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Teixeira de Vasconcellos (1816-78) O homem, o jornalista e o escritor Introdução à reedição, em Novembro de 1983, do romance «O Prato de Arroz Doce», lançado pela «Livraria Civilização Editora. Porto», integrado na sua colecção «Cem Anos de Literatura em Língua Portuguesa».
Não é fácil falar de António Augusto Teixeira de Vasconcellos. Talvez por isso foi tão esquecido... É que toda a sua vida se dispersa afinal na extrema complexidade de uma personalidade multifacetada, na obra diariamente vertida em milhares de folhas de jornais, na inteligência superior e na independência de espírito que porventura sempre o retiveram aquém da glória. Antes de Eça, e muito mais o que ele, Teixeira de Vasconcellos foi o autêntico vencido da vida: espírito profundo e íntegro cuja exacta percepção dos homens e das coisas manieta e desmotiva. Quantas vezes não terá ele, como Fernando Pessoa, suspirado: Valerá a pena? E, como o Poeta, procurado alento na sua própria grandeza de alma... Homens assim não é, portanto, fácil biografar e muito menos entender. Há sempre o perigo de tomarmos a parte pelo todo, de descurarmos a imensa mole submersa do iceberg. É que Teixeira de Vasconcellos não se pode catalogar; não serviu de bandeira a coisa nenhuma; não deixou, enfim, uma obra demagógica, repleta de certezas inabaláveis, veemente mesmo no erro mais crasso. O político? O jornalista? O revolucionário? O escritor? Em que síntese afinal é possível encaixar Teixeira de Vasconcellos, esse homem tranquilamente irrequieto, tradicionalista em tanto, progressista em muito, simultaneamente espectador atento e protagonista activo dum tempo radical de mudança, que soube atravessar incólume na sua coerência diferente. Trinta anos adiantado ao seu tempo? - como ele diz de um seu personagem. O certo é que poucos como Teixeira de Vasconcellos foram tão incompreendidos e indesejados pela asfixiante política do seu tempo, a mesma afinal que lhe escreveu a história e o deixou cair no esquecimento. Por isso hoje, reeditada que está uma das suas obras capitais, se impõe como que rescrever toda a sua vida à luz duma perspectiva moderna: é que Teixeira de Vasconcellos não foi só aquilo que fez, mas também o que quis e não pode fazer; a semente que deixou. E pode até afirmar-se que a sua vida podia constituir um excelente argumento para um filme sobre esta riquíssima época da História de Portugal, que tão mal conhecida é. Pode ser que algum cineasta aceite o repto...
Napoleão Bonaparte iniciava, em Santa Helena, a contagem decrescente que o levaria à morte cerca de quatro anos depois, quando no Porto nascia, no dia 1 de Novembro de 1816, António Augusto Teixeira de Vasconcellos. No capítulo da História que então terminava, tivera relevante papel seu pai, o brigadeiro António Vicente Teixeira de São-Payo, célebre chefe do primeiro levantamento militar contra o invasor napoleónico, conhecido pela Revolução Transmontana. Homem inteligente e corajoso, Teixeira de São-Payo tinha mantido, em Junho de 1808, revoltada durante cinco dias a praça militar de Chaves, onde então desempenhava o cargo de administrador dos provimentos para o Exército de Trás-os-Montes, dando tempo a que o movimento se espalhasse e logrando a adesão de toda a província. Teixeira de Vasconcellos cresceu assim, filho único, sob o manto da imagem do pai - uma espécie de herói vivo que primeiro salvou Portugal dos franceses. Desde menino que fora viver para a Casa de Coura, belo solar do século XVII encravado em Bitarães, no concelho de Paredes (Porto). Educado na tradição militar da aristocracia, não é portanto de estranhar irmos encontrar o jovem António Augusto, contando apenas 17 anos, feito capitão do Regimento de Milícias de Penafiel. Nomeara-o D. Miguel, por quem denodadamente se bateu na guerra civil, durante alguns meses, até à vitória final os liberais. É de calcular que a derrota do miguelismo, causa a que se entregou com todo o ardor da juventude, o tenha marcado profundamente: desde logo, o liberalismo vencedor obrigou Teixeira de Vasconcellos a recolher-se à segurança da sua Casa de Coura, onde permanecerá cinco anos. Tempo, aliás, que aproveitou da melhor forma: escassos 15 dias após a Convenção de Évora Monte, que pôs termo às hostilidade, Teixeira de Vasconcellos casa-se, com 18 anos incompletos, a 31.5.1834, com D. Antónia Adelaide Vasques da Cunha e Alarcão de Portocarreiro, nascida a 22 de Abril de 1812, sobrinha do célebre Fidalgo da Bandeirinha, João da Cunha de Britto de Araújo e Castro de Portocarreiro, a quem os amotinados portuenses de 1809 acusaram de «jacobino» e por isso lhe cortaram a cabeça, que espetaram num pau e colocaram frente ao seu Palácio da Bandeirinha, no Porto. Esta senhora, que sucedeu na quinta do Paço, em Valpêdre (Penafiel), faleceu cedo, no final de 1840, com apenas 28 anos de idade, ficando do casal uma única filha, D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos de Portocarreiro, nascida a 12.6.1838 na Casa de Coura, e que haveria de dar a seu pai nada mais nada menos do que doze netos.
É portanto já casado, e pai, que Teixeira de Vasconcellos, com 22 anos de idade e o foro de moço-fidalgo da Casa Real, se matricula na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, donde sairá, em 1844, formado em Direito. É aqui, em Coimbra, que podemos já detectar algumas das características fundamentais da personalidade de Teixeira de Vasconcellos, mormente o espírito contestatário que o acompanharia por toda a vida. Logo ao cabo do primeiro ano lectivo, por não ter obtido o prémio do primeiro lugar no curso, edita no Porto uma polémica «Carta Filosófica e Crítica sobre o Estudo da História Portuguesa». O choque entre o miguelista, que continuava a ser, e o ensino liberal que lhe ministravam? O próprio Teixeira de Vasconcellos comentaria mais tarde este seu panfleto: «A Carta nem era filosófica, nem crítica; era declamatória e filha do despeito parvo de não ter levado no primeiro ano do curso jurídico o prémio que não tratara de merecer». Seria mesmo? Não totalmente, por certo, já que a carta encontrou eco e foi aplaudida por muitos dos estudantes, em cujo meio Teixeira de Vasconcellos rapidamente se tornou conhecido líder duma continuada contestação estudantil aos métodos e aos docentes da velha Universidade. Escudado na sua superior inteligência, que lhe permitia contestar e simultaneamente ser o melhor aluno, obtendo accessit em todos os anos e o primeiro lugar no 3º ano, Teixeira de Vasconcellos embrenha-se depois numa questão com o Prof. Castela de Lemos, de que resulta, um ano depois do primeiro, a publicação doutro folheto, intitulado muito petulante mas sintomaticamente «Nós e eles, Primeira Parte das Memórias de António Augusto Teixeira de Vasconcellos, Estudante do Segundo Ano de Direito». Mas, a par, ou mesmo por trás desta contestação estudantil, permanecia a política: Teixeira de Vasconcellos continuava miguelista, apesar de derrotado no campo de batalha. No terceiro folheto que publica, intitulado «O Juramento dos Deputados Realistas», retoma claramente a sua velha causa, defendendo a pretensão dos deputados legitimistas que, no Parlamento, nesse ano de 1842, pediam para serem dispensados de prestar juramento a D. Maria II antes de tomaram assento. Por esta altura já Teixeira de Vasconcellos era, para o legitimistas, uma das suas principais esperanças de futuro em termos de liderança do partido. Terá o jovem ex-capitão de D. Miguel, então já bacharel em Direito, considerado e acarinhado esta ideia? O certo é que Teixeira de Vasconcellos arquitectou uma nova estratégia política para o miguelismo. Considerando, e com razão, que o futuro estava para os progressistas e que o essencial do miguelismo se podia resumir à questão da legitimidade dinástica, chegou à conclusão de que a melhor forma de derrubar a filha de D. Pedro e o governo liberal, então nas mãos musculadas de Costa Cabral e dos cartistas, seria ultrapassá-los politicamente pela esquerda (como hoje se diria), defendendo, ao nível institucional, a Coroa para D. Miguel, e, ao nível político, o progressismo. Inicia então Teixeira de Vasconcellos uma intensa actividade jornalística e política, defendendo no «Portugal Velho», periódico dos legitimistas, uma aliança política com os progressistas, e fundando, com vários radicais, a «Oposição Nacional», periódico progressista que promove cerrado ataque ao Governo cartista. Tivesse a coisa resultado, e talvez a História portuguesa não seguisse os caminhos que seguiu. Nomeadamente, talvez a República nunca tivesse sido implantada. Só que a inteligente e arrojada estratégia de Teixeira de Vasconcellos foi demais para os legitimistas e esbarrou com a oposição cerrada dos velhos miguelistas, com pouca ou nenhuma preparação política e absolutamente cristalizados no passado. A breve trecho, o «Tribuno de Almacave» publicava violentos artigos contra o jovem António Augusto. Na verdade, os realistas não estavam ainda preparados para semelhante estratégia; embora quatro anos depois, durante a revolução portuense de 1846, alguns retomassem a ideia. Mas então já era demasiado tarde, conforme aliás o próprio Teixeira de Vasconcellos faz notar no seu romance «O Prato de Arroz Doce». Desgostoso e desiludido com a falta de visão dos seus correligionários, o jovem António Augusto decide romper para sempre com o Partido Legitimista, fazendo para tanto publicar uma carta no «Revolução de Setembro». O miguelismo averbava-lhe a sua segunda derrota.
Liberto da questão dinástica, Teixeira de Vasconcellos permanece «progressista impenitente» e feroz opositor ao governo dos cartistas, que desanca no «Oposição Nacional». Conclui, entretanto, a sua licenciatura em Direito. De Coimbra segue para Lisboa, onde monta banca de advogado. Aqui escreve a sua primeira novela, «Roberto Valença», de que publica apenas o primeiro volume, em capítulos que saíram na «Ilustração», revista que então funda e dirige. Escassos dois anos depois de ter chegado à capital, rebenta no Porto a revolução de 1846, a que Teixeira de Vasconcellos imediatamente adere, acorrendo à sua cidade natal. O romance «O Prato de Arroz Doce» relata justamente este período da sua vida, que adiante detalhadamente se abordará. Aqui importa saber que Teixeira de Vasconcellos, se entrou rico, saiu pobre desta extraordinária revolução portuense, tendo a ela sacrificado, além do mais, a Casa e Quinta de Coura da sua juventude, que se viu obrigado a vender. Terminada esta segunda guerra civil, Teixeira de Vasconcellos regressa a Lisboa, onde passa os próximos três anos e onde, a par da advocacia, colabora na «Revista Universal» e no «Ateneu». Não abdicando nunca da vida de grandeza que sempre levou, depressa se vê a braços com sérias dificuldades económicas. Conta-se dele que certo dia um credor conseguiu ser recebido em sua casa, onde almoçava um grande peru. O agiota, grosseiramente, sai-se com esta: «Então V. Exª não me paga e come perú?!...» Ao que Teixeira de Vasconcellos terá cinicamente respondido: «Oh homem, que quer! O peru morreu de fome...» Foram talvez estas dificuldades financeiras o levaram, em 1850, a embarcar para Luanda, onde monta banca de advogado e parece que ganhou muito dinheiro, que no entanto gastava conforme recebia. Em breve a sua personalidade e superior inteligência conquistavam grande preponderância em toda a colónia, enquanto o seu espírito irrequieto e independente se incompatibilizava com o governo local. Poucos meses depois de ter desembarcado, é eleito presidente da Câmara Municipal de Luanda, em oposição ao candidato do governador de Angola. No desempenho do cargo, não tardou Teixeira de Vasconcellos a descobrir toda uma série de irregularidades oficiais, nomeadamente relacionadas com o tráfico de escravos. O governador, apavorado, procura desembaraçar-se dele utilizando um estratagema: declarou-lhe que o Governo do Reino o chamava a Lisboa, o que o obrigou a embarcar imediatamente. Chegado à capital, Teixeira de Vasconcellos constatou a tramóia: a ordem nunca havia sido dada. Porventura farto de Angola, decidiu então ficar por cá, não sem antes desancar o governador numa série de artigos publicados no «Revolução de Setembro» e escrever um folheto intitulado «Carta acerca do Tráfico de Escravos na Província de Angola», dirigida ao ministro da Marinha e ao secretário de Estado do Ultramar.
Teixeira de Vasconcellos contava então 35 anos e era um dos mais temíveis «enfant terribles» da política portuguesa. É nesta fase da sua vida que envereda definitivamente pelo Jornalismo como forma de intervenção pública. Funda então o jornal «Arauto», que dirige e redige durante quatro anos, ao fim dos quais, porventura farto da vida lisboeta, decide iniciar uma longa viagem pela Europa, como correspondente dos jornais «O Comércio o Porto» e «Revolução de Setembro». Pouco depois, em 1858, funda em Paris, com capital de Eduardo Ribeiro de Faria, a «Sociedade Ibérica», que passa a publicar várias obras dando a conhecer à Europa a História de Portugal e de Espanha. Dos cinco volumes que estavam previstos, saiu apenas um: «Les Contemporains Portugais, Espagnols et Brésiliens. Le Portugal e La Maison de Bragance». Tanto bastou para tornar Teixeira de Vasconcellos conhecido em todo o mundo culto europeu, e principalmente na sociedade parisiense, onde a breve trecho pontificava. Entre os subscritores desta excelente obra, louvada até por Victor Hugo, aparece o próprio rei de Portugal D. Pedro V. Logrando a amizade do Imperador Napoleão III, frequenta em Paris os bailes da princesa de Metternich, de Emílio de Girardin, do duque de Morny e as grandes festas imperiais do Palácio das Tulherias. Enfim, os grandes centros da Cidade Luz. Quando da visita de D. Pedro V a Paris, integra, no baile oferecido pelo imperador, a quadrilha de honra, com Napoleão III, a imperatriz Matilde e o rei português, privilégio significativo da alta consideração em que era tido. O que, por outro lado, lhe granjeou grandes invejas e despeitos. Não faltou a Teixeira de Vasconcellos sequer um duelo à espada, com o conde Pierre de Dafias, em Enghien-les-Bains, ao que se supõe devido a um famoso escândalo de venda de condecorações portuguesas, em que certas invejas, nomeadamente a do cônsul português, o visconde de Paiva, o quiseram envolver. Caso, no entanto, de que Teixeira de Vasconcellos acabaria por sair incólume, tendo-lhe o próprio imperador, publicamente, sublinhando a sua inocência e dando provas da alta consideração em que o mantinha. Entretanto, Teixeira de Vasconcellos não descura a sua actividade literária: escreve uma série de folhetins n'«O Comércio do Porto», que mais tarde reúne em livro intitulado «Viagens em Terra Alheia», inicia uma série de contos no «Diário de Notícias», que mais tarde também reúne em livro que chama «Papéis Velhos», e escreve no «Revolução de Setembro». Em 1860 faz publicar, em Portugal, a «Fundação da Monarquia Portuguesa; Narração Anti-ibérica». Boa parte dos muitos artigos que escreveu neste período, quer na Imprensa portuguesa quer na estrangeira, foi mais tarde editada por seus netos, em 1908, em dois volumes, intitulados «Cartas de Paris».
Em Março de 1862, Teixeira de Vasconcellos regressa a Lisboa. Tem 45 anos e vai iniciar o período mais frutuoso da sua vida. Compra o antigo palácio do marquês de Pombal, na Rua Formosa (hoje rua do Século), onde se instala e prossegue a vida sumptuosa de que nunca abdicou, mesmo nas maiores dificuldades financeiras. Tem o foro de moço fidalgo da Casa Real, com exercício no Paço, que lhe vem da juventude; é comendador das Ordens de Cristo, de Carlos III de Espanha, de Santo Estanislau da Rússia; tem a Grã-Cruz da Ordem de Isabel a Católica, é Grande Oficial da Ordem Imperial de Medjidié, da Turquia; é cavaleiro das Ordens de Leopoldo da Bélgica, de Danneborg, da Dinamarca, de São Luiz de Palma; é sócio correspondente da Real Academia de Espanha, do Instituto Geográfico de Paris e da Real Academia de Ciências de Lisboa. Os cinco anos que passou na Europa deram-lhe uma outra experiência, novas ideias. Vem cheio de projectos de renovação. Oito meses depois do regresso, no dia 9 de Novembro de 1862, põe na rua o primeiro número do seu novo jornal, que dirige. Era a «Gazeta de Portugal», que rapidamente adquire grande prestígio, e onde Teixeira de Vasconcellos reúne a esperançosa juventude de Letras de então: Pinheiro Chagas, Mariano de Carvalho, Pedro Gastão Mesnier, Osório de Vasconcellos, Xavier da Cunha e, mais tarde, Eça de Queiroz. A par do jornalismo, onde passa a intervir activamente na política nacional, Teixeira de Vasconcellos não descura a actividade literária: é ainda nesse ano de 62 que publica «O Prato de Arroz Doce». Entretanto morre D. Pedro V e sucede-lhe seu irmão D. Luiz. O interesse do soberano pelas Letras e pelas Artes leva-o, como presidente que era da Real Academia de Ciências, a contactar de perto com Teixeira de Vasconcellos, que então tinha sido eleito para o cargo de vice-presidente. Juntos desenvolveram aí notável actividade, nomeadamente criando um prémio anual de um conto de réis para a melhor obra publicada. Teixeira de Vasconcellos é, entretanto, feito Par do Reino e conselheiro de S.M.F. Publica também o seu romance «A Ermida de Castromino».
Enquanto isto, o seu jornal, a «Gazeta de Portugal», aumentava de prestígio e implantava-se definitivamente. Teixeira de Vasconcellos decide então introduzir-lhe uma série de inovações, seguindo o que se ia fazendo na Europa. Em 1864 transforma a «Gazeta» num jornal de grande formato, à semelhança do «Grand Journal» francês, que a generalidade da Imprensa portuguesa depois haveria de adoptar. Logo em Janeiro do ano seguinte, outra inovação: a «Gazeta» passa a publicar um anexo vespertino, a que deu o nome de «Boletim da Tarde». Mas Teixeira de Vasconcellos permanece o mesmo: a sua independência desmistificadora e as suas críticas esclarecidas fazem dele um inimigo temível de todas as facções e partidos em que se digladiava a instável política portuguesa. Contudo, em 65 é eleito deputado ao Parlamento e director-geral da Secretaria da Câmara dos Deputados. Quando Portugal negociou com os Estados Unidos da América o Tratado de Extradição, é também nomeado embaixador plenipotenciário em Washington. Mas o desassombro das suas posições de modo algum lhe reduziu os inimigos na classe política lisboeta. Em 67, o primeiro-ministro Casal Ribeiro apresenta um projecto de reforma no Ministério dos Negócios Estrangeiros, cuja pasta se supõe que Teixeira de Vasconcellos iria ocupar. Tanto bastou para que se agitasse a política lisboeta e todo o Governo acabasse por cair! Teixeira de Vasconcellos, porém, reagia a tudo isto com uma superioridade e ironia notáveis. Contam-se dele várias histórias quase anedóticas, como aquela em que certo dia, no «Diário Popular», Mariano de Carvalho lhe lia um artigo, a publicar no dia seguinte, que o atacava. Em dada passagem, mais violenta, Teixeira de Vasconcellos, com um sorriso nos lábios, interrompeu-o incitando: «Oh menino, põe lá também patife!...» Em 1870 Teixeira de Vasconcellos estreia-se no teatro, escrevendo a comédia «O Dente da Baronesa», que o «Ginásio» estreou. Entretanto, prossegue a sua actividade literária, publicando «A Boina Verde», e a intervenção política e social, editando a «Liberdade Eleitoral» e reunindo, quando se levantou a questão do padre Jacinto Loyson com a Santa Sé, todos os artigos que escrevera sobre o tema num volume intitulado «O Celibato Clerical». Em 1871, depois de colaborar na Redacção do «Novidades», funda o seu último periódico, o vespertino «Jornal da Noite», que dirige durante sete anos - até à data da sua morte, em Paris, a 29 de Junho de 1878, com 62 anos de idade - e onde prossegue intensa e brilhante actividade jornalística e de intervenção política, demonstrando bem que era, como dele haveria de dizer Camilo Castelo Branco, «o mais rijo pulso de atleta que teve a arena dos gladiadores políticos em Portugal». A Patuleia e «O Prato de Arroz Doce» Teixeira de Vasconcellos, contudo, não foi um político na acepção mais vulgar do termo. Assim como, aliás, também não foi um ficcionista. Atento à sua época como poucos, mas capaz de um distanciamento crítico tanto mais invulgar quanto apaixonados eram os tempo em que vivia, Teixeira de Vasconcellos foi acima de tudo um grande jornalista: espírito independente e lúcido, rápido na análise profunda e na síntese brilhante, redactor claro e conciso, enfim, um homem esclarecido e esclarecedor. Por isso o seu mais emblemático romance, «O Prato de Arroz Doce», é afinal uma magistral reportagem sobre a revolução portuense de 1846, conhecida por a Patuleia, um dos períodos mais complexos e desconcertantes na História da cidade e do país. Nascida do levantamento miguelista da Maria da Fonte contra Costa Cabral e os cartistas, a revolução da Junta do Porto acabou afinal numa longa e sangrenta guerra civil entre Lisboa e o Norte; entre o Governo de Saldanha, que D. Maria II sustinha, e uma Junta Suprema do Governo do Reino, sediada no Porto e apoiada numa estranha amálgama que incluía desde os progressistas aos miguelistas, passando por muitos dos próprios cartistas. E o mais extraordinário, no meio disto tudo, é que todos (à excepção dos miguelistas, que então apenas se preocupavam com a questão dinástica) se juravam monárquicos, liberais e defensores da Rainha, filha do herói comum D. Pedro IV. É, pois, toda esta confusão que Teixeira de Vasconcellos vai explicar no seu «Prato de Arroz Doce». Confusão que afinal se vem tornando cíclica na vida política portuguesa - e por isso este livro tem tanto de actual e faz dele um marco obrigatório em qualquer bio-bibliografia de Teixeira Vasconcelos, não só porque o próprio autor chega a participar no enredo, mas sobretudo porque se envolveu extraordinariamente nesta revolução, que em muito o retrata, e sem o estudo da qual não é possível entender cabalmente o biografado. Nove meses durou a revolução e a guerra civil: desde 9 de Outubro de 1846 à entrada no Porto do exército estrangeiro que socorreu Saldanha, na sequência da Convenção de Gramido, a 29 de Junho de 1847, que pôs termo às hostilidades. E é, exactamente, nestes nove meses que decorre toda a acção de «O Prato de Arroz Doce», onde Teixeira de Vasconcellos entrelaça a História com o dia-a-dia verídico de uma família portuense (de que só os nomes são parcialmente supostos) e com outros personagens a ela ligados, compostos com base na muita gente que interveio na revolução. Aliás, é nesta criação de protótipos - o patuleia, o cartista, o miguelista, o oportunista sem escrúpulos que anda em todos os partidos - que Teixeira de Vasconcellos encontra a fórmula eficaz de tornar inteligível a relação de forças em presença. A receita foi essa: interligar acontecimentos e figuras históricas com os protótipos das várias facções, e inserir todos na sociedade portuense de então, tendo como fio condutor um drama familiar verídico, a cuja história teve acesso. Enfim, é o retrato global, realista, vivo, dessa estranha revolução portuense de há 153 anos, e da gente que a fez.
O próprio Teixeira de Vasconcellos, na sua vida real, surge, de relance, a dado passo, integrado na história deste romance afinal reportagem. Isto para já não falar do muito que põe de seu em dois personagens: um pouco em Álvaro Pereira (a sua juventude miguelista!) e muito em Simão da Lapa, cujo perfil moral e político amiúde coincide com o do autor. Esse Simão da Lapa também «progressista impenitente», de quem Teixeira de Vasconcellos diz andar trinta anos adiantado ao seu tempo... O paralelo entre o autor e Simão da Lapa, ao nível moral e político, é aliás patente ao logo de toda a obra. Mas, por outro lado, certas teorias que o miguelista Álvaro Pereira representa, e que o autor curiosamente rebate por inadequadas à circunstância e ao tempo, fazem imediatamente recordar as sus próprias posições assumidas em Coimbra sobre a necessidade de limitar o miguelismo à questão dinástica e de o adaptar politicamente ao progressismo. E, afinal, apenas quatro escassos anos medeiam entre esse tempo coimbrão e a revolução portuense. O livro, esse é que foi escrito em 62, oito longos anos depois dos acontecimentos. E nessa época, sim, já Teixeira de Vasconcellos era, apenas, Simão da Lapa... Mas o extraordinário deste livro, desta reportagem, não se limita à chave que fornece para a compreensão deste confuso período da vida portuguesa (chave, aliás, que volta e meia abre portas actuais...), nem tão-pouco ao retrato pitoresco que Teixeira de Vasconcellos nos deixa do Porto de então, com a Hospedaria Francesa ou o pasmatório dos Lóios. É todo um conjunto de factos e figuras históricas que nos são descritos ao pormenor, nos são retratados de corpo inteiro, nas suas grandezas e nas suas misérias. É o José Passos com os seus «exímios patriotas» e o seu «método confuso», é o duque da Terceira, é Sá da Bandeira, é Mac-Donnel, é enfim toda a Junta Suprema do Governo do Reino, por nove meses instalada no Porto.
É que Teixeira de Vasconcellos, de facto, viveu a revolução por dentro. Foi «junteiro», como ele próprio nos conta no prólogo do romance, cuja leitura muito se aconselha. E explica como: logo no início da revolução é nomeado, como tenente-coronel, comandante do Batalhão de Voluntários de Paredes, que unanimemente tinham votado nele. Acabando no entanto por não aceitar a incumbência, «por saber quão pacífica e avessa a tumultos políticos era aquela gente», foi servir como adido no Estado-Maior do visconde de Sá da Bandeira. Para, pouco depois, ser nomeado governador civil de Vila Real, onde se manteve três meses, gastando avultadas somas do seu bolso. Em Janeiro volta ao Porto onde, como ele diz, despiu a farda de tenente-coronel de um batalhão imaginário e voltou, como alferes graduado, ao quartel-general de Sá da Bandeira. É então ferido em combate, o que o leva, convalescente, dois meses à cama. Depois serviu às ordens do conde de Antas e foi encarregado pelo presidente José Passos de dirigir a correspondência diplomática da Junta. A 14 de Junho é nomeado comissário do Governo, conjuntamente com o general Oliveira e Silva, acabando por ser ele a redigir o texto da Convenção de Gramido, que terminou com a guerra civil. Quando a revolução começara, Teixeira de Vasconcellos tinha 29 anos. Como também frisa, sempre se recusou a receber ordenado ou soldo durante os nove meses que se seguiram, por entender que «as magistraturas populares em tempo de guerra deviam ser gratuitas». Gastou assim avultadas somas do seu bolso, principalmente em Vila Real, onde os seus bens serviram de fundos a um governo revolucionário depauperado. A propósito desta revolução escreve Teixeira de Vasconcelos no referido prólogo: «Sou liberal e monárquico. Quando os liberais se fizeram demagogos e os monárquicos reaccionários, não me arrogaria o direito de ser algoz dos meus irmãos, nem me julgaria obrigado a perecer vítima dos seus erros». Para logo acrescentar: «Ainda hoje não me arrependo de ter procedido assim. Sou progressista impenitente. É permitido duvidar se o Porto fez bem ou mal em se revoltar no mês de Outubro de 1846 contra o Governo de Lisboa. Eu resolvo a questão em duas palavras. Fez mal. Mas também decido que eu fiz bem e muitos outros igualmente em aderirmos à revolução. Responde o coronel pela manobra errada do regimento. O soldado aguarda a voz de comando e executa». É, portanto, um homem profundamente envolvido em todos os acontecimentos, mas que consegue o necessário distanciamento para ver claro, que nos vai deixar o retrato desta revolução portuense de 1846. E fá-lo, procurando «escrever com clareza» e ambicionando, acima de tudo, «ser lido e entendido pelo povo»; propósitos a que prejudica muitas vezes a beleza da forma. De facto, o estilo literário de Teixeira de Vasconcellos está longe da excelência plástica dum Camilo e sobretudo dum Eça. Mas ultrapassa-os muito em precisão e lucidez, afinal requisitos fundamentais do verdadeiro jornalista que antes do mais era. Aditamentos
D.
Antónia Adelaide Vasques da Cunha e Alarcão de Portocarreiro e sua única
filha D. Maria Adelaide
Portal armoriado do palácio da Bandeirinha, popularmente também chamado das Sereias, na cidade do Porto.
Brasão de armas, ex-libris e monograma usados por António Augusto Teixeira de Vasconcellos. Escudo é esquartelado de Teixeira, Leite, Vasconcellos e Castro, com Souza (do Prado) sobre o todo. Coronel de Nobreza com timbre de Teixeira. Divisa: Altiora Peto.
Desenho da casa de Coura, hoje de D. Diogo de Brito e Faro e aberta ao turismo de habitação, e pormenor da capela. António Augusto Teixeira de Vasconcellos com cinco dos seus oito netos homens. de António Augusto Teixeira de Vasconcellos
Nota: neste esquema só são referidas as pessoas que tiveram geração. Para mais vide «Portocarreros do Palácio da Bandeirinha», Porto 1997 |
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