26.9.1483 foi alcaide-mor de Outeiro de Miranda (CJII,
26, 106). A 16.7.1483 foi nomeado vedor dos vassalos de Bragança
(ib, 24, 87). A 26.6.1483 teve carta de privilégio de fidalgo
(ib, 24, 88). A 25.4.1496 João de Macedo, escudeiro da Casa
d'el rei, teve confirmação da tença anual de 5.100 reais, em
respeito aos 13.200 reais do assentamento da prima do rei, de
quem era então escudeiro. Os 8.100 reais que falecem montou
na moradia e cevada (CMI, 33, 94). A 18.5.1496 João de Macedo
teve confirmação da carta de privilégio de fidalgo (ib, 43,
19). E a 27.5.1496 confirmação da tença anual de 10.000 reais
de prata (ib, 43, 20). A 25.5.1496 João de Macedo, fidalgo da
Casa d'el rei, alcaide da vila e castelo do Outeiro, teve confirmação
de uma carta de D. Afonso V de 8.1.1481 sobre uns bens que João
Afonso de Castro, morador em Colmelos, lhe vendera por morte
de Vasco Roiz de Castro, seu dono, os quais constavam de uma
doação feita no Porto, a 3.7.1440, nas pousadas de Álvaro Gonçalves,
o qual apresentou a Afonso Martins, tabelião por el-rei, uma
carta de D. João I de 6.11.1401, na qual o rei o encarregava
de repartir os bens e herdades confiscados a alguns escudeiros
e homens de pé e criados de João Afonso Pimentel, e outros moradores
de Bragança e Vinhais, por erro e desserviço contra si e seus
reinos. E pelo poder que lhe dera, fizera doação valedoira a
Vasco Rodrigues de Castro, vassalo d'el rei, enquanto sua mercê
fosse, das rendas e herdades que Álvaro Gonçalves de Revoredo
havia em Quiraz, e dos bens de dona Teresa Raposo em Quintela
e em Valpaços e Travanca, e em Lomba, e dos que Fernão Gonçalves
de Revoredo havia em Tuiselo, e em Nozelos, a par de Torre de
Dona Chama. Todavia, porquanto João Afonso de Castro se temia
de que alguém os viesse pedir, e por lhe fazer de bom título,
o rei lhos dava para sempre carta (segunda), escrita em Vouzelo,
aldeia do termo da vila do Outeiro de Miranda, a 21.10.1484,
nas casas de Afonso Gonçalves, tabelião, onde João Afonso de
Castro mostrou uma carta d'el rei D. Afonso V na qual lhe fazia
mercê dos bens que Álvaro Gonçalves de Revoredo havia em Quiraz,
além das rendas que arrecadava em Tuiselo e no reguengo de Nozelos,
a par da Torre de Dona Chama, e dos de dona Teresa Raposo, em
Quintela e na Lomba, afora os que trazia Afonso Tomé. Os quais
bens João Afonso tinha e a ele pertenciam, em virtude da dita
carta e de um alvará de D. João II de 21.4.1484, no qual dava
licença a João [Afonso] de Castro, morador em terra de Vinhais,
para vender uns bens que tinha por carta de D. Afonso V a João
de Macedo. E pela dita carta de mercê e alvará de licença os
vendia a João de Macedo, para ele e todos os seus herdeiros
e descendentes, pelo preço certo e nomeado de 18.000 reais correntes,
de 10 pretos o real, os quais logo recebeu, em 3 taças de prata,
sendo duas douradas e uma branca, um Anrique de ouro, e reais
de prata, pelo que se deu por bem pago. E pedindo João de Macedo
a el rei que lhe confirmasse o alvará de licença, lho confirmava
nesta carta, em que mandava juntar a carta de compra e doação
dos ditos bens, como constava do alvará (ib, 38, 77 e 77v).
A 1.4.1500 João de Macedo, fidalgo da Casa de D. João II, teve
confirmação de 30 214 reais de tença, em satisfação da alcaidaria-mor
da vila do Outeiro de Miranda (ib, 31, 26). A 4.7.1513 João
de Macedo, fidalgo da Casa Real, teve mercê de uma tença anual
de 10.000 reais, a partir de Janeiro de 1514 (ib, 42, 69). A
10.5.1508 teve cópia do padrão de 25.214 reais de tença de que
se fez mercê a João de Macedo, fidalgo da Casa Real, em satisfação
da alcaidaria-mor do Outeiro de Miranda que largou para o duque
de Bragança (CC, II, 14, 116). A 12.9.1506, João de Macedo,
fidalgo da Casa d'el rei, solicitou o trespasse de 4.100 reais
em Simão Correa, seu genro, apresentado duas cartas de D. Manuel
I e um alvará, nos quais, casando ele sua filha com Simão Correa,
moço da câmara d'el rei, lhe trespassava 15.100 reais. de sua
tença, os quais obtivera por uma carta de D. Manuel I, dada
em Setúbal, a 27.5.1496, na qual se continha uma de D. João
II de 27.9.1483, onde lhe concedia uma tença de 10.000 reais
de prata, e ainda uma outra de D. Manuel, de 25.4.1496, na qual
confirmava ao mesmo João de Macedo, então escudeiro da Casa
d'el rei, uma tença de 5.100 reais que D. João lhe concedera
em sendo príncipe, por respeito dos 13.200 reais que o dito
senhor houvera por ele do assentamento da Excelente Senhora,
de quem então era escudeiro, e os 8.100 reais que faltavam,
lhe montou na moradia e cevada (ib, 38, 13). Mas logo a 4.3.1518
João de Macedo, fidalgo da Casa Real e alcaide-mor do Outeiro,
pediu e obteve que lhe fossem concedidos os restantes 10.000
reais, explicando que teve uma tença anual, em dias de sua vida,
de 10.000 reais, e ao querer casar sua filha com Simão Correia,
criado do rei, dera-lhe este 20.000 reais de tença em satisfação
da dita alcaidaria. Por falecimento do seu genro, fora trespassada
essa quantia, vagando em seguida, tornando o rei a dar 10.000
reais (ib, 10, 130).
Portanto,
Francisco de Macedo seria sobrinho-direito de Rui Gonçalves
de Macedo, não sendo assim de estranhar que chamasse a um filho
Rui Gonçalves, como o tio, tanto mais que Rui era o prenome
de seu pai, recuperando nele o nome Góis da varonia.
De
notar, finalmente, que Rui Gonçalves de Góis vivia em Lisboa
na freguesia do Castelo, a mesma em que viveu seu proposto tio,
o celebrado Damião de Góis quando regressou a Portugal e onde
lhe nasceram os seus últimos quatro filhos, entre 1548 e 1565.
Não deixa também de ser uma coincidência assinalável que Damião
de Góis tenha casado em 1438, em Lovaina, com Johanna van Hargen.
E que seu proposto sobrinho Rui Gonçalves de Góis, pouco mais
novo do que ele, tenha casado cerca de 1539 com Margarida de
Anseres, que parece ter origem flamenga. Isto, conjugado com
o facto de Rui Gonçalves de Góis não ter deixado rasto documental
na documentação de D. João III, tendo já cerca de 40 anos à
morte deste rei, em 1557, permite supor que esteve ausente do
país, podendo ter acompanhado o tio à Flandres e aí, justamente,
ter casado com Margarida de Anseres. Tendo Damião de Góis ido
à Flandres como embaixador, onde estava como tal em 1530, é
natural que tivesse levado pessoas ao seu serviço, entre elas
o proposto sobrinho. Por outro lado, sabemos que Damião de Góis
manteve relações com o cardeal D. Henrique, a quem em 1538 devia
4.000 reais (CC, I, 60, 114). Ora, Rui Gonçalves era, ou vira
a ser, cavaleiro fidalgo da Casa deste cardeal.
Lopo
Dias (
de Góis)
Finalmente,
resta saber a origem destes Góis. Rui Dias de Góis era filho
de Lopo Dias, sacador das terras régias de Alenquer, vedor da
gafaria da cidade de Coimbra, escrivão do almoxarifado de Estremoz
e recebedor-mor dos portos de Entre-Tejo-e-Odiana, nascido cerca
1415 e falecido depois de 22.8.1480, e de sua mulher Maria Dias
de Almaça, casados cerca de 1437, aragonesa, sumilheira da rainha
D. Leonor de Aragão (mulher de D. Duarte), a quem acompanhou
a Toledo, quando esta para aí se retirou em 1438, após ter sido
forçada a abandonar a regência do reino de Portugal, onde ficou
até à sua morte, em 1448.
Lopo
Dias também serviu a rainha D. Leonor de Aragão, que também
acompanhou a Toledo em 1438, sendo então, por esta rainha, que
era senhora de Alenquer, sacador das terras régias desta vila
e seu termo, cargo que assim abandonou. A 1.5.1441 D. Afonso
V (ou seja, o novo regente D. Pedro) nomeou João Vasques, morador
em Alenquer, escudeiro de Fernão Gonçalves de Miranda, do seu
Conselho, para o cargo de sacador das terras régias, em substituição
de Lopo Dias, que deixara de exercer o cargo em deserviço.
Mas,
ao contrário de sua mulher, que parece ter ficado em Toledo
com a rainha até à sua morte, em 1448, Lopo Dias terá regressado
a Portugal, talvez por morte de seu pai, pois aparentemente
sucedeu-lhe como vedor da gafaria da cidade de Coimbra, cargo
a que renunciou em 1450. Com efeito, a 18.11.1450 D. Afonso
V nomeou Aires Gonçalves, escudeiro do bispo de Coimbra, para
o cargo de vedor da gafaria da cidade de Coimbra, com mantimento
e porções, em substituição de Lopo Dias, que renunciara, por
instrumento público de 17.11.1450.
Dizem
que Lopo Dias não terá usado o nome Góis (o que é um facto)
por seu pai não o ter deixado ir com ele ao fatídico cerco de
Tânger, em 1437, provavelmente porque então teria apenas 17
anos de idade. Mas provavelmente já seu pai não usou Góis.
Gomes
Dias
de Góis
Era
Lopo Dias filho de Gomes Dias de Góis, escudeiro do infante
D. Henrique, com quem esteve no desastre de Tânger em 1437,
e de sua mulher Beatriz Vaz, a quem as genealogias chamam-lhe
Beatriz Vaz de Lemos. Mas não há nenhuma Beatriz Vaz de Lemos
nesta época.
Embora
referido nas crónicas, Gomes Dias de Góis não se documenta em
fontes primárias. Provavelmente não usou o nome Góis, como o
filho. Braamcamp refere-se a ele como Gomes Dias de Góis, fidalgo
da Casa do infante D. Henrique e «senhor
das saboarias de Alenquer, Arruda, e outras», mas não refere
onde isso se documenta e não se encontra qualquer referência
a isso em fonte primária. As genealogias também dizem que foi
provedor da gafaria de Coimbra, o que igualmente não se documenta,
embora seu filho já se documente com este cargo, como ficou
dito.
Nenhuma
genealogia filia este Gomes Dias de Góis de forma minimamente
credível, o que necessariamente diz muito sobre a sua origem,
tendo em conta que é bisavô de Damião de Góis, genealogista
e guarda-mor da Torre do Tombo. Mesmo que a memória familiar
da sua filiação já se tivesse perdido no tempo de seu bisneto
Damião de Góis, esse simples facto demonstra que a origem seria
algo obscura. Se a isto acrescentarmos ou a dificuldade ou o
desinteresse de Damião de Góis em apurar e revelar a verdade,
podemos com facilidade concluir que alguma coisa haverá na filiação
de Gomes Dias que a tem mantido opaca.
Tendo
em conta a cronologia própria e do filho, Gomes Dias terá nascido
entre 1380 e 1390. E a verdade é que não se conhece, e muito
menos se documenta, nenhum Diogo (nem nenhum Dias) entre os
Góis da passagem do séc. XIV para o XV. Acontece, porém, que
por carta dada em Lisboa a 20.6.1388, D. João I legitimou um
Gomes Dias, filho de Diogo Lourenço, «abade de tresmjras clerigo d ordeens sacras» e de mulher solteira,
não nomeada. Tresmiras
pode tratar-se de Transmiras, município galego de Orense, ou
Tresminas, freguesia de Vila Pouca de Aguiar.
É
um tiro no escuro, mas este abade Diogo Lourenço pode perfeitamente
ser mais um bastardo do prior do Crato D. Frei Lourenço Esteves
de Góis, havido na sua juventude. As genealogias dão a D. Frei
Lourenço Esteves apenas um bastardo, o também prior do Crato
D. Frei Nuno Gonçalves de Góis. E a este D. Frei Nuno Gonçalves
dão vários bastardos, que de facto teve (alguns deles legitimados
por carta real), e um que não teve, Estêvão de Góis, que se
documenta seu sobrinho. Com efeito, a 1.1.1441 D. Afonso V perdoou
a justiça régia a Estêvão de Góis, sobrinho do prior do Crato,
D. Frei Nuno Gonçalves de Góis, por ter estado no castelo da
dita vila com o dito prior a maldizer do rei.
Apesar
do conceito lato que então tinha o termo sobrinho, filho não
era, pois nem como eufemismo se pode entender, uma vez que nesta
data (1441) já os verdadeiros filhos de D. Frei Nuno estavam
legitimados por carta real. | |